Santo Atanásio de Alexandria — Antologia de homilias e reflexões

Esta antologia reúne excertos de Santo Atanásio de Alexandria sobre o Verbo criador, o conhecimento de Deus, a restauração da imagem divina no homem, a Encarnação e a vitória de Cristo sobre a morte. O percurso termina com o exemplo de Santo Antão, que acolhe o Evangelho e o transforma em vida.

As seleções procedem de tratados, cartas e da Vida de Santo Antão. Versões repetidas foram reunidas, passagens complementares foram preservadas e as referências acompanham cada seleção.

Sumário

O Verbo criador e o conhecimento de Deus

O Verbo sustenta e harmoniza a criação

Santo Atanásio de Alexandria — Contra os pagãos, 40; SC 18, conforme a fonte.

Este mundo é muito bom, tal como foi feito e tal como o vemos, porque Deus o quer assim: ninguém pode duvidar disso. Se a criação fosse desordenada, se o universo evoluísse ao acaso poder-se-ia pôr em causa esta afirmação. Mas como o mundo foi feito com sabedoria e ciência, de modo racional e lógico, posto que foi ornado de toda a beleza, é preciso que Aquele que a ele preside e que o organizou não seja senão a Palavra de Deus, o seu Verbo, o seu Logos. […]

Sendo a boa Palavra do Deus de bondade, foi esse Verbo que dispôs a ordem de todas as coisas, que reuniu os contrários com os contrários para com eles formar uma só harmonia. É Ele, «poder e sabedoria de Deus» (1Cor 1,24), que faz girar o céu, que tem a terra suspensa e que, sem que ela assente em nada, a mantém com a sua própria vontade (cf Heb 1,3). O sol ilumina a terra com a luz que recebe dele, e a lua recebe a sua medida da sua luz. Por Ele a água fica suspensa nas nuvens, as chuvas regam a terra, o mar mantém-se nos seus limites, a terra cobre-se de toda a espécie de plantas (cf Sl 103). […]

A razão de esta Palavra, Verbo de Deus, ter vindo até às criaturas é verdadeiramente admirável. […] A natureza dos seres criados é passageira, fraca, mortal; mas, sendo pela sua natureza bom e excelente, o Deus do universo ama os homens. […] Assim, vendo que, entregue a si própria, toda a natureza criada se esvai e se dissolve, para evitar que isso aconteça e para que o universo não regresse ao nada […], Deus não o abandona às flutuações da sua natureza. Na sua bondade, com o seu Verbo, Ele governa e mantém toda a criação, […] que não sofre, portanto, o destino que teria se o Verbo não cuidasse dela, isto é, a aniquilação. «Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criatura; porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, […] tudo nele subsiste. […] Ele é a cabeça do Corpo, que é a Igreja» (Col 1,15-18).

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Conhecer o Pai pela Sabedoria encarnada

Santo Atanásio de Alexandria — Discurso contra os arianos, II, 78–79.

A sabedoria pessoal de Deus, o seu único Filho, criou e realizou todas as coisas. Com efeito, diz o salmo: «Tudo fizeste com sabedoria» (103,24). […] Tal como o nosso discurso humano é imagem desta Palavra que é o Filho de Deus (cf Jo 1,1), assim também a nossa sabedoria é imagem deste Verbo que é a Sabedoria em pessoa. Porque temos nela a capacidade de conhecer e de pensar, somos capazes de receber a Sabedoria criadora, por meio da qual podemos conhecer o Pai: «Aquele que tem o Filho tem também o Pai» (1Jo 2,23), e ainda: «Quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou» (Mt 10,40). […]

«Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na Sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação» (1Cor 1,21). Ora, Deus já não quer, como nos tempos antigos, ser conhecido por meio de imagens e sombras da Sabedoria, mas quis que a verdadeira Sabedoria em pessoa adotasse carne, Se tornasse homem e sofresse a morte de cruz, para que, no futuro, todos os crentes possam ser salvos pela fé nesta Sabedoria encarnada. É ela, portanto, a Sabedoria de Deus. Anteriormente, era conhecida pela sua imagem nas coisas criadas […], dando assim a conhecer o Pai; mas depois, tornou-Se carne, como diz São João (1,14), esta Sabedoria que é o Verbo. E, após ter «destruído a morte» (1Cor 15,26) e salvado a humanidade, manifestou-Se a Si mesma de forma mais clara e, por Si, manifestou o Pai; razão pela qual pôde dizer: «Que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo» (Jo 17,3). Toda a Terra ficou cheia do seu conhecimento, porque só há um conhecimento: o do Pai por meio do Filho, e o do Filho a partir do Pai. O Pai põe a sua alegria nele, e o Filho regozija-Se com a mesma alegria no Pai, como está dito: «Eu era o seu encanto todos os dias, e brincava o tempo todo na sua presença» (Prov 8,30).

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A unidade do Pai, do Filho e do Espírito

Santo Atanásio de Alexandria — Primeira carta a Serapião, 19; PG 26, 573.

Insensatos, que não cessais de revelar-vos indiscretos na procura da Trindade, sem vos contentardes em acreditar tão-só que Ela existe, tal como vos orienta o Apóstolo, ao dizer: «quem se aproxima de Deus tem de acreditar que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram» (Heb 11,6). Que ninguém se ocupe de questões supérfluas, mas se contente em apreender o conteúdo das Escrituras, […] que dizem que o Pai é uma fonte — «o meu povo abandonou-Me, a Mim, nascente de águas vivas» (Jr 2,13); «abandonaste a fonte da sabedoria» (Br 3,12) — e é luz: «Deus é luz» (1Jo 1,5). O Filho, em relação a essa fonte, é um rio, de acordo com o salmo: «Enches, a transbordar, o rio caudaloso» (Sl 65,10), e em relação à luz é «resplendor da sua glória e imagem fiel da sua substância» (Heb 1,3). Assim sendo, o Pai é luz, e o Filho o seu resplendor. […] E é no Filho que somos iluminados pelo Espírito, como diz também Paulo: «que o Pai vos dê o Espírito de sabedoria e vo-lo revele, para O conhecerdes, e sejam iluminados os olhos do vosso coração» (Ef 1,17-18). É, porém, Cristo quem nos ilumina nele quando somos iluminados pelo Espírito, pois a Escritura diz: «O Verbo era a Luz verdadeira que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina» (Jo 1,9). Para além disso, sendo o Pai fonte e Cristo rio, é dito igualmente que bebemos do Espírito: «e todos bebemos de um só Espírito» (1Cor 12,13). Dessedentados, pois, pelo Espírito, é de Cristo que bebemos, porquanto bebemos «de um rochedo espiritual que os seguia, e esse rochedo era Cristo» (1Cor 10,4).

Ora, sendo o Pai o «único Deus sábio» (Rom 16,27), o Filho é a sua sabedoria, porque «Cristo é poder e sabedoria de Deus» (1Cor 1,24). Por conseguinte, ao recebermos o Espírito de sabedoria, recebemos o Filho e adquirimos a sua sabedoria. […] O Filho é a vida, pois Ele disse: «Eu sou a Vida» (Jo 14,6). Mas também se diz na Escritura que somos vivificados pelo Espírito, quando Paulo afirma que «o Pai, que ressuscitou Cristo de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós» (Rom 8,11). Ao sermos vivificados pelo Espírito, é Cristo que Se faz vida em nós: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gal 2,20).

Existindo assim no seio da Trindade uma tal correspondência e uma tal unidade, quem poderá separar o Filho do Pai, e o Espírito do Filho ou do Pai? […] O mistério de Deus não é concedido ao nosso ser com discursos eloquentes, mas pela fé e por via de preces respeitosas.

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A imagem de Deus restaurada no homem

Restaurar no homem a imagem de Deus

Santo Atanásio de Alexandria — Sobre a Encarnação do Verbo, 11, 2–3; 13–14, excertos reunidos; SC 199.

