Santo Agostinho de Hipona — Antologia de homilias e reflexões

Esta antologia reúne homilias e reflexões de Santo Agostinho de Hipona sobre o serviço ao próximo, a contemplação, a oração, a caridade e a esperança em Cristo. As seleções estão organizadas por tema, com referências às obras e um sumário para a leitura.

Os excertos de uma mesma obra conservam os trechos complementares; as versões repetidas aparecem uma única vez. Os dois sermões transmitidos sob atribuição a Agostinho mantêm essa ressalva em uma seção própria.

Sumário

Serviço, contemplação e repouso em Deus

«Uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 104, 6–7.

Na eternidade, havemos de nos sentar à mesa. Não me atreveria a dizê-lo, se não tivesse sido o Senhor a prometê-lo: Ele promete uma grande recompensa aos seus servos, a quem diz: «Cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá» (Lc 12,37). […] Grande é, pois, a promessa, e feliz o seu cumprimento. Comportemo-nos de maneira a merecê-la; deixemo-nos ajudar a chegar ao local onde o Senhor nos servirá à mesa.

Essa refeição será um repouso; «os servirá» significa que Ele nos saciará. Com que alimento e com que bebida? Certamente, com a própria verdade. […] Não acreditas que Deus possa alimentar-te dessa maneira, quando já é assim que o teu olho se sacia de luz? Seja vista por muitos ou por poucos, a luz brilha sempre com a mesma intensidade, espalhando conforto, sem nunca faltar, sem diminuir com o uso. […] Não compreendeis ainda? É porque andais ocupados com muitas coisas. É o trabalho de Marta que vos ocupa – mais ainda, que nos ocupa a todos. Pois ninguém está dispensado deste trabalho de assistência. […]

É por isso, meus queridos, que vos peço e vos exorto […]: desejemos juntos esta vida. Corramos para ela todos juntos, para nela permanecermos à chegada. Está a chegar a hora, e essa hora será sem fim, em que o Senhor nos fará sentar à mesa para nos servir; e o que nos servirá é Ele mesmo. Quereis saber o que comereis? Será o próprio Senhor que comereis. […] «Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor» (Sl 27,4) […] Não tenhamos o gosto dos alimentos carnais […], pois eles passarão. Se queres ser como Marta e dedicar-te aos mesmos ofícios, fá-lo com moderação e misericórdia. […] O trabalho passa, e virá o repouso, mas só se chega ao repouso pelo trabalho. O navio passa e chega-se à pátria, mas só se chega à pátria no navio. Estou, porém, seguro de que não havemos de naufragar, porque somos transportados pelo madeiro da cruz.

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Entrar no repouso de Deus

Santo Agostinho de Hipona — Sobre o sentido literal do Gênesis, IV, 13–14, excertos.

«Deus viu tudo o que tinha feito: era tudo muito bom. […] E, no sétimo dia, descansou do trabalho que tinha realizado» (Gn 1,31-2,2). As obras de Deus são boas e Ele repousará nas nossas obras, se estas também forem boas. Foi como sinal deste repouso que Ele prescreveu ao povo hebraico a observância do sábado. Mas eles praticavam-no de uma forma tão material que repreendiam Nosso Senhor quando O viam operar a nossa salvação em dia de sábado. Tal atitude valeu-lhes uma resposta justa: «Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho» (Jo 5,17), não só governando com Ele toda a criação, mas realizando a nossa salvação.

Quando, porém, a graça foi revelada, os fiéis foram libertados do preceito do sábado, que consistia na observância de um dia. Agora, pela graça, o cristão observa um sábado perpétuo, se fizer o bem na esperança do repouso que há de vir e não se glorificar das suas boas obras como se elas lhe pertencessem e não as tivesse recebido. Assim, recebendo e considerando o sacramento do batismo como um sábado, isto é, como o repouso do Senhor no seu túmulo (cf Rom 6,4), o cristão repousa das suas obras passadas, caminha pelas veredas de uma vida nova e reconhece que Deus age nele, Ele que governa as suas criaturas em repouso, porque tem em Si a tranquilidade eterna.

Deus não Se fatigou ao criar, nem repousou ao cessar de criar; mas quis inspirar-nos, através da linguagem da Sagrada Escritura, o desejo do seu repouso: […] quis santificar aquele dia […] como se, mesmo para Ele que não Se fatiga ao trabalhar, o repouso tivesse mais valor do que a ação. É isso que o evangelho nos ensina quando o Senhor diz que Maria, ao sentar-se e permanecer em repouso a seus pés para escutar a sua palavra, escolheu uma parte melhor do que a de Marta, ainda que esta se dedicasse a obras de serviço (cf Lc 10,39s).

Nota editorial: A seleção reúne a redação mais desenvolvida da passagem, conservando os trechos sobre o repouso de Deus e sobre Marta e Maria.

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Marta e Maria: serviço, unidade e contemplação

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 103, excertos dos §§1–6; a versão sobre Marta indica PL 38, 613 e tradução do breviário.

As palavras de Jesus Cristo Nosso Senhor que lemos no Evangelho recordam-nos que há uma unidade misteriosa para a qual devemos tender enquanto nos afadigamos no seio da multiplicidade deste mundo. Ora, tendemos para ela enquanto caminhamos e antes de descansarmos, enquanto estamos a caminho e ainda não chegámos à pátria, no tempo do desejo que não é ainda o dia do gozo. Tendamos para ela, mas tendamos sem covardia e sem interrupção, para que possamos finalmente alcançá-la. […]

Marta estava ocupada com muitos cuidados, preparando uma refeição para o Salvador; Maria, sua irmã, que preferia ser alimentada por Ele, deixou a Marta as muitas ocupações de serviço e foi sentar-se aos pés do Senhor, escutando a sua palavra em silêncio. Dócil e fiel, tinha ouvido estas palavras: «Para e vê que Eu sou o Senhor» (Sl 45,11) Assim, uma das duas irmãs estava inquieta e a outra estava à mesa; uma preparava muitas coisas e a outra só pensava numa coisa […].

Considerai a unidade, meus irmãos, e vede se há alguma coisa na multiplicidade que vos agrade tanto como a unidade. Pela graça de Deus, vejo-vos aqui em grande número; mas seríeis intoleráveis se não estivésseis unidos em espírito. De onde vem esta calma em semelhante multidão? Com ​​unidade, existe um povo; sem ela, há uma turbamulta, que é uma multidão em desordem.

Mas ouçamos o Apóstolo: «Peço-vos, irmãos» – dirigia-se a uma multidão, mas a uma multidão na qual queria restabelecer a unidade – «Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num mesmo pensamento» (1Cor 1,10). Noutra passagem, exorta-nos a viver em unidade de corações, com os mesmos pensamentos, nada fazendo por espírito de contenda ou de vaidade (cf Fil 2,2-3). Pois não dizia o Senhor ao Pai, falando dos fiéis: «Para que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti» (Jo 17,21)? E não está escrito nos Atos dos Apóstolos: «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma» (At 4,32)?

Por isso, bendizei o Senhor comigo e glorificai o seu nome, para alcançarmos a unidade; aquela unidade necessária, aquela unidade sublime em que o Pai, o Filho e o Espírito Santo estão intimamente unidos. Bem vedes que tudo nos recomenda a unidade. Sim, o nosso Deus é uma Trindade; o Pai não é o Filho, o Filho não é o Pai, e o Espírito Santo não é nem Pai nem Filho, mas é o Espírito de ambos. Mas não são três deuses nem três omnipotentes, são um só Deus omnipotente, e a Trindade é um só Deus. Esta é a unidade necessária; mas, para a alcançarmos, os nossos corações têm de estar unidos.

O que foi que o Senhor disse a Marta? «Maria escolheu a melhor parte»; a tua não é má, mas a dela é melhor. E porquê melhor? Porque «não lhe será tirada». Um dia, este fardo imposto pelas necessidades dos outros ser-te-á tirado; mas as delícias da verdade são eternas. Assim, a escolha que ela fez não lhe será tirada; não lhe será tirada, mas acrescentada; será acrescentada nesta vida, será acrescentada na outra, e ela nunca se separará dela.

«O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes» (Mt 25,40). […] Tu, Marta –, com tua licença o direi, e bendita sejas pelos teus bons serviços – buscas o descanso como recompensa do teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora de pessoas santas. Porventura, quando chegares à outra pátria, poderás encontrar um peregrino a quem hospedar, um faminto com quem repartir o pão, um sequioso a quem dar de beber, um doente a quem visitar, algum litigante a quem reconciliar, algum morto a quem sepultar?

Lá, não haverá nada disso. Que haverá então? O que Maria escolheu: lá, seremos alimentados e não daremos alimento. Lá, há-de cumprir-se em plenitude aquilo que Maria aqui escolheu: daquela mesa opulenta, ela recolhia as migalhas da Palavra do Senhor. Quereis saber o que haverá lá? O próprio Senhor o diz a respeito dos seus servos: «Em verdade vos digo, que ele os mandará sentar à mesa e, passando no meio deles, os servirá» (Lc 12,37).

Nota editorial: As passagens sobre Marta e Maria, a unidade dos fiéis e o repouso futuro são complementares e seguem a sequência do mesmo sermão.

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«O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado»

Santo Agostinho de Hipona — Salmo 91,2

Hoje é sábado, um sábado que os judeus respeitam com descanso exterior, com uma doce e luxuriosa ociosidade, porque se dedicam a ninharias, e gastam este sábado que o Senhor prescreveu dedicados a ocupações que Ele proibiu. Se para nós o sábado é abstenção de obras más, para eles é abstenção de obras boas. Porque é melhor lavrar a terra que dançar. Eles abstêm-se de obras boas, mas não de obras pueris. Deus prescreveu-nos, pois, um repouso – mas que repouso?

Em primeiro lugar, vê onde está esse repouso. Para muitos, o repouso está nos membros, enquanto a consciência se agita. Quem é mau não pode ter este sábado, porque a sua consciência não está em repouso, mas vive necessariamente na agitação. A boa consciência, pelo contrário, está sempre em paz, e esta paz é o sábado do coração. Ele repousa nas promessas do Senhor e, se sente algum cansaço nesta vida, eleva-se à esperança do futuro, e então todas as nuvens de tristeza se dissipam, como diz o apóstolo: alegra-se na esperança. Esta alegria serena na esperança é o nosso sábado.

É isto que o nosso salmo canta e preconiza, ensinando o cristão a permanecer no sábado do seu coração, isto é, na calma e tranquilidade, na serenidade de uma consciência tranquila. Por isso, fala-nos daquilo que é habitualmente uma fonte de perturbação para os homens, para nos ensinar a celebrar o sábado no coração.

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«Pedro e João, da ação à contemplação?»

Santo Agostinho de Hipona — Sermões sobre o Evangelho de João, n.º 124, 5-7; CCL 36, 685

A Igreja tem duas vidas preconizadas e recomendadas por Deus. Uma é na fé, a outra na visão; uma na peregrinação no tempo, a outra na morada da eternidade; uma no trabalho, a outra na quietude; uma no caminho, a outra na pátria; uma no esforço da ação, a outra na recompensa da contemplação. […] A primeira é representada pelo apóstolo Pedro, a segunda por João. A primeira decorre inteiramente na Terra até ao fim do mundo, e depois acaba. A segunda só encontrará a sua plenitude depois do fim do mundo, e não terá fim no mundo que há de vir.

Foi por isso que Jesus disse a Pedro: «Segue-Me», e sobre João: «Se Eu quiser que ele fique até que Eu venha, que te importa? Tu, segue-Me». […] Que a tua ação Me siga, perfeita e modelada no exemplo da minha Paixão; que a contemplação começada permaneça até Eu voltar, e torná-la-ei perfeita quando voltar. Porque este fervor vigoroso que se mantém firme até à morte segue a Cristo; e este conhecimento que então será revelado em plenitude permanece até ao regresso de Cristo. Aqui na Terra dos mortais, temos de suportar os males deste mundo; lá, contemplaremos os bens do Senhor na terra dos vivos (Sl 26,13). […]

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«Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 231

Que procuras? A felicidade. […] Procuras uma coisa boa, mas que não existe neste mundo. […] Tendo vindo até junto de nós, Cristo encontrou o que nós temos em abundância: penas, dores e a morte; é o que tens, e o que entre nós existe em abundância. Ele comeu contigo o que havia em abundância na pobre casa da tua infelicidade. Ele bebeu vinagre, ele provou fel (Jo 19,29) – tudo quanto encontrou na tua pobre casa.

Mas convidou-te para a sua mesa magnífica, para a sua mesa do Céu, para a sua mesa dos Anjos, onde Ele mesmo é o pão (Jo 6,34). Descendo até ti, e encontrando infelicidade na tua pobre casa, não desdenhou de Se sentar à tua mesa, tal como era, e prometeu-te a sua. […] Assumiu a tua infelicidade, para te dar a sua felicidade. E dar-ta-á, pois prometeu-nos a sua vida. E aquilo que realizou é ainda mais incrível: deu-nos em penhor a sua própria morte. É como se nos tivesse dito: «Convido-vos para a minha vida, onde ninguém morre, onde se encontra a verdadeira felicidade, onde o alimento não se corrompe, mas restaura, nunca falta e tudo preenche. Vede para onde vos convido: para a terra dos Anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para uma refeição eterna, para a minha amizade fraterna.

Enfim, convido-vos para Mim mesmo, convido-vos para a minha própria vida. Duvidais de que vos darei a minha vida? Tendes a minha morte como testemunho.

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Humildade, chamado e missão

«Não temas. Daqui em diante, serás pescador de homens»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 43, 6.

Como é grande a bondade de Cristo! Pedro foi pescador; e, atualmente, um orador que seja capaz de compreender este pescador merece um grande elogio. Era por isso que o apóstolo Paulo dizia aos primeiros cristãos: «Considerai, pois, irmãos, a vossa vocação: humanamente falando, não há entre vós muitos sábios, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo, para confundir os sábios; escolheu o que é fraco, para confundir o forte; escolheu o que é vil e desprezível, o que nada vale aos olhos do mundo, para reduzir a nada aquilo que vale» (1Cor 1, 26-28).

Porque, se Cristo tivesse escolhido um orador, este poderia dizer: «Fui escolhido pela minha eloquência»; se tivesse escolhido um senador, este poderia dizer: «Fui escolhido por causa do meu cargo»: enfim, se tivesse escolhido um imperador, este poderia dizer: «Fui escolhido devido ao poder que tenho». Essas pessoas que esperem um pouco e tenham calma, pois não serão esquecidas nem rejeitadas; que esperem um pouco, porque poderiam glorificar-se do que são por si próprias.

