Esta antologia reúne comentários bíblicos e ensinamentos espirituais de Santo Ambrósio de Milão. A luz de Cristo nas Escrituras, a misericórdia que procura o pecador, a vida nova do Batismo, a oração, a caridade e a esperança da ressurreição orientam a leitura.
Versões equivalentes foram cotejadas e reunidas; passagens complementares foram aproximadas sem apagar sua referência. O texto de Sophia.docx sobre a mão curada pelas boas obras foi preservado integralmente. As citações e referências corrigidas são assinaladas nas notas.
Sumário
- A luz de Cristo e a leitura da Escritura
- Beber Cristo nos dois Testamentos
- Encher o coração pela leitura e irrigar os outros
- Abrir a porta à luz que não conhece ocaso
- O Sol de justiça se levanta para todos
- O mesmo Cristo, Servo e Senhor
- O Criador renova o homem e cumpre a Lei
- Abraão crê na promessa e contempla Cristo
- As obras e a cruz testemunham o Salvador
- Ver a Deus com um coração puro
- As vestes do Verbo resplandecem na montanha
- A voz do Pai revela a glória do Filho
- O Médico e o Pastor que procuram o pecador
- Vinde, Senhor Jesus, buscar a ovelha cansada
- O Pastor, a Igreja e o Pai acolhem o que se perdera
- Levantar-se e correr ao encontro do Pai
- Corrigir com mansidão e carregar a fraqueza alheia
- Mostrar ao Médico a ferida e lavar-lhe os pés
- O olhar de Jesus e as lágrimas de Pedro
- A misericórdia diante da mulher acusada
- A fé que intercede e a cura do homem inteiro
- Seguir Cristo pela mudança do coração
- Levi encontra o Médico que cura suas feridas
- A Igreja chora pelos filhos e os chama à vida
- A mão da Sabedoria levanta a menina
- O Batismo, o Espírito e a vida nova
- A oração e a presença do Senhor
- Subir à montanha pela oração
- Cristo passa a noite em oração por nós
- A fé é a porta pela qual o Esposo entra
- Preparar a alma e perseverar na busca do Verbo
- Maria se volta e reconhece o Mestre
- Marta e Maria: serviço e escuta da Sabedoria
- Descansar em Deus e contemplar suas delícias
- O jejum alimenta o espírito
- A fé que se torna serviço e caridade
- Estender a mão nas boas obras
- Acolher o estrangeiro é receber a Deus
- A fé hospitaleira da viúva de Sarepta
- A grandeza do dom da viúva pobre
- Guardar os bens ou adquirir o tesouro do céu
- Administrar as riquezas sem servir ao dinheiro
- Zaqueu: generosidade e reparação da injustiça
- A misericórdia purifica o interior
- O Samaritano que cuida das nossas feridas
- Pobreza de espírito, mansidão e lágrimas
- Lourenço reconhece nos pobres o tesouro da Igreja
- Ser testemunha de Cristo nas lutas de cada dia
- A Igreja, a missão e a esperança da ressurreição
- O Senhor quer a casa cheia
- Maria sobe apressadamente para servir
- Que em todos viva a alma de Maria
- O pão da Palavra sustenta os que caminham
- À palavra do Senhor, lançar de novo as redes
- Os apóstolos semeiam a fé; Cristo assume a traição
- Semear a fé com humildade e paciência
- Amar os familiares e preferir Deus
- Um só corpo, uma só fé, um Reino indivisível
- A vinha da Igreja cresce na cruz
- A fé como grão de mostarda
- Semear Cristo no jardim da alma
- Repousar à sombra da árvore que é Cristo
- A provação manifesta a força da virtude
- As lágrimas do afeto e a esperança cristã
- Nossos mortos nos precederam na eternidade
- Cristo, primícias dos que adormeceram
- Que Cristo venha à nossa alma
- Caminhar para a assembleia dos santos
- Fontes e critérios
A luz de Cristo e a leitura da Escritura
Beber Cristo nos dois Testamentos
Santo Ambrósio de Milão — Comentário do Salmo 1, 33
Bebe primeiro do Antigo Testamento, para beberes em seguida do Novo. Se não beberes do primeiro, não poderás dessedentar-te do segundo. Bebe do primeiro para aplacares a sede, do segundo para te saciares completamente. […] Bebe da taça do Antigo Testamento e da do Novo, porque eles são a vinha (Jo 15,1), o rochedo que fez jorrar a água (1Cor 10,4), a fonte da vida (Sl 35,10). Bebe Cristo, porque Ele é «um rio […] [que] alegra a cidade de Deus» (Sl 45,5), Ele é a paz (Ef 2,14), e «hão de correr do seu coração rios de água viva» (Jo 7,38). Bebe Cristo para te saciares do sangue da tua redenção e do Verbo de Deus. O Antigo Testamento é a sua palavra, o Novo também. Bebemos a Sagrada Escritura e comemo-la; então o Verbo eterno, a Palavra de Deus, correrá nas veias do espírito e na vida da alma: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Dt 8,3; Mt 4,4). Dessedenta-te portanto com este Verbo, mas pela ordem que convém: bebe primeiro do Antigo Testamento e depois, sem tardar, do Novo.
Ele mesmo o diz, como que a insistir: «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles» (Is 9,1 LXX; Mt 4,16). Bebe pois, sem mais demora, e uma grande luz te iluminará: não será já a luz quotidiana do dia, do sol ou da lua, mas essa outra luz que repudia a sombra da morte (Lc 1,79).
Encher o coração pela leitura e irrigar os outros
Santo Ambrósio de Milão — Carta 2, 1-2, 4-5, 7; PL 16, 879-881
Recolhe a água de Cristo, a água que louva o Senhor. Recolhe a água que vem de várias fontes, a água que chove das nuvens dos profetas. Quem recolhe em si mesmo a água dos montes, ou tira água das fontes, começa a derramá-la como as nuvens. Enche o teu coração e a tua mente com esta água, para que a tua terra se torne húmida, irrigada pelas suas próprias fontes. Ora, é lendo inteligentemente que enchemos o nosso espírito; e quem está cheio pode irrigar os outros. É neste sentido que a Escritura diz: «Quando as nuvens estão carregadas, derramam chuva sobre a terra» (Qo 11,3). Que a tua palavra abundante flua, pois, com transparência e clareza. Deste modo, derramarás nos ouvidos do teu povo um ensinamento cheio de doçura. Seduzido pela graça das tuas palavras, ele seguir-te-á de bom grado para onde quer que o conduzas.
Que as tuas palavras sejam cheias de sabedoria. Como diz Salomão, «Os lábios dos sábios resguardam-nos» (Pr 14,3), e também: «Os lábios dos sábios espalham conhecimento» (Pr 15,7): que a tua exposição seja clara, que a inteligência seja iluminada por ela e que o teu discurso não precise de se apoiar nos dos outros, mas seja forte pelas suas próprias armas. Que nenhuma palavra sem sentido saia da tua boca em vão.
Abrir a porta à luz que não conhece ocaso
Santo Ambrósio de Milão — 12º Sermão sobre Salmo 118; CSEL 62, 258 (a partir da trad. Solesmes, Lectionnaire, t. 3, p. 1033 rev.)
O Verbo sacode o preguiçoso e desperta o adormecido. Com efeito, Aquele que vem bater à porta deseja entrar. Só depende de nós permitir que Ele entre ou permaneça do lado de fora, que Ele fique ou se retire. Mantém tua porta aberta Àquele que vem; abre tua alma, alarga as capacidades do teu espírito, para descobrires a riqueza da simplicidade, o tesouro da paz, a doçura da graça. Dilata o teu coração; corre ao encontro do Sol da luz eterna, que «ilumina todo homem» (Jo 1,9). A luz verdadeira resplandece para todos; mas quem fecha as janelas da alma priva-se da luz eterna.
Portanto, se fechares a porta do teu interior, o próprio Cristo permanecerá do lado de fora. Ele poderia entrar, sem dúvida; mas não deseja forçar a entrada, nem constranger quem O recusa. Nascido da Virgem, saído de seu seio puríssimo, Cristo irradia sobre todo o universo, para resplandecer sobre todos; os que desejam acolher a luz que brilha com esplendor perpétuo O recebem, e nenhuma noite poderá impedir-Lhe o fulgor.
Pois o sol que vemos a cada dia cede lugar às trevas da noite; mas o Sol da Justiça (cf. Ml 3,20) não conhece ocaso, porque o mal não pode vencer a Sabedoria.
O Sol de justiça se levanta para todos
Santo Ambrósio de Milão — Sermão 8 sobre o salmo 118
«A terra está cheia, Senhor, da tua misericórdia; ensina-me as tuas vontades» (Sl 118,64). Como é que a terra está cheia desta misericórdia do Senhor senão pela Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, cuja promessa o salmista, que a via de longe, de alguma maneira celebra? Está cheia dela porque a remissão dos pecados foi dada a todos. O sol tem ordem para se erguer sobre todos e é isso que acontece diariamente. Com efeito, foi para todos que se ergueu em sentido místico o Sol de Justiça (Mal 3,20); Ele veio para todos, sofreu por todos, por todos ressuscitou. E, se sofreu, foi certamente para «tirar o pecado do mundo» (Jo 1,29). […]
Mas, se alguém não tem fé em Cristo, priva-se a si mesmo deste benefício universal. Se alguém, fechando as suas janelas, impede os raios de sol de entrar, não se pode dizer que o sol nasceu para todos, pois essa pessoa fugiu do seu calor, não se deixa atingir por ele; e o que tem falta de sabedoria priva-se da graça de uma luz que é proposta a todos.
Deus faz-Se pedagogo, iluminando o espírito de cada um e derramando nele a luz do seu conhecimento; com a condição, todavia, de que abras a porta do teu coração e acolhas a claridade da graça celestial. Quando duvidas, apressa-te a procurar porque «quem procura encontra e àquele que bate abrir-se-á» (Mt 7,8).
O mesmo Cristo, Servo e Senhor
Santo Ambrósio de Milão — Sermão sobre o salmo 35, 4-5 (trad. Sr Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 6, p. 124)
Presta atenção ao mistério de Cristo! Ele nasceu do seio da Virgem, quer como Servo quer como Senhor; Servo para executar, Senhor para mandar, para enraizar no coração dos homens um Reino para Deus. Ele tem uma dupla origem, mas é um só ser. Não é um quando vem do Pai e outro quando vem da Virgem. Ele é o mesmo, nascido do Pai antes de todos os séculos, que encarnou pela Virgem no tempo. Eis a razão pela qual é chamado Servo e Senhor: Servo por nossa causa; mas, devido à unidade da substância divina, Deus de Deus, Príncipe dos Príncipes, Filho igual em tudo ao Pai, Seu igual. O Pai não criou um Filho estranho a Si mesmo, este Filho sobre quem declarou: «N’Ele pus todo o Meu agrado» (Mt 3, 17). […]
O servo mantém sempre os títulos da sua dignidade. Deus é grande, e grande é o Seu servo: ao tomar carne, Ele não perde esta «grandeza que não tem limites» (Sl 144, 3). […] «Ele, que era de condição divina, não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas despojou-Se a Si mesmo tomando a condição de servo» (Fil 2, 6-7). […] Ele é portanto igual a Deus, como Filho de Deus; tomou a condição de Servo ao encarnar; experimentou a morte (Heb 2, 9), Ele cuja «grandeza não tem limites». […]
É boa, esta condição de servo, que nos libertou a todos! Sim, é boa! Ela valeu-Lhe «o nome que está acima de todo o nome»! É boa, esta humildade! Ela conseguiu que «ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre, nos céus, na terra e nos infernos e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor para glória de Deus Pai» (Fil 2, 10-11).
O Criador renova o homem e cumpre a Lei
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao evangelho de São Lucas 4,57; SC 45
Foi num dia de sábado que o Senhor Jesus começou a fazer curas, para significar que a nova criação começa no ponto onde tinha ficado a antiga, mas também para assinalar desde o princípio que o Filho de Deus não está submetido à Lei, porque é maior que a Lei, que Ele não destrói a Lei, mas a leva ao seu cumprimento (cf Mt 5,17). Não foi pela Lei, mas pelo Verbo, que o mundo foi feito, como está escrito: «Pela Palavra do Senhor, foram feitos os céus» (Sl 32,6). Assim, pois, a Lei não foi destruída, mas levada ao seu cumprimento, a fim de renovar o homem caído. É por isso que o apóstolo Paulo nos recomenda: «Despi-vos do homem velho e revesti-vos do homem novo, que foi criado segundo Cristo» (Col 3,9s).
É adequado, pois, que o Senhor comece num dia de sábado, para mostrar que é o Criador […], que prossegue a obra que Ele próprio começara noutro tempo. Qual operário que se prepara para reparar uma casa, Ele não começa pelas fundações, mas pelo telhado. […] Ao libertar este possesso, Jesus começa pelo menos para chegar ao mais: pois até os homens podem expulsar demónios — é certo que pela palavra de Deus –, mas ordenar aos mortos que ressuscitem pertence apenas ao poder de Deus.
Abraão crê na promessa e contempla Cristo
Santo Ambrósio de Milão — Abraão, Livro I, 19-20
Consideremos a recompensa que Abraão pede ao Senhor. Não Lhe pede riquezas, como um avaro, nem vida longa, como quem teme a morte, nem poder, mas um digno herdeiro do seu trabalho. «Que me dareis, Senhor Deus, vou-me sem filhos» (Gn 15,2). […] Agar deu à luz um filho, Ismael, mas Deus diz-lhe: «Não é ele que será o teu herdeiro, mas aquele que sairá das tuas entranhas» (Gn 15,4). De quem fala Ele? Não se trata de Ismael, mas de Santo Isaac. […] Em Isaac, filho legítimo, podemos ver o verdadeiro Filho legítimo, o Senhor Jesus Cristo, que, no começo do evangelho de São Mateus, é chamado filho de Abraão (Mt 1,1). Ele mostrou ser um verdadeiro filho de Abraão, fazendo resplandecer a descendência do seu antepassado; foi graças a Ele que Abraão, olhando para o céu, viu brilhar a sua posteridade como as estrelas (Gn 15,5). O apóstolo Paulo afirma: «Uma estrela difere da outra em resplendor. Assim também é a ressurreição dos mortos» (1Cor 15,41-42). Ao associar à sua ressurreição os homens que a morte mantinha na terra, Cristo fê-los participar no reino dos céus.
A filiação de Abraão apenas se propagou pela herança da fé, que nos prepara para o céu, nos aproxima dos anjos, nos eleva até às estrelas. Disse Deus: «”Será assim a tua descendência.” Abraão confiou no Senhor» (Gn 15,5-6). Ele acreditou que, pela sua encarnação, Cristo seria seu herdeiro. Para to fazer compreender, o Senhor afirmou: «Abraão exultou por ver o meu dia.» Deus considerou-o justo porque ele não pediu explicações, antes acreditou sem a menor hesitação. É bom que a fé se sobreponha às explicações, pois de outro modo parecia que estávamos a exigi-las ao Senhor nosso Deus, como quem as exige a um homem. Que inconveniência, acreditar nos homens quando eles dão testemunho de outro, e não acreditar em Deus, quando fala de Si! Imitemos, pois, Abraão, para herdarmos o mundo pela justificação da fé, que o tornou a ele herdeiro da terra.
