Há uma só Igreja, que, pela sua fecundidade sempre crescente, abarca uma multidão sempre mais ampla. O Sol envia muitos raios, mas a sua fonte luminosa é uma só; a árvore divide-se em muitos ramos, mas há um único tronco, vigorosamente apoiado em raízes tenazes; de uma única fonte correm muitos riachos; esta multiplicidade deve-se à superabundância das águas, mas todas elas remetem para uma mesma origem. Tentai separar um raio de sol da massa solar, vereis que a unidade da luz não permite tal fracionamento. Arrancai um ramo a uma árvore e o ramo cortado deixará de poder germinar. Cortai um riacho da sua fonte e ele seca.
O mesmo acontece com a Igreja do Senhor, que difunde por todo o Universo os raios da sua luz, mas esta luz que assim se difunde por toda a parte é una, pois a unidade do corpo não se desfaz. Ela estende por todo o mundo os seus ramos de poderosa vitalidade e derrama as suas águas superabundantes. Contudo, há uma só fonte, uma só origem, uma só mãe.
O sacramento da unidade, esta ligação de concórdia absolutamente coerente, é representado no evangelho pela túnica de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não se divide nem se rasga, mas que, jogada aos dados para ver quem se revestiria de Cristo, chega intacta àquele que se torna seu proprietário, sem ter sido estragada nem cortada. O povo de Cristo também não pode ser dividido; a sua túnica, una, de uma só peça, de um só tecido, representa a concórdia coerente do nosso povo, de nós, que fomos revestidos de Cristo.
A unidade é indivisível; um corpo não pode perder a sua coesão nem ser separado em partes, as entranhas rasgadas e dispersas. Tudo aquilo que se afasta do centro da vida deixa de conseguir viver e respirar sozinho, perde a substância da própria salvação.
Irmãos, quem seria pois tão criminoso e obstinado na sua paixão pela discórdia, que imaginasse que se pode questionar e que ousasse ele próprio rasgar a unidade de Deus, as vestes do Senhor, a Igreja de Cristo? (Jo 19,24) Pois não é certo que Deus faz ouvir, no seu Evangelho, esta advertência: «Haverá um só rebanho e um só pastor» (Jo 10,16)? Depois disto, ainda haverá alguém pense que, num mesmo lugar, pode haver vários pastores e vários rebanhos? Vede como também o apóstolo Paulo nos recomenda esta unidade: «Peço-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo: mantende-vos de acordo uns com os outros, para que não haja divisões. Sede estreitamente unidos no mesmo espírito e no mesmo modo de pensar» (1Cor 1,10). «Suportai-vos uns aos outros no amor. Mantende entre vós laços de paz, para conservardes a unidade do Espírito» (Ef 4,2-3).
E tu julgas que podes permanecer de pé e vivo se abandonares a Igreja para estabeleceres algures a tua morada e afastares dela a tua habitação? […] Pois não diz Ele no Êxodo, a propósito da Páscoa, que o cordeiro, imolado em prefiguração de Cristo, deve ser comido numa mesma casa? (Ex 12,46) Não podemos deitar fora a carne de Cristo, o santo do Senhor; para os crentes, não há outra morada senão a Igreja. Esta casa, esta habitação de família unida, é designada pelo Espírito Santo quando diz num salmo: «Deus faz habitar numa mesma casa os corações unânimes» (cf 86,7). É na casa de Deus, na Igreja de Cristo, que vivem os que os corações unânimes; é aí que podem permanecer na paz e na simplicidade.