De que serve termos sido criados, se não conhecermos o nosso Criador? Como podem os homens ser lógicos sem conhecerem o Logos, o Verbo do Pai, no qual começaram a ser (Jo 1,1s)? […] Para que os teria Deus criado, se não quisesse ser conhecido por eles? E, para que tal coisa não acontecesse, fê-los participar, na sua bondade, daquele que é a sua própria imagem, Nosso Senhor Jesus Cristo (Hb 1,2; Cl 1,15), criando-os à sua imagem e semelhança (Gn 1,26). Graças a tal favor, eles haviam de conhecer a imagem, o Verbo do Pai, pelo qual poderiam fazer uma ideia do Pai e, conhecendo o seu Criador, viver uma vida de verdadeira felicidade.

Na sua desrazão, porém, os homens desprezaram este dom, desviaram-se de Deus e esqueceram-no. […]

Dado que os homens se tornaram insensatos e que o engano dos demônios lançou sobre eles uma sombra que escondeu o conhecimento do verdadeiro Deus, o que haveria Deus de fazer? Calar-Se perante uma situação destas? Aceitar que os homens se extraviassem e não O conhecessem? […] Deus não podia permitir que as suas criaturas se extraviassem para longe dele e fossem sujeitas ao nada, sobretudo se este extravio se tornasse para eles causa de ruína e perdição, quando os seres que participaram na imagem de Deus (Gn 1,26) não devem perecer. Que é pois necessário que Deus faça? Que fazer, senão renovar neles a sua imagem, a fim de que os homens possam de novo conhecê-lo?

Mas como fazer isto, a não ser pela presença da imagem do próprio Deus (Col 1,15), o nosso Salvador Jesus Cristo? Tal não é realizável pelos homens, porque eles não são a imagem, mas criados segundo a imagem; também não é realizável pelos anjos, porque nem eles são imagens. Foi por isso que o Verbo de Deus, Ele que é a imagem do Pai, veio até nós, a fim de estar em condições de restaurar a imagem no fundo do ser dos homens. Por outro lado, tal não poderia produzir-se se a morte e a degradação que a segue não fossem destruídas. Foi por isso que Ele tomou um corpo mortal, a fim de poder destruir a morte e restaurar os homens, feitos à imagem de Deus. Assim, pois, a imagem do Pai, o seu santíssimo Filho, veio até nós para renovar o homem feito à sua semelhança e para vir ao encontro dele, que estava perdido, oferecendo-lhe a remissão dos seus pecados, como Ele próprio disse: «Eu vim procurar e salvar o que estava perdido» (Lc 19,10).

Nota editorial: O início sobre o conhecimento do Criador foi conservado e unido à versão mais extensa da passagem sobre a restauração da imagem. O núcleo equivalente do capítulo 13 aparece uma única vez. O final da versão do acervo alcança o capítulo 14.

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Procurar o homem perdido e renovar a sua imagem

Santo Atanásio de Alexandria — Sobre a Encarnação do Verbo, 10 e 14; PG 25, 111–114, 119, conforme a fonte.

O Verbo de Deus não abandonou os homens, suas criaturas, que corriam para a sua ruína, mas apagou a morte que os atingia com a oferta do seu corpo, corrigiu as suas negligências com a sua doutrina, e restaurou o gênero humano com o seu poder. […]

Quando a figura de alguém foi pintada em madeira e depois apagada pelos elementos, é necessária a presença do retratado para que a sua imagem seja restaurada no mesmo material; e, se esse material não é rejeitado, é por causa da imagem que foi pintada nele e que queremos restaurar. Da mesma forma, o Filho Santíssimo do Pai, sendo a imagem do Pai, veio à nossa terra para renovar o homem que tinha sido feito à sua semelhança, para o encontrar, pois estava perdido, perdoando-lhe os seus pecados, como diz a Escritura: «O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

Assim, quando disse aos judeus: «se alguém não nascer de novo…» (cf Jo 3,3–5), Jesus não se referia ao nascimento de uma mulher, como eles pensavam, mas ao renascimento e à recriação do homem à sua imagem.