«Deem-me este pescador», disse Cristo, «deem-me este homem simples e sem instrução, deem-me aquele com quem o senador não se digna falar, mesmo quando lhe compra peixe. Sim, deem-me este homem; e, quando Eu o tiver preenchido, ver-se-á claramente que sou Eu que ajo. É certo que também concluirei a minha obra no senador, no orador e no imperador […], mas a minha ação será mais evidente no pescador. O senador, o orador e o imperador podem gloriar-se daquilo que são; o pescador apenas pode gloriar-se de Cristo. Assim, será o pescador a ensinar-lhes a humildade que leva à salvação. Por isso, que ele seja o primeiro».

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«Senhor, não mereço que entres em minha casa»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 62

Na leitura do Evangelho, ouvimos Jesus louvar a nossa fé, associada à humildade. Quando prometeu ir a casa do centurião curar-lhe o servo, este respondeu: «Não mereço que entres em minha casa […]. Mas diz uma palavra e o meu servo será curado» . Ao considerar-se indigno, revela-se digno – digno de que Cristo entre não só em sua casa, mas também no seu coração. […]

Pois não teria sido para ele grande alegria se o Senhor Jesus tivesse entrado em sua casa sem entrar no seu coração. Com efeito, Cristo, Mestre de humildade pelo seu exemplo e pelas suas palavras, sentou-Se à mesa em casa de um fariseu orgulhoso chamado Simão (cf Lc 7,36ss); mas, embora Se sentasse à sua mesa, não entrou no seu coração: aí, «o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça» (Lc 9,58). Pelo contrário, não entra em casa do centurião, mas entra no seu coração. […]

Por conseguinte, é a fé, unida à humildade, que o Senhor elogia neste centurião. Quando ele diz: «Não mereço que entres em minha casa» , o Senhor comenta: «Digo-vos que nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé» . […] O Senhor veio ao povo de Israel segundo a carne, para procurar primeiramente neste povo a sua ovelha perdida (cf Lc 15,4). […]

Nós, como homens, não podemos medir a fé dos homens. Mas Aquele que vê o fundo dos corações, Aquele a quem ninguém engana, testemunhou como era o coração deste homem; e, ao ouvir as suas palavras repletas de humildade, respondeu-lhe com uma palavra que cura.

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«O dono da seara»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 101; PL 38, 605ss

O evangelho convida-nos a procurar a seara sobre a qual o Senhor disse: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara». Ele próprio enviou, para além dos doze discípulos a quem chamou apóstolos («enviados»), mais setenta e dois, mandando-os trabalhar numa seara já madura. E que seara era essa? Eles não iam trabalhar entre os pagãos, onde nada fora semeado, mas entre os judeus, pois foi para isso que o dono da seara veio. Com efeito, aos outros povos Ele não envia trabalhadores para a seara, mas semeadores; entre os judeus, manda trabalhar na seara, entre os outros povos, manda semear. Foi trabalhando na seara que Ele escolheu os apóstolos: era o tempo da colheita, a seara estava loura com os frutos da sementeira dos profetas. […]

O Senhor disse aos seus discípulos : «Vós dizeis que o verão ainda vem longe, mas Eu digo-vos: erguei os olhos e vede os campos brancos para a ceifa» (Jo 4,35). E ainda: «Outros semearam e vós colheis» (v. 38). Abraão, Isaac, Jacob, Moisés e os profetas semearam penosamente o trigo. Ao chegar, o Senhor encontrou a seara madura, e enviou os seus trabalhadores com a foice do evangelho.

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«Escolheu doze, para andarem com Ele e para os enviar a pregar»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 311, 2

Os bem-aventurados apóstolos […] foram os primeiros a ver Cristo suspenso na cruz; choraram a sua morte e ficaram atemorizados pelo prodígio da sua ressurreição, mas, logo a seguir, transportados de amor por esta manifestação do seu poder, não hesitaram em derramar o seu sangue para atestar a verdade do que tinham visto. Pensai, irmãos, no que foi pedido a esses homens: ir por todo o mundo pregar que um morto tinha ressuscitado e subido ao céu; e sofrer, devido à pregação dessa verdade, tudo o que aprouvesse a um mundo insensato: privações, exílio, cadeias, tormentos, carrascos, feras ferozes, a cruz e morte. Teriam sofrido tudo isso por um desconhecido?

Teria Pedro morrido para sua própria glória? Teria pregado em proveito próprio? Ele morria e Outro, que não ele, era glorificado por essa morte; ele foi morto e Outro foi adorado. Só a chama ardente da caridade, unida à convicção da verdade, pode explicar semelhante audácia! Eles pregavam o que tinham visto. Ninguém morre por uma verdade da qual não está seguro. Ou deveriam eles negar o que tinham visto? Mas não negaram, antes pregaram esse morto que sabiam estar perfeitamente vivo. Eles sabiam por que vida desprezavam a vida presente, sabiam por que felicidade suportavam provas passageiras, por que recompensa espezinhavam todos esses sofrimentos. A sua fé pesava mais na balança que o mundo inteiro.

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Cem, sessenta e trinta por um

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 101

A sementeira foi feita pelos apóstolos e pelos profetas, mas é o próprio Senhor que semeia. É o próprio Senhor que está presente neles, pois foi o próprio Senhor que fez a colheita. Porque, sem Ele, eles não são nada, enquanto que Ele, sem eles, permanece na Sua perfeição. Com efeito, Ele disse-lhes: «Sem Mim nada podeis fazer» (Jo 15, 5). Semeando portanto entre as nações, que disse Cristo? «Um semeador saiu para semear» (Mt 13, 3). Noutro texto, os semeadores foram enviados para colher; agora, o semeador sai para semear, e não se queixa do trabalho. Com efeito, que importa que o grão de trigo caia à beira do caminho, sobre as pedras ou entre os espinhos? Se ele se deixasse desencorajar por estes lugares ingratos, não avançaria até à boa terra! […]

É de nós que se trata: seremos esse caminho, essas pedras, esses espinhos? Queremos ser a boa terra? Dispomos o nosso coração a produzir trinta vezes mais, sessenta vezes mais, cem vezes, mil vezes mais? Trinta vezes, mil vezes, sempre trigo e apenas trigo. Não sejamos mais esse caminho onde a semente é pisada por quem passa e onde o nosso inimigo a agarra como os pássaros. Nem essas pedras onde uma terra pouco profunda faz germinar rapidamente um grão que não consegue resistir ao calor do sol. Nunca mais esses espinhos, as ambições deste mundo, este hábito de fazer o mal. Com efeito, que coisa pior pode haver do que aplicar todos os esforços a uma vida que impede de chegar à vida? Que coisa mais infeliz que escolher a vida para perder a vida? Que coisa mais triste que temer a morte para sucumbir ao poder da morte? Arranquemos os espinhos, preparemos o terreno, recebamos a semente, aguentemos até à colheita, aspiremos a ser arrecadados nos celeiros.

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«Podeis beber o cálice que Eu vou beber?»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão para a consagração de um bispo, Guelferbytanus nº 32; PLS 2, 637

«Cristo deu a sua vida por nós, e nós também devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos» (1Jo 3,16). […] Jesus disse a Pedro: «Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres» (Jo 21,18). É a cruz que Ele lhe havia prometido, é a Paixão. «Sobe, diz o Senhor, apascenta as minhas ovelhas, sofre pelas minhas ovelhas.» É assim que deve ser um bom bispo. Se não o for, não será bispo. […]

Ouve outro testemunho. Dois dos seus discípulos, os irmãos João e Tiago, filhos de Zebedeu, aspiravam aos primeiros lugares. […] O Senhor respondeu-lhes: «Não sabeis o que pedis.» E acrescentou: «Podeis beber o cálice que Eu vou beber?» E que cálice era esse, senão o da Paixão? […] E eles, ávidos de honras, esquecidos da sua fraqueza, imediatamente dizem: «Podemos.» Ele replicou-lhes: «Na verdade, bebereis o meu cálice; mas o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não Me pertence a Mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado.» […] Deu assim prova da sua humildade; na verdade, tudo o que o Pai prepara é também preparado pelo Filho. […] Ele veio humilde: Ele, o Criador, foi criado entre nós; Ele, que nos fez, foi feito para nós. Deus antes do tempo, homem no tempo, libertou o homem do tempo. Este grande médico veio curar o nosso cancro […]; veio curar o próprio orgulho pelo seu exemplo.

É a isso que devemos estar atentos no Senhor: olhemos a sua humildade, bebamos o cálice da sua humildade, aprendamos dele, contemplemo-Lo. É fácil ter pensamentos nobres, é fácil apreciar as honras, é fácil ouvir os aduladores e os que nos elogiam. Mas ouvir insultos, suportar pacientemente as humilhações, orar por aqueles que nos ofendem (Mt 5,39-44), isso é o cálice do Senhor, isso é o banquete do Senhor.

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«Trouxeram-Lhe um paralítico»

Santo Agostinho de Hipona — Discursos sobre os Salmos, Sl 36, n.º 3, §3

Não poderemos, também nós, transportar alguém cujas forças interiores estejam enfraquecidas, como as do paralítico do Evangelho, e abrir-lhe o teto das Escrituras para o fazer descer até aos pés do Senhor?

Vede bem, esta pessoa será como que um paralítico espiritual. Eu vejo o teto (da Escritura) e sei que Cristo Se esconde sob esse teto; farei portanto, na medida do possível, aquilo que o Senhor aprovou em relação aos que abriram o teto da casa e desceram o paralítico. Na verdade, Ele disse-lhe: «Filho, os teus pecados estão perdoados», e curou esse homem da sua paralisia interior: perdoou-lhe os pecados e firmou a sua fé.

Mas havia ali pessoas cujos olhos não conseguiam ver a cura da paralisia interior e que tomaram o Médico que a tinha operado por blasfemo: «Porque fala Ele deste modo? Está a blasfemar. Não é só Deus que pode perdoar os pecados?» Ora, como esse Médico era Deus, ouviu estes pensamentos dos seus corações. Eles acreditavam que Deus tinha verdadeiramente esse poder, mas não conseguiam ver que era Deus que estava diante deles. Então, o Médico agiu também sobre o corpo do paralítico, para curar a paralisia interior dos que assim falavam: fez uma coisa que lhes permitisse ver e acreditar.

Tem pois coragem, tu que tens um coração frágil, tu que estás doente a ponto de seres incapaz de melhorar o mundo. Coragem, tu que estás paralisado interiormente! Juntos, abramos o teto das Escrituras, para descermos até junto dos pés do Senhor.

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Ressurreição, esperança e perseverança

«Pôs-Se com eles a caminho» — Cristo na partilha do pão

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 235, 1–3.

Depois da ressurreição, o Senhor Jesus encontrou no caminho dois dos seus discípulos, que conversavam sobre o que tinha acontecido. Ao vê-los tão tristes, perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?».

Esta passagem do Evangelho traz-nos uma grande lição, se soubermos compreendê-la: Jesus aparece, mostra-Se aos discípulos e não é reconhecido; o Mestre põe-Se com eles a caminho, e é Ele próprio o caminho (cf Jo 14,6), mas eles não estão ainda no verdadeiro caminho: quando Jesus os encontra, tinham perdido o caminho. Enquanto morava com eles, antes da Paixão, tinha-lhes anunciado os sofrimentos por que passaria, a sua morte, a sua ressurreição ao terceiro dia; tudo lhes anunciara, mas a sua morte fizera-os perder a memória […].

«Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel». Como, discípulos, esperáveis e já não esperais? Apesar de Cristo estar vivo, a esperança está morta em vós? Sim, Cristo está vivo; mas Cristo vivo encontrou mortos os corações dos discípulos. Surge diante dos seus olhos, e eles não se apercebem; mostra-Se, e continua escondido deles. […] Caminha com eles e parece segui-los, mas é Ele quem os conduz. Eles veem-no mas não O reconhecem, porque «os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem». […]

Quando foi que o Senhor quis dar-Se a conhecer? «Ao partir o pão». Podemos ter a certeza de que, quando partimos o pão, reconhecemos o Senhor. Ele só quis ser reconhecido naquele momento por nossa causa, porque já não O veríamos em carne e osso, mas comeríamos a sua carne. Sejas quem fores, crente que não usas o nome de cristão em vão e que não vais à igreja por nada, tu, que escutas com temor e esperança a palavra de Deus, o teu conforto está na partilha do pão.

A ausência do Senhor não é uma ausência. Crê somente, e Aquele que não vês estará contigo. Quando Jesus lhes falava, os discípulos não tinham fé; e, porque não acreditavam que Ele tinha ressuscitado, não tinham esperança de voltar à vida. Tinham perdido a fé e tinham perdido a esperança. Caminhavam como mortos ao lado de um vivo; caminhavam como mortos ao lado da Vida. A Vida caminhava com eles, mas os seus corações ainda não tinham voltado à vida.

Se queres a vida, faz como eles, que acolheram o estrangeiro, e reconhecerás o Senhor. O Senhor parecia um viajante que ia para longe e eles souberam retê-lo: «Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante. Mas eles convenceram-no a ficar, dizendo: “Fica conosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite”». Se queres reconhecer o Salvador, retém o estrangeiro: aquele que tinha sido perdido pela dúvida foi reencontrado com a hospitalidade. O Senhor fez-Se presente na partilha do pão.

Nota editorial: Os trechos sobre o caminho de Emaús e sobre a partilha do pão pertencem ao mesmo sermão. A frase sobre a presença do Senhor é apresentada uma única vez, em sua sequência mais desenvolvida.

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«Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob» (Ex 3,6)

Santo Agostinho de Hipona — Sermão para o Sábado Santo, 5; PL 46,825-826

Quando Deus, que é invisível, Se dignou dirigir-Se ao homem, aparecendo-lhe sob uma forma visível, quando o Eterno usou uma linguagem temporal e o Imutável palavras frágeis, dizendo: «Eu sou aquele que sou» (Ex 3,14) […], acrescentou ao nome da sua substância o nome da sua misericórdia. […] É como se Deus tivesse dito a Moisés: «Não compreenderás estas palavras: “Eu sou aquele que sou”; o teu coração não é inabalável; não és imutável como Eu, nem o é o teu espírito. Ouviste o que Eu sou. Escuta o que podes compreender, escuta o que podes esperar».