As obras e a cruz testemunham o Salvador
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas
O Senhor, sabendo que sem o Evangelho ninguém pode ter uma fé plena – porque se a Bíblia começa pelo Antigo Testamento, é no Novo que ela atinge a perfeição –, não esclarece as questões que Lhe colocam acerca dele próprio por palavras, mas apontando os seus atos. «Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o Evangelho; e feliz daquele que não encontrar em Mim ocasião de queda». Este testemunho é completo porque foi acerca dele que foi profetizado: «O Senhor liberta os prisioneiros; o Senhor dá vista aos cegos; o Senhor levanta os caídos. […] O Senhor reinará eternamente» (Sl 145,7s). Estas são marcas de um poder que não é humano, mas divino. […]
Contudo, estes atos são pequenos exemplos do testemunho trazido por Cristo. O que funda a plenitude da fé é a cruz do Senhor, a sua morte, o seu sepulcro. É por isso que, depois da resposta que citamos, Ele acrescenta: «E feliz daquele que não encontrar em Mim ocasião de queda». Com efeito, a cruz podia provocar a queda dos próprios escolhidos, mas não há testemunho maior de uma pessoa divina, nada que mais ultrapasse as forças humanas, que esta oferta de um só pelo mundo inteiro. É só assim que o Senhor Se revela plenamente. Aliás, é assim que João O designa: «Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29).
Ver a Deus com um coração puro
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o evangelho de S. Lucas, I, 27
Neste mundo, o Senhor só é visto quando quer. Não há de que nos espantarmos. Mesmo na ressurreição, só foi dado ver Deus aos que tinham o coração puro: “Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Quantos bem-aventurados não tinha Jesus enumerado já e, contudo, não lhes tinha prometido esta possibilidade de verem Deus. Se, portanto, aqueles que têm o coração puro hão-de ver Deus, seguramente que os outros não o verão…; aquele que não quis ver Deus não pode ver Deus.
Porque Deus não se vê num lugar mas através de um coração puro. Não são os olhos do corpo que procuram Deus; ele não é captado pelo olhar, nem tocado pelo tacto, nem ouvido numa conversa, nem reconhecido numa atitude. Julgamo-lo ausente e vemo-lo; está presente e não o vemos. Aliás, nem todos os apóstolos viam Cristo; foi por isso que ele lhes disse: “Há tanto tempo que estou convosco e ainda não me conheceis?” (Jo 14,9) Com efeito, todo aquele que conheceu qual é “a largura, o comprimento, a altura e a profundidade – o amor de Cristo que ultrapassa todo o conhecimento” (Ef 3,18-19), esse viu também Cristo, viu também o Pai. Porque, no que nos toca, não é segundo a carne que conhecemos Cristo (2Co 5,16), mas segundo o Espírito: “O Espírito que está diante da nossa face é o Ungido do Senhor, o Cristo” (Lm 4,20). Que ele se digne, na sua misericórdia, cumular-nos com toda a plenitude de Deus, a fim de que o possamos ver!
Nota editorial: Corrigidas as referências Jo 19,9 para Jo 14,9, 2Cor 6,16 para 2Cor 5,16 e Lm 420 para Lm 4,20.
As vestes do Verbo resplandecem na montanha
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de Lucas, VII, 9s (trad. Brésard, 2000 ans B, p. 92 rev.)
Foram três os escolhidos para subir à montanha, dois para aparecer com o Senhor. […] Sobe Pedro, ele que recebeu as chaves do Reino dos Céus, sobe João, a quem será confiada a Mãe de Jesus, e sobe Tiago, que será o primeiro a ascender à dignidade de bispo. Em seguida, aparecem Moisés e Elias, a lei e a profecia, com o Verbo. […] Subamos, também nós, à montanha, imploremos ao Verbo de Deus que nos apareça em todo o Seu esplendor e em toda a Sua beleza, que seja forte, que avance pleno de majestade e que reine. […]
Pois, se não subires ao cume de um saber mais elevado, a Sabedoria não te aparecerá, nem te aparecerá o conhecimento dos mistérios. Não conhecerás o esplendor e a beleza que estão contidos no Verbo de Deus; não, o Verbo de Deus há-de aparecer-te num corpo «sem figura nem beleza» (Is 53, 2). Aparecer-te-á como um homem abatido, capaz de sofrer as nossas enfermidades (5); aparecer-te-á como uma palavra nascida do homem, tapada pelo véu da letra, que não resplandece com a força do Espírito (2Cor 3, 6-17). […]
No sopé da montanha, as Suas vestes são diferentes do que são no alto. As vestes do Verbo são talvez as palavras das Escrituras, vestindo por assim dizer o pensamento divino; e, assim como apareceu a Pedro, a Tiago e a João com outro aspecto, com vestes resplandecentes de brancura, assim também, aos olhos do teu espírito se ilumina já o sentido das Escrituras. As palavras divinas tornam-se como uma neve, as vestes do Verbo «de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim». […]
«Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra», sombra que é a do Espírito divino, que não vela o coração dos homens, antes revela aquilo que está oculto. […] Bem vês que, não só para os principiantes, mas também para os perfeitos, e mesmo para todos os habitantes do céu, a lei perfeita consiste em conhecer o Filho de Deus.
Nota editorial: Conserva-se a menção recebida a Tiago como bispo, sem transformá-la em identificação histórica do apóstolo presente na Transfiguração. Corrigido apenas «sobre Tiago» para «sobe Tiago».
A voz do Pai revela a glória do Filho
Santo Ambrósio de Milão — Sobre o Salmo 45,2
O Senhor Jesus quis que Moisés subisse sozinho à montanha, mas Josué juntou-se a ele (cf Ex 24,13). Também no Evangelho, foi a Pedro, Tiago e João, de entre todos os discípulos, que revelou a glória da Sua ressurreição. Queria, assim, que o Seu mistério permanecesse oculto e avisou-os frequentemente de que não anunciassem facilmente o que tinham visto a qualquer pessoa, para que um ouvinte demasiado fraco não encontrasse aí um obstáculo que impedisse o seu espírito inconstante de receber estes mistérios em todo o seu poder. Porque até o próprio Pedro «não sabia o que dizia», pois acreditava ser preciso erguer três tendas para o Senhor e para os Seus companheiros. Em seguida, não conseguiu suportar o brilho da glória do Senhor que Se transfigurava e caiu por terra (Mt 17,6), como caíram também «os filhos do trovão» (Mc 3,17), Tiago e João, quando a nuvem os cobriu. […]
Adentraram-se, portanto, na nuvem para conhecer o que era secreto e escondido e foi lá que escutaram a voz de Deus que dizia: «Este é o Meu Filho muito amado, em Quem pus toda a Minha complacência: escutai-O». Que significa: «Este é o Meu Filho muito amado»? Quer dizer: Simão Pedro não te enganes!, pois não deves colocar o Filho de Deus ao nível dos servos. «Este é o Meu Filho: Moisés não é Meu filho, Elias não é Meu filho, embora um tivesse aberto o céu e o outro o tivesse fechado». Com efeito, um e outro, pela Palavra do Senhor, venceram um elemento da natureza (cf Ex 14;1R 17,1), mas não fizeram senão o ministério de se pôr ao serviço d’Aquele que abriu as águas e fechou, através das secas, o céu, que depois se desfez em chuva, quando Ele quis.
Onde se trata dum simples anúncio da ressurreição, pede-se o auxílio ao ministério dos servos, mas onde se mostra a glória do Senhor que ressuscita, a glória dos servos cai na obscuridade. Pois, quando se levanta, o sol obscurece as estrelas e as suas luzes desaparecem todas, face ao brilho do eterno Sol da justiça (Ml 3,20).
O Médico e o Pastor que procuram o pecador
Vinde, Senhor Jesus, buscar a ovelha cansada
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Salmo 118, XXII, 27–30, conforme o cabeçalho do post.
Vinde, Senhor Jesus, procurai o vosso servo; procurai a vossa ovelha cansada; vinde, Pastor […]. Enquanto Vos demorais nas montanhas, eis que a vossa ovelha erra, perdida; deixai as outras noventa e nove e vinde procurar aquela que se perdeu. Vinde, sem que ninguém Vos ajude, sem Vos fazerdes anunciar; eu Vos espero. Não tragais o chicote, trazei amor; vinde com a doçura do vosso espírito. Não hesiteis em deixar nas montanhas as noventa e nove ovelhas que possuís; aos altos cumes onde as deixastes, não terão os lobos acesso. […] Vinde até mim, que me perdi do rebanho das alturas, porque também aí me havíeis posto, mas os lobos da noite fizeram que abandonasse os vossos prados.
Procurai-me, Senhor, pois na minha prece eu Vos procuro. Procurai-me, encontrai-me, perdoai-me, levai-me! Aquele a quem procurais, Vós podereis encontrá-lo, aquele que encontrais, dignai-Vos perdoá-lo, e este a quem perdoais, ponde-o aos vossos ombros. Nunca tal fardo de amor Vos pesará, pois que sem vos afadigardes sois o portador da justiça. Vinde portanto, Senhor, porque se é verdade que eu erro, «não hei de esquecer as vossas palavras» (Sl 118,16), e conservo a esperança do remédio. Vinde, Senhor, só Vós podereis chamar a vossa ovelha perdida, e às outras que deixais não causareis mal algum; elas alegrar-se-ão por ver regressar o pecador. Vinde, haverá salvação na Terra e alegria nos Céus (cf Lc 15,7).
Não envieis servos, não envieis mercenários, vinde Vós em pessoa procurar a vossa ovelha. Perdoai-me nesta carne que com Adão caiu. Reconhecei em mim, neste gesto, não o filho de Eva, mas o filho de Maria, Virgem pura, Virgem pela graça sem mácula de pecado; depois, levai-me até à vossa cruz, que é a salvação dos homens perdidos, o único repouso dos homens cansados, a única vida de todos quantos morrem.
Nota editorial: O cabeçalho bibliográfico foi preservado. Corrigiu-se o lapso «portageiro da justiça» para «portador da justiça».
O Pastor, a Igreja e o Pai acolhem o que se perdera
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas, VII, 207–209.
Não é por acaso que São Lucas apresenta uma sequência de três parábolas – a da ovelha que se perdera e foi reencontrada, a da dracma que tinha desaparecido e que foi achada, a do filho pródigo que se tinha perdido e que retornou à vida –, de modo que, instigados por este triplo remédio, tratemos as nossas feridas. […] Quem são este pai, este pastor, esta mulher? Não serão Deus Pai, Cristo e a Igreja? Cristo, que tomou sobre Si os teus pecados, carrega-te no seu corpo; a Igreja procura-te; o Pai acolhe-te. Como pastor, traz-te de novo ao rebanho; como mãe, procura-te; como Pai, torna a vestir-te. Primeiro a misericórdia, seguidamente o socorro, por último a reconciliação.
Cada narrativa se ajusta a cada um de nós: o Redentor auxilia, a Igreja socorre, o Pai reconcilia. A misericórdia da obra divina é a mesma, mas a graça varia de acordo com os nossos méritos. A ovelha cansada é trazida pelo pastor, a dracma perdida é encontrada, o filho regressa pelo seu pé para junto do pai, e retorna plenamente, arrependendo-se do seu desvario. […]
Alegremo-nos, pois, pelo facto de a ovelha que se tinha perdido em Adão ser reerguida em Cristo. Os ombros de Cristo são os braços da cruz; foi lá que depus os meus pecados, nesse madeiro encontrei repouso. Aquela ovelha é única na sua natureza, mas não nas suas pessoas, porque todos nós formamos um só corpo mas somos muitos membros. Por isso está escrito: «Vós sois o corpo de Cristo e membros dos seus membros» (1Cor 12,27). Pois «o Filho do homem veio salvar o que estava perdido» (Lc 19,10), quer dizer, todos os homens, uma vez que «todos morrem em Adão, tal como todos voltam à vida em Cristo» (1Cor 15,22). […]
Também não é indiferente que a mulher se alegre por ter encontrado a moeda: é que nessa moeda figura a imagem de um príncipe. De igual modo, a imagem do Rei é o bem da Igreja. Nós somos ovelhas; peçamos, pois, ao Senhor que nos conduza à água do descanso (Sl 22,2). Nós somos ovelhas; peçamos para ser conduzidas às pastagens. Nós somos a moeda; mantenhamos o nosso valor. Nós somos filhos; corramos para o Pai.
Nota editorial: Reunidos os excertos complementares das três parábolas. O parágrafo comum dos ombros de Cristo aparece uma única vez. Corrigida a referência 1Cor 2,27 para 1Cor 12,27.
Levantar-se e correr ao encontro do Pai
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas, VII, 224s; SC 52
«Irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti”.» Esta é a nossa primeira confissão ao Criador, ao Senhor da misericórdia, ao Juiz do erro. Apesar de tudo saber, Deus espera a expressão da nossa confissão; porque «confessar com a boca leva a obter a salvação» (Rm 10,10) […].
Eis o que dizia para si mesmo o filho mais novo; mas não basta falar, se não fores ter com o Pai. E onde vais procurá-Lo, onde vais encontrá-Lo? «Levantou-se». Antes de mais, levanta-te, pois estavas sentado e adormecido. Eis o que diz o apóstolo Paulo: «Desperta, tu que dormes; levanta-te de entre os mortos» (Ef 5,14). […] Já de pé, corre à Igreja: aí está o Pai, o Filho, o Espírito Santo. Aquele que te ouve a falar no segredo da alma vem até ti; e quando ainda estás longe, vê-te e acorre ao teu encontro. Ele vê no teu coração; Ele acorre, para que ninguém te demore; e Ele também te abraça […]. Lança-Se-te ao pescoço para te reerguer, a ti, que jazias carregado de pecados no chão, voltado para a terra; vira-te para o céu, para que aí possas procurar o teu Criador. Cristo lança-Se-te ao pescoço para te libertar a nuca do jugo da escravidão e aí suspender o seu jugo de suavidade. […] Ele lança-Se-te ao pescoço quando diz: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11,28). Tal é a maneira como Ele te estreita em seus braços, se te converteres.
E manda que tragam uma túnica, um anel, sandálias. A túnica é a veste da sabedoria […], a roupa espiritual, o traje para as bodas. Que outra coisa será o anel, a não ser o selo de uma fé sincera e a marca da verdade? As sandálias, essas são a pregação da Boa Nova.
Corrigir com mansidão e carregar a fraqueza alheia
Santo Ambrósio de Milão — A Penitência, I, 1
A moderação é sem dúvida a mais bela das virtudes. […] É só a ela que a Igreja, adquirida pelo preço do sangue do Senhor, deve a sua expansão; ela é a imagem do benefício celeste da redenção universal. […] Consequentemente, quem se aplica a corrigir os defeitos da fraqueza humana deve suportar e em certa medida sentir o peso desta fraqueza sobre os próprios ombros, e não a rejeitar. Porque lemos que o pastor do Evangelho levou a ovelha fatigada, e não a rejeitou (Lc 15,5) […] A moderação, com efeito, deve temperar a justiça. Não sendo assim, como poderia alguém a quem mostras desaprovação – alguém que pensasse ser objeto de desprezo e não de compaixão para o seu médico –, como poderia ele vir ter contigo para ser tratado?
Foi por isso que o Senhor Jesus mostrou compaixão para connosco. O seu desejo era chamar-nos a Si, e não fazer-nos fugir, assustando-nos. A doçura marca a sua vinda; a sua vinda é marcada pela humildade. Aliás, Ele disse: «Vinde a Mim, vós que estais aflitos, e Eu vos reconfortarei». Assim pois, o Senhor Jesus reconforta, não exclui, não rejeita. E foi com razão que escolheu para discípulos homens que, sendo fiéis intérpretes da vontade do Senhor, reunissem o povo de Deus, em vez de o afastar.