Nota editorial: As duas passagens, provenientes dos capítulos 10 e 14, apresentam o restabelecimento do homem e a imagem de um retrato restaurado. A expressão «a morte que os unia» foi regularizada para «a morte que os atingia», em conformidade com o sentido do capítulo 10.

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A realidade da Encarnação e a vida nova

O Verbo tomou um corpo semelhante ao nosso

Santo Atanásio de Alexandria — Sobre a Encarnação do Verbo, 8–9; SC 199.

O Verbo, a Palavra de Deus incorpórea, incorruptível e imaterial, veio habitar no meio de nós, ainda que antes não tivesse estado ausente. Com efeito, não deixara parte alguma da criação privada da sua presença, pois Ele estava em todas as coisas e em toda a parte, Ele que mora junto do Pai. Mas tornou-Se presente humilhando-Se por causa do seu amor por nós, e a nós Se manifestou […]. Teve piedade da nossa espécie, teve compaixão da nossa fragilidade, condescendeu para com a nossa perecível condição. Não aceitou que a morte nos dominasse; não quis ver perecer o que tinha iniciado, nem que se malograsse a obra de seu Pai ao criar o homem. Tomou portanto um corpo, e um corpo que não era diferente do nosso. Porque Ele não queria somente habitar um corpo nem somente manifestar-Se. Se tivesse apenas querido manifestar-Se, poderia ter realizado essa teofania com outro e maior poder. Mas não: foi de fato um corpo igual ao nosso que Ele tomou […].

No seio da Virgem, construiu para Si mesmo o templo do seu corpo; fez dele um instrumento adaptado para Se dar a conhecer e para nele morar. Depois de ter tomado, entre os nossos corpos, um corpo da mesma espécie, e dado que estamos todos submetidos à corrupção da morte, entregou-o à morte por todos nós, oferecendo-o a seu Pai. E fê-lo por amor aos homens.

O Verbo tomou um corpo capaz de morrer para que esse corpo, ao participar do Verbo que está acima de tudo […], se tornasse imperecível pelo poder do Verbo que nele existe, e para libertar da degradação definitiva todos os homens, pela graça da ressurreição. O Verbo ofereceu pois à morte o corpo que tinha tomado, como sacrifício e vítima isenta de toda a mácula; e logo aniquilou a morte, dela libertando todos os homens seus semelhantes, pela oferenda desse corpo que se lhes assemelha.

O Verbo de Deus, a todos superior, que ofereceu o seu próprio templo, o seu corpo, em expiação de todos, pagou a nossa dívida com a sua morte, cumprindo a justiça de seu Pai. Unido a todos os homens por um corpo semelhante, o Filho incorruptível de Deus a todos reveste de incorruptibilidade, com a promessa da ressurreição. A própria corrupção, implicada na morte, já não tem poder algum sobre os homens, por causa do Verbo que entre eles habita num único e mesmo corpo.

Nota editorial: Foram reunidas as versões equivalentes dos capítulos 8–9. A passagem sobre o corpo preparado no seio da Virgem, presente na segunda seleção de um dos posts, foi conservada entre os demais excertos. A indicação SC 190 foi corrigida para SC 199, conforme o catálogo da editora; não se manteve a paginação ligada à indicação anterior.

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Nascer com Cristo e participar da vida eterna

Santo Atanásio de Alexandria — Terceiro discurso contra os arianos, excerto; parágrafo não indicado na fonte.

Agora que o Verbo Se fez homem e fez suas as nossas misérias, elas são destruídas por Ele. Os homens não morreram sob os seus pecados; mas, ressuscitados pelo poder do Verbo, permanecem incorruptíveis para sempre e imortais.