E Deus disse a Moisés: «”Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob” (Ex 3,15). Não podes compreender o nome da minha substância; compreende o nome da minha misericórdia. O que eu sou é eterno. Abraão, Isaac e Jacob são, portanto, eternos; não digo simplesmente que são eternos, mas que foram tornados eternos, e tornados eternos graças a Deus».

Foi com essas palavras que o Senhor confundiu os saduceus quando estes negaram a ressurreição; depois, citou-lhes o testemunho da Escritura: não lestes no Livro de Moisés, no episódio da sarça ardente, como Deus disse: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob”?

Ele não é Deus de mortos, mas de vivos»; pois todos estes estão vivos.

Quando Deus diz […]: «Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob», acrescenta: «Este é o meu nome para sempre» (Ex 3,15). É como se dissesse: «Porque temeis a morte do homem? Porque temeis que ele deixe de existir depois da morte? Este é o meu nome para toda a eternidade. E este nome: “Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob” não poderia ser eterno se Abraão, Isaac e Jacob não vivessem para sempre».

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Em Cristo também tu eras tentado…

Santo Agostinho de Hipona — Comentários aos Salmos, Salmo 60, 2–3; CCL 39, 766.

Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração (Sl 60,2). Porque em mim o coração já desfalece. Revela com estas palavras que ele está presente a todos os povos no mundo inteiro, não rodeado de grande glória mas no meio de grandes tentações.

Com efeito, nossa vida,enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações.

Portanto, o Senhor nos representou em sua pessoa quando quis ser tentado por Satanás. De fato, Cristo foi tentado pelo demônio. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque ele assumiu a tua condição humana, para te dar a sua salvação; assumiu a tua morte, para te dar a sua vida; assumiu os teus ultrajes, para te dar a sua glória; por conseguinte, assumiu as tuas tentações, para te dar a sua vitória.

Se nele fomos tentados, nele também vencemos o demônio. Consideras que o Cristo foi tentado e não consideras que ele venceu? Reconhece-te nele em sua tentação, reconhece-te nele em sua vitória. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se dele; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação.

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«Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 306

Queres alcançar a vida onde estarás para sempre liberto do engano? Quem não quer? […] Todos queremos a vida e a verdade. Mas como consegui-las? Que caminho seguir? É verdade que não chegamos ainda ao termo da viagem, mas vislumbramo-lo já […], aspiramos à vida e à verdade. Ambas as coisas estão em Cristo. Que direção devemos tomar para as alcançar? «Eu sou o caminho», disse Ele. «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6).

Foi isto que os mártires realmente amaram; por isto ultrapassaram o amor a bens presentes e efêmeros. Não vos surpreenda a sua coragem; neles, o amor venceu o sofrimento […]; trilhemos os seus passos, de olhos postos naquele que é o seu e nosso Mestre. Se desejamos alcançar tão grande felicidade, não temamos percorrer caminhos difíceis. Aquele que no-lo prometeu é verdadeiro; Ele é fiel, Ele não nos engana. […] Porque havemos de temer a dura via do sofrimento e da tribulação? O próprio Salvador passou por elas.

Responderás: «Mas era Ele, o Salvador!». Lembra-te de que os apóstolos também passaram por esse caminho. Dirás: «Eram os apóstolos!». Mas não te esqueças de que, depois deles, um grande número de homens como tu passaram por semelhantes provações […]; e mulheres […]; e também crianças pequenas percorreram este caminho de provação. Será assim tão duro esse caminho, já aplanado por tantos que o percorreram?

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No meio das provações, cantemos «Aleluia!»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 256, 1, 3

No meio das preocupações deste mundo, cantemos «Aleluia!», para que possamos cantar o mesmo um dia lá no alto, em paz. Que preocupações, perguntas tu, temos neste mundo? Então não hei de falar de preocupações, quando leio: «Não vive o homem sobre a Terra como um soldado?» (Jb 7,1) Como queres que eu não tenha preocupações aqui onde as provações são tão fortes que a própria oração que nos foi prescrita inclui: «Não nos deixes cair em tentação»? Como pode o povo estar bem, quando clama comigo: «Livrai-nos do mal» (Mt 6,13)? E, no entanto, meus irmãos, mesmo no meio deste mal, cantemos «Aleluia» a Deus que, na sua bondade, nos livra do mal.

Mesmo entre os perigos e as provações, que nós e os outros cantemos «Aleluia»; «pois Deus é fiel, diz o Apóstolo, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças». Portanto, mesmo neste mundo, cantemos «Aleluia». O homem ainda é pecador, mas «Deus é fiel». O Apóstolo não disse que Ele não permitirá que sejais tentados, mas que Ele «não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças, mas, com a tentação, vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar» (1Cor 10,13). Entraste em tentação? Deus também te dará sair dela, para que não pereças na provação. Desse modo, és como o vaso do oleiro: moldado pela pregação e cozido pela provação. Portanto, quando entrares na provação, pensa em sair dela, pois Deus é fiel, e «Ele te protege quando vais e quando vens, agora e para sempre» (Sl 121,8).

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«As virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 93

«No meio da noite, ouviu-se um brado». Este brado é aquele de que fala o apóstolo Paulo: «Num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final — pois a trombeta soará –, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados» (1Cor 15,52). E que aconteceu depois de se ouvir este brado, que soará a meio da noite? «As virgens levantaram-se». Que quer isto dizer? O próprio Senhor no-lo explica: «É chegada a hora em que todos os que estão nos túmulos hão de ouvir a sua voz e sairão» (Jo 5,28) […].

Que querem dizer estas palavras: «Não levaram azeite consigo»? «Consigo» quer dizer no seu coração. […] As virgens insensatas, que não levaram azeite, procuravam agradar aos homens pela sua continência e as suas boas obras, simbolizadas pelas lâmpadas; e, como o motivo das suas boas obras era agradar aos homens, não levaram azeite. Vós, porém, levai azeite convosco; levai-o no vosso interior, onde penetra o olhar de Deus; trazei aí o testemunho de uma boa consciência. […] Se evitais o mal e fazeis o bem para recolher lisonjas dos homens, não tendes azeite na vossa alma […].

Antes de estas virgens terem adormecido, não está dito que as suas lâmpadas estivessem apagadas. As lâmpadas das virgens prudentes brilhavam com vivo fulgor, alimentadas pelo azeite interior, pela paz da consciência, pela glória secreta da alma, devido à caridade que a abrasa. As lâmpadas das virgens insensatas também brilhavam. E porquê? Porque a sua luz era mantida pelos louvores humanos. Quando se levantaram, isto é, na ressurreição dos mortos, começaram a pegar nas lâmpadas, ou seja, a preparar as contas que deviam prestar a Deus pelas suas obras. Mas, nessa altura, já não haverá ninguém para as elogiar. […] Elas tentarão, como sempre tinham feito, brilhar com o azeite alheio, viver das lisonjas dos homens: «Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão a apagar-se».

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«ENTÃO OS JUSTOS BRILHARÃO COMO O SOL NO REINO DO SEU PAI»

Santo Agostinho de Hipona — Discursos sobre os salmos, Sl 99, 8-9

«Quando o que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir da imortalidade» (1Cor 15,54), o amor será perfeito, o júbilo será perfeito, um louvor sem fim, um amor sem ameaças. […] E neste mundo? Não experimentaremos nenhuma alegria? […] Seguramente que sim; neste mundo, experimentaremos, na esperança da vida futura, uma alegria da qual seremos plenamente saciados no Céu.

Mas é preciso que o trigo suporte muitas coisas no meio do joio. Os grãos são lançados à palha e o lírio cresce no meio dos espinhos. Com efeito, que foi dito à Igreja? «Tal como um lírio entre os cardos, assim é a minha amada entre as donzelas» (Ct 2,2). «Entre as donzelas», diz o texto, e não entre os estrangeiros. Ó Senhor, que consolações dás Tu? Que conforto? Ou melhor, que temor? Chamas espinhos às tuas próprias donzelas? São espinhos, responde Ele, pela sua conduta, mas são donzelas pelos meus sacramentos. […]

Mas onde deverá o cristão refugiar-se para não gemer entre falsos irmãos? Para onde irá ele? Fugirá para o deserto? As ocasiões de queda segui-lo-ão. Distanciar-se-á para não ter de suportar os seus semelhantes? E se ninguém tivesse querido suportá-lo antes da sua conversão? Se, por conseguinte, a pretexto do seu progresso interior, não quer suportar ninguém, isso prova que tal progresso não é real. Escutai bem estas palavras: «Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportai-vos uns aos outros no amor, procurando manter a unidade do Espírito, pelo vínculo da paz» (Ef 4,2-3). Não há em ti nada que os outros tenham de suportar?

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Oração, busca de Deus e louvor

Orar no Espírito com gemidos inefáveis

Santo Agostinho de Hipona — Carta 130 a Proba, 15, 27–28.

Aquele que pede a Deus a única coisa que realmente importa e a procura (cf Sl 26,4) pode fazê-lo com certeza e confiança. […] Este bem único, a paz que excede todo o entendimento, não sabemos pedi-lo adequadamente na nossa oração. Pois aquilo que podemos imaginar da sua realidade não o conhecemos verdadeiramente; por outro lado, sabemos que tudo o que nos vem à mente e que rejeitamos, recusamos e condenamos não é o objeto da nossa busca, mesmo que ainda não tenhamos consciência do que esse objeto realmente representa.

Portanto, existe em nós aquilo a que eu chamaria uma douta ignorância, instruída pelo Espírito de Deus, que sustenta a nossa fraqueza. Porque, depois de dizer: «Esperar o que não vemos é esperá-lo com perseverança», o Apóstolo acrescenta: «É assim que também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir, para rezarmos como deve ser; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito, pois é em conformidade com Deus que o Espírito intercede pelos cristãos» (Rm 8,25-27).

Isto não deve ser entendido como se o Espírito Santo de Deus, que é o Deus imutável na Trindade e um só Deus com o Pai e o Filho, intercedesse pelos santos como alguém que não é Deus. Dizemos que Ele ora pelos santos porque os leva a orar: leva-os a orar com gemidos inefáveis, inspirando-lhes o desejo daquele grande bem, ainda desconhecido, que aguardamos com paciência.

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«Dá-me a força de Te procurar!»

Santo Agostinho de Hipona — Sobre a Trindade, XV, 28, 51.

Senhor nosso Deus, nós cremos em Ti, Pai, Filho e Espírito Santo. […] Procurei-Te como pude, conforme a capacidade que me deste; desejando ver aquilo em que acreditava, muito debati e trabalhei. Senhor meu Deus, minha única esperança, não permitas que deixe jamais de Te procurar, mas faz com que busque sempre o teu rosto com ardor. Dá-me a força de Te procurar, Tu, que me fizeste encontrar-Te, Tu, que me deste mais e mais a esperança de Te encontrar. Diante de Ti está a minha constância e a minha enfermidade, guarda aquela e sara esta; diante de Ti está a minha força e a minha ignorância. Tu, que me abriste, acolhe a minha entrada; Tu, que me fechaste, abre ao meu apelo; lembra-me de me lembrar de Ti, para Te compreender e Te amar.

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«A multidão foi à procura dele»

Santo Agostinho de Hipona — Solilóquios

Desde agora, Senhor, só a Ti amo, a Ti somente me prendo, a Ti somente procuro, a Ti somente estou disposto a servir, porque só Tu ordenas com justiça. Às tuas ordens desejo submeter-me; ordena, peço-Te, ordena o que quiseres, mas cura-me, abre os meus ouvidos, a fim de que eu possa ouvir as tuas palavras. […]

Recebe-me como um fugitivo, Senhor, ó Pai excelente. Sofri tempo demais; tempo demais estive submetido aos teus inimigos e fui joguete de mentiras. Recebe-me como teu servo que quer afastar-se de todas as coisas vãs. […] Sinto que tenho necessidade de regressar a Ti; estou a bater, abre-me a porta, ensina-me a chegar a Ti. […] É para junto de Ti que pretendo ir, dá-me pois os meios de chegar até Ti. Se Te afastares, pereceremos! Mas Tu a ninguém abandonas, porque és o Soberano Bem; todos quantos Te procuram retamente Te encontram. És Tu que nos mostras como havemos de procurar-Te com retidão. Ó meu Pai, faz com que Te procure, liberta-me do erro, não permitas que, na minha busca, encontre outra coisa senão a Ti. Se nada mais desejo senão a Ti, faz com que apenas Te encontre a Ti, ó meu Pai.

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«Aquele que Deus enviou transmite as palavras de Deus, porque dá o Espírito sem medida»

Santo Agostinho de Hipona — Confissões XI, 2, 3

Senhor meu Deus, luz dos cegos e força dos fracos, mas também luz dos que veem e força dos fortes, escuta a a minha alma, ouve-a gritar do fundo do abismo (cf Sl 192,1). Pois se Tu não nos escutares do fundo do abismo, aonde iremos? A quem dirigiremos os nossos apelos?

«Teu é o dia, tua é também a noite» (Sl 73,16). A um sinal teu, todos os instantes desaparecem. Dá aos nossos pensamentos o tempo necessário para investigarem os recessos profundos da tua lei e não feches a porta àqueles que batem (cf Mt 7,7). Com razão quiseste que se escrevessem tantas páginas cheias de sombras e de mistérios, belas florestas onde os veados se refugiam e restauram as forças, onde passeiam e pastam, onde se deitam e ruminam. Ó Senhor, conduz-me ao termo e revela-me os seus segredos.

A tua palavra é toda a minha alegria, a tua palavra é mais doce que uma torrente de volúpias. Concede-me que Te ame, porque o amor é um dom teu. Não abandones os teus dons, não desdenhes deste talo de erva sedento. Que eu proclame tudo quanto descobrir nos teus livros; faz-me «ouvir a voz dos teus louvores» (Sl 25,7). Possa eu beber da tua palavra e considerar as maravilhas da tua lei (cf Sl 118,18), desde o instante em que criaste o céu e a terra até ao momento em que partilhar contigo o reino eterno na cidade santa.

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«Perscruta os mistérios invisíveis de Deus!»