Mostrar ao Médico a ferida e lavar-lhe os pés
Santo Ambrósio de Milão — A Penitência, II, 8 (a partir da trad. SC 179, p. 175)
«Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes» (Mt 9, 12). Mostra, portanto, ao médico o teu ferimento, para que possas ser curado. Mesmo que não Lho mostres, ele conhece-o, mas exige de ti que Lhe faças ouvir a tua voz. Limpa as tuas chagas com as tuas lágrimas. Foi assim que esta mulher de que o Evangelho fala se libertou do seu pecado e do mau odor do seu desregramento; foi assim que ela se purificou dos seus erros, lavando os pés de Jesus com as suas lágrimas.
Possas Tu, Jesus, reservar-me também o cuidado de Te lavar os pés, que sujaste quando caminhavas em mim! […] Mas onde encontrarei a água viva com a qual Te possa lavar os pés? Se não tiver água, tenho as minhas lágrimas. Faz com que, ao lavar-Te os pés com elas, eu possa purificar-me! Como fazer de maneira a que digas de mim: «São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou»? Confesso que a minha dívida é grande e que me foi «perdoado demasiado», a mim que fui arrancado ao ruído das altercações da praça pública e às responsabilidades da governança para ser chamado ao sacerdócio. Temo por isso ser considerado um ingrato se amar menos, quando fui tão perdoado.
Não posso comparar com qualquer um esta mulher que foi justamente preferida ao fariseu Simão, que convidara o Senhor para almoçar. No entanto, a todos aqueles que querem merecer o perdão, ela oferece um ensinamento ao beijar os pés de Cristo, ao lavá-los com as suas lágrimas, ao secá-los com os seus cabelos, ao ungi-los com perfume. […] Se não pudermos igualá-la, Jesus sabe vir em auxílio dos fracos. Onde não houver ninguém que saiba preparar uma refeição, trazer perfume, trazer consigo uma fonte de água viva, (Jo 4, 10), Ele próprio vem.
O olhar de Jesus e as lágrimas de Pedro
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao evangelho de S. Lucas
Pedro negou uma primeira vez e não chorou, porque o Senhor não olhou para ele. Negou uma segunda vez e não chorou, porque o Senhor ainda não tinha olhado para ele. Negou uma terceira vez, Jesus olhou para ele, e ele chorou amargamente (cf Lc 22,62). Olha-nos, Senhor Jesus, para que saibamos chorar o nosso pecado. Isto mostra que até a queda dos santos pode ser útil. A negação de Pedro não me fez mal; pelo contrário, eu ganhei com o seu arrependimento, pois aprendi a defender-me de um ambiente infiel. […]
Portanto, Pedro chorou, e chorou amargamente; chorou para lavar a sua culpa com as lágrimas. Vós também, se quereis obter o perdão, apagai as vossas faltas com lágrimas; nesse exato momento, nessa mesma hora, Cristo olha-vos. Se vos suceder alguma queda, Ele, que é testemunha da vossa vida secreta, olha-vos para vos lembrar e vos fazer confessar os vossos erros. Fazei então como Pedro, que mais adiante disse por três vezes: «Senhor, Tu sabes que eu Te amo» (Jo 21,15). Tendo negado três vezes, três vezes também confessa; negou na noite, e confessa em pleno dia. Tudo isto está escrito para nos fazer compreender que ninguém se deve vangloriar. Se Pedro caiu por ter dito: «Ainda que todos se escandalizem de Ti, eu nunca me escandalizarei» (Mt 26,33), quem tem o direito de contar só consigo? […] De onde te chamarei, Pedro, para me contares os teus pensamentos quando choravas? Do Céu, onde já tomaste lugar entre os coros dos anjos, ou ainda do túmulo? Porque a morte, da qual o Senhor ressuscitou, não te repugna. Ensina-nos em que é que as tuas lágrimas te foram úteis. Mas tu ensinaste-o bem depressa: porque, tendo caído antes de chorar, as lágrimas fizeram com que fosses escolhido para conduzir outros, tu que, inicialmente, não tinhas sabido conduzir-te a ti mesmo.
A misericórdia diante da mulher acusada
Santo Ambrósio de Milão — Carta 26, 11-20 ; PL 16, 1044-1046 (trad. Delhougne, Les Pères commentent, p. 349 rev.)
Uma mulher culpada de adultério é levada pelos escribas e pelos fariseus à presença do Senhor Jesus. Eles formulam a acusação como traidores, de tal maneira que, se Jesus a absolver, dará a ideia de estar a violar a Lei; se a condenar, dará a impressão de ter alterado a razão da Sua vinda, porque Ele veio para perdoar os pecados de todos. […]
Enquanto eles falavam, Jesus, de cabeça baixa, escrevia na terra com um dedo. Vendo que eles esperavam uma resposta, levantou a cabeça e disse: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» Haverá coisa mais divina que este veredicto?: aquele que estiver sem pecado que castigue o pecador. Com efeito, como se pode tolerar que um homem condene o pecado de outro quando desculpa o seu próprio pecado? Não é certo que este se condena ainda mais, ao condenar noutro o pecado que ele próprio comete?
Jesus falou assim e escrevia no chão. Por que o faria? Era como se dissesse: «Por que vês o argueiro que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu olho?» (Lc 6, 41). Ele escrevia no chão com o mesmo dedo com que havia redigido a Lei (Ex 31, 18). Os pecadores serão inscritos na terra e os justos no céu, como Jesus disse aos discípulos: «Alegrai-vos por estarem os vossos nomes escritos nos céus» (Lc 10, 20).
Ao ouvirem Jesus, os fariseus «foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos». […] O evangelista tem razão em afirmar que eles saíram, pois estes homens não queriam estar com Cristo. Aquilo que se encontra no exterior do Templo é terra; no interior encontram-se os mistérios. É que o que eles procuravam nos ensinamentos divinos eram as folhas, não eram os frutos das árvores; eles viviam à sombra da Lei, e por isso não eram capazes de ver o sol da justiça (Mal 3, 20).
A fé que intercede e a cura do homem inteiro
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas V, 11-13
«Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’». Como é grande o Senhor! Por causa de uns, perdoa aos outros; de uns recebe a oração, a outros perdoa os pecados. Por que razão, ó homem, não poderá o teu semelhante interceder por ti, quando é um servo que do Senhor alcança e obtém, pela súplica insistente, a graça?
Quem julga, pois, que aprenda a perdoar; e quem estiver doente, a suplicar. E se não esperais o perdão imediato das faltas graves, recorrei a intercessores, recorrei à Igreja, que rezará por vós, e, em consideração a ela, o Senhor vos concederá o perdão que podia ter-vos recusado. Não negamos a realidade histórica da cura do paralítico, apenas queremos aqui realçar sobretudo a sua cura interior, por causa dos pecados que lhe foram perdoados. […]
O Senhor quer salvar os pecadores e demonstra a Sua divindade através do conhecimento que tem dos corações e dos prodígios das Suas acções: «Que é mais fácil? Dizer ao paralítico ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’?» E assim faz-lhes ver a imagem completa da Ressurreição, uma vez que, ao curar as feridas do corpo e da alma […], é o homem todo que fica curado.
Seguir Cristo pela mudança do coração
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de São Lucas, 5, 16; SC 45
[Após a cura do paralítico,] vem o apelo do cobrador de impostos aos mistérios de Cristo. Cristo ordena-lhe que O siga, não por uma diligência física do corpo, mas pela mudança do coração. E este homem, que até então obtinha lucro com mercadorias, que explorava duramente o cansaço e os perigos dos marujos, deixa tudo ao ouvir aquele apelo. Ele, que se apoderava dos bens dos outros, abandona os seus próprios bens e, deixando o seu ignóbil posto de cobrança, segue o Senhor com toda a sua alma.
E prepara um grande festim: pois aquele que recebe Cristo na sua morada interior fica saciado de um enorme bem-estar, de uma alegria superabundante. Quanto ao Senhor, entra de boa vontade na sua casa e senta-Se à mesa preparada com o amor daquele que acreditou.
Mas eis que se acende a malevolência dos incrédulos […], e subitamente revela-se a diferença entre os discípulos da Lei e os discípulos da graça. Obedecer à Lei é sentir num coração em jejum uma fome sem remédio; acolher o Verbo, a Palavra de Deus, na intimidade da alma é ficar renovado pela abundância da fonte e dos alimentos eternos. É nunca mais ter fome nem sede (Jo 6,35).
Levi encontra o Médico que cura suas feridas
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre Lucas, 5, 23.27 (trad. SC 45, pp. 191ss. rev.; cf. En Calcat)
O apóstolo Paulo disse: «Despi-vos do velho homem com os seus comportamentos e revesti-vos do novo» (Col 3,9-10). […] Foi esta a obra que Cristo realizou ao chamar Levi; remodelou-o e fez dele um homem novo. Foi também a título de nova criatura que o antigo publicano ofereceu um banquete a Cristo, porque agradou a Cristo e mereceu ter a sua quota parte de felicidade com Cristo. […] Agora seguia-O, feliz, alegre, transbordando de felicidade.
«Já não faço figura de publicano, dizia ele; já não sou o velho Levi; despi-me de Levi ao revestir-me de Cristo. Fujo da minha primeira vida; quero apenas seguir-Te, Senhor Jesus, que saras as minhas feridas. Quem me separará do amor de Deus que habita em Ti? a tribulação? a angústia? a fome? (Rom 8,35). Estou preso a Ti pela fé, como por pregos, estou retido pelos bons entraves do amor. Todos os Teus mandamentos serão como um cautério que manterei aplicado sobre a minha ferida; o remédio arde, mas tira a infecção da úlcera. Rasga portanto, Senhor Jesus, com a Tua potente espada, a podridão dos meus pecados; vem depressa lancetar as paixões escondidas, secretas, variadas. Purifica todas as infecções com o novo banho.
«Escutai-me, homens colados à terra, que tendes o vosso espírito embrenhado nos vossos pecados. Também eu, Levi, estava ferido com tais paixões. Mas encontrei um Médico que habita no Céu e que espalha os Seus remédios na terra. Só Ele pode curar as minhas feridas pois Ele não as tem. Só Ele pode retirar do coração a dor, e da alma a amargura, porque Ele conhece tudo o que está escondido.»
A Igreja chora pelos filhos e os chama à vida
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas, V, 89, 91–92.
A misericórdia divina compadece-se das lágrimas desta mãe. Ela é viúva; o sofrimento e a morte do seu filho único abalaram-na profundamente. […] Parece-me que esta viúva, rodeada por uma grande multidão, é mais do que uma simples mulher que merece, pelas suas lágrimas, a ressurreição de um filho jovem e único. Ela é a imagem da própria Santa Igreja que, através das suas lágrimas, no meio do cortejo fúnebre e até ao túmulo, consegue chamar à vida o jovem povo que é o mundo. […]
Ainda que os sintomas da morte tenham roubado por completo a esperança de vida, ainda que os corpos dos defuntos se encontrem já perto do sepulcro, à voz de Deus, os cadáveres que começavam a decompor-se recuperam a fala; o filho é devolvido a sua mãe, é chamado do túmulo, é arrancado ao túmulo. Que túmulo é o teu? São os teus maus hábitos, é a tua falta de fé. É deste túmulo que Cristo te salva, será deste túmulo que ressuscitarás, se ouvires a Palavra de Deus. Ainda que os teus pecados sejam tão graves que não possas lavar-te a ti próprio com as lágrimas do arrependimento, a Igreja, tua Mãe, chorará por ti, pois intercede por cada um dos seus filhos como mãe viúva com um filho único. Com efeito, a Igreja tem compaixão, por uma espécie de sofrimento espiritual, dos seus filhos que vê dirigirem-se para a morte em consequência de vícios funestos. […]
Que ela chore, pois, esta mãe piedosa; que a multidão a acompanhe; que não seja uma simples multidão, mas uma multidão considerável a ter compaixão desta mãe terna. Então, ressuscitarás do teu túmulo, serás dele libertado; os carregadores deter-se-ão, começarás a dizer palavras de vivo e todos ficarão estupefactos. E o exemplo de um só permitirá corrigir muitos, que louvarão a Deus por nos ter dado tais remédios para evitarmos a morte.
Nota editorial: A imagem inicial da mãe viúva e a continuação sobre a vida nova foram reunidas; a versão equivalente não foi repetida.
A mão da Sabedoria levanta a menina
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de Lucas, 6, 60-63
Antes de ressuscitar uma menina morta, foi para levar à fé que Jesus começou por curar a mulher que sofria de perdas de sangue. Foi para te instruir que Ele fez parar esse fluxo de sangue e curou a mulher, quando Se encaminhava para a menina.
Do mesmo modo, é para acreditarmos na nossa ressurreição eterna que celebramos a ressurreição histórica do Senhor que se seguiu à Sua paixão. […] Os servos do chefe da sinagoga vieram dizer: «De que serve agora incomodares o Mestre?» Eles ainda não acreditam na ressurreição de Jesus, profetizada na Lei e concretizada no Evangelho. Por isso, ao chegar à casa Jesus leva conSigo poucas testemunhas da ressurreição que vai acontecer: não foi grande o número dos que acreditaram de imediato na ressurreição. Quando Jesus declara: «A menina não morreu, está a dormir», a multidão fez «troça d’Ele», pois os que não acreditam troçam. Que chorem então os seus mortos os que os creem mortos: quando se tem fé na ressurreição, não é o fim que se vê na morte, mas um repouso. […]
Tomando, pois, a menina pela mão, Jesus curou-a e mandou que lhe dessem de comer. Foi uma afirmação de vida, para que se pudesse crer na realidade e não numa ilusão. Feliz daquele a quem a Sabedoria assim tem pela mão! Praza a Deus que ela também assim me sustenha nas minhas ações, que a justiça me tenha pela mão, que o Verbo, a Palavra de Deus, tome a minha mão e me conduza a esse lugar escondido onde mora. Que afaste o meu espírito do erro, que conduza aquele que salvou e ordene que me deem de comer, pois o Verbo de Deus é o pão do céu (cf Jo 6,32). É por isso que essa Sabedoria, que depôs no altar santo os alimentos divinos do Seu Corpo e do Seu Sangue, declara: «Vinde, comei do Meu pão e bebei do vinho que preparei» (Pr 9,5).
O Batismo, o Espírito e a vida nova
A água, a cruz e o Espírito na vida nova
Santo Ambrósio de Milão — Sobre os mistérios, 16–21; tradução de José de Leão Cordeiro, S. N. L., 2003, p. 530–531; SC 25, p. 112, conforme a versão complementar.
Naaman era sírio, tinha lepra e ninguém conseguia purificá-lo daquela doença. […] Foi a Israel e Eliseu ordenou-lhe que se banhasse sete vezes no Jordão. Então Naaman pensou que os rios da sua pátria tinham águas melhores, nas quais ele se tinha banhado muitas vezes sem ter sido purificado da lepra. […] Mas acabou por se banhar e, imediatamente purificado, compreendeu que a purificação não viera das águas, mas da graça. […]
Naamã era sírio e estava leproso, sem que ninguém o pudesse curar. Então, uma jovem prisioneira disse-lhe que havia em Israel um profeta que podia curá-lo da lepra. […] Já é tempo de descobrires quem era aquela jovem prisioneira. Era a figura da assembléia mais nova de entre as nações, isto é, da Igreja do Senhor. Antes, quando não possuía ainda a liberdade da graça, fora humilhada pelo cativeiro do pecado. Mas, a seu conselho, este povo que não era ainda um povo escutou a palavra dos profetas, da qual duvidara durante muito tempo. Em seguida, quando acreditou que devia segui-la, o povo foi purificado de todo o contágio do pecado. Naamã duvidara antes de ser curado; mas tu já foste curado e por isso não deves duvidar.