Quando a sua humanidade nasce de Maria, a Mãe de Deus, diz-se que é Ele que nasce. Na realidade, porém, Ele toma para Si o nosso nascimento, e nós deixamos de ser simplesmente da terra que terá de voltar à terra, e somos reunidos ao Verbo do Céu, que quer conduzir-nos ao Céu. Do mesmo modo, Ele tomou em Si as outras fraquezas do corpo para que nós já não fôssemos apenas homens, mas, pertencendo doravante ao Verbo, participássemos da vida eterna.

Estamos, pois, perante o fim da morte que nos veio com o primeiro nascimento em Adão: este nascimento e todas as outras misérias da carne foram transferidos para o Verbo, e nós, ressuscitados da terra, vemos a maldição do pecado removida por Aquele que, em nós e por nós, Se tornou maldição. E é certo: da mesma maneira que, feitos da terra, morremos em Adão, assim também, regenerados pela água e pelo Espírito, somos vivificados em Cristo. A partir de agora, a carne já não é uma coisa terrena; foi feita Verbo, por causa do Verbo de Deus, que por nós Se fez carne.

Os homens viram as suas fraquezas transferidas e destruídas naquele que não está sujeito a elas; e tornaram-se fortes e livres para sempre. Porque, assim como o Verbo, tendo tomado um corpo, Se fez homem, assim também nós, homens, tomados pela carne do Verbo, somos divinizados por Ele e feitos herdeiros da vida eterna.

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De Maria, um corpo verdadeiramente humano

Santo Atanásio de Alexandria — Carta a Epicteto, 5–9; versão portuguesa indicada como proveniente do breviário, revista.

O Verbo, a Palavra eterna de Deus, «veio em auxílio da descendência de Abraão; por isso, teve de assemelhar-Se em tudo aos Seus irmãos» (Heb 2, 16-17) e de tomar um corpo semelhante ao nosso. É por isso que Maria foi verdadeiramente necessária, para que Ele tomasse corpo nela, e o oferecesse por nós como sendo Seu. […] Gabriel tinha-lho anunciado em termos cuidadosamente escolhidos. Não disse apenas: «Aquele que vai nascer em ti» […], disse: «Aquele que vai nascer de ti». […]

Tudo isto se fez assim para que o Verbo, assumindo a nossa natureza e oferecendo-a em sacrifício, a fizesse totalmente Sua. Em seguida, quis revestir-nos da Sua própria natureza divina, razão pela qual São Paulo afirma: «É necessário que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade e que este corpo mortal se revista de imortalidade» (1Cor 15, 53). E tal não aconteceu de forma simulada, como supõem certos heréticos: nem pensar nisso! O Salvador tornou-Se verdadeiramente homem, e foi daí que veio a salvação para todo o homem. […] A nossa salvação não é uma aparência, não é apenas para o corpo, mas para o homem todo, alma e corpo, e esta salvação veio do próprio Verbo.

Aquele que veio de Maria era, pois, humano por natureza, segundo as Escrituras, e o corpo do Senhor era um verdadeiro corpo; sim, um verdadeiro corpo, porque era idêntico ao nosso, porque Maria é nossa irmã, visto que todos descendemos de Adão.

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A cruz e a vitória sobre a morte

A esperança da ressurreição é-nos dada em Cristo

Santo Atanásio de Alexandria — Sobre a Encarnação do Verbo, 10, 3–5, localização conferida editorialmente.

Porque foi o Verbo de Deus que teve de encarnar, e não outra Pessoa? As Escrituras dão-nos a razão nestas palavras: «Convinha, na verdade, que Deus, origem e fim de todas as coisas, querendo conduzir muitos filhos para a sua glória, levasse à glória perfeita, pelo sofrimento, o Autor da salvação» (Heb 2,10). Isto significa que competia ao Verbo, que os tinha criado no princípio, e só a Ele, libertar os homens da ruína em que tinham caído.

Através do sacrifício do seu corpo, Ele pôs fim à lei que pesava sobre nós e renovou para nós o princípio da vida, dando-nos a esperança da ressurreição. Pois, se a morte triunfou sobre os homens por causa dos homens, foi pela encarnação do Verbo de Deus que a morte foi destruída e que a vida ressuscitou, como diz o Apóstolo, cheio de Cristo: «Uma vez que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos; porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida» (1Cor 15,21-22).