Santo Agostinho de Hipona — Confissões X, 6

O céu e a terra e tudo o que neles existe de toda a parte me dizem que Te ame, e não cessam de o dizer a todos os homens, para que não tenham desculpa (cf Rm 1,20). Mas, a um nível mais profundo, terás misericórdia de quem quiseres ter misericórdia e usarás de misericórdia com quem quiseres usar de misericórdia (cf Rm 9,15), pois, caso contrário, o céu e a terra cantarão os teus louvores a ouvidos surdos. […]

Disse a todos os seres que rodeiam as portas da minha carne: «Falai-me do meu Deus, já que vós não o sois, dizei-me algo sobre Ele». E eles gritaram com voz forte: «Foi Ele mesmo que nos fez» (Sl 99,3). A minha pergunta era a minha atenção; a resposta deles, a sua beleza.

Mas será possível que esta beleza não seja manifesta a todos quantos têm integrais os seus sentidos? Porque não fala a mesma linguagem com todos? Na verdade, os animais, grandes e pequenos, veem-na, mas não a podem questionar, porque lhes falta esse juiz das mensagens dos sentidos que é a razão. Os homens, pelo contrário, podem fazer perguntas, para que os mistérios invisíveis de Deus se tornem inteligíveis para eles através dos seres criados (cf Rm 1,20).

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«Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração»

Santo Agostinho de Hipona — Confissões, X, 6

Não duvido, Senhor, na minha consciência tenho a certeza de que Te amo. Bateste ao meu coração com o teu Verbo e eu amei-Te. Mas o que é que amo quando Te amo? Não é a beleza do corpo, nem o encanto de um momento, nem o brilho da luz que agrada aos meus olhos terrenos, nem as doces melodias dos hinos de todas as modas, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes, dos aromas, nem maná nem o céu, nem os membros acolhedores dos abraços da carne. Não são estas as coisas que amo quando amo o meu Deus. E, no entanto, amo uma certa luz e uma certa voz, um certo perfume e um certo alimento e um certo abraço quando amo o meu Deus: luz, voz, perfume, alimento, abraço do homem interior que está em mim, onde brilha para a minha alma o que o espaço não alcança, onde ressoa aquilo que o tempo não capta, onde se exala uma fragrância que o vento não dispersa, onde se saboreia um prato que a voracidade não reduz, onde se dá um abraço que a saciedade não afrouxa. É isso que amo quando amo o meu Deus.

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«Cristo chama-nos a ver a luz que brilha sobre nós»

Santo Agostinho de Hipona — Confissões, VII, 10

Aconselhado pelas minhas leituras a debruçar-me sobre mim mesmo, entrei no fundo do meu coração, conduzido por Ti. Pude fazê-lo porque Tu és o meu apoio. Entrei em mim e vi, não sei com que olhos, mais alta do que o meu pensamento, uma luz imutável. Não era a luz habitual que os olhos do corpo apreendem, nem sequer uma luz do mesmo tipo mas mais poderosa, mais brilhante, que enchesse tudo com a sua imensidade. Não, não era isso, era uma luz diferente, muito diferente de tudo isso.

Também não estava acima do meu pensamento como o azeite fica por cima da água, ou como o céu se estende por cima da Terra. Estava acima porque foi ela que me criou, e eu por baixo porque sou obra sua. Para a conhecer, é preciso conhecer a verdade; e aquele que a conhece, conhece a eternidade; é a caridade que a conhece. Ó eterna verdade, verdadeira caridade, querida eternidade! Tu és o meu Deus, por Ti suspiro dia e noite.

Quando comecei a conhecer-Te, elevaste-me a Ti para me mostrares que me faltava compreender muitas coisas e era ainda incapaz de o fazer. Fizeste-me ver a fraqueza do meu olhar, lançando sobre mim o teu esplendor, e eu estremeci de amor e de espanto. Descobri que estava longe de Ti, na região da dissemelhança, e a tua voz vinha a mim como que das alturas: «Eu sou o pão dos fortes; cresce e comer-Me-ás. E não serás tu que Me transformarás em ti, como acontece com o alimento do corpo, mas tu é que serás transformado em Mim».

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«Cheios de assombro, diziam: ‘Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos ouçam e que os mudos falem’»

Santo Agostinho de Hipona — Discursos sobre os salmos, 4.º sobre o salmo 103, § 17

«Cantarei ao Senhor enquanto viver» (Sl 103,33).

O que cantará o salmista? Cantará tudo aquilo que Deus é. Cantemos a glória do Senhor durante toda a nossa vida. A nossa vida atual mais não é que uma esperança; a nossa vida futura será a eternidade. A vida desta vida mortal é a esperança da vida imortal: «Cantarei ao Senhor enquanto viver; louvarei o meu Deus enquanto existir» . E, porque viverei nele sem fim, enquanto viver cantarei ao meu Deus.

Não pensemos que, quando tivermos começado a cantar ao Senhor na cidade do Céu, quereremos fazer outra coisa; nessa altura, toda a nossa vida consistirá em cantar a glória de Deus. Se, neste mundo, o objeto dos nossos louvores nos aborrece, também os nossos cantos de louvor poderão aborrecer-nos. Se, porém, O amarmos eternamente, também eternamente O louvaremos: «Louvarei o meu Deus, enquanto existir» .

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«Jesus, afastando-Se com ele da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos»

Santo Agostinho de Hipona — Discursos sobre os salmos, Sl 103,5-6

«[O Senhor] cura todas as tuas enfermidades» (Sl 103,3). Não temas, todas as doenças serão curadas. Dirás que são grandes; mas o Médico é maior. Não há doenças incuráveis para um Médico omnipotente. Deixa que Ele te trate, não rejeites a sua mão; Ele sabe o que tem a fazer. Não te alegres apenas quando Ele age com suavidade, aceita-O quando corta. Aceita a dor do remédio, pensando na saúde que dela virá.

Vede, meus irmãos, tudo o que os homens suportam quando estão doentes para prolongarem a sua vida mais alguns dias. […] Ora, no teu caso, o resultado não é incerto: Aquele que te prometeu a saúde não Se pode enganar. Porque é que os médicos se enganam? Porque não foram eles que criaram o corpo que tratam. Mas foi Deus que fez o teu corpo e que fez a tua alma. Ele sabe recriar o que criou; sabe reformar o que formou. Só tens de te abandonar nas suas mãos de médico. […] Aceita, portanto, essas mãos e «bendiz, ó minha alma, o Senhor, e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades» (Sl 103,2-3).

Aquele que te concebeu para que nunca estivesses doente, se tivesses guardado os seus preceitos, não te curará ? Aquele que fez os anjos e que, ao recriar-te, te fará igual a eles, não te curará? Aquele que fez o Céu e a Terra, e te fez à sua imagem, não te curará? (cf Gn 1,26) Curar-te-á, sim, mas para isso tens de consentir em ser curado. Ele cura de modo perfeito todos os doentes, mas só se eles quiserem. […] A tua saúde é Cristo.

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“Quer que a tua oração chegue até Deus” coloque duas asas, o jejum e a esmola”.

Santo Agostinho de Hipona — PL 36, 400-401 Comentário aos Salmos

“Quer que a tua oração chegue até Deus” coloque duas asas, o jejum e a esmola”.

“Reparte o teu pão com o faminto” (Is 58,7), disse Isaías; não creias que seja suficiente o jejum. O jejum te mortifica, não socorre os outros. Serão frutuosas as tuas privações quando deres aos outros com abundância. Eis que hás defraudado a tua alma; a quem darás aquilo que tiraste a ti? Onde colocarás o que negaste a si mesmo? Quantos pobres poderiam ser saciados com o alimento que hoje interrompemos! O teu jejum deve ser este: enquanto um outro se alimenta, beneficia-te na oração pela qual serás atendido. De fato continua Isaías: “Enquanto falas, eu te direi: eis que estou aqui; reparte de bom ânimo o pão com o faminto”.

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«Dias virão em que o noivo lhes será tirado; nesses dias jejuarão»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 210, 5

Que «estejam cingidos os nossos rins e acesas as nossas lâmpadas»; sejamos semelhantes «aos homens que esperam o seu senhor ao voltar do seu noivado» (Lc 12,35). Não sejamos como aqueles ímpios que dizem: «Comamos e bebamos, que amanhã morreremos» (1Cor 15,32). Quanto mais incerto é o dia da nossa morte, mais dolorosas são as tribulações desta vida; e devemos jejuar e orar ainda mais, porque efetivamente morreremos amanhã: «dentro em pouco já Me não vereis e pouco depois voltareis a ver-Me» (Jo 16,16). Agora é o momento acerca do qual Ele disse: «Chorareis e lamentar-vos-eis; o mundo alegrar-se-á e vós estareis tristes» (v. 20); é a altura desta vida cheia de provações em que viajamos longe dele; «mas Eu hei de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (v. 22).

A esperança que nos dá Aquele que é fiel às suas promessas não nos deixa totalmente privados de alegria, até sermos repletos de júbilo transbordante, no dia em que formos «semelhantes a Ele porque O veremos como Ele é» (1Jo 3,2), e em que «ninguém nos poderá tirar a nossa alegria». […] «Uma mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer de ter vindo ao mundo um homem» (Jo 16,21). É esta a alegria que ninguém nos poderá tirar; dela ficaremos repletos quando passarmos da presente conceção da fé para a luz eterna. Jejuemos, pois, agora e oremos, porque nos encontramos nos dias do parto.

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Caridade, perdão e conversão

A perfeição da caridade

Santo Agostinho de Hipona — Comentário à primeira epístola de São João, tratado 5, 12

Irmãos e irmãs, vós conheceis a perfeição da caridade. O próprio Senhor nos revela no Evangelho o seu grau máximo e a maneira de a praticar: «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos» (Jo 15,13); e, na sua epístola, São João convida-nos a alcançar essa perfeição. Mas podeis perguntar-vos: quando seremos capazes de tal caridade? Não desespereis: a caridade pode já estar dentro de vós, ainda que imperfeita; cultivai-a, para que ela não seja sufocada. E como saberemos, podereis perguntar?

Diz-nos São João: «Se alguém possui bens deste mundo e, ao ver o seu irmão passar necessidade, lhe fecha o coração, como pode estar nele o amor de Deus?» (1Jo 3,17): é aqui que começa a caridade. Se ainda não fordes capaz de morrer pelos irmãos, sede ao menos capazes de lhes dar alguns dos vossos bens. E que seja a caridade a mover o vosso coração, para que não ajais por ostentação, mas por uma superabundância de misericórdia que brota de dentro de vós; que ela vos torne atentos à miséria dos vossos irmãos! Pois se não fordes capazes de dar ao vossos irmãos daquilo que vos sobra, como seríeis capazes dar a vossa vida por eles? […]

Se o amor do Pai não habitar em vós, não nascestes de Deus. Como podereis então vangloriar-vos de ser cristãos? Tereis o nome, mas não as obras. Mas, se as vossas obras forem conformes com o nome, mesmo que vos chamem pagãos, demonstrareis pelas vossas ações que sois cristãos. Pelo contrário, se não demonstrardes que sois cristãos pelas vossas ações, mesmo que todos vos tratem por cristãos, de que serve o nome onde não há a realidade? […] «Meus filhos, não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade» (1Jo 3,18).

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«Amar a Cristo no seu corpo»

Santo Agostinho de Hipona — «A caridade universal», Tr. in Ia Jn, X, 8-9

Se queres amar a Cristo, alarga o teu amor ao mundo inteiro, pois os membros de Cristo estão estendidos por todo o mundo. Se amares apenas uma parte deles, estarás separado; se estiveres separado, não estarás no corpo; e, se não estiveres no corpo, não estarás sujeito à cabeça.

De que serve crer e blasfemar? Adorá-lo na cabeça e blasfemar no corpo? Pois Ele ama o seu corpo; e, mesmo que tu te separes do seu corpo, a cabeça não se separará dele, e gritar-te-á do Céu: é em vão que me honras, é em vão que me honras. Como se alguém quisesse beijar-te o rosto, mas esmagando-te os pés, calcando-te com botas pesadas, ao mesmo tempo que te agarra a cabeça para a beijar. Não interromperias esse gesto gritando: «Que fazes, homem, estás a pisar-me»?

Assim, Nosso Senhor Jesus Cristo, antes de subir ao Céu, encomendou-nos o seu corpo, através do qual ia permanecer na Terra. Ele viu que muitos O honrariam na sua glória, mas que as suas honras seriam em vão, porque eles desprezariam os seus membros na Terra.

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«O publicano […] nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao céu»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 115, 2.

O fariseu dizia: «Meu Deus, dou graças a Ti por não ser como os outros homens». Quem são os outros homens? Não seriam todos, exceto ele? «Eu sou justo; os outros são pecadores. Eu não sou como os demais, que são injustos, ladrões e adúlteros». E eis que a simples presença de um publicano ao seu lado lhe dá ainda mais ocasião de se envaidecer. «Eu sou diferente; ele é como os outros. Eu não sou da mesma espécie, não sou pecador, pois pratico muitas obras justas: jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo o que possuo».

O que este homem pede a Deus? Buscai em suas palavras e nada encontrareis. Ele subiu ao Templo para orar, mas nada pede a Deus; apenas se vangloria. E, além disso, insulta aquele que, a seu lado, reza: é o cúmulo!

O publicano «ficou à distância», mas aproximou-se de Deus. O que sua consciência lhe censura o mantém longe, porém o amor o aproxima. O publicano permanece afastado, mas o Senhor Se aproxima para ouvi-lo. «O Senhor é excelso e olha para o humilde», mas «ao soberbo», como o fariseu, «conhece-o de longe» (Sl 138,6). O Senhor contempla de longe todo aquele que se exalta, sem contudo ignorá-lo.

Vede, por contraste, a humildade do publicano. Não apenas permanece à distância, mas nem sequer levanta os olhos ao céu: não ousa erguer o olhar para buscar um olhar; não ousa olhar para o alto, pois a consciência o humilha, embora a esperança o eleve. E o texto diz ainda: «Batia no peito». Ele pede um castigo, e Deus lhe concede perdão, porque confessa sua culpa. «Meu Deus, tem compaixão de mim, que sou pecador»: eis um homem que verdadeiramente ora, que pede!

Por que te admiras de que Deus ignore as faltas deste homem, quando ele próprio as reconhece? Ele faz de si mesmo o juiz, e Deus toma sua defesa; ele acusa a si mesmo, e Deus o justifica. «Eu vos digo» – fala a Verdade, fala Deus, fala o Juiz – «que este voltou para sua casa justificado, e o outro não». E por quê, Senhor? «Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado».

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«Ó DEUS, TEM PIEDADE DE MIM, QUE SOU PECADOR.»

Santo Agostinho de Hipona — Discursos sobre os salmos, Sl 85, 2-3

«Inclinai, Senhor, os vossos ouvidos, respondei-me» (Sl 85,1). O Senhor não inclina o ouvido para o rico, mas para o pobre e indigente, para o que é humilde e confessa as suas faltas, para o que implora misericórdia e não para o que se sente saciado, se engrandece, se autoelogia como se nada lhe faltasse e diz: «Dou-Te graças por não ser como este cobrador de impostos.» Enquanto este fariseu rico exaltava os seus méritos, o pobre publicano confessava seus pecados. […]

Todos os que recusam o orgulho são pobres perante Deus e sabemos que Ele inclina o seu ouvido para os pobres e para os indigentes; para os que reconhecem que a sua esperança não pode assentar no ouro, nem no dinheiro, nem nesses bens que se possuem em abundância, mas temporariamente. […] Quando alguém despreza em si mesmo tudo aquilo que o orgulho inflama é um pobre de Deus. Deus inclina para ele o seu ouvido, porque conhece os sofrimentos do seu coração […]

Aprendei, pois a ser pobres e indigentes, tendo ou não algum bem neste mundo. Pode encontrar-se um mendigo orgulhoso e um rico trespassado do sentimento da sua própria miséria. «Deus resiste aos orgulhosos», quer se cubram de seda ou de farrapos; «e concede a sua graça aos humildes» (Tg 4,6; Pr 3,34), possuam ou não bens deste mundo. Deus considera o interior: é isso que Ele pesa e examina; tu não vês a balança de Deus, mas Ele põe no prato da balança os teus sentimentos, os teus projetos, os teus pensamentos. […] Se ao teu redor ou em ti há alguma coisa que te leva à autossuficiência, rejeita-a. Que Deus seja toda a tua segurança. Sê um pobre de Deus, para que Ele te preencha de Si mesmo.

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«TAMBÉM EU NÃO TE CONDENO. VAI E DE AGORA EM DIANTE NÃO TORNES A PECAR.»

Santo Agostinho de Hipona — Sermões sobre o Evangelho de João, nº 33, 5-8

Naquele tempo, Jesus foi para o Monte das Oliveiras. Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o povo se aproximou d’Ele. Então sentou-Se e começou a ensinar. Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes e disseram a Jesus: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. Como persistiam em interrogá-l’O, Ele ergueu-Se e disse-lhes: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. Jesus ergueu-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Jesus acrescentou: «Também Eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar». (Jo 8,1-11)

«Foram saindo um a um.» Ficaram apenas dois, a miserável e a Misericórdia. Mas o Senhor, depois de os ter atingido com o traço da justiça, não quis assistir à sua queda; desviou deles o olhar e, «inclinando-Se para o chão, pôs-Se a escrever com o dedo na terra».

Tendo a mulher ficado sozinha, depois de todos terem partido Ele ergueu os olhos para ela. Ouvimos a voz da justiça, ouçamos também a da bondade. […] A mulher esperava ser punida por Aquele em quem não se podia encontrar pecado. Mas Ele, que havia afastado os seus inimigos com a voz da justiça, erguendo para ela os olhos da misericórdia, interrogou-a: «Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Ele disse-lhe: «Também Eu não te condenarei. Temeste ser condenada por Mim porque não encontraste pecado em Mim; mas Eu também não te condenarei.»

Como, Senhor? Então Tu favoreces os pecados? Não, é justamente o contrário. Repara no que se segue: «Vai e de agora em diante não tornes a pecar.» O Senhor condenou, portanto, mas foi o pecado que Ele condenou, não o pecador. […] Tenham pois atenção os que amam a bondade do Senhor, e temam a sua verdade. […] O Senhor é bom, o Senhor é lento na ira, o Senhor é misericordioso, mas o Senhor também é justo e o Senhor é cheio de verdade (Sl 85,15). Ele concede-te tempo para que te corrijas, mas tu preferes gozar esse adiamento a reformar-te. Pois bem, se ontem foste mau, sê bom hoje; se passaste este dia no mal, ao menos amanhã muda a tua conduta.

É portanto este o sentido destas palavras que Ele dirige a esta mulher: «Também Eu não te condenarei, mas, estando assegurada para o passado, tem cautela no futuro. Também Eu não te condenarei, apaguei o mal que cometeste; tu, observa o que prescrevi para obteres o que prometi.»

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«Pedir perdão e perdoar aos outros»

Santo Agostinho de Hipona — Comentário ao Salmo 60, 9.

«Todos os caminhos do Senhor são graça e verdade para os que guardam a sua aliança e os seus preceitos» (Sl 24,10). O que este salmo diz acerca do amor e da verdade é da maior importância. […] Fala do amor, porque Deus não olha aos nossos méritos, mas à sua bondade, a fim de nos perdoar os nossos pecados e nos prometer a vida eterna. E fala igualmente da verdade, porque Deus nunca falta às suas promessas. Reconheçamos este modelo divino e imitemos a Deus, que nos manifestou o seu amor e a sua verdade. […] Tal como Ele, realizemos neste mundo obras cheias de amor e de verdade. Sejamos bons para com os fracos, os pobres e mesmo para com os nossos inimigos.

Vivamos na verdade, evitando fazer o mal. Não multipliquemos pecados, porque aquele que presume da bondade de Deus está a permitir que nele se introduza a vontade de tornar Deus injusto. Imagina esse que, mesmo que se obstine nos seus pecados e se recuse a arrepender-se deles, Deus lhe há de conceder um lugar entre os seus fiéis servidores. Mas seria justo Deus colocar-te no mesmo lugar que aqueles que renunciaram aos seus pecados, quando tu perseveras nos teus? […] Porque pretendes, então, dobrá-Lo à tua vontade? Sê tu a submeter-te à sua.

A este propósito, diz justamente o salmista: «Quem procurará a misericórdia e a verdade do Senhor junto dele?» (Sl 60,8). […] E por que dirá «junto dele»? Porque são muitos os que procuram instruir-se acerca do amor do Senhor e da sua verdade nos livros sagrados. Porém, uma vez aí chegados, vivem para si próprios e não para Ele. Procuram os seus próprios interesses, e não os interesses de Jesus Cristo. Apregoam o amor e a verdade, mas não os praticam. Já aquele que ama a Deus e a Cristo, quando prega a verdade e o amor divinos, é para Deus que os procura, e não no seu próprio interesse. Não prega para daí retirar vantagens materiais, mas para o bem dos membros de Cristo, ou seja, dos seus fiéis. Distribui-lhes aquilo que aprendeu em espírito de verdade, de tal maneira que «os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou» (2Cor 5,15).

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A trave e o argueiro

Santo Agostinho de Hipona — Explicação do Sermão da Montanha , 19, 63

Nesta passagem, o Senhor previne-nos contra os juízos temerários e injustos, pois pretende que ajamos com um coração simples, olhando sempre só para Deus. Dado que ignoramos os motivos de muitas ações, seria temerário da nossa parte julgá-las. Os mais dispostos a fazer juízos temerários e a condenar os outros são aqueles que preferem condená-los a corrigi-los e conduzi-los ao bem, uma atitude que denota orgulho e mesquinhez. […] Por exemplo, um homem peca por cólera, e tu repreende-lo com ódio. Ora, entre a cólera e o ódio vai a mesma distância que separa a trave do argueiro. O ódio é uma cólera inveterada que, com o tempo, assumiu proporções tais que bem merece o nome de trave. Pode acontecer que te encolerizes quando pretendias corrigir, mas não deves nunca deixar-te levar pelo ódio. […] Afasta primeiro o ódio para longe de ti, e poderás depois corrigir aquele que amas.

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«São cegos a guiarem cegos»

Santo Agostinho de Hipona — Sermões sobre São João, nº 34

«Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará nas trevas» (Jo 8,12). De facto, o Senhor ilumina aqueles que estão cegos. Nós, irmãos, somos iluminados nesta vida pelo colírio da fé. O Senhor misturou saliva com terra para com ela ungir os olhos do cego de nascença (cf Jo 9,6). Também nós, filhos de Adão, somos cegos de nascença e precisamos que o Senhor nos ilumine. Ele mistura a sua saliva com terra: «E o Verbo fez-se homem, e veio habitar connosco» (Jo 1,14) […].

Havemos de O ver face a face; diz o apóstolo Paulo: «Agora vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face; agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido» (1Cor 13,12). E São João também diz na sua epístola: «Caríssimos, agora já somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. O que sabemos é que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é» (1Jo 3,2). Eis a promessa que te é feita; se amas, segue-O. Amo-O, dir-me-ás, mas por que caminho O hei de seguir? […] Perguntas pelo caminho que deves tomar? Escuta o Salvador: «Eu sou o caminho». Aonde vai dar este caminho? «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6) […]. Não te é dito: esforça-te por procurar o caminho que conduz à verdade e à vida; não, não é isso que te é dito, mas: levanta-te, pois o caminho em pessoa veio ao teu encontro; Ele despertar-te-á do teu sono, se ouvires a sua voz, que te diz: «Levanta-te e anda» (Mt 9,5).

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«Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 98

No Evangelho encontramos três mortos ressuscitados pelo Senhor de forma visível, e milhares de forma invisível. […] A filha do chefe da sinagoga (Mc 5,22ss), o filho da viúva de Naim e Lázaro (Jo 11) […] são símbolo dos três tipos de pecadores ainda hoje ressuscitados pelo Senhor. A menina ainda se encontrava em casa de seu pai […], o filho da viúva já não estava em casa de sua mãe, mas também ainda não estava no túmulo, […] e Lázaro já estava sepultado. […]

Assim, há pessoas com o pecado dentro do coração mas que ainda não o cometeram. […] Tendo consentido no pecado, ele habita-lhes a alma como morto, mas não saiu ainda para fora. Ora, acontece amiúde […] aos homens esta experiência interior: depois de terem escutado a palavra de Deus, parece-lhes que o Senhor lhes diz: «Levanta-te!» E, condenando o consentimento que dantes haviam dado ao mal, retomam fôlego para viver na salvação e na justiça. […] Outros, após aquele consentimento, partem para os atos, transportando assim o morto que traziam escondido no fundo do coração para o expor diante de todos. Deveremos desesperar deles? Não disse o Salvador ao jovem de Naim: «Eu te ordeno: Levanta-te!»? Não o devolveu a sua mãe? O mesmo acontece a quem atuou desse modo: tocado e comovido pela Palavra da Verdade, ressuscita à voz de Cristo e volta à vida. É certo que deu mais um passo na via do pecado, mas não pereceu para sempre.

Já aqueles que se embrenham nos maus hábitos, ao ponto de perderem a noção do próprio mal que cometem, procuram defender os seus maus atos e encolerizam-se quando alguém lhos censura. […] A esses, esmagados pelo peso do hábito de pecar, albergam as mortalhas e os túmulos […] e cada pedra colocada sobre o seu sepulcro mais não é do que a força tirânica desse mau uso que lhes oprime a alma e não lhes permite, nem levantar-se, nem respirar. […]

Por isso, irmãos caríssimos, façamos de tal modo que quem vive viva, e quem está morto volte à vida […] e faça penitência. […] Os que vivem conservem a vida, e os que estão mortos apressem-se a ressuscitar.

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«O cumprimento da Lei»

Santo Agostinho de Hipona — «O espírito e a letra», §§27-33

A graça permaneceu velada no Antigo Testamento, mas foi revelada no Evangelho de Cristo quando chegaram os tempos previstos por Deus para a revelação da sua bondade. […] Comparando estas duas épocas, notamos uma diferença profunda. No sopé do Sinai, o povo, tomado de pavor, não ousava aproximar-se do local onde Deus dava a sua lei (Ex 19); pelo contrário, no cenáculo, o Espírito Santo desceu sobre aqueles que estavam reunidos aguardando a realização da promessa (At 2). Ali, o dedo de Deus trabalhou em tábuas de pedra (Ex 31,18); aqui, no coração dos homens (Lc 11,20). […]

«A realização perfeita da lei é o amor» (cf Mt 5,17). Esse amor de caridade não estava escrito nas tábuas de pedra, mas «derramou-se nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rom 5,5). Portanto, a lei de Deus é a caridade (Rom 13,10). O desejo da carne não se submete à lei de Deus; nem sequer é capaz disso (cf Rom 8,17). Foi para reprimir o desejo da carne que as obras de caridade foram escritas nas tábuas de pedra; era a lei das obras, a letra que mata aqueles que praticam o mal. Mas, quando a caridade se espalhou no coração dos crentes, apareceu a lei da fé e o Espírito que dá a vida aos que amam.

Vede como a diferença entre essas duas leis se conjuga perfeitamente com as palavras do apóstolo Paulo: «É evidente que sois uma carta de Cristo, confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, que são os vossos corações» (2Cor 3,6.5). E tudo isso é admiravelmente confirmado pelo profeta Jeremias: «Dias virão em que firmarei uma nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá – oráculo do Senhor. Não será como a Aliança que estabeleci com seus pais. […] Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração» (Jer 31,31s).

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«Não vim revogar, mas completar»

Santo Agostinho de Hipona — Tratados sobre os salmos, 149

Irmãos, cantemos ao Senhor um cântico novo (cf Sl 149,1). Para o homem velho, o cântico velho; para o homem novo, um cântico novo. Antiga aliança, cântico antigo; nova aliança, cântico novo. As promessas da antiga aliança são sobretudo de ordem temporal e terrena. Os que continuam ligados às coisas da Terra cantam ainda o cântico antigo; para cantar o cântico novo, é preciso amar os bens eternos. Esse amor é ao mesmo tempo novo e eterno; é sempre novo, porque nunca envelhece.

Mas, se pensarmos bem, esse amor é antigo; como poderá então ser novo? Meus irmãos, a vida eterna terá nascido ontem? A vida eterna é Cristo e, enquanto Deus, Ele não nasceu ontem. Porque «no princípio era o Verbo […] e o Verbo estava em Deus; Ele estava no princípio com Deus. Tudo foi feito por Ele; sem Ele nada foi feito» (Jo 1,1s). Se fez as coisas antigas, Ele tem de ser eterno, coeterno com o Pai. Nós é que, pelo pecado, caímos no envelhecimento. […] O homem envelheceu em consequência do seu pecado; foi pela graça de Deus que foi renovado. E são os que foram assim renovados em Cristo que cantam um cântico novo, porque começam a estabelecer-se na vida eterna.