Foi por isso que [no dia do teu batismo] te disseram: não creias apenas naquilo que vês, porque poderias dizer como Naaman: é esse o grande mistério que «nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem» (1Cor 2,9)? Vejo água, como sempre vi! Terá esta água o poder de me purificar, quando tantas vezes me banhei nela sem ser purificado? Aprende que a água não purifica sem o Espírito.
Foi por isso que leste que, no batismo, «três são os que testificam: o Espírito, a água e o sangue» (1Jo 5,7-8). É que, se retirares um que seja, o sacramento do batismo desaparece. Com efeito, o que é a água sem a cruz de Cristo? É um vulgar elemento, sem qualquer alcance sacramental. E, da mesma maneira, sem água não há mistério do novo nascimento, porque «quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus» (Jo 3,5). O catecúmeno acredita na cruz do Senhor Jesus, cujo sinal recebeu; mas, se não tiver sido batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não pode receber o perdão dos seus pecados, nem acolher o dom da graça espiritual.
O sírio Naaman mergulhou sete vezes, segundo a Lei; tu foste batizado em nome da Trindade. Tu confessaste a tua fé no Pai, confessaste a tua fé no Filho, confessaste a tua fé no Espírito Santo. Recorda a sucessão destes fatos; pois, nesta fé, morreste para o mundo e ressuscitaste para Deus.
Nota editorial: Reuniram-se o relato de Naamã, o ensinamento da jovem cativa e a catequese sobre a água e o Espírito. As passagens comuns das três versões aparecem uma única vez.
Cristo está presente no mistério do Batismo
Santo Ambrósio de Milão — Sobre os mistérios, 24–28; tradução do Breviário.
O paralítico da piscina de Betsatá esperava um homem [para o ajudar a descer à piscina]. Quem era esse homem, a não ser o Senhor Jesus, nascido da Virgem? Com a sua vinda, Ele não prefigurou apenas a cura de algumas pessoas; Ele era a própria verdade que cura todos os homens. Por conseguinte, era Ele que se esperava que descesse, Ele de quem Deus Pai disse a João Batista: «Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo» (Jo 1,33). […] Então, porque desceu o Espírito como uma pomba, se não para que tu a visses e reconhecesses que a pomba enviada da arca por Noé, o justo, era uma imagem desta outra pomba, de modo que nela reconhecesses a prefiguração do sacramento do batismo? […]
Podes estar ainda na dúvida, quando o Pai proclama para ti de maneira indubitável no evangelho: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado» (Mt 3, 17); quando o Filho o proclama, Ele sobre quem o Espírito Santo se manifestou sob forma de pomba; quando o Espírito Santo também o proclama, Ele que desceu sob forma de pomba; quando David o proclama: «A voz do Senhor ressoa sobre as águas, o Deus glorioso faz ecoar o seu trovão, o Senhor está sobre a vastidão das águas» (Sl 28,3)? A Escritura atesta também que, às preces de Gedeão, o fogo desceu do céu; e que, à prece de Elias, o fogo foi enviado para consagrar o sacrifício (Jz 6,21; 1Rs 18,38).
Não consideres o mérito pessoal dos sacerdotes, mas a sua função […]. Por conseguinte, acredita que o Senhor Jesus está lá, invocado pela oração dos sacerdotes, Ele que disse: «Pois, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18,20). Por maioria de razão, onde está a Igreja, onde estão os mistérios, é lá que Ele Se digna conceder-nos a sua presença. Desceste ao batistério. Recorda o que disseste: que crês no Pai, que crês no Filho, que crês no Espírito Santo. […] Pelo mesmo compromisso da tua palavra, quiseste crer no Filho tal como crês no Pai, acreditar no Espírito Santo como crês no Filho, apenas com a diferença de que professas que é necessário crer na cruz do único Senhor Jesus.
Nota editorial: A referência recebida «24s» foi explicitada conforme os parágrafos da obra: a piscina, o testemunho da Trindade e a profissão de fé.
O elemento visível e a graça que santifica
Santo Ambrósio de Milão — Dos Sacramentos, 1 (trad. Brésard 2000 ans C, p. 244 rev.)
Aproximaste-te, viste a pia baptismal e viste também o bispo perto da pia. E sem dúvida surgiu na tua alma o mesmo pensamento que se insinuou na de Naaman, o sírio. Pois, embora tenha sido purificado, inicialmente ele duvidara. […] Temo que alguém tenha dito: «É apenas isto?» Sim, realmente é apenas isto: ali encontra-se toda a inocência, toda a piedade, toda a graça, toda a santidade. Viste o que conseguiste ver com os olhos do corpo […]; aquilo que não se vê é muito maior […], porque aquilo que não se vê é eterno […]. Que haverá de mais surpreendente do que a travessia do Mar Vermelho pelos israelitas, para não falarmos agora apenas do baptismo? E, no entanto, todos os que o atravessaram morreram no deserto. Pelo contrário, aquele que atravessa a pia baptismal, isto é, aquele que passa dos bens terrestres para os do céu […], não morre, mas ressuscita.
Naaman era leproso. […] Ao vê-lo chegar, o profeta disse-lhe: «Vai, entra no Jordão, banha-te e ficarás curado.» Ele pôs-se a reflectir em si mesmo e disse para consigo: «É apenas isto? Vim da Síria à Judeia e disseram-me: vai até ao Jordão, banha-te e ficarás curado. Como se não houvesse rios melhores no meu país!» Os servos diziam-lhe: «Senhor, por que não fazes o que diz o profeta? Fá-lo, experimenta.» Então ele foi até ao Jordão, banhou-se e ficou curado.
Que significa isto? Viste a água, mas nem toda a água cura; mas a água que contém em si a graça de Cristo cura. Há uma diferença entre o elemento e a santificação, entre o acto e a eficácia. O acto realiza-se com água, mas a eficácia vem do Espírito Santo. A água não cura se o Espírito Santo não tiver descido e consagrado aquela água. Leste que quando nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o rito do baptismo, veio ter com João e este disse-Lhe: «Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por Ti. E Tu vens até mim?» (Mt 3,14). […] Cristo desceu; João, que baptizava, estava a Seu lado; e eis que, como uma pomba, o Espírito Santo desceu. […] Por que desceu Cristo primeiro e em seguida o Espírito Santo? Por que razão? Para que o Senhor não parecesse ter necessidade do sacramento da santificação: é Ele que santifica; e é também o Espírito que santifica.
Do deserto ao paraíso, seguindo Cristo
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de Lucas, IV, 7-12 ; PL 15,1614 (a partir da trad. Brésard, 2000 ans A, p. 88)
Recordemos que o primeiro Adão foi expulso do paraíso para o deserto, para que a nossa atenção se concentre na maneira como o segundo Adão (1Cor 15, 45) regressa do deserto ao paraíso. Vede, com efeito, como a primeira condenação é desenredada, depois de ter sido enredada, como são restabelecidos os benefícios divinos sobre os vestígios dos benefícios antigos. Adão vem de uma terra virgem, Cristo vem da Virgem; aquele foi feito à imagem de Deus, Este é a imagem de Deus (Col 1, 15); aquele foi colocado acima de todos os animais irracionais, Este acima de todos os seres vivos. Por uma mulher veio a insensatez, por uma virgem a sabedoria; a morte veio de uma árvore, a vida pela cruz. Um, despido das vestes espirituais, concebeu para si uma veste de folhas de árvore; o Outro, despido da veste deste mundo, deixou de desejar uma veste material (Jo 19, 23).
Adão foi expulso do paraíso, Cristo vem do deserto; porque Ele sabia onde se encontrava o condenado que queria reconduzir ao paraíso, já liberto do seu pecado. […] Aquele que tinha perdido a rota que seguia no paraíso não era capaz de reencontrar a rota perdida no deserto, sem ter quem o guiasse. As tentações são numerosas, o esforço com vista à virtude é difícil, é fácil dar passos em falso e cair no erro. […] Sigamos pois a Cristo, conforme está escrito: «É ao Senhor vosso Deus que deveis temer e seguir» (Dt 13, 5). […] Sigamos, pois, os Seus passos, e poderemos passar do deserto ao paraíso.
Nota editorial: Corrigiu-se no segundo parágrafo «Adão foi expulso do deserto» para «Adão foi expulso do paraíso», em conformidade com a abertura do próprio excerto e com o sentido da passagem.
O Filho livre reconcilia o mundo
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Salmo 48, 14–15; CSEL 64, 368–370, conforme a versão equivalente.
Quando Cristo reconciliou o mundo com Deus, não tinha evidentemente necessidade de reconciliação para Si; de facto, por que pecados deveria apaziguar a Deus, se não tinha cometido pecado algum? Por isso, quando os judeus Lhe exigiram a didracma requerida pela Lei, Jesus disse a Pedro: «Simão, que te parece? De quem recebem os reis da terra impostos ou tributos? Dos filhos ou dos estranhos?». Pedro respondeu: «Dos estrangeiros». Jesus disse-lhe: «Então os filhos estão isentos. Mas, para não os escandalizarmos, vai ao mar e deita o anzol. Apanha o primeiro peixe que morder a isca, abre-lhe a boca e encontrarás um estáter. Pega nele e paga-lhes o imposto por Mim e por ti»
Deste modo, Cristo mostra-nos que nada tinha de expiar pelos seus pecados pessoais, porque não era escravo do pecado, mas, como Filho de Deus, estava livre de todo o pecado. O filho era livre; o escravo é que estava em situação de pecado. Como era livre, Jesus não pagou nada pela redenção da sua alma, Ele, cujo sangue poderia pagar amplamente a redenção dos pecados de todo o mundo. Ele tem o direito de libertar os outros, pois não tem qualquer dívida.
Mas eu vou mais longe. Cristo não é o único que nada deve para a redenção ou expiação dos seus pecados pessoais. Se olharmos para cada homem crente, podemos dizer que nenhum homem tem de pagar pela sua própria expiação, porque Cristo expiou para redenção de todos. Pois que homem achará que o seu próprio sangue é capaz de o redimir, quando Cristo derramou o seu para a redenção de todos?
O sangue de Cristo é o preço da nossa redenção
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Salmo 48, 14-15 (trad. Breviário, Ofício de Leitura sábado da XX semana, rev.)
Como pode ainda um homem considerar o próprio sangue como preço suficiente para a sua redenção, depois de Cristo ter derramado o seu sangue pela redenção de todos? Haverá alguém cujo sangue se possa comparar ao sangue de Cristo […], Ele que pelo seu sangue reconciliou o mundo com Deus? Que vítima melhor poderá haver? Que sacrifício poderá ser mais precioso? Que advogado poderá ser mais eficaz do que Aquele que Se tornou propiciação pelos pecados de todos os homens e deu a sua vida como redenção por todos nós?
O que se exige, portanto, não é a propiciação ou o resgate que pode oferecer cada um de nós, porque o preço de todos é o sangue de Cristo, pelo qual o Senhor Jesus nos remiu e reconciliou com o Pai; e levou com afã o seu labor até ao fim, tomando sobre Si a nossa própria fadiga. Por isso nos diz: «Vinde a Mim, todos vós que andais sobrecarregados e oprimidos, e Eu vos aliviarei» (Mt 11,28). […] Com efeito, nem o homem pode dar, seja o que for, em expiação pela sua redenção, uma vez que ficou livre do pecado de uma vez por todas pelo sangue de Cristo, nem o homem é por isso mesmo dispensado do sofrimento que possa suportar na observância dos preceitos de vida eterna e em quaisquer esforços para não se desviar dos mandamentos do Senhor. Enquanto viver, será com o seu afã que a sua perseverança deverá contar para alcançar a vida eterna, sob pena de voltar à morte quem já estava salvo das garras da morte.
A oração e a presença do Senhor
Subir à montanha pela oração
Santo Ambrósio de Milão — Sobre o evangelho de S. Lucas, 5, 41
«Naqueles dias, Jesus subiu ao monte para rezar e passou a noite em oração a Deus». Nem todos os que rezam sobem à montanha […], mas aqueles que rezam bem, aqueles que se elevam dos bens terrenos aos bens superiores, ascendem aos cumes da vigilância e do amor do alto. Aqueles que se preocupam com as riquezas do mundo ou com as honras não sobem à montanha; quem cobiça as terras de outro não sobe à montanha. Os que procuram a Deus sobem; os que sobem imploram a ajuda do Senhor para esse percurso. Todas as almas grandes, todas as almas elevadas ascendem à montanha, porque não é a qualquer um que o profeta diz: «Sobe a um alto monte, arauto de Sião. Grita com voz forte, arauto de Jerusalém» (Is 40,9). Não será por via de feitos físicos, mas por ações elevadas que escalarás esta montanha. Segue a Cristo […]; procura no evangelho e verás que só os discípulos subiram à montanha com o Senhor.
Cristo passa a noite em oração por nós
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre S. Lucas 5, 41ss
O Senhor não reza para pedir por Ele, mas por mim. Embora o Pai tenha posto tudo à disposição do Filho, este, para realizar plenamente a sua condição de homem, achou por bem implorar ao Pai por nós, já que é o nosso advogado. Não deis ouvidos a vozes enganadoras, imaginando que é por fraqueza que Cristo implora, para obter o que não pode realizar, Ele que é o autor de todo o poder; mas, sendo Mestre de obediência, Cristo, com o seu exemplo, molda-nos nos preceitos de virtude. Está dito que «nós temos um advogado junto do Pai» (1Jo 2,1). Se Ele é advogado, deve interceder pelos meus pecados. Portanto, não é por fraqueza, mas antes por bondade que Cristo implora. Quereis saber até que ponto Ele pode tudo o que quer? Cristo é ao mesmo tempo advogado e juiz: num reside o ofício de compaixão, no outro, a insígnia do poder. «Passou a noite em oração a Deus»: Cristo dá-vos um exemplo, traça-vos um modelo que podeis imitar.
O que é preciso fazer para vossa salvação quando, por vós, Cristo passa a noite em oração? O que deveis fazer quando quereis começar um dever de piedade, quando o próprio Cristo, antes de enviar os seus apóstolos, rezou e rezou sozinho? Se não me engano, em parte nenhuma se encontra que Cristo tenha orado com os apóstolos; Ele ora sozinho. É que o grande desígnio de Deus não pode ser captado por desejos humanos e ninguém pode tomar parte no íntimo pensamento de Cristo. Aliás, quereis ver que foi unicamente por mim, e não por Ele, que Jesus rezou? «Chamou os discípulos e escolheu doze entre eles» para os enviar, como semeadores da fé, a propagar o auxílio e a salvação dos homens em todo o universo.
A fé é a porta pela qual o Esposo entra
Santo Ambrósio de Milão — Sermão XII sobre o Salmo 118; CSEL 62, 258; Solesmes, Lectionnaire, vol. 3, p. 1035, conforme o acervo.
Bem-aventurado és tu quando Cristo bate à tua porta. A nossa porta é a fé que, se for sólida, defende toda a casa. É por essa porta que Cristo entra. É por isso que a Igreja diz, no Cântico dos Cânticos: «Chamam! É a voz do meu amado, batendo à porta». Escuta Aquele que bate, escuta Aquele que deseja entrar: «Abre, minha irmã e amiga, pomba incomparável! Tenho a cabeça coberta de orvalho, e os Meus cabelos das gotas da noite» (Ct 5, 2). Considera em que momento o Verbo de Deus bate à tua porta: quando já tem a cabeça coberta do orvalho da noite. Porque Ele digna-Se visitar aqueles que estão a ser submetidos à prova e às tentações, a fim de que ninguém sucumba, vencido pelas dificuldades. Por isso, a Sua cabeça fica coberta de orvalho, ou de gotas de água, quando o Seu corpo está a sofrer.