Já não morremos como condenados; mas, na esperança de ressuscitar dos mortos, aguardamos a ressurreição universal que Deus, que é o seu autor e quem no-la concede, nos mostrará no tempo próprio.

Nota editorial: A publicação do acervo não apresentava a referência da obra nem a fonte da tradução no corpo consultado. A passagem foi localizada em Sobre a Encarnação do Verbo, 10, 3–5. A origem da tradução portuguesa permanece não identificada.

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O Salvador veio vencer a morte dos homens

Santo Atanásio de Alexandria — Sobre a Encarnação do Verbo, 21–22.

Alguém poderia perguntar: se Cristo vinha entregar o seu corpo à morte por todos, porque não o fez simplesmente como um homem, porque foi a ponto de o fazer crucificar? Poder-se-ia dizer que era mais conveniente para Ele abandonar o seu corpo com dignidade do que sofrer o ultraje de semelhante morte. Mas trata-se de uma objeção demasiado humana; ora, o que aconteceu ao Salvador é verdadeiramente divino e digno da sua divindade por várias razões.

Primeiro, porque a morte que acontece aos homens lhes advém por causa da fraqueza da sua natureza; não podendo durar muito tempo, vão-se desintegrando: contraem doenças e, perdendo as forças, acabam por morrer. Mas o Senhor não é fraco; Ele é o Poder de Deus, Ele é a Palavra de Deus e a própria Vida. Se tivesse abandonado o seu corpo em privado, numa cama, à maneira dos homens, pensaríamos […] que não tinha nada a mais que os outros homens. […] Não convinha que o Senhor estivesse doente, Ele que curava as doenças dos outros. […]

Mas então, porque não descartou Ele a morte como descartou a doença? Porque tinha um corpo precisamente para isso, e para não estorvar a ressurreição. […] Mas, poderá alguém dizer, Ele devia ter evitado as intrigas dos seus inimigos, mantendo o seu corpo completamente imortal. Mas também isso não era adequado ao Senhor. Tal como não era digno da Palavra de Deus, que era a Vida, dar a morte ao seu corpo por sua própria iniciativa, também não Lhe convinha fugir da morte dada por outros. […] Tal atitude não era uma fraqueza do Verbo, mas dava-O a conhecer como Salvador e como Vida. […] O Salvador não veio extinguir a sua própria morte, mas a dos homens.

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A vitória de Cristo liberta do medo da morte

Santo Atanásio de Alexandria — Sobre a Encarnação do Verbo, 27–29; PG 25, 143; SC 199.

A morte, uma vez vencida pelo Salvador e pregada na cruz como que num pelourinho, será pisada por todos os que caminham em Cristo. Prestando homenagem a Cristo, estes zombam da morte, não lhe dão importância e repetem o que foi escrito sobre ela: «Morte, onde está a tua vitória? Inferno, onde está o teu ferrão?» (1Cor 15,55; Os 13,14). […] Será fraca demonstração da vitória obtida pelo Salvador sobre ela que os cristãos, crianças e jovens, desprezem a vida presente e prefiram morrer a renegar a sua fé? O homem teme naturalmente a morte e a dissolução do seu corpo; mas, coisa extraordinária, aquele que se revestiu da fé na cruz despreza este sentimento natural e, por Cristo, já não teme a morte. […]

Se a morte, outrora tão forte e por isso mesmo tão temível, é desprezada após a vinda do Salvador, após a sua morte corporal e a sua ressurreição, é evidente que foi por Cristo na cruz que ela foi aniquilada e vencida. Quando, no final da noite, o Sol aparece e ilumina toda a superfície da Terra, não há qualquer dúvida de que o sol que difunde a sua luz por toda a parte é o mesmo que afugentou as trevas e tudo iluminou. Assim, […] é evidente que o Salvador manifestado no seu corpo é precisamente Aquele que destruiu a morte e que todos os dias demonstra a sua vitória sobre ela nos seus discípulos. […] Quando vemos homens, mulheres e crianças correrem a lançar-se para a morte pela sua fé em Cristo, quem seria tão tolo, quem seria tão incrédulo, quem seria tão cego que não compreendesse e pensasse que é Cristo, a quem esses homens prestam homenagem, que dá a cada um a vitória sobre a morte, ao destruir o poder desta em todos os que têm fé n’Ele e ostentam o sinal da sua cruz?