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Cristo, o Verbo, e o testemunho da fé

A Vida manifestou-Se na carne

Santo Agostinho de Hipona — Comentário sobre a primeira carta de João, 1,1

«O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos tocaram do Verbo da Vida – porque a Vida manifestou-Se» (1Jo 1,1). Houve quem tocasse com suas mãos o Verbo da Vida porque «o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós» (Jo 1,14). E este verbo que Se fez homem para ser tocado pelas nossas mãos começou por ser carne no seio da Virgem Maria. Mas não foi nesse momento que começou a ser o Verbo, porque já o era «no princípio», como diz São João. Vede como a sua carta confirma o seu evangelho, onde ouvistes ler: «No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus».

Talvez alguém entenda «Verbo da Vida» como uma fórmula para designar Cristo, e não precisamente o corpo de Cristo, que as mãos de alguns tocaram. Mas vede o seguimento: «A Vida manifestou-Se». Cristo era o Verbo da Vida. E como foi que Se manifestou esta vida? Porque, embora existisse desde o princípio, ela não Se manifestara aos homens; manifestara-Se aos anjos, que a viam e dela se alimentavam como de pão, como diz a Escritura: «Todos comeram o pão dos anjos» (Sl 77,25).

Portanto, a Vida manifestou-Se na carne; com a sua manifestação plena, uma realidade que apenas era visível pelo coração tornou-se visível também aos olhos, para sarar os corações. Porque só o coração vê o Verbo, a carne não O vê. Nós éramos capazes de ver a carne, mas não o Verbo. O Verbo fez-Se homem […] para sarar em nós o que nos torna capazes de ver o Verbo […]. «Nós damos testemunho dela, anunciando-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que Se manifestou a nós» (1Jo 1,2).

Nota editorial: As duas versões do mesmo comentário foram reunidas nesta seleção, sem repetição do excerto.

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«E procurava ver Jesus»

Santo Agostinho de Hipona — Sermões sobre a I Carta de São João, I, 3

Escreve São João: «Anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e que se manifestou a nós; o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos» (1Jo 1,2-3). Ouvi bem: «Anunciamos-vos o que vimos e ouvimos». Eles viram o próprio Senhor presente em carne, ouviram da boca do Senhor as suas palavras e as anunciaram a nós. E nós ouvimos, seguramente, mas não vimos. Seremos então menos felizes que os que viram e ouviram? Então, por que motivo acrescenta São João estas palavras: «Anunciamo-la também a vós, para que também estejais em comunhão conosco». Eles viram, mas nós não, e no entanto estamos em comunhão com eles, porque temos a mesma fé.

Ao discípulo que Lhe pediu para tocar a fim de crer […] o Senhor disse, para nos consolar, a nós que não podemos tocar-Lhe, mas podemos alcançar a Cristo pela fé: «Felizes os que creem sem terem visto!» (Jo 20,29). É de nós que Ele fala, é a nós que Ele designa. Que se cumpra então em nós esta bem-aventurança prometida pelo Senhor! Acreditemos com todas as nossas forças naquilo que não vemos; os que viram o anunciam, para que estejamos em comunhão com eles e tenhamos a «plenitude da alegria» (v. 4).

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«Enquanto o noivo está com eles»

Santo Agostinho de Hipona — Sermões sobre a primeira carta de São João, I, 2

São João escreve: «Nós vimo-lo e disso damos testemunho» (1Jo 1,2). Onde O viram eles? Na sua manifestação. Como foi a sua manifestação? Foi debaixo do Sol, ou seja, a esta luz visível. Mas poderíamos nós ver quem fez o Sol à luz do mesmo Sol se Ele não tivesse feito lá no alto, «uma tenda para o sol; é dali que ele sai, como um noivo do seu tálamo, e, qual herói, percorre alegre o seu caminho» (Sl 19,6)? Verdadeiro Criador, Ele é anterior ao Sol, precedeu a estrela da manhã, todos os astros e todos os anjos, porque «por meio dele todas as coisas surgiram, e sem Ele nem uma só coisa do que existe surgiu» (Jo 1,3). Querendo que O víssemos com os nossos olhos de carne que veem o Sol, montou a sua tenda debaixo do Sol, isto é, mostrou-Se na carne manifestando-Se a esta luz terrena, e o tálamo deste esposo foi o seio da Virgem.

Porque neste seio virginal uniram-se os dois, o esposo e a esposa, o Verbo esposo e a carne esposa, conforme está escrito: «Os dois serão uma só carne» (Gn 2,24); e o Senhor disse no Evangelho: «Portanto já não são dois, mas um só» (Mt 19,6). Isaías exprime melhor como esses dois se tornam um quando, falando em nome de Cristo, diz: «Como um noivo que enverga o diadema e como uma noiva que se adorna com as suas joias» (61,10); parecendo estar a falar de um único indivíduo, que apresenta alternadamente como esposo e como esposa. Não são dois, mas uma só carne, porque «o Verbo fez-Se carne: estabeleceu a tenda entre nós» (Jo 1,14). A Igreja une-se a esta carne e forma-se o Cristo total, cabeça e corpo (cf Ef 1,22-23).

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«Até quando nos vais trazer em suspenso?»

Santo Agostinho de Hipona — Sobre a Trindade I, 13, 30-31

Sendo igual ao Pai, o Filho de Deus não recebeu o poder de julgar, mas tem-no em comum com o Pai; e recebeu-o de modo que tanto os bons como os maus O vejam julgar, porque Ele é o Filho do homem. A visão do Filho do homem também será dada aos perversos, mas a visão da sua divindade será dada apenas aos puros de coração, porque estes verão a Deus (cf Mt 5,8). O que é a vida eterna senão esta visão, que será negada aos ímpios? «Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste» (Jo 17,3). Eles conhecerão o próprio Jesus Cristo como único Deus verdadeiro, que Se revelará a todos. Ele apresentar-Se-á cheio de bondade à vista dos corações puros. «Deus é bom para Israel, para os que têm um coração puro!» (Sl 72,1). Só Deus é bom.

Foi por isto que o jovem que chamou ao Senhor «bom mestre», pedindo-Lhe conselho para chegar à vida eterna, obteve esta resposta: «Porque Me interrogas sobre o que é bom? Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc 10,17-18). Este jovem não sabia a quem se dirigia e tomou-O por um simples filho de homem. […] «Este aspecto de que Me revisto é o aspecto do Filho do homem, aquele que foi assumido, aquele que aparecerá aquando do juízo final, tanto aos ímpios como aos justos. […] Mas há uma visão da minha condição divina; quando a tive, não prevaleci do facto de tal condição Me tornar igual a Deus, antes Me aniquilei a Mim mesmo para assumir a outra condição» (cf Fil 2,6-7). Por conseguinte Ele, o Deus único, Pai, Filho e Espírito Santo, aparecerá apenas para alegria permanente dos justos.

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Os milagres, a criação e o olhar da fé

Santo Agostinho de Hipona — Sermões sobre o evangelho de João, n.º 24, 1.6.7; CCL 36, 244

Os milagres realizados por Nosso Senhor Jesus Cristo são obras verdadeiramente divinas, que dispõem a inteligência humana para conhecer a Deus a partir do que é visível, pois os nossos olhos são incapazes de O ver, em consequência da sua natureza. Com efeito, os milagres que Deus opera para governar o Universo e organizar toda a sua criação, à força de se repetirem, perderam o seu valor e quase ninguém se dá ao trabalho de reparar que obra maravilhosa e surpreendente Ele opera numa qualquer sementinha.

É por isso que, na sua benevolência, Ele Se reserva a possibilidade de realizar, no momento escolhido, algumas ações fora do curso normal das coisas. É que aqueles que menosprezam as maravilhas de todos os dias ficam estupefactos à vista de obras que saem do normal e nem reparam nas outras. Na verdade, governar o Universo é um milagre maior do que saciar cinco mil homens com cinco pães! E contudo ninguém se espanta com isso. […] Com efeito, quem alimenta ainda hoje o Universo senão Aquele que cria grandes searas a partir de umas quantas sementinhas?

Cristo age, pois, em Deus. É pelo seu poder divino que faz sair abundantes colheitas de um pequeno número de sementes, e foi por esse mesmo poder que multiplicou os cinco pães. As mãos de Cristo estavam cheias de poder. Esses cinco pães eram como que sementes, que, mesmo não tendo sido lançadas à terra, foram multiplicadas por Aquele que fez o céu e a terra.

Esta obra foi-nos apresentada aos sentidos para nos elevar o espírito. […] Tornou-se-nos assim possível admirar «o Deus invisível, através das suas obras visíveis» (Rom 1,20). Depois de termos sido ensinados na fé e purificados por ela, podemos desejar ver, sem os olhos do corpo, o Ser invisível que conhecemos a partir do visível. […] Com efeito, Jesus fez este milagre para que ele fosse visto pelos que ali se encontravam, e eles puseram-no por escrito para que nós tomássemos conhecimento dele. O que os olhos fizeram para eles, fá-lo para nós a fé. De igual modo, reconhecemos na nossa alma o que os nossos olhos não puderam ver e recebemos um belo elogio, pois foi acerca de nós que Ele disse: «Felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20,29).

Nota editorial: O primeiro trecho apresenta os milagres da criação e da multiplicação dos pães; o segundo prossegue com a contemplação do invisível pela fé. A passagem repetida sobre sementes e pães aparece uma única vez.

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«Ainda não chegara a sua hora».

Santo Agostinho de Hipona — Sermão sobre São João, n.º 28

«Estava próxima a festa dos Tabernáculos. Disseram-Lhe, então, os seus irmãos: “Vai para a Judeia, para que os teus discípulos vejam as obras que fazes”. […] Jesus disse-lhes: “Para Mim, ainda não chegou o momento oportuno; mas para vós qualquer tempo é bom”» (Jo 7,2-6). […] Jesus responde assim aos que O aconselhavam a procurar a glória: «O tempo da minha glorificação ainda não chegou». Vejamos a profundidade deste pensamento: incitam-no a procurar a glória, mas Ele quer que a humilhação preceda a exaltação; quer que seja a humildade a abrir caminho à glória. Os discípulos que queriam sentar-se um à sua direita e o outro à sua esquerda (cf Mc 10,37) também procuravam a glória humana: viam apenas o fim do caminho, sem ter em consideração o percurso que os levaria até lá. O Senhor lembrou-lhes então a verdadeira estrada por onde deveriam chegar à pátria. A pátria é elevada, mas o caminho é humilde. A pátria é a vida de Cristo, o caminho a sua morte. A pátria é a morada de Cristo, o caminho a sua Paixão. […]

Tenhamos, portanto, retidão de coração; o tempo da nossa glória ainda não chegou. Ouçamos o que Ele diz aos que amam o mundo […]: «Para vós, qualquer tempo é bom, para nós o tempo ainda não chegou». Tenhamos a ousadia de dizê-lo. Nós, que somos o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, nós, que somos seus membros, nós, que temos a alegria de reconhecê-Lo como nosso mestre, repitamos as suas palavras, pois foi por nossa causa que Ele Se dignou dizê-las. Quando os que amam o mundo insultam a nossa fé, digamos-lhes: «Para vós, qualquer tempo é bom, para nós o tempo ainda não chegou». Com efeito, o apóstolo Paulo disse-nos: «Vós estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus». Quando chegará o nosso tempo? Quando Cristo, nossa vida, Se manifestar, então também nós nos manifestaremos com Ele na glória (cf Cl 3,3).

A nossa vida está escondida com Cristo em Deus. No inverno, pode-se dizer: esta árvore está morta – por exemplo uma figueira,

uma pereira ou qualquer outra árvore de fruto; pois durante todo o inverno parecem privadas de vida. Mas o verão serve de prova e permite-nos julgar se está viva. O nosso verão é a revelação de Cristo. Deus virá manifestamente, o nosso Deus não Se calará.

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«Tocar Cristo espiritualmente»

Santo Agostinho de Hipona — Sermões sobre o Evangelho de João, n.º 121, 3; PL 35,1955-1959

«Jesus disse-lhe: “Não Me detenhas, porque ainda não subi para o Pai”». Estas palavras contêm uma verdade que devemos examinar com muita atenção. Jesus ensina a fé a esta mulher, que O tinha reconhecido como mestre e Lhe dera esse título. O divino jardineiro semeou uma semente de mostarda no coração de Maria Madalena, como num jardim. […] Que significa pois: «Não Me detenhas, porque ainda não subi para o Pai»? […]

Com estas palavras, Jesus quis que a fé que temos nele, fé pela qual Lhe tocamos espiritualmente, chegue a ponto de acreditarmos que Ele e o Pai são um (cf Jo 10,30). Porque quem nele progride até reconhecer que é igual ao Pai, sobe de algum modo até ao Pai no segredo da sua alma; de outro modo, não tocamos Cristo como Ele quer, isto é, não temos nele a fé que Ele nos pede.

Maria podia acreditar nele pensando que não era igual ao Pai; mas Ele proíbe-lho com estas palavras: «Não Me detenhas», quer dizer: «Não acredites em Mim no entendimento em que te encontras ainda. Nem fiques a pensar no que Eu fiz por ti, sem pensares naquele por quem foste feita». De facto, ela acreditava ainda de modo totalmente humano naquele por quem chorava como homem. «Ainda não subi para o Pai»; «tocar-Me-ás quando acreditares que sou Deus, e que sou totalmente igual ao Pai»

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«Muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes»

Santo Agostinho de Hipona — Discursos sobre os Salmos, Sl 118, n.º 20

Diz o profeta num salmo: «Minha alma definha na tua salvação; espero na tua palavra» (118,81). […] Este anseio exprime a «raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus» (1Pe 2,9), cada um na sua época, em todos aqueles que viveram, que vivem e que viverão, desde o início da humanidade até ao fim do mundo. […] Por isso, o próprio Senhor disse aos seus discípulos: «Muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes»; são eles que falam neste salmo. […] Esse desejo nunca cessou nos santos e não cessa, mesmo agora, no «corpo de Cristo, que é a Igreja» (Col 1,18), até que venha «o Desejado de todas as nações» (Ag 2,8). […]

Os primeiros tempos da Igreja, antes do parto da Virgem, tiveram por conseguinte santos que desejavam a vinda de Cristo na carne; e o tempo em que estamos depois da sua ascensão tem outros santos que desejam a manifestação de Cristo para julgar os vivos e os mortos. Nunca, desde o início até ao fim dos tempos, este desejo da Igreja perdeu o seu ardor, a não ser quando o Senhor viveu na Terra, na companhia dos seus discípulos.