É nessa altura que é preciso estar vigilante, temendo que o Esposo venha e Se vá logo embora por encontrar a casa fechada. Com efeito, se adormeceres e se o teu coração não estiver vigilante (Ct 5, 2), Ele afastar-se-á sem chegar a bater; se o teu coração estiver desperto, Ele bate e pede que lhe abras a porta. Assim, dispomos da porta da alma e também das portas sobre as quais está escrito : «Ó portas, levantai os vossos umbrais! Alteai-vos, pórticos eternos, que vai entrar o rei glorioso». [Sl 24 (23), 7].
Preparar a alma e perseverar na busca do Verbo
Santo Ambrósio de Milão — Sobre a virgindade, §§ 72-74, 78
Ouviste a voz do Verbo, a Palavra de Deus. […] Levanta-te e prepara o fundo da tua alma pela oração. Vai de baixo para cima, esforça-te por abrir a porta do teu coração. Quando ergueres as mãos para Cristo, as tuas ações exalarão o perfume da fé. […]
Eis como Cristo te desejou, eis como te escolheu. Se te abrires para Ele, Ele entrará; não deixará de o fazer pois prometeu-o. Abraça então Aquele que procuraste (Ct 3,4); aproxima-te d’Ele e receberás a Sua luz (Sl 33,6); demora-O, pede-Lhe que não Se vá embora tão depressa, suplica-Lhe que não Se afaste. Com efeito, a palavra de Deus corre rapidamente (Sir 43,5), não se deixa prender pela frouxidão, a preguiça não a detém. Que a tua alma, à Sua chamada, vá ao Seu encontro e persevere no caminho traçado pela Sua palavra celeste, pois Ele passa rapidamente. […]
No caso de Ele Se ter ido embora muito depressa, não penses que Lhe desagradaste por tê-Lo chamado e Lhe teres implorado, abrindo-te a Ele: Ele permite muitas vezes que sejamos postos à prova. Quando as multidões Lhe pediam para não Se ir embora, que diz Ele nos Evangelhos? «Tenho também de anunciar a Boa Nova do Reino de Deus às outras cidades, pois para isso é que fui enviado» (Lc 4,43). Portanto, mesmo que Ele pareça ter partido, continua a procurar (cf Ct 5,6). […] Quem procura Cristo desta maneira, quem assim implora, não é abandonado por Ele; mais, Ele vem visitá-lo com frequência, pois está conosco até ao fim do mundo (Mt 28,20).
Maria se volta e reconhece o Mestre
Santo Ambrósio de Milão — Sobre a virgindade, 17-21
«Porque choras?» És tu a causa das tuas lágrimas, é por tua causa que choras. […] Choras porque não acreditas em Cristo; acredita e vê-Lo-ás. Cristo nunca deixa de aparecer a quantos O procuram. «Porque choras?» Não é de lágrimas que precisas, mas de uma fé atenta e digna de Deus. Não penses nas coisas mortais e não chorarás. […] Porque choras com aquilo que alegra os outros?
«A quem procuras?» Não vês que Cristo é a força de Deus, que Cristo é a sabedoria de Deus, que Cristo é santidade, que Cristo é castidade, que Cristo é pureza, que Cristo nasceu de uma virgem, que Cristo é do Pai e está junto do Pai e está sempre no Pai; nascido mas não criado, nem caído, sempre amado, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro? «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram.» Enganas-te, mulher; pensas que Cristo foi levado do túmulo por outros e que não ressuscitou pelo seu próprio poder. Mas ninguém retira o poder a Deus, ninguém retira a sabedoria a Deus, ninguém Lhe retira a venerável castidade. Cristo não foi levado do túmulo de justiça e de intimidade da Virgem, nem do segredo da sua alma fiel; e, mesmo que haja quem queira apoderar-se dele, tal não é possível.
Então Jesus disse-lhe: «Maria, olha para Mim.» Enquanto não acreditou, era «mulher»; quando começou a voltar-se para Ele, recebeu o nome de Maria, o nome daquela que deu Cristo à luz, porque é a alma que dá Cristo espiritualmente à luz. «Olha para Mim», disse Ele. Quem olha para Cristo corrige-se; é quando não vemos a Cristo que nos enganamos. E ela, voltando-se, disse: «Rabuni!», que quer dizer: «Mestre!» Quem olha, volta-se; quem se volta, capta de forma mais completa; quem vê, progride. É por isso que ela chama Mestre Àquele que julgava estar morto: porque encontrou Aquele que julgava estar perdido.
Marta e Maria: serviço e escuta da Sabedoria
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de São Lucas, 7, 85-86; SC 52
A virtude não tem apenas um rosto. O exemplo de Marta e de Maria mostram-nos a devoção ativa nas obras de uma, e a atenção religiosa do coração à palavra de Deus na outra. Se a tal atenção estiver unida uma fé profunda, ela é preferível às obras: «Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada». Esforcemo-nos, portanto, também nós, por possuir aquilo que ninguém nos poderá tirar, escutando com ouvido atento e não distraído; porque por vezes acontece que o grão da palavra vinda do céu é tirado, se for semeado à beira do caminho (Lc 8, 5.12).
Anima-te pois pelo desejo de sabedoria, como Maria: essa é uma obra maior, mais perfeita. Que as preocupações com o serviço não te impeçam de acolher a palavra vinda do céu. Não critiques nem tenhas por ociosos os que vires ocupados em adquirir a sabedoria, pois Salomão, esse homem de paz, convidou-a para sua casa para que ficasse com ele (Sb 9,10). Não se trata, porém, de reprovar a Marta os seus bons serviços: Maria tem preferência porque escolheu uma parte melhor. Jesus tem múltiplas riquezas, e distribui-as com prodigalidade; a mulher mais sábia reconheceu e escolheu o que é mais importante.
Também os apóstolos entenderam que era preferível não abandonar a palavra de Deus para servir às mesas (At 6,2). Mas ambas as coisas são obras de sabedoria: Estevão foi escolhido como servo, como diácono, e estava cheio de sabedoria (At 6,5.8). […]. Com efeito, o corpo da Igreja é um, e se os seus membros são diversos, têm necessidade uns dos outros: «Não pode o olho dizer à mão: “não tenho necessidade de ti”, nem tão-pouco a cabeça dizer aos pés: “não tenho necessidade de vós”» (1Cor 12,21). […] Se alguns membros são mais importantes, os outros são, todavia necessários. A sabedoria reside na cabeça; a atividade, nas mãos.
Descansar em Deus e contemplar suas delícias
Santo Ambrósio de Milão — Tratado sobre a fuga do mundo, (CSEL32,192.198-199.204)
Onde está o coração do homem está também o seu tesouro; pois Deus não costuma negar o bem aos que lhe pedem. Porque o Senhor é bom, e é bom sobretudo para os que nele esperam, unamo-nos a ele, permaneçamos com ele de toda a nossa alma, de todo o coração e de todas as forças, para vivermos na sua luz, vermos a sua glória e gozarmos da graça da felicidade eterna.
Já que Deus é o nosso refúgio, e Deus está nos céus e no mais alto dos céus, é preciso fugir daqui para as alturas onde reina a paz, onde repousaremos de nossas fadigas, onde celebraremos o banquete do grande sábado. Descansar em Deus e contemplar as suas delícias é, na verdade, um banquete, cheio de alegria e felicidade.
Nota editorial: Corrigido o lapso «felicidade terna» para «felicidade eterna».
O jejum alimenta o espírito
Santo Ambrósio de Milão — Elias e o jejum; PL14, 697
O que é o jejum, senão a essência e a imagem do Céu? O jejum é o conforto da alma e o alimento do espírito. O jejum é a vida dos anjos; o jejum é a morte do pecado, a destruição dos erros, o remédio da salvação, a raiz da graça, o fundamento da castidade. Por esta escada, chegamos mais depressa a Deus. Elias subiu por esta escada antes de subir no carro; e, ao partir para o Céu, deixou ao seu discípulo essa herança de sobriedade e abstinência (cf 2Rs 2,11-15).
Foi com a força e o espírito de Elias que João veio (cf Lc 1,17). Com efeito, também no deserto ele se entregava ao jejum, alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre (cf Mt 3,4). Por tal razão, esse, que pelo seu auto-domínio submeteu as necessidades da vida humana, foi considerado, não um homem, mas um anjo. Lemos a este propósito: «Um profeta? Sim, digo-vos, e mais que um profeta. É acerca dele que está escrito: “Eis que Eu envio o meu mensageiro à tua frente, que há de preparar o teu caminho diante de ti”» (Mt 11,9-10; cf Ex 23, 20). Quem conseguiria, com a mera força humana, montar cavalos de fogo, um carro de fogo e subir pelos ares [como Elias], a não ser aquele que havia transformado a natureza do corpo humano pela força do jejum, que lhe proporciona uma natureza imperecível?
A fé que se torna serviço e caridade
Estender a mão nas boas obras
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas, V, 39; SC, p. 197, conforme a versão do acervo.
O Senhor impregnou com a seiva salutar das boas obras a mão que Adão estendera para colher os frutos da árvore proibida, para que, estando ressequida pelo erro, fosse curada pelas boas obras. Naquela ocasião, Cristo ataca os seus adversários, que com falsas interpretações violavam os princípios da Lei; julgavam eles que o sábado devia ser observado como dia de descanso, não sendo permitido o trabalho, nem sequer para a realização de boas obras. Mas a Lei prefigurou no presente o aspeto do futuro onde, seguramente, será o mal a não trabalhar, não o bem […].
Ouviste, pois, as palavras do Senhor: «Estende a mão». É este o remédio para todo o homem; e tu, que crês ter a mão sã, toma cuidado para que a avareza, o sacrilégio, não a paralise. Estende-a pois, sempre: estende-a a esse pobre que te implora auxílio, estende-a para ajudares o teu próximo, para socorreres a viúva, para arrancares da injustiça aquele que vês submetido a imerecida vexação; estende-a a Deus, pelos teus pecados. Assim se deve estender a mão; e assim ela será curada.
Nota editorial: Sophia.docx 31 foi integrado integralmente, substituindo a versão equivalente do post.
Acolher o estrangeiro é receber a Deus
Santo Ambrósio de Milão — Sobre Abraão, I, 5, 32-35
«O Senhor apareceu a Abraão junto dos carvalhos de Mambré, quando ele estava sentado à porta da sua tenda, durante as horas quentes do dia» (Gn 18,1). Enquanto os outros repousavam, Abraão aguardava a chegada de eventuais hóspedes. Bem merecia, portanto, que Deus viesse ter com ele junto aos carvalhos de Mambré, visto que procurava exercer a hospitalidade com tanta prontidão. […]
Sim, a hospitalidade é boa e tem a sua própria recompensa: atrai a gratidão dos homens e — mais importante ainda — merece um salário da parte de Deus. Todos somos, nesta terra de exílio, hóspedes de passagem. Durante algum tempo podemos alojar-nos sob um teto; mas depressa teremos de nos desalojar. Estejamos atentos! Se tivermos sido duros ou negligentes no acolhimento dos estrangeiros, uma vez que se esgote o curso desta vida, os santos poderão, por sua vez, recusar-se a acolher-nos. «Arranjai amigos com o vil dinheiro», diz o Senhor no Evangelho, «para que, quando este vier a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas» […].
E pode acontecer que estejas a acolher a Deus, quando pensas que estás a lidar com homens. Abraão acolheu três viajantes, mas, na realidade, foi a Deus e aos seus anjos que recebeu em casa. Também tu, quando acolhes um estrangeiro, é a Deus que recebes. Atesta-o o Senhor Jesus no Evangelho: «Era peregrino e acolhestes-Me. […] Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,35.40).
A fé hospitaleira da viúva de Sarepta
Santo Ambrósio de Milão — Sobre as viúvas; PL 16, 247-276
Num tempo em que a fome desolava a terra inteira, porque terá Elias sido enviado a uma viúva? Há uma graça especial que liga duas mulheres: um anjo é enviado a uma virgem e um profeta é enviado a uma viúva. Ali Gabriel, aqui Elias; e são escolhidos o anjo e o profeta mais eminentes! Mas a viuvez, em si mesma, não merece louvores, se não se lhe acrescentarem outras virtudes. À história não faltam viúvas; contudo, há uma que se distingue entre todas e as exorta com o seu exemplo. […] Deus é particularmente sensível à hospitalidade: no evangelho, promete uma recompensa eterna por um copo de água fresca (cf Mt 10,42); aqui, a profusão infinita das suas riquezas por um pouco de farinha ou uma medida de azeite. […]
Porque nos julgamos donos dos frutos da terra quando a terra é uma oferenda perpétua? […] Invertemos, para nosso benefício, o sentido daquele mandamento universal: «Também vos dou todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento; e todos os animais da terra, todas as aves dos céus e todos os seres vivos que existem e se movem sobre a terra» (Gn 1,29-30); ao açambarcar, só encontramos o vazio e a escassez. Como podemos esperar o cumprimento da promessa, se não observamos a vontade de Deus? Obedecer ao preceito da hospitalidade e honrar os nossos hóspedes é um são procedimento; pois não somos também nós hóspedes aqui na terra?
Como é perfeita esta viúva! Embora atormentada por uma grande fome, continuava a venerar a Deus; e não guardava as provisões só para si: partilhava-as com seu filho. É um bonito exemplo de ternura, mas é um exemplo ainda mais belo de fé! Pois esta mulher não deveria preferir ninguém a seu filho, mas eis que coloca o profeta de Deus acima da sua própria vida. Reparai bem que não lhe deu apenas um pouco de comida, mas toda a sua subsistência; não ficou com nada para si. Assim como a sua hospitalidade a inspirou a uma doação total, assim também a sua fé a conduziu a uma confiança total.
A grandeza do dom da viúva pobre
Santo Ambrósio de Milão — Exortação às viúvas §§ 27ss. (a partir da trad. Solesmes 1980, p.118 rev.)
No Evangelho de Lucas, o Senhor ensina como devemos ser misericordiosos e generosos para com os pobres, sem nos determos a pensar na nossa pobreza; porque a generosidade não se avalia segundo a abundância do patrimônio, mas segundo a disposição de dar. É por isso que a palavra do Senhor deu preferência entre todos à viúva, acerca da qual diz: «Esta viúva deu mais do que todos». No aspecto moral, o Senhor ensina que não devemos deixar de fazer o bem por vergonha da pobreza, e que os ricos não se devem vangloriar por parecer que dão mais que os pobres. Uma pequena moeda tirada de poucos bens prevalece sobre um tesouro tirado da abundância; não se avalia o que é dado, mas sim o que fica. Ninguém deu mais do que aquela que nada guardou para si. […]
Contudo, no sentido místico, não podemos esquecer esta mulher que põe duas moedas no tesouro. É seguramente grande, esta mulher que mereceu ser preferida a todos no juízo de Deus! Não terá sido ela que, pela sua fé, foi beber aos dois Testamentos, para auxílio dos homens? Por conseguinte ninguém fez mais e nenhum homem pôde igualar a grandeza do seu dom, dado que ela uniu a fé à misericórdia. Tu também, quem quer que sejas, […] não hesites em trazer para o tesouro duas moedas cheias de fé e graça.
Guardar os bens ou adquirir o tesouro do céu
Santo Ambrósio de Milão — Nabaot, o pobre, 58
Tu és guardião dos teus bens, e não proprietário, tu que escondes o teu ouro na terra (Mt 25,25); e tornas-te servo deles, e não senhor. Cristo disse: «Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração»; ora, o teu coração está no ouro que enterraste. Vende o ouro e compra a salvação; vende o que é da terra e adquire o Reino de Deus; vende o campo e recupera a vida eterna.
