«Queres ficar são?»: A Quaresma conduz os catecúmenos às águas do batismo

Caríssimos irmãos, o número quarenta possui um valor simbólico, ligado ao mistério da nossa salvação. Com efeito, assim que a maldade dos homens invadiu, nos primeiros tempos, a superfície da terra, Deus fez cair do céu a chuva durante quarenta dias e inundou a terra inteira com as águas do dilúvio (Gn 7). A partir dessa altura, estava lançada simbolicamente a história da nossa salvação: as águas da chuva caíram durante quarenta dias para purificar o mundo. Agora, durante os quarenta dias da Quaresma, é oferecida aos homens a misericórdia, para que se purifiquem […]

Assim, o dilúvio é figura do batismo; o que então se verificou ainda hoje se cumpre […] e, quando o pecado do mundo desapareceu no fundo do abismo, a santidade pôde elevar-se até ao céu. Assim ainda hoje acontece na Igreja de Cristo: […] levada pelas águas do batismo, também ela se ergue até ao céu; são submersas as superstições e as idolatrias e sobre a terra se espalha a fé, resplandecente como a arca do Salvador. […] É verdade que somos pecadores e que o mundo será um dia destruído; só escaparão à ruína aqueles que a arca albergar no seu interior. Esta arca é a Igreja […] e nós vo-lo anunciamos: o mundo não escapará ao naufrágio. Por isso vos exortamos, irmãos, a todos vós, a que tomeis refúgio nesse santuário.


Quarenta dias que nos conduzem ao batismo na morte e ressurreição de Cristo

«Ouvi-te no tempo favorável; socorri-te no dia da salvação» (Is 49,8). E o apóstolo Paulo continua a citação com as palavras: «É este o tempo favorável; é este o dia da salvação» (2Cor 6,2). Também eu vos tomo por testemunhas: eis os dias da redenção, eis chegado de algum modo o momento da cura espiritual; podemos aliviar todas as nódoas dos nossos vícios, todas as feridas dos nossos pecados, se o rogarmos constantemente ao médico da nossa alma, se […] não negligenciarmos nenhuma das suas prescrições [..].

O médico é Nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: «Sou Eu que faço morrer, sou Eu que faço viver» (Dt 32,39). O Senhor começa por fazer morrer, depois torna a dar a vida. Pelo batismo, Ele destrói em nós adultérios, homicídios, crimes e roubos; depois faz-nos reviver, como homens novos, na imortalidade eterna. Morremos para os nossos pecados pelo batismo, e retomamos a vida no Espírito da vida. […] Entreguemo-nos ao médico com paciência, para recuperarmos a saúde. Ele podará, cortará e retirará tudo o que tiver descoberto em nós de indigno, de manchado pelo pecado, de corroído pelas úlceras, por forma a que, uma vez eliminadas todas as feridas do demônio, só exista em nós o que é de Deus.

Eis a primeira das suas prescrições: consagrar quarenta dias ao jejum, à oração, às vigílias. O jejum cura a frouxidão, a oração alimenta a alma religiosa, as vigílias repelem as armadilhas do diabo. Depois deste tempo consagrado a todas estas observâncias, a alma, purificada e provada por tantos exercícios, chega ao batismo, recuperando as forças pelo mergulho nas águas do Espírito; e tudo o que tinha sido queimado pelas chamas das doenças renasce pelo orvalho da graça do céu. […] Por um novo nascimento, renascemos outros.

São Máximo de Turim (? – c. 420),
Sermão 28, sobre a Quaresma
Fonte: Evangelho Cotidiano

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *