«Apresentaram-Lhe um paralítico». São Mateus diz simplesmente que esse paralítico foi levado a Jesus. Outros evangelistas narram que foi descido por uma abertura no teto e apresentado ao Salvador sem nada pedir, deixando que fosse Ele a decidir sobre a cura. […]
O evangelho diz: «Vendo Jesus a fé deles», isto é, dos que Lhe levaram o paralítico. Reparai que, algumas vezes, Cristo não faz caso nenhum da fé do doente: talvez ele seja incapaz dela, por estar inconsciente ou possuído por um espírito mau. Mas este paralítico tinha uma grande confiança em Jesus; de outra forma, como teria permitido que o descessem até Ele? Cristo responde a essa confiança com um prodígio extraordinário. Com o poder do próprio Deus, perdoa os pecados a esse homem. Mostra assim ser igual ao Pai, verdade que já tinha mostrado quando dissera ao leproso: «Quero, fica purificado!» (Mt 8,3), […] quando, com uma só palavra, tinha acalmado o mar em fúria (Mt 8,26), ou quando, como Deus, tinha expulsado os demônios, que reconheciam n’Ele o seu soberano e o seu juiz (cf Mt 8,32). Ora, aqui Ele mostra aos Seus adversários, para seu grande espanto, que é igual ao Pai.
E o Salvador mostra também, mais uma vez, que rejeita tudo o que é espetacular ou fonte de glória vã. A multidão pressiona-O de todos os lados, mas Ele não tem pressa em fazer um milagre visível, curando a paralisia exterior desse homem. […] Começa por fazer um milagre invisível, curando-lhe a alma. Essa cura é infinitamente mais vantajosa para o homem — e, na aparência, menos gloriosa para Cristo.
«Trouxeram-Lhe um paralítico.» Os evangelistas contam que, depois de terem furado o teto, aqueles homens desceram o doente e o depuseram diante de Cristo, sem nada pedir, deixando Jesus fazer o que quisesse. No início do seu ministério pela Judeia, era Ele quem dava os primeiros passos e não exigia uma fé tão grande; aqui, são os outros que vêm ter com Ele, e tiveram de ter uma fé corajosa e viva: «Ao ver a fé daquela gente», diz o evangelho – isto é, a fé dos que tinham transportado o paralítico. […] E o doente também teria uma grande fé, porque não se teria deixado transportar se não tivesse confiança em Jesus.
Perante tanta fé, Jesus mostra o seu poder e, com autoridade divina, perdoa os pecados ao doente, dando assim prova da sua igualdade com o Pai. Tinha já mostrado essa igualdade quando curou o leproso dizendo: «Quero, fica curado»; quando acalmou a tempestade no mar; e quando expulsou os demónios, que nele reconheceram o seu soberano e o seu juiz. […] Aqui, mostra-a primeiro sem espaventos, não Se apressando a curar exteriormente aquele que Lhe apresentaram. Começa por um milagre invisível: primeiro, cura a alma do homem, perdoando-lhe os pecados. É certo que esta cura era infinitamente mais vantajosa para aquele homem, mas trazia pouca glória a Cristo.
Este paralítico tinha fé em Jesus Cristo. Prova disso é a maneira como foi apresentado a Cristo: desceram-no pelo teto da casa. […] Sabeis que os doentes estão num abatimento tão grande e de tão mau humor, que frequentemente os bons cuidados que lhes são prestados os entristecem. […] Mas este paralítico está contente por ser retirado do seu quarto e por ser visto publicamente, atravessando com a sua miséria as praças e as ruas. […]
Este paralítico não sofre de amor-próprio. A multidão cerca a casa onde está o Salvador, todas as passagens estão fechadas, a entrada pejada. Pouco importa! Será introduzido pelo teto e está contente: quão hábil é o amor, quão engenhosa a caridade! «Quem procura encontra; e ao que bate hão de abrir» (Mt 7,8) Este paciente não perguntará aos amigos que o transportam: «O que estão a fazer? Para quê tanta perturbação? Para quê tal ardor? Esperem que a casa fique vazia e que partam todos. Então poderemos apresentar-nos a Jesus, quando Ele estiver quase só…» Não, o paralítico não pensa nada disto; é uma glória para ele haver um grande número de testemunhas da sua cura.
São João Crisóstomo (c. 345-407),
Homilias sobre o Evangelho de Mateus, nº 29,1
Fonte: Evangelho Cotidiano