Dizendo isto digo a verdade, porque me apoio na palavra daquele que é a Verdade: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu» (Mt 19,21). Não te entristeças ao ouvir estas palavras, com medo que te seja dito o mesmo que ao jovem rico: «Dificilmente entrará um rico no reino dos céus» (v. 23). Mais ainda, quando lês esta frase, considera que a morte pode arrancar-te esses bens, que a violência de alguém mais forte que tu tos pode tirar. E, no fim de contas, terias preferido bens menores em lugar de grandes riquezas, e trocos em vez de tesouros de graça. Pela sua própria natureza, esses bens são perecíveis e não permanecem para sempre.
Administrar as riquezas sem servir ao dinheiro
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de Lucas, 7, 244ss; SC 52
«Nenhum servo pode servir a dois senhores.» Não que haja dois: só há um Senhor. Porque mesmo que haja pessoas que servem o dinheiro, este não possui em si qualquer direito de ser senhor; são as pessoas que tomam sobre si o jugo desta escravatura. Com efeito, o dinheiro não tem qualquer poder justo, antes constitui uma escravatura injusta. É por isso que Jesus diz: «Arranjai amigos com o dinheiro desonesto», para que, pela nossa generosidade para com os pobres, obtenhamos os favores dos anjos e dos santos.
O administrador não é criticado; deste modo, aprendemos que não somos senhores, mas administradores das riquezas de outrém. Se bem que tenha errado, ele é elogiado porque, ao dar aos pobres em nome do seu senhor, arranjou apoios para si. E Jesus falou muito bem do «dinheiro desonesto», porque o amor pelo dinheiro tenta-nos pelas suas diversas seduções, a ponto de aceitarmos ser seus escravos. É por isso que Ele diz: «Se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso?» As riquezas são-nos alheias porque estão fora da nossa natureza: não nascem connosco, não nos seguem na morte. Cristo, pelo contrário, é nosso porque é a vida. […] Não sejamos então escravos dos bens exteriores porque só a Cristo devemos reconhecer como Senhor.
Zaqueu: generosidade e reparação da injustiça
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas, 8, 90
Os ricos têm de aprender que não é pecado ser rico; o que é pecado é não saber utilizar a própria riqueza. Porque as riquezas impedem os maus de alcançar a virtude, mas ajudam os bons. Zaqueu, que era rico, foi escolhido por Cristo, mas depois de dar metade dos seus bens aos pobres e de reembolsar o quádruplo do que tinha retido de modo fraudulento. Pois não basta uma só coisa, e a generosidade perde o valor quando a injustiça permanece; não se pedem os restos, mas a entrega. Foi por isso que ele recebeu uma recompensa mais abundante que a sua generosidade. E ainda bem que é denominado chefe de publicanos; com efeito, quem poderá desesperar, quando o próprio Zaqueu conseguiu? Pois Zaqueu tirava os seus rendimentos da fraude.
«Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-l’O, porque era de pequena estatura.» […] Enquanto se encontra no meio da multidão, Zaqueu não consegue ver a Cristo; só quando se eleva acima da multidão é capaz de O avistar. […] E Jesus viu Zaqueu no alto, porque a elevação que lhe deu a fé o fez emergir por entre os frutos das suas obras novas, como quem sobe ao alto de uma árvore fecunda.
A misericórdia purifica o interior
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de S. Lucas, 7, 100-102
«Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato.» Como vedes, os nossos corpos são aqui designados por nomes de objectos frágeis e feitos de barro, que se partem com uma simples queda. E os sentimentos íntimos da alma são designados por expressões e gestos do corpo, como aquilo que está no interior do copo pode ser visto do exterior. […] Como vedes, não é o exterior deste copo e deste prato que nos suja, é o seu interior.
Como bom mestre que é, Jesus ensina-nos a limpar as manchas do corpo, dizendo: «Dai antes de esmola o que estará dentro e tudo para vós ficará limpo.» Vedes de quantos remédios dispomos? A misericórdia purifica-nos. A palavra de Deus também nos purifica, de acordo com o que está escrito: «Vós estais limpos, devido à palavra que vos tenho dirigido» (Jo 15, 3). […]
É o ponto de partida de uma passagem muito bela: o Senhor convida-nos a procurar a simplicidade e condena a nossa ligação àquilo que é supérfluo e terra-a-terra. Devido à sua fragilidade, os fariseus são comparados – e com razão – ao copo e ao prato: observam pontos que não têm qualquer utilidade para nós, negligenciando aqueles onde se encontra o fruto da nossa esperança. Cometem, pois, uma grande falta, desdenhando o melhor. E, contudo, até a essa falta é prometido o perdão, desde que depois dela venha a misericórdia e a esmola.
O Samaritano que cuida das nossas feridas
Santo Ambrósio de Milão — Comentário do Evangelho de Lucas, 7, 74s
Um samaritano descia por aquele caminho. «Quem subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu?» (cf Jo 3,13). Vendo moribundo aquele homem que ninguém antes dele conseguira curar…, aproximou-se dele. Quer dizer, aceitando sofrer connosco, assumiu-se como nosso próximo e, apiedando-se de nós, fez-se nosso vizinho.
«Ele tratou as suas feridas com óleo e vinho». Este médico tem muitos remédios com os quais costuma curar. As suas palavras são um remédio: tal palavra, liga as feridas; outra, verte o bálsamo; outra, o vinho adstringente… «Depois, transportou-o na sua própria montada». Ouve de que modo ele te coloca nela: «Eram os nossos sofrimentos que ele levava e as nossas dores que o vergavam» (Is 53, 4), O pastor também pôs nos seus ombros a ovelha ferida (Lc 15,5)…
«Conduziu-o à hospedaria e cuidou dele»… Mas o samaritano não podia permanecer muito tempo na nossa terra; tinha de voltar ao local de onde havia descido. Portanto, «no dia seguinte» – que dia seguinte é este, senão o dia da Ressurreição do Senhor, aquele acerca do qual Ele disse: «Eis o dia que fez o Senhor» ( Sl 117, 24)? – «pegou em duas moedas e deu-as ao estalajadeiro, dizendo-lhe: Cuida dele». O que são estas duas moedas? Talvez os dois Testamentos, que contêm a efígie do Pai eterno e, graças aos quais, as nossas feridas são curadas… Feliz desse estalajadeiro que pode curar as feridas de outrem! Feliz daquele a quem Jesus diz: «o que gastares a mais, eu to devolverei quando voltar»… Promete, pois a recompensa. Quando voltarás, Senhor, senão no dia do Juízo? Se bem que estejas sempre em toda a parte, permanecendo entre nós sem que te reconheçamos, um dia virá em que toda a humanidade te verá vir. E devolverás o que deves. Como o devolverás, Senhor Jesus? Prometeste aos bons uma larga recompensa no céu, mas darás mais ainda quando disseres: «Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em pequenas coisas, muito te confiarei; entra na alegria do teu mestre» (Mt 25,21).
Nota editorial: Corrigida a inversão da citação de Jo 3,13: «Quem subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu».
Pobreza de espírito, mansidão e lágrimas
Santo Ambrósio de Milão — Sobre o Evangelho de São Lucas, V, 53-55
«Felizes vós, os pobres». Nem todos os pobres são felizes, pois a pobreza é uma coisa neutra: pode haver pobres bons e maus. […] Bem-aventurado o pobre que invoca o Senhor e Ele o atende (Sl 33,7): pobre em erros, pobre em vícios, o pobre no qual o príncipe deste mundo nada encontrou (Jo 14,30), o pobre que imita aquele Pobre que, sendo rico, Se tornou pobre por nós (2Co 8,9). É por isso que Mateus dá a explicação completa: «Felizes os pobres de espírito», pois o pobre de espírito não se ufana, não se engrandece no seu pensamento humano. Esta é, então, a primeira beatitude.
[«Felizes os mansos» escreve Mateus em seguida.] Tendo-me libertado de todos os pecados […], estando satisfeito com a minha simplicidade, isento de mal, resta-me moderar o meu carácter. De que me serve não possuir bens materiais, se não for manso e tranquilo? Porque seguir o caminho certo é, evidentemente, seguir Aquele que diz: «Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29). […]
Dito isto, lembrai-vos de que sois pecadores: chorai os vossos pecados. Chorai os vossos erros. E é razoável que a terceira beatitude seja para aqueles que choram os seus pecados, pois é a Trindade que perdoa os pecados. Purificai-vos, pois, com as vossas lágrimas e lavai-vos com o vosso choro. Se chorardes por vós mesmos, ninguém terá de chorar por vós. […] Todos temos os nossos mortos para chorar; morremos quando pecamos. […] Que o pecador chore por si mesmo e se arrependa, a fim de se tornar justo, pois «o que advoga a sua causa parece ter razão» (Pr 18,17).
Lourenço reconhece nos pobres o tesouro da Igreja
Santo Ambrósio de Milão — Sobre os deveres dos ministros, I, 41, 214–216; II, 28; referência recebida: I, 84; II, 28; PL 16, 84; Bouchet, Lectionnaire, p. 468.
Ao ver que levavam o bispo Sixto para o martírio, São Lourenço pôs-se a chorar. Não era o sofrimento do seu bispo que lhe arrancava lágrimas, mas o facto de não o acompanhar no martírio. Por isso, interpelou-o nestes termos: «Aonde vais, meu pai, sem o teu filho? Para onde corres, padre santo, sem este teu diácono? Tinhas por hábito nunca oferecer o sacrifício sem ministro! […] Dá, pois, uma prova de que escolheste um bom diácono, a quem confiaste o ministério do sangue do Senhor, com quem partilhas os sacramentos; recusar-te-ás a comungar com ele no sacrifício do sangue?» […]
O Papa Sixto respondeu a Lourenço: «Não te esqueço, meu filho, nem te abandono. Mas deixo-te maiores combates. Sou velho e só aguento uma luta ligeira. Mas tu és jovem e hás de obter um triunfo bem mais glorioso contra o tirano. Logo virás ter comigo. Seca essas lágrimas. Dentro de três dias, seguir-me-ás». […]
Três dias depois, foi dada ordem de prisão a Lourenço. Ordenaram-lhe que levasse os bens e os tesouros da Igreja e ele prometeu obedecer; no dia seguinte, apresentou-se na companhia dos pobres. Perguntado onde estavam os tesouros que devia ter levado, apontou para os pobres, dizendo: «Eis os tesouros da Igreja. Teria Cristo tesouros melhores que estes, acerca dos quais disse: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25,40)?». Lourenço apresentou aqueles tesouros e saiu vencedor, porque o seu perseguidor não teve vontade de lhos tirar. Mas, cheio de raiva, mandou-o queimar vivo.
Nota editorial: Três versões equivalentes reunidas. O diálogo entre Sixto e Lourenço foi localizado no livro I, capítulo 41, §§ 214–216; o episódio dos tesouros está no livro II, capítulo 28. A numeração divergente do acervo foi registrada.
Ser testemunha de Cristo nas lutas de cada dia
Santo Ambrósio de Milão — Homília 20 sobre o salmo 118; CSEL 62, 467ss. (a partir da trad. do breviário)
Todos os dias podes ser testemunha de Cristo. Foste tentado pelo espírito da impureza, mas […] pareceu-te que não devias macular a castidade do espírito e do corpo: és mártir, ou seja, testemunha de Cristo. […] Foste tentado pelo espírito do orgulho, mas, vendo o pobre e o indigente, foste tomado de uma terna compaixão e preferiste a humildade à arrogância: és testemunha de Cristo. Mais que isso: não deste o teu testemunho apenas com palavras, mas também com obras.
Qual é o testemunho mais autêntico? «Todo o espírito que confessa Jesus Cristo, que veio em carne mortal» (1Jo 4, 2), e que observa os preceitos do Evangelho. […] Quantos serão, em cada dia, estes mártires escondidos de Cristo, que confessam o Senhor Jesus! O apóstolo Paulo conheceu esse martírio e o testemunho de fé dado a Cristo, ele que disse: «Este é o nosso motivo de glória: o testemunho da nossa consciência» (2Cor 1, 12). Quantos confessam a fé exteriormente, mas a negam interiormente! […] Por conseguinte, sede fiéis e corajosos nas perseguições interiores, para triunfardes também nas perseguições exteriores. Também nas perseguições interiores há «reis e governadores», juízes de poder temível. Tendes o exemplo nas tentações sofridas pelo Senhor (Mt 4, 1ss.).
A Igreja, a missão e a esperança da ressurreição
O Senhor quer a casa cheia
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas, VII, 200–203; SC 52, conforme a versão equivalente.
Os convidados desculpam-se, embora o Reino não esteja fechado a ninguém que não se exclua a si próprio […]. Na sua bondade, o Senhor convida todos; só a nossa cobardia ou a nossa loucura nos afastam dele. Aqueles que preferem comprar um campo não têm lugar no Reino: no tempo de Noé, compradores e vendedores foram engolidos pelo dilúvio (cf Lc 17,26-28) […]; o mesmo acontecerá a quem se desculpa porque acabou de se casar, pois está escrito: «Se alguém vier ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo» (Lc 14,26). […]
Confrontado com o desprezo arrogante dos ricos, Cristo virou-Se para os gentios, e foi buscar bons e maus, para fazer crescer os bons e melhorar as disposições dos ímpios. […] Ele convida os pobres, os aleijados e os cegos, o que mostra que a deficiência física não exclui ninguém do Reino […] e que a imperfeição do pecado é curada pela misericórdia do Senhor. […] Ele manda procurar nas encruzilhadas dos caminhos, porque «a sabedoria clama nas ruas, eleva a sua voz nas praças» (Prov 1,20).
Ele envia os servos às praças, para dizer aos pecadores que deixem o caminho largo e empreendam antes o caminho estreito que conduz à vida (cf Mt 7,13); envia-os às ruas e ao longo das cercas, porque os que avançam para os bens que hão de vir, sem serem retidos pelos bens do presente, comprometidos no caminho da boa vontade, são capazes de alcançar o Reino dos Céus; e também os que sabem distinguir o mal do bem, […] quer dizer, os que opõem o baluarte da fé às tentações do pecado.
Maria sobe apressadamente para servir
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas, II, 19ss.; SC 45
Se uma pessoa quiser que acreditemos nela, dar-nos-á razões para tal. Foi por isso que o anjo […] anunciou a Maria virgem que uma mulher idosa e estéril se tornara mãe, mostrando-lhe assim que Deus pode fazer tudo o que quiser. Logo que soube disto, Maria partiu para a montanha, não por falta de fé na profecia, nem por desconfiar deste anúncio, nem por dúvida […], mas com regozijo, para cumprir um dever religioso, na urgência da alegria. Doravante cheia de Deus, como poderia Ela não se elevar apressadamente às alturas? A lentidão de pensamento é estranha à graça do Espírito Santo.
Até então, Maria vivia sozinha, retirada do mundo exterior; mas nem o pudor de aparecer em público, nem as escarpas das montanhas, nem a lonjura do caminho a detiveram, no seu desejo de servir. A Virgem apressa-se a subir às alturas, pensando apenas em servir e esquecendo as dificuldades: a caridade é a sua força […]. Vós, que aprendestes a delicadeza de Maria, aprendei também a sua humildade. A mais nova vai ter com a mais velha […], a superior vai ter com a inferior: Maria vai ter com Isabel, Cristo vai ter com João, assim como, mais adiante, o Senhor será batizado por João, para consagrar o batismo. E imediatamente se manifestam os benefícios da chegada de Maria e da presença do Senhor, porque «quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino exultou-lhe no seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo». […] As duas mulheres falam da graça que lhes foi dada; as duas crianças realizam essa graça e arrastam as mães para este mistério de misericórdia.