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No seu nome, hão-de esperar os povos

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 194; PL 38, 1016 (a partir da trad. do breviário)

Quem, pois, de entre os homens, conhece todos os tesouros de sabedoria e da ciência ocultos em Cristo, escondidos na pobreza da Sua carne? Porque Ele, «sendo rico, fez-se pobre por nós, para nos enriquecer com a Sua pobreza» (2Cor 8, 9). Como vinha para assumir a condição mortal e vencer a própria morte, apresentou-Se na Sua condição de pobre; mas Ele, que nos prometeu tesouros distantes, na verdade não perdeu aqueles dos quais Se afastou: «como é grande, Senhor, a bondade que reservas para os que Te são fiéis! Tu a concedes, à vista de todos, àqueles que em Ti confiam» [Sl 31 (30), 20]. […]

Para que O pudéssemos compreender, Aquele que é igual ao Pai, pois tem a natureza de Deus, tornou-Se semelhante a nós, tomando a natureza de servo, e recriando-nos à semelhança de Deus. Tornando-Se filho de homem, o Filho único de Deus torna os homens filhos de Deus. E, depois de ter alimentado os servos com a Sua natureza visível de servo, tornou-nos livres para que pudéssemos contemplar a natureza de Deus. Porque «já somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. O que sabemos é que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele porque O veremos tal como Ele é» (1Jo 3, 2). Com efeito, em que consistem os tesouros de sabedoria e de ciência, esses tesouros divinos? Só sabemos que nos satisfazem completamente. E esta super abundância da Sua bondade? Só sabemos que nos saciará.

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Igreja, comunhão e cidade de Deus

«Sede o que vedes, e recebei o que sois»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 272

O que vedes no altar de Deus é o pão e o cálice: é isso que os olhos identificam. Mas a vossa fé é instruída e sabe que este pão é o corpo de Cristo e este cálice é o seu sangue. […] Mas como pode este pão ser o seu corpo, e este cálice, ou melhor, o seu conteúdo, ser o seu sangue?

Irmãos, é a isto que se chama os sacramentos: eles mostram uma realidade e, a partir dela, fazem-nos compreender outra realidade. O que vemos é uma aparência corporal, mas o que compreendemos é um fruto espiritual. Se quereis compreender o que é o corpo de Cristo, escutai o apóstolo, que diz aos fiéis: «Vós sois o corpo de Cristo e cada um de vós é um membro desse corpo» (1Cor 12,27). Se sois corpo de Cristo e um dos seus membros, é o vosso mistério que está sobre a mesa do Senhor, e é o vosso mistério que recebeis. A isto que sois, respondeis: «Amem», e com tal resposta o subscreveis. O sacerdote diz-vos: «Corpo de Cristo», e vós respondeis: «Amem». Sede, pois, membros do corpo de Cristo, para que este amem seja verídico.

Porque está o corpo no pão? Também aqui, nada digamos por nós próprios, mas escutemos o apóstolo, que nos diz acerca deste sacramento: «Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão» (1Cor 10,17). Se compreenderdes estas palavras, tereis alegria: unidade, verdade, piedade, caridade! «Um único pão»: quem é este pão único? «Embora muitos, somos um só corpo»: recordai que o pão não se faz apenas com um grão, mas com muitos. Sede o que vedes, e recebei o que sois.

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O Corpo de Cristo, Templo Santo

Santo Agostinho de Hipona — Sermão sobre o salmo 130 §§ 1-2

«O Senhor expulsou-os a todos do templo». O Apóstolo Paulo disse: «O templo de Deus é santo, e esse templo sois vós» (1Cor 3, 17), quer dizer, todos vós que acreditais em Cristo e que credes ao ponto de O amar. […] Todos aqueles que assim crêem são as pedras vivas com as quais se edifica o templo de Deus (1Pe 2, 5); são como essa madeira imputrescível de que foi construída a arca que o dilúvio não pôde submergir (Gn 6, 14). Este templo, o povo de Deus, os próprios homens, é o local onde Deus nos concede o que Lhe pedimos. Àqueles que rezam a Deus fora deste templo não será concedida a paz da Jerusalém do alto, mesmo que lhes sejam concedidos certos bens materiais que Deus também concede aos pagãos. […] No entanto, ser atendido no que diz respeito à vida eterna é uma coisa totalmente diferente; isso não é concedido senão àqueles que oram no templo do Senhor.

Porque aquele que reza no templo de Deus reza na paz da Igreja, na unidade do Corpo de Cristo, porque o Corpo de Cristo é constituído pela multidão dos crentes distribuídos por toda a terra. […] E aquele que reza na paz da Igreja, ora «em espírito e verdade» (Jo 4, 23); o Templo antigo era apenas um símbolo. Com efeito, foi para nos instruir que o Senhor expulsou do Templo estes homens que não procuravam senão o seu próprio interesse, que só lá se dirigiam para comprar e para vender. Se esse Templo antigo teve de passar por essa purificação, é evidente que também o Corpo de Cristo, o verdadeiro Templo, tem compradores e vendedores misturados com aqueles que rezam, quer dizer, homens que só procuram «os próprios interesses, não os interesses de Jesus Cristo» (Fil 2, 21). […] Tempos virão em que o Senhor expulsará todos os seus pecados.

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«Todo o povo ficava maravilhado quando O ouvia»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão sobre o Salmo 130, § 3

Rezamos no templo de Deus quando rezamos na paz da Igreja, na unidade do corpo de Cristo, porque o corpo de Cristo é constituído pela multidão dos crentes espalhados por toda a Terra. […] Para sermos atendidos, é neste templo que temos de rezar, «em espírito e verdade» (Jo 4,23), e não no Templo material de Jerusalém. Este era «uma sombra das coisas que hão de vir» (Col 2,17), e por isso caiu em ruínas. […] Este Templo que caiu não podia ser a casa de oração da qual foi dito: «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos» (Mc 11,17; Is 56,7).

Terão sido os que a transformaram num «covil de ladrões» realmente os causadores da sua queda? Assim também, os que levam na Igreja uma vida de desordem, os que procuram fazer da casa de Deus um covil de ladrões, não poderão destruir este templo. Mas virá o tempo em que serão expulsos pelo chicote dos seus pecados. A assembleia dos fiéis, templo de Deus e corpo de Cristo, tem uma só voz e canta como um só homem. […] Se quisermos, essa voz será a nossa; se quisermos, ao escutar este cântico, também nós o entoaremos no nosso coração.

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«Maria, Mãe de Cristo, mãe da Igreja»

Santo Agostinho de Hipona — Sobre a santa virgindade

Aquele que é o fruto de uma Virgem santa é a glória e a honra de todas as outras santas virgens; porque elas próprias serão, como Maria, mães de Cristo, se fizerem a vontade de seu Pai. A glória e a felicidade de Maria como Mãe de Jesus Cristo exprimem-se sobretudo naquelas palavras do Senhor: «Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mt 12,50).

Ele indica assim o parentesco espiritual que O liga ao povo que resgatou: os seus irmãos e as suas irmãs são os homens santos e as mulheres santas que tomam parte com Ele na herança celeste; a sua mãe é toda a Igreja, porque é ela que, pela graça de Deus, gera os membros de Jesus Cristo, isto é, aqueles que Lhe são fiéis. A sua mãe é também qualquer alma santa que faz a vontade do Pai e cuja caridade fecunda se manifesta naqueles que gera para Ele, até que Ele mesmo neles seja formado (cf Gal 4,19).

Maria é certamente a Mãe dos membros do corpo de Cristo, isto é, nós próprios, porque, pela sua caridade, cooperou para gerar na Igreja os fiéis que são os membros desse Mestre divino de quem Ela é verdadeiramente mãe segundo a carne.

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«Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz!»

Santo Agostinho de Hipona — Comentários aos Salmos, salmo 121, n.º 12

«Haja paz dentro dos teus muros» (Sl 121,7). «Jerusalém, cidade bem edificada, que forma tão belo conjunto!» (v.3), haja paz na tua força e na tua caridade! Porque a tua força é a tua caridade. Ouve o que diz o Cântico dos Cânticos: «Forte como a morte é o amor» (8,6). Irmãos, que palavras admiráveis! […] Quem poderá resistir à morte, irmãos? Resiste a vossa caridade. Resistimos às chamas, às vagas, aos ferros, aos tiranos e aos reis, mas à morte, quem poderá resistir-lhe? Nada pode mais do que ela. Apenas o amor pode igualar a sua força; por isso, dizemos que é tão forte como a morte, porque o amor mata o que nós éramos para fazer surgir o que ainda não éramos, operando em nós uma espécie de morte; a mesma morte de que morreu São Paulo, ao dizer: «O mundo está crucificado para mim e eu para o mundo» (Gal 6,14) ou de que morreram aqueles a quem ele dizia: «Vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus» (Col 3,3).

Forte como a morte é o amor. […] Que a paz esteja na tua força, Jerusalém, que a paz esteja no teu amor. E com esta força, com este amor, com esta paz, que haja «tranquilidade em teus palácios» (Sl 121,7). […] Profusão de regalos, pasto de riquezas, eis o Deus uno; eis Aquele com quem se mantêm em união todos os habitantes desta cidade. Ele será a nossa abundância na cidade de Jerusalém.

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«Eis que subimos a Jerusalém»

Santo Agostinho de Hipona — Dissertações sobre os Salmos, Sl 121

Nos «salmos de subida», o salmista aspira a Jerusalém e diz que quer subir. Subir para onde? Desejará ele alcançar o sol, a lua, as estrelas? Não. Deseja subir ao céu, onde se encontra a Jerusalém eterna, e onde vivem os anjos, nossos concidadãos (Heb 12,22). Aqui na terra, estamos exilados, longe deles. Ainda a caminho, neste exílio, suspiramos; ao chegar à cidade, estremeceremos de alegria.

Durante a viagem, encontramos companheiros que já viram essa cidade e que nos encorajam a correr para ela. Eles inspiraram ao salmista uma exclamação de alegria: «Que alegria quando me disseram: vamos para a casa do Senhor!» (Sl 122,1). […] Iremos para a casa do Senhor: corramos pois, corramos, pois chegaremos à casa do Senhor. Corramos sem nos cansar; lá, não haverá cansaço. Corramos para a casa do Senhor e estremeçamos de alegria com aqueles que nos chamaram e que primeiro contemplaram a nossa pátria. Eles gritam de longe aos que os seguem: «Vamos para a casa do Senhor; caminhai, correi!» Os apóstolos viram essa casa e chamam-nos: «Caminhai, correi, segui-nos! Vamos para a casa do Senhor!»

E o que responde cada um de nós? «Que alegria quando me disseram: vamos para a casa do Senhor!». Regozijei-me com os profetas, regozijei-me com os apóstolos, pois todos eles nos dizem: «Vamos para a casa do Senhor».

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«Ao ver a cidade, chorou sobre ela»

Santo Agostinho de Hipona — A Cidade de Deus

Dois amores construíram duas cidades: o amor de si próprio até ao desprezo de Deus fez a cidade terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si próprio, a cidade celeste. Uma gloria-se a si própria; a outra ao Senhor. Uma procura a glória que vem dos homens (cf Jo 5,44); a outra coloca toda a sua glória em Deus, testemunha da sua consciência. Uma, inchada de vanglória, levanta a cabeça; a outra diz ao seu Deus: «Tu és a minha glória e aquele que me faz levantar a cabeça» (Sl 3,4). Numa, os príncipes são dominados pela paixão de dominar os seus súbditos ou as nações conquistadas; na outra, todos se fazem servidores do próximo na caridade, os chefes velando pelo bem dos subordinados e estes obedecendo àqueles. A primeira cidade, na pessoa dos poderosos, admira a sua força; a outra diz ao seu Deus: «Amar-Te-ei a Ti, Senhor, que és a minha força».

É por isso que, na primeira cidade, os sábios levam uma vida totalmente humana, procurando apenas o bem do corpo ou do espírito, ou dos dois ao mesmo tempo: «Pois, tendo conhecido a Deus, não O glorificaram nem Lhe deram graças, como a Deus é devido. Pelo contrário: tornaram-se vazios nos seus pensamentos e obscureceu-se o seu coração insensato; […] veneraram as criaturas e prestaram-lhes culto, em vez de o fazerem ao Criador» (Rom 1,21-25). Na cidade de Deus, pelo contrário, toda a sabedoria do homem se encontra na piedade, pois somente ela presta ao Deus verdadeiro um culto legítimo e, na sociedade dos santos, tanto os anjos como os homens esperam como recompensa que «Deus seja tudo em todos» (1Cor 15,28).

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«O meu reino não é deste mundo»

Santo Agostinho de Hipona — «Homilias sobre São João»

Escutai todos, judeus e gentios […]; escutai, todos os reinos da Terra! Eu não impeço o vosso domínio sobre este mundo, «o meu reino não é deste mundo». Não temais, pois, com esse medo insensato que dominou Herodes quando lhe anunciaram o meu nascimento. […] Não, diz o Salvador, «o meu reino não é deste mundo».

Vinde todos a um reino que não é deste mundo; vinde a ele pela fé; que o medo não vos torne cruéis. É verdade que, numa profecia, o Filho de Deus diz, falando do Pai: «Por Ele, fui eleito rei sobre Sião, sobre a montanha sagrada» (Sl 2,6). Mas essa Sião e essa montanha não são deste mundo.

Com efeito, o que é o seu reino? São os que acreditam nele, aqueles a quem Ele diz: vós não sois do mundo, tal como Eu não sou do mundo (cf Jo 17,16). E, contudo, Ele quer que estejam no mundo e diz ao Pai: «Não Te peço que os retires do mundo, mas que os guardes do mal» (Jo 17,15). É que Ele não disse: «O meu reino não está neste mundo», mas sim «não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue».

Na verdade, o seu reino está aqui na Terra até ao fim do mundo; até à colheita, o joio está misturado com o trigo (cf Mt 13,24s). […] O seu reino não é deste mundo porque Ele é como um viajante neste mundo. Àqueles sobre quem reina, diz: «Não sois do mundo, pois escolhi-vos do meio do mundo» (Jo 15,19). Eles eram, portanto, deste mundo, quando ainda não eram do seu reino, mas pertenciam ao príncipe deste mundo. […] Todos os que são gerados da raça de Adão pecador pertencem a este mundo; todos os que foram regenerados em Jesus Cristo pertencem ao seu reino e já não são deste mundo. Pois «Deus arrancou-nos efetivamente do poder das trevas e transportou-nos para o reino de seu Filho muito amado» (Col 1,13).