Que em todos viva a alma de Maria
Santo Ambrósio de Milão — Comentário a S. Lucas 2,26-27
Que em todos resida a alma de Maria que glorifica o Senhor; que em todos resida o espírito de Maria que exulta em Deus. Se, fisicamente, há uma só Mãe de Cristo, pela fé, Cristo é fruto de todos, porque todas as almas recebem o Verbo de Deus se permanecerem sem mancha, preservadas do mal e do pecado, guardando a castidade numa pureza inalterada. Assim, todas as almas que alcançam este estado exaltam o Senhor, como a alma de Maria exaltou o Senhor e o seu espírito se alegrou em Deus Salvador.
Com efeito, o Senhor é exaltado, como lestes noutra passagem: «Em uníssono exaltemos o seu nome». Não que a palavra humana possa acrescentar seja o que for ao Senhor, mas porque Ele cresce em nós. Porque «Cristo é a imagem de Deus» (2Cor 4,4), de maneira que a alma que faz coisas justas e religiosas exalta esta imagem de Deus, à semelhança da qual foi criada. E, exaltando-a, participa de alguma maneira na sua grandeza, na qual é elevada, parecendo reproduzir em si esta imagem através das cores vivas das suas boas obras, e como que copiá-la pelas suas virtudes.
O pão da Palavra sustenta os que caminham
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de São Lucas, VI, 73-88 (a partir da trad. SC 45, pp. 254 ss. rev.)
Senhor Jesus, sei bem que não queres deixar em jejum estas pessoas que estão aqui comigo, mas antes alimentá-las com os alimentos que distribuis; deste modo, fortalecidas com o teu alimento, não recearão desfalecer de fome. Sei bem que também não nos queres mandar embora em jejum. […] Tu o disseste: não queres que eles desfaleçam no caminho, isto é, que desfaleçam no decurso desta vida antes de chegarem ao fim do percurso, antes de chegarem ao Pai e perceberem que Tu provéns do Pai. […]
O Senhor tem piedade, para que ninguém desfaleça no caminho. […] Assim como faz chover tanto sobre os justos como sobre os injustos (Mt 5,45), também alimenta tanto os justos como os injustos. Não foi graças à força do alimento que o santo profeta Elias, quase a desfalecer, conseguiu caminhar durante quarenta dias? (1Rs 19,8) Foi um anjo que lhe deu esse alimento; mas a vós, é o próprio Cristo que vos alimenta. Se conservardes o alimento assim recebido, não caminhareis quarenta dias e quarenta noites […], mas quarenta anos, desde a vossa saída dos confins do Egito até à vossa chegada à terra da abundância, à terra onde correm o leite e o mel (Ex 3,8). […]
Cristo partilha os víveres e quer, sem dúvida alguma, dá-los a todos. Não os recusa a ninguém, pois dá-os a todos. Mas se, quando Ele parte os pães e os dá aos discípulos, não estenderdes as mãos para receber o vosso alimento, desfalecereis no caminho. […] Este pão que Jesus parte é o mistério da palavra de Deus: quando é distribuída, aumenta. Com poucas palavras, Jesus forneceu a todos os povos um alimento superabundante. Ele deu-nos os seus discursos como pães e, enquanto os saboreamos, eles multiplicam-se na nossa boca. […] Quando as multidões os comem, os pedaços tornam a aumentar, multiplicando-se. Tanto assim é que, no fim, os restos são ainda mais abundantes do que os pães que foram partilhados.
À palavra do Senhor, lançar de novo as redes
Santo Ambrósio de Milão — Tratado sobre o evangelho de São Lucas
«Faz-te ao largo» quer dizer: avança para o mar alto dos debates. Haverá profundidade comparável aos «abismos da riqueza, da sabedoria e da ciência do Filho de Deus» (Rom 11,33), à proclamação da sua filiação divina? […] A Igreja é conduzida por Pedro para o mar alto do testemunho, para contemplar o Filho de Deus ressuscitado e o Espírito Santo derramado.
O que são estas redes de apóstolo que Cristo nos manda lançar? Não serão o encadeado das palavras, as voltas do discurso, a profundidade dos argumentos, que não deixam escapar aqueles que são agarrados? Estes instrumentos de pesca dos apóstolos não matam a presa, mas retiram-na dos abismos para a luz, conduzem-na lá de baixo até às alturas. […]
«Mestre», diz Pedro, «andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Também eu, Senhor, sei que é de noite para mim quando não és Tu a dar-me as ordens. Ainda não converti ninguém com as minhas palavras, ainda é noite. Falei no dia da Epifania: lancei a rede, mas ainda não apanhei nada. Lancei a rede durante o dia. Espero as tuas ordens; à tua palavra, tornarei a lançá-la. A confiança em si mesmo é vã, mas a humildade dá muito fruto. Eis que aqueles que até então não tinham apanhado nada, à palavra do Senhor, capturam uma enorme quantidade de peixes.
Os apóstolos semeiam a fé; Cristo assume a traição
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de Lucas 5, 44-45 (trad. cf. SC 45, p. 199)
«Cristo chamou os Seus discípulos e escolheu doze», para os enviar por todo o mundo, como semeadores da fé, a propagar a salvação dos homens. Reparai bem neste plano divino: não foram sábios, nem homens ricos, nem nobres, mas pescadores e publicanos os que Ele escolheu enviar, não fossem dar a impressão de que tinham sido movidos pelas suas capacidades, escolhidos pelas suas riquezas, chamados devido ao seu prestígio, ao seu poder ou à sua notoriedade. Procedeu assim para que a vitória tivesse origem no fundamento da verdade, e não no prestígio do discurso.
Também Judas foi escolhido, não por insensatez, mas com conhecimento de causa. Que grandeza a desta verdade, que nem um servo inimigo é capaz de enfraquecer! E que grandeza de carácter a do Senhor, que prefere comprometer, a nossos olhos, a Sua capacidade de ajuizar, a pôr em causa a Sua capacidade de amar! Ele tomou sobre Si a fraqueza humana, e nem deste aspecto da mesma fraqueza se esqueceu! Quis o abandono, quis a traição, quis ser entregue pelo Seu apóstolo, para que também tu, abandonado por um companheiro, atraiçoado por um companheiro, aceites tranquilamente esse erro de avaliação, essa delapidação da tua bondade.
Nota editorial: Corrigido o lapso «pecadores e publicanos» para «pescadores e publicanos», na enumeração dos apóstolos chamados sem prestígio mundano.
Semear a fé com humildade e paciência
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho de Lucas, VII, 44–45, 59; SC 52, p. 23–28, conforme as versões recebidas.
Enviando discípulos para a messe que tinha sido bem semeada pelo Verbo do Pai, mas que clamava por ser trabalhada, cultivada, cuidada com solicitude para que os pássaros não roubassem a semente, Jesus declara-lhes: «Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos». […] O Bom Pastor não teme que os lobos Lhe ataquem o rebanho; não enviou os Seus discípulos para se tornarem presas deles, mas para difundirem a graça. A solicitude do Bom Pastor faz com que os lobos não consigam atentar contra os cordeiros que Ele envia. E envia-os para que se realize a profecia de Isaías: «O lobo e o cordeiro pastarão juntos» (Is 65,25). […] Além do mais, não têm os discípulos ordem de nem sequer levarem um cajado na mão? […]
Aliás, os discípulos são enviados com a indicação de não levarem cajado na mão. E o que é este cajado, senão a insígnia do poder, o instrumento que vinga a dor? Assim, pois, aquilo que este Senhor humilde lhes prescreveu, cumprem-no os Seus discípulos pela prática da humildade. Porque Ele envia-os a semear a fé, não por via da imposição, mas do ensino; não pela exibição da força do seu poder, mas pela exaltação da doutrina da humildade. E pareceu-Lhe bem juntar a humildade à paciência, porque Pedro declara: «Quando O insultavam não insultava e, sofrendo, não ameaçava» (1Ped 2, 23).
Que é o mesmo que dizer: Sede Meus imitadores, abandonai o gosto pela vingança, respondei à arrogância, não com mau proceder, mas com uma paciência cheia de bondade. Ninguém deve imitar, por sua conta, aquilo que vê outro fazer; a doçura inflige golpes mais duros aos insolentes. E a golpes desses respondeu o Senhor dizendo: «Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra» (Mt 5, 39).
Nota editorial: Versões equivalentes reunidas. Conservou-se a explicação do cajado e a conclusão sobre oferecer a outra face.
Amar os familiares e preferir Deus
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao evangelho de Lucas, 7, 134 (a partir da trad. cf. SC 52, pp. 55ss.)
«Julgais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não, Eu vo-lo digo, mas antes a divisão. Porque, daqui por diante, estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois, e dois contra três». Em quase todas as passagens do Evangelho o sentido espiritual joga um papel importante; mas nesta passagem sobretudo, para não ser rejeitada pela dureza de uma interpretação simplista, é preciso procurar na trama do sentido a profundidade espiritual. […] Como é que Ele próprio disse: «Dou-vos a Minha paz, deixo-vos a Minha paz» (Jo 14, 27), se veio separar os pais dos filhos, os filhos dos pais, rompendo os laços que os unem? Como pode ser chamado «maldito o que trata com desprezo seu pai ou sua mãe» (Dt 27, 16), e fervoroso o que o abandona?
Se compreendermos que a religião vem em primeiro lugar e a piedade filial em segundo, compreenderemos que esta questão se esclarece; com efeito, é preciso fazer passar o humano depois do divino. Porque, se temos deveres para com os pais, quanto mais para com o Pai dos pais, a quem devemos estar reconhecidos pelos nossos pais? […] Ele não diz, portanto, que é preciso renunciar aos que amamos, mas que há que preferir Deus a todos. Aliás, encontramos noutro livro: «Quem amar pai ou mãe mais do que a Mim não é digno de Mim» (Mt 10, 37). Não te é interdito amares os teus pais, mas preferi-los a Deus. Porque as relações naturais são benefícios do Senhor, e ninguém deve amar os benefícios recebidos mais do que a Deus, que preserva os benefícios que dá.
Um só corpo, uma só fé, um Reino indivisível
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de Lucas, 7, 91-92; SC 52
«Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode perdurar.» Uma vez que diziam que Ele expulsava os demônios por Belzebu, príncipe dos demônios, Jesus quis mostrar, com esta palavra, que o seu reino é indivisível e eterno. Com razão respondeu a Pilatos: «O meu reino não é deste mundo» (Jo 18,36). Portanto, os que não põem a sua esperança em Cristo, mas pensam que os demônios são expulsos pelo príncipe dos demônios, esses, diz Jesus, não pertencem a um reino eterno. […] Quando a fé se rasga, o reino dividido não pode manter-se. […] Se o reino da Igreja vai durar eternamente é porque a sua fé não está dividida e o seu corpo é um só: «há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos» (Ef 4,5-6).
Que loucura sacrílega! O Filho de Deus encarnou para esmagar os espíritos impuros, arrancar o espólio ao príncipe do mundo e dar aos homens o poder de destruir o espírito do mal (cf Lc 10,19), […] e eis que alguns pedem auxílio ao poder do demônio. No entanto, como diz Lucas, é pelo «dedo de Deus» (11,20) ou, como diz Mateus, pelo «Espírito de Deus» (12,28) que Jesus expulsa os demônios. Por aí entendemos que o Reino de Deus é indivisível, tal como um corpo é indivisível, uma vez que Cristo está à direita de Deus e o Espírito parece ser comparável ao seu dedo. […] «Porque é nele que habita realmente toda a plenitude da divindade» (Col 2,9).
A vinha da Igreja cresce na cruz
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de São Lucas 9, 29-30 (trad. Véricel, L’Evangile commenté, p. 290 rev. ; cf SC 52, p. 150)
A vinha é o nosso símbolo, porque o povo de Deus eleva-se acima da terra enraizado na cepa da vinha eterna (Jo 15, 5). Fruto de um solo ingrato, a vinha pode desenvolver-se e florescer, ou revestir-se de verdura, ou assemelhar-se ao jugo amável da cruz, quando cresce e os seus braços estendidos são os sarmentos de uma videira fecunda. […] É, pois, com razão que chamamos vinha ao povo de Cristo, quer porque ele traça na testa o sinal da cruz (Ez 9, 4), quer porque os frutos da vinha são recolhidos na última estação do ano, quer porque, tal como acontece aos ramos da videira, pobres e ricos, humildes e poderosos, servos e senhores, todos são, na Igreja, de uma igualdade completa. […]
Quando é ligada, a vinha endireita-se; se é podada, não é para a diminuir, mas para fazê-la crescer. E o mesmo se passa com o povo santo: quando é preso, liberta-se; quando é humilhado, eleva-se; quando é cortado, é uma coroa que lhe é dada. Melhor ainda: tal como o rebento que é retirado de uma árvore velha e enxertado noutra raiz, assim também este povo santo […] vem a desenvolver-se quando é alimentado na árvore da cruz […]. E o Espírito Santo, como que expandindo-Se nos sulcos de um terreno, derrama-Se sobre o nosso corpo, lavando tudo o que é imundo e limpando-nos os membros, para os dirigir para o céu.
O Vinhateiro tem por costume mondar esta vinha, ligá-la e apará-la (Jo 15, 2). […] Ora inunda de sol os segredos do nosso corpo, ora os rega com a chuva. Gosta de mondar o terreno, para que os espinheiros não perturbem os rebentos; e vela para que as folhas não façam demasiada sombra […], privando-nos de luz as virtudes e impedindo os frutos de amadurecer.
A fé como grão de mostarda
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de Lucas
Vejamos porque é o reino de Deus comparado a um grão de mostarda. Lembro-me doutra passagem que evoca o grão de mostarda; ele é comparado com a fé, quando o Senhor diz: «Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: ‘Muda-te daqui para acolá’, e ele há-de mudar-se» (Mt 17,19). […] Se, portanto, o Reino dos céus é como um grão de mostarda e a fé também é como um grão de mostarda, a fé é seguramente o Reino dos céus e o Reino dos céus é a fé. Ter fé é ter o Reino dos céus. […] Foi por isso que Pedro, que tinha realmente fé, recebeu as chaves do Reino dos céus: para o poder abrir também aos outros (Mt 16,19).
Apreciemos agora o alcance da comparação. Este grão é certamente uma coisa comum e simples, mas, se o trituramos, ele irradia a sua força. Do mesmo modo, à primeira vista, a fé parece ser simples, mas, tocada pela adversidade, ela irradia a sua força. […] Os nossos mártires Félix, Nabor e Victor foram grãos de mostarda: tinham o perfume da fé, mas eram ignorados. Chegada a perseguição, depuseram as armas, estenderam o pescoço e, abatidos pelo gládio, espalharam a beleza do seu martírio «até aos confins da terra» (Sl 18,5). […]
Mas o próprio Senhor é um grão de mostarda: até ter sofrido ataques, o povo não O conhecia; escolheu ser triturado […]; escolheu ser esmagado, embora Pedro Lhe dissesse: «é a multidão que te aperta e empurra» (Lc 8,45); Ele escolheu ser semeado, como o grão «que um homem tomou e deitou no seu quintal». Pois foi num jardim que Cristo foi preso e enterrado; Ele cresceu nesse jardim e foi lá que ressuscitou. […] Portanto, vós também, semeai Cristo no vosso jardim. […] Semeai o Senhor Jesus: Ele é grão quando é preso, árvore quando ressuscita, árvore que dá sombra ao mundo; Ele é grão quando é enterrado na terra, árvore quando Se eleva ao céu.
Semear Cristo no jardim da alma
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao evangelho de Lucas, VII
Foi num jardim que Cristo foi preso e sepultado; Ele cresceu neste jardim e até foi aí que ressuscitou. E assim se tornou uma árvore. […] Vós também, semeai Cristo no vosso jardim. […] Com Cristo moei o grão de mostarda, prensai-o e semeai a fé. A fé é prensada quando cremos em Cristo crucificado. Paulo semeava a fé quando dizia: «Quando eu fui ter convosco, irmãos, para vos anunciar o testemunho de Cristo, não fui com sublimidade de espírito ou de sabedoria. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós a não ser Jesus Cristo, e Este crucificado» (1Co 2,1-2). […] Ora, nós semeamos a fé quando, apoiados no Evangelho ou nas leituras dos apóstolos e dos profetas, cremos na Paixão do Senhor; semeamos a fé quando a cobrimos com terra lavrada e tornada mais leve com a carne do Senhor. […] Com efeito, quem crê que o Filho de Deus Se fez homem crê que Ele morreu por nós e crê que ressuscitou por nós. Assim sendo, semeio a fé quando planto a sepultura de Cristo no meio do meu jardim.
Quereis saber que Cristo é uma semente e que é Ele que é semeado? «Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer dá muito fruto» (Jo 12,24). […] Foi o próprio Cristo que o disse. Portanto, Ele é ao mesmo tempo semente de trigo porque «robustece o coração do homem» (Sl 103,15), e semente de mostarda porque aquece o coração do homem. […] É grão de trigo quando se trata da Sua ressurreição, porque a palavra de Deus e a prova da sua ressurreição alimentam as almas, aumentam a esperança e fortalecem o amor – pois Cristo é «o pão de Deus que desce do céu» (Jo 6,33). E é grão de mostarda porque há mais amargura e azedume quando se fala da Paixão do Senhor.
Repousar à sombra da árvore que é Cristo
Santo Ambrósio de Milão — Comentário sobre o Evangelho de S. Lucas
O próprio Senhor é um grão de mostarda. […] Se Cristo é um grão de mostarda, como é Ele o mais pequeno e como cresce? Não é na sua natureza, mas segundo a aparência, que Ele Se torna grande. Quereis saber de que forma é o menor? «Vimo-lo sem aspeto atraente» (Is 53,2). Aprendei também como é Ele o maior: «És o mais belo de entre os filhos do homem» (Sl 44,3). Com efeito, Aquele que não tinha atrativo nem beleza tornou-Se superior aos anjos (Heb 1,4), ultrapassando toda a glória dos profetas de Israel. […] Ele é a menor de todas as sementes, porque não Se apresentou com a realeza, nem com as riquezas, nem com a sabedoria deste mundo. E subitamente, como uma árvore, fez dilatar o cume elevado do seu poder, de tal maneira que nós dizemos: «Anelo sentar-me à sua sombra» (Cant 2,3).
Muitas vezes me pareceu, em simultâneo, árvore e semente. É semente quando dizem dele: «Não é este o filho do carpinteiro?» (Mt 13,55). Mas foi no decurso da sua própria pregação que Ele cresceu: «De onde Lhe vem esta sabedoria?» (v. 54). Ele é, pois, semente na aparência, árvore pela sabedoria. Na folhagem dos seus ramos poderão repousar com segurança a ave noturna na sua morada, o pássaro solitário sobre o telhado (Sl 101,8), aquele que foi arrebatado até ao paraíso (2Cor 12,4), assim como aquele que será «arrebatado juntamente com eles sobre as nuvens» (1Tes 4,17). Aí repousam também as potências e os anjos do Céu e todos aqueles cujas ações espirituais lhes permitiram levantar voo. Foi aí que repousou São João, quando se apoiou no peito de Jesus (Jo 13,25) […]
E nós, que estávamos longe (Ef 2,13), espalhados por entre as nações, que fomos durante muito tempo agitados no vazio do mundo pelas tempestades do espírito do mal, abrindo as asas da virtude, dirijamos o nosso voo para que esta sombra dos santos nos abrigue do calor escaldante deste mundo. Já recuperamos a vida na paz e na segurança desta morada, a partir do momento em que a nossa alma, outrora curvada sob o peso dos pecados, escapou «como um pássaro do laço do caçador» (Sl 123,7), e foi transportada para os ramos altos e as montanhas do Senhor (Sl 10,1).
A provação manifesta a força da virtude
Santo Ambrósio de Milão — 10º Sermão sobre o Salmo 118
Em que é que os julgamentos de Deus são justos? No sentido em que é pelo esforço e pelas dificuldades que chegamos à recompensa do céu. Assim como, pelo julgamento dos homens, é atribuída a coroa de um prêmio aos atletas que lutam, assim também a palma da vitória é concedida pelo juízo de Deus aos cristãos que combatem (cf 1 Cor 9,25). «Ao que vencer, farei que se sente Comigo no meu trono» diz o Senhor (Ap 3,21).
Tal como a prata se purifica pelo fogo, assim também a nossa vida é provada pelo fogo, a fim de que a força da nossa virtude se manifeste nos combates. […] Na verdade, fazemos alguma coisa de especial louvando a Deus no bem-estar, quando nada de desagradável nos perturba? O que é admirável é louvares o juízo de Deus no meio de dificuldades e aflições, não te revoltares nas privações, não permitires que estas te impeçam de louvar a Sua justiça. Quanto maior for a provação, maior o consolo que te está reservado. No entanto, para não caíres, quanto mais estiveres exposto às rudes dificuldades, mais deverás rezar ao Verbo de Deus para que te dê forças.
As lágrimas do afeto e a esperança cristã
Santo Ambrósio de Milão — Sobre a morte de seu irmão, § 6
Porque te chorarei, meu irmão que tanto amava e que me foste tirado […]? Na verdade, a minha relação contigo não desapareceu, apenas se alterou completamente para mim: até agora, era inseparável do corpo, a partir de agora tornou-se inseparável dos sentimentos. Tu permaneces comigo, e permanecerás para sempre. […] O apóstolo Paulo recorda-mo e põe uma espécie de freio à minha dor com as seguintes palavras […]: «Irmãos, não queremos deixar-vos na ignorância a respeito dos que faleceram, para não andardes tristes como os outros, que não têm esperança» (1Tess 4,13). […]
Mas nem todas as lágrimas são um sinal de falta de fé ou de fraqueza. Uma coisa é a dor natural, outra a tristeza que resulta da descrença. […] A dor não é a única a manifestar-se com lágrimas; também a alegria tem as suas lágrimas, também o afeto suscita lágrimas, a palavra rega o solo com lágrimas, e a oração, segundo as palavras do profeta, banha de lágrimas o nosso leito (Sl 6,7). Quando os patriarcas eram sepultados, o seu povo também chorava muito. As lágrimas são, pois, um sinal de afeto e não incitações à dor. Chorei, confesso-o, mas também o Senhor chorou (Jo 11,35); Ele chorou uma pessoa que não era da sua família, eu choro um irmão. Ele, num só homem, chorou todos os homens; e eu chorar-te-ei, meu irmão, em todos os homens.
Foi com a nossa sensibilidade que Cristo chorou, e não com a sua, porque a divindade não tem lágrimas. […] Ele chorou neste homem que tinha «uma tristeza de morte» (Mt 26,38), chorou naquele que foi crucificado, que foi morto, que foi sepultado; chorou neste homem […] nascido da Virgem.
Nossos mortos nos precederam na eternidade
Santo Ambrósio de Milão — Sobre a morte de seu irmão, I, 70-71
Que chorem os que não têm a esperança da ressurreição; não é a vontade de Deus que lhes tira essa esperança, mas a dureza daquilo em que acreditam. Tem de haver uma diferença entre os servos de Cristo e os pagãos. E essa diferença é a seguinte: estes choram os seus julgando-os mortos para sempre; desse modo, não conseguem pôr fim às suas lágrimas, não encontram descanso para a tristeza. […] Mas para nós, servos de Deus, a morte não é o fim da existência, mas apenas o fim da nossa vida. Dado que a nossa existência será restaurada por uma condição melhor, que a chegada da morte varra portanto todas as lágrimas. […]
A nossa consolação será tanto maior quanto acreditamos que as boas ações que fazemos terão grandes recompensas depois da morte. Os pagãos têm a sua consolação: para eles a morte é um repouso para todos os males. Como pensam que os seus mortos estão privados de fruir da vida, pensam também que ficam privados da faculdade de sentir e libertos da dor das duras e contínuas tribulações que se sofrem nesta vida. Nós, porém, assim como devemos ter um espírito mais elevado por causa da recompensa esperada, devemos também suportar melhor a dor graças a essa consolação. […] Os nossos mortos não foram enviados para longe de nós, mas apenas antes de nós; a morte não os tragará, a eternidade recebê-los-á.
Cristo, primícias dos que adormeceram
Santo Ambrósio de Milão — De Excessu Fratris II, 90-91
Porque terá Cristo morrido, senão porque tinha de ressuscitar? Com efeito, uma vez que Deus não podia morrer, a Sabedoria não podia morrer, e o que não pode morrer não pode ressuscitar. Por isso, Ele assumiu uma carne capaz de morrer, para que essa morte, que é própria da carne, Lhe desse oportunidade de ressuscitar. Assim, a ressurreição só podia ter lugar através de um homem, «pois se por um homem veio a morte, também por um homem veio a ressurreição dos mortos» (1Cor 15,21).
O homem ressuscitou porque foi o homem que morreu. O homem ressuscitou, mas foi Deus que O ressuscitou. Ele era homem segundo a carne, mas agora é Deus em tudo; porque agora já não conhecemos Cristo na carne (cf 2Cor 5,16), mas temos a graça da sua carne e reconhecemo-lo como «primícia dos que estão adormecidos» (1Cor 15,20) e «primogénito de entre os mortos» (Col 1,18).
As primícias são exatamente da mesma espécie e natureza que os frutos seguintes. Os primeiros frutos são oferecidos a Deus com vista a uma colheita mais abundante, como oferta sagrada por todos os outros frutos e como oblação de natureza renovada. Cristo é, portanto, «primícia dos que estão adormecidos».
Mas Ele será apenas dos seus, dos que adormeceram suavemente como se estivessem isentos da morte, ou será a primícia de todos os mortos? A Escritura responde: «Tal como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão restituídos à vida» (1Cor 15,22). Deste modo, a primícia da morte está em Adão e a primícia da ressurreição está em Cristo.
Que Cristo venha à nossa alma
Santo Ambrósio de Milão — Comentário ao Evangelho segundo São Lucas X, 6-8 (SC 52, pp. 158 ss., rev.)
«Não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído». Estas palavras diziam respeito ao Templo edificado por Salomão […], uma vez que tudo o que é construído pelas nossas mãos sucumbe ao desgaste ou à deterioração e está sujeito a ser derrubado pela violência ou destruído pelo fogo. […] Mas dentro de nós também existe um templo que se desmorona se a fé faltar, em particular se em nome de Cristo procurarmos em vão apoderar-nos de certezas interiores, e talvez seja esta interpretação a mais útil para nós. Com efeito, de que servirá saber o dia do Juízo? De que me servirá, tendo consciência de todos os meus pecados, saber que o Senhor virá um dia, se Ele não vier à minha alma, não crescer no meu espírito, se Cristo não vier a mim, se Cristo não falar em mim? É a mim que Cristo deve vir, e é em mim que deve realizar-se a Sua vinda.
Ora, a segunda vinda de Cristo terá lugar no nadir do mundo, quando pudermos dizer que «o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo» (Gl 6, 14). […] Para quem lhe morreu o mundo, Cristo é eterno; para esse, o Templo é espiritual, a Lei espiritual, a própria Páscoa espiritual. […] Então, para esse, realiza-se a presença da sabedoria, a presença da virtude e da justiça, a presença da redenção, porque Cristo na verdade morreu uma só vez pelos pecados de todos a fim de resgatar todos os dias os pecados de todos.
Caminhar para a assembleia dos santos
Santo Ambrósio de Milão — Sobre o bem da morte, conforme o título recebido; sem numeração de seção no acervo.
«Vi uma multidão imensa…, de todas as nações, raças, povos e línguas…, de pé, diante do trono e diante do Cordeiro» (Ap. 7,9)
Fortalecidos com os ensinamentos [da Escritura], caminhemos sem tremer para o nosso redentor, Jesus, para a assembleia dos patriarcas, partamos para o nosso pai, Abraão, assim que o dia chegar. Caminhemos para essa congregação dos santos, essa assembleia de justos. Iremos para os nossos pais, aqueles que nos ensinaram a fé; mesmo se as obras nos faltam, que a fé nos ajude, defendamos a nossa herança! Iremos aos lugares onde Abraão abre o seu seio aos pobres como Lázaro (Lc 16,19s); aí repousam aqueles que suportaram o rude peso da vida deste mundo. Agora, Pai, estende mais e mais as tuas mãos para acolheres estes pobres, abre os teus braços, alarga o teu seio para os acolheres melhor, pois são muitos os que acreditaram em Deus.
Iremos ao paraíso de felicidade onde Adão, outrora caído numa emboscada de salteadores, já não pensa em curar as suas feridas, onde o próprio malfeitor goza da sua parte do Reino celeste (cf Lc 10, 30; 23,43). Lá onde nenhuma nuvem, nenhuma trovoada, nenhum raio, nenhuma tempestade de vento, nem trevas, nem crespúsculo, nem verão, nem inverno, marcarão a instabilidade dos tempos. Nem frio, nem granizo, nem chuva. O nosso pobre pequeno sol, a lua, as estrelas, já não servirão para nada; só a luz de Deus resplandecerá, porque Deus será a luz de todos, essa luz verdadeira que ilumina todo o homem resplandecerá para todos (Ap 21,23; Jo 1, 9). Nós iremos aonde o Senhor Jesus preparou moradas para todos os seus servos, para que, aí onde Ele está, nós estejamos também (Jo 14, 2-3).
«Pai, aqueles que me deste, quero que, lá onde eu estiver, estejam comigo, e que contemplem a minha glória» (Jo 17, 24)… Nós seguimos-te, Senhor Jesus; mas, para isso, chama-nos, pois sem ti ninguém ascende. Tu és o caminho, a verdade, a vida (Jo 14,6), a possibilidade, a fé, a recompensa. Recebe-nos, fortalece-nos, dá-nos a vida!
Nota editorial: A citação inicial do Apocalipse é uma epígrafe do post, mantida separada do excerto. Corrigidos lapsos de composição e a referência à luz de Deus para Ap 21,23.
Fontes e critérios
As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, com fonte declarada Evangelho Cotidiano / Evangelizo, e do item 31 de Sophia.docx. Preservam-se as referências disponíveis a PL (Patrologia Latina), CSEL, Sources chrétiennes, ao Breviário e às traduções e coletâneas de José de Leão Cordeiro, Solesmes, Brésard, Bouchet, Delhougne, Isabelle de la Source e Véricel. Não se trata de uma nova tradução nem de uma edição crítica das obras.
As homilias contemporâneas que apenas citam o autor e o índice geral não integram esta antologia. A nomenclatura das obras foi conservada conforme as fontes, com explicitação quando possível. As variantes equivalentes aparecem uma só vez; os mapas de origem permanecem no registro interno.
Cotejo de referências: Sobre os mistérios; Sobre os deveres dos ministros, livro I; livro II, em tradução histórica. Estes cotejos de localização não substituem as fontes das traduções portuguesas recebidas.
Preparação em 21 de outubro de 2026. Nenhum post de origem foi alterado ou excluído nesta etapa.