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«Ama e verás o teu Deus!»

Santo Agostinho de Hipona — Tratado sobre Jo 17,8

O próprio Senhor veio, mestre de caridade, cheio de caridade. […] Refleti comigo, irmãos, sobre a natureza destes dois preceitos. Eles devem ser-nos muito conhecidos, não nos vindo à mente só quando os recordamos, mas nunca desaparecendo do nosso coração: é esse o nosso dever.

Lembrai-vos sempre de que devemos amar a Deus e ao nosso próximo. A Deus com todo o coração, toda a alma e todo o entendimento; e ao próximo como a nós mesmos. […] O amor a Deus é o primeiro na ordem dos preceitos, mas o amor ao próximo é o primeiro na ordem da execução. De facto, aquele que nos ordenou este amor em dois preceitos não podia ordenar-nos que amássemos primeiro o próximo e depois a Deus, mas a Deus e ao próximo.

Mas, como ainda não vemos a Deus, é amando o próximo que merecemos vê-lo; amando o próximo, purificamos o olhar para ver a Deus. Para João, isto é uma evidência: «quem não ama o seu irmão, que vê, não pode amar a Deus, que não vê» (1Jo 4,20). Se me disseres: mostra-me aquele que queres que eu ame, responder-te-ei o que diz o mesmo João: «ninguém jamais viu a Deus» (Jo 1,18). Mas não penses que és um estranho à visão de Deus: «Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus» (1Jo 4,16).

Amai, pois, o próximo e considerai a fonte deste amor ao próximo que há em vós; aí, na medida do possível, vereis a Deus […]. «Então, a vossa luz despontará como a luz da manhã» (Is 58,8). A nossa luz é o nosso Deus, para nós luz da manhã, porque sucederá à noite deste mundo; com efeito, Ele não se levanta nem se põe, porque permanece para sempre.

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João Batista, voz e testemunha

João Batista, o precursor, e o silêncio de Zacarias

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 293, para a natividade de João Batista, excertos; PL 38, 1327.

Como será a glória do juiz, se a glória do arauto é tão grande? Como será aquele que deve vir como caminho (cf Jo 14,6), se o que prepara o caminho (cf Lc 3,6) já é assim? […] A Igreja considera o nascimento de João especialmente sagrado; não celebramos de forma solene o nascimento de nenhum dos santos que nos precederam, mas apenas os de João e de Cristo. […] João nasce de uma mulher velha e estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem. A idade dos pais não favorecia o nascimento de João; o nascimento de Cristo deu-se sem a união dos sexos. Um é anunciado por um anjo; o outro é concebido à voz de um anjo. […] O nascimento de João é recebido com incredulidade e seu pai fica mudo; Maria acredita no de Cristo e concebe-O pela fé. […]

João aparece, pois, como uma fronteira colocada entre os dois Testamentos, o antigo e o novo. É o próprio Senhor quem atesta que ele forma essa espécie de fronteira quando diz: «A Lei e os profetas subsistiram até João» (Lc 16,16). João representa assim tanto o que é antigo como o que é novo. Porque representa o que é antigo, nasce de dois anciãos; porque representa os tempos novos, revela-se como profeta desde o seio de sua mãe (cf Lc 1,41). […] Ele aparece como o precursor de Cristo antes mesmo de se verem. Estas coisas são divinas e ultrapassam as capacidades da fraqueza humana.

Por fim, o seu nascimento acontece, ele recebe o nome que lhe fora dado e a língua de seu pai solta-se. Temos de entrever o seu simbolismo profundo de todos estes acontecimentos.

Se não formos capazes de perscrutar toda a profundeza de tão grande mistério por falta de capacidade ou de tempo, melhor no-lo ensinará Aquele que fala dentro de nós, mesmo estando nós ausentes, Aquele em quem pensamos com amor filial, que recebemos no nosso coração e de quem nos tornámos templos. […]

Zacarias cala-se e perde a fala até ao nascimento de João, precursor do Senhor, que lhe devolve a fala. O silêncio de Zacarias significa que a profecia desapareceu e que, antes do anúncio de Cristo, está como que escondida e fechada, abrindo-se ao seu advento, tornando-se clara para a chegada daquele que estava profetizado. A fala devolvida a Zacarias aquando do nascimento de João corresponde ao véu rasgado aquando da morte de Jesus na cruz (cf Mt 27,51). Se João se tivesse anunciado a si mesmo, a boca de Zacarias não se teria reaberto.

A fala é-lhe devolvida por causa do nascimento daquele que é a voz. Com efeito, perguntaram a João, que já anunciava o Senhor: «Tu, quem és?» E ele respondeu: «Eu sou a voz que clama no deserto» (Jo 1,22-23). A voz é João, enquanto o Senhor é a Palavra: «No princípio era o Verbo» (Jo 1,1). João é a voz durante algum tempo; Cristo é o Verbo no princípio, Ele é o Verbo eterno.

Nota editorial: A reflexão sobre o nascimento do precursor e a explicação do silêncio de Zacarias foram reunidas, preservando as passagens complementares e omitindo as versões repetidas.

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«Ele irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias» (Lc 1,17)

Santo Agostinho de Hipona — Sermões sobre o Evangelho de São João

«”Porque dizem os escribas que Elias tem de vir primeiro?”. Jesus respondeu-lhes: “[…] Elias já veio; mas, em vez de o reconhecerem, fizeram-lhe tudo o que quiseram […]”. Então, os discípulos compreenderam que Jesus lhes falava de João Batista». No entanto, quando é interrogado, João declara que não é Elias nem é o Messias (cf Jo 1,20-21). […] Porque afirma ele que não é Elias, quando o Senhor diz aos seus discípulos que é? Nosso Senhor queria falar simbolicamente da sua vinda gloriosa, e dizer que João viera no espírito de Elias. O que João foi para a primeira vinda, Elias será para a segunda. Há dois adventos para o Juiz; e também há dois precursores. O Juiz é o mesmo nos dois adventos, mas há dois precursores. […] O Juiz tinha de vir primeiro, para ser julgado; mandou adiante de Si um primeiro precursor, e chamou-lhe Elias, pois Elias será para o segundo advento aquilo que João foi para o primeiro.

Considerai, irmãos bem-amados, quanto esta explicação está fundada na verdade. Quando João foi concebido […], o Espírito Santo fez o seguinte vaticínio: «Ele irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias» (Lc 1,17). […] Quem poderá entender estas coisas? Aquele que tiver imitado a humildade do precursor e conhecido a majestade do Juiz. Ninguém foi mais humilde que este santo precursor e essa humildade de João é o seu maior mérito; ele, que podia ter enganado os homens fazendo-se passar por Cristo, que podia ter sido visto como Cristo, tão grandes eram a sua graça e a sua virtude, declara abertamente: «”Eu não sou o Messias”. […] “És Elias?” “Não sou”» (Jo 1,20-21).

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«Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo 3,30)

Santo Agostinho de Hipona — Sermão 289, 3.º para a Natividade de João Batista

O maior dos homens foi enviado para dar testemunho daquele que era mais que um homem. Com efeito, quando aquele que «é o maior de entre os nascidos de mulher» (cf Mt 11,11) diz: «Eu não sou o Messias» (Jo 1,20) e se humilha face a Cristo, temos de entender que Cristo não é apenas um homem. […] «Sim, todos nós participamos da sua plenitude, recebendo graça sobre graça» (Jo 1,16). Que quer dizer «todos nós»? Quer dizer os patriarcas, os profetas e os santos apóstolos, aqueles que precederam a encarnação ou que foram enviados depois pelo próprio Verbo encarnado, «todos nós participamos da sua plenitude». Nós somos recipientes, ele é a fonte. Portanto […], João é homem, Cristo é Deus: é preciso que o homem se humilhe, para que Deus seja exaltado.

Foi para ensinar o homem a humilhar-se que João nasceu no dia a partir do qual os dias começam a diminuir; para nos mostrar que Deus deve ser exaltado, Jesus Cristo nasceu no dia em que os dias começam a crescer. Há aqui um ensinamento profundamente misterioso. Nós celebramos a natividade de João como celebramos a de Cristo, porque essa natividade está cheia de mistério. De que mistério? Do mistério da nossa grandeza. Diminuamo-nos em nós próprios para podermos crescer em Deus; humilhemo-nos na nossa baixeza, para sermos exaltados na sua grandeza.

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«Quem virá a ser este menino?»

Santo Agostinho de Hipona — Sermão para o nascimento de João Batista; PLS 2, 497

Que maravilha! O mensageiro nasce antes daquele que o fez vir ao mundo. João é realmente a voz e Jesus o Verbo, a Palavra de Deus (cf Mt 3,3; Jo 1,1). […] A palavra nasce primeiro no espírito, e depois suscita a voz que a enuncia; a voz exprime-se pelos lábios e dá a conhecer a palavra aos que a escutam. Assim, Cristo permaneceu em seu Pai, por quem João foi criado, como todas as coisas, mas João nasceu de uma mãe e deu Cristo a conhecer a todos os homens. Ele era o Verbo que existia desde o princípio, antes que o mundo existisse; João foi a voz que precedeu a vinda do Verbo. A palavra nasce do pensamento; a voz sai do silêncio.

Ao gerar Cristo, Maria crê; ao passo que Zacarias, antes de gerar João, é castigado com a mudez. Um sai duma juventude em flor, o outro nasce duma mulher velha, enfraquecida. A Palavra habita o coração daquele que pensa; a voz expira no ouvido daquele que escuta. E talvez seja esse o sentido destas palavras de João: «Ele é que deve crescer e eu diminuir» (Jo 3,30). Pois as predições da Lei e dos profetas, surgidas antes de Cristo, qual voz antes do Verbo, continuaram até João, no qual cessam as últimas prefigurações. Seguidamente, a graça do Evangelho e o anúncio de um Reino dos Céus que não terá fim dão fruto e crescem em toda a terra.

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Sermões atribuídos a Agostinho

«Manda-me ir ter contigo sobre as águas»

Sermão atribuído a Santo Agostinho de Hipona — Sermão atribuído, Apêndice nº 192; PL 39, 2100

Quando Pedro, cheio de audácia, avança sobre o mar, os seus passos vacilam, mas o seu amor reforça-se […]; afundam-se-lhe os pés, mas ele agarra-se à mão de Cristo. Quando sente as ondas abrirem-se, apoia-se na fé; perturbado pela tempestade, tranquiliza-se no seu amor pelo Salvador. Pedro anda sobre o mar mais levado pelo amor que pelos pés. […] Não vê por onde caminha; vê apenas o vestígio dos passos daquele que ama. Do barco, onde estava seguro, viu o Mestre e, guiado pelo amor que Lhe tem, entra no mar. Já não vê o mar, mas apenas Jesus.

Quando, porém, sente a força do vento, aturdido pela tempestade, o temor começa a encobrir-lhe a fé […] e a água abre-se-lhe sob os passos. Enfraquecendo a fé, a água enfraquece como ela. Então, Pedro grita: «Salva-me, Senhor!». Imediatamente, Jesus estende a mão e, segurando-o, diz-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste? Tens tão pouca fé, que não pudeste continuar e chegar até Mim? Porque não tiveste a fé necessária para chegar ao fim? Fica doravante a saber que só esta fé pode sustentar-te sobre as ondas». […]

Pedro duvida um momento, está prestes a perecer, mas salva-se invocando o Senhor. […] Também este mundo é um mar onde o demónio agita as águas e as tentações multiplicam os naufrágios; só poderemos salvar-nos gritando pelo Salvador, que estenderá a mão para nos agarrar. Por conseguinte, invoquemo-lo incessantemente.

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«Vós inflamastes no fogo da caridade o bem-aventurado São Lourenço» (Coleta da Missa)

Sermão atribuído a Santo Agostinho de Hipona — Sermão 206 (atrib.)

O exemplo de São Lourenço encoraja-nos a dar a vida, ilumina a fé, atrai a devoção. Não são as chamas da fogueira, mas as chamas de uma fé viva que nos consomem. Não foi o nosso corpo que foi queimado pela causa de Jesus Cristo, mas é a nossa alma que é transportada pelos ardores do seu amor […], o nosso coração que arde de amor por Jesus. Pois não foi o próprio Salvador que disse, acerca deste fogo sagrado: «Vim trazer fogo à terra; e que quero Eu senão que ele já se tenha ateado» (Lc 12,49)? Cléofas e o companheiro experimentaram os seus efeitos quando diziam: «Não estava o nosso coração a arder cá dentro, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Lc 24,32).

Foi também graças a este incêndio interior que São Lourenço permaneceu insensível às chamas do martírio: ardendo em desejos de estar com Jesus, ele não sentia a tortura. Quanto mais crescia nele o ardor da fé, menos sofria. […] A força do braseiro divino que tinha no coração acalmava as chamas do braseiro ateado pelo carrasco.

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Fontes e critérios da seleção

As traduções portuguesas provêm dos textos do acervo Sophia e dos fragmentos entregues à edição. O acervo indica principalmente Evangelho Cotidiano ou Evangelho Quotidiano como fonte. Esta organização não constitui uma nova tradução.

PL designa Patrologia Latina; PLS, seu suplemento; CCL, Corpus Christianorum Series Latina. A numeração de obras, sermões e salmos foi conservada conforme as fontes, com as correções de identificação assinaladas a seguir. Referências sem número de capítulo no acervo permanecem sem esse detalhamento.

Os sinais […] e […] indicam omissões presentes nos excertos. Os títulos são guias de leitura. Passagens distintas da mesma obra não constituem, por si só, duplicatas. Os mapas das publicações anteriores são mantidos no registro editorial interno, sem vínculos públicos para posts individuais.

A passagem sobre o publicano foi identificada como Sermão 115,2, e a reflexão sobre perdão como Comentário ao Salmo 60,9. A oração «Dá-me a força de Te procurar!» pertence a Sobre a Trindade XV,28,51. A seleção sobre Emaús corresponde ao Sermão 235,1–3; foi retirada uma indicação de colunas da PL que não correspondia a esse sermão.

Obras consultadas para o cotejo das passagens e das referências:

Organização editorial preparada em 14 de outubro de 2026.

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