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O Evangelho acolhido na vida

Antão escuta o Evangelho e segue o Senhor

Santo Atanásio de Alexandria — Vida de Santo Antão, 2–4.

Após a morte de seus pais, tinha Antão entre dezoito e vinte anos […], entrou certo dia numa igreja no momento da leitura do evangelho, e ouviu o Senhor dizer a um jovem rico: «Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-Me». Antão teve a impressão de que esta leitura tinha sido para ele. Saiu imediatamente do templo e entregou às gentes da aldeia as suas propriedades de família. Depois de ter vendido todos os seus bens móveis, distribuiu pelos pobres o dinheiro dessa venda, reservando apenas uma pequena parte para sua irmã.

Doutra vez em que entrou na igreja, ouviu o Senhor dizer no evangelho: «Não vos preocupeis com o dia de amanhã» (Mt 6,34). Compreendendo que não podia reservar fosse o que fosse, também isso distribuiu pelos pobres. Confiou sua irmã ao cuidado de umas virgens conhecidas e fiéis, que viviam juntas numa casa, para nela ser educada. E consagrou-se desde então, perto de sua casa, ao labor da vida ascética. Vigiando sobre si mesmo, perseverava numa vida austera. […]

Trabalhava manualmente, porque tinha ouvido esta recomendação: «Se algum não quer trabalhar, que também não coma» (2Tess 3,10). Comprava o pão de cada dia com uma parte daquilo que ganhava, distribuindo o resto pelos indigentes. Rezava sem cessar, porque tinha aprendido que é preciso «orar sem desfalecer» (Lc 21,36) em privado. Estava de tal maneira atento à leitura que nada perdia da Escritura, mas tudo retinha; a seguir, substituía os livros pela memória. Todos os habitantes da aldeia, e as gentes de bem que a frequentavam habitualmente, vendo-o viver daquela maneira, lhe chamavam amigo de Deus. Uns amavam-no como filho, outros como irmão.

Nota editorial: Duas versões equivalentes de Vida de Santo Antão foram reunidas. A referência Lc 21,36 foi mantida como indicação da fonte; a fórmula «orar sem desfalecer» também remete a Lc 18,1.

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Fontes e critérios editoriais

As traduções portuguesas reproduzem Sophia.docx e o acervo Sophia. As publicações anteriores indicam Evangelho Cotidiano ou Evangelho Quotidiano, salvo a seleção sobre a esperança da ressurreição, cuja origem da tradução não estava identificada. Esta antologia não constitui nova tradução.

SC designa Sources Chrétiennes; PG, Patrologia Graeca. Foram conservadas as referências disponíveis, com correções explicitadas nas notas. Sinais de omissão pertencem aos excertos utilizados.

Para o cotejo: Sobre a Encarnação do Verbo, texto inglês; catálogo da edição SC 199.

O sermão em louvor de Santo André foi reservado porque outra publicação do próprio acervo o identifica como texto de Basílio de Selêucia, transmitido sob atribuição a Atanásio. O símbolo Quicumque, igualmente presente no acervo sob atribuição tradicional, não foi incluído entre os escritos de Atanásio. Esses textos permanecem registrados para tratamento editorial próprio.

A atribuição tradicional do Quicumque é distinguida na catalogação da Biblioteca Apostólica Vaticana, manuscrito Vat. lat. 317, que o relaciona às obras espúrias e duvidosas.

Os mapas dos posts e as variantes foram conservados no registro editorial interno. Organização editorial preparada em 16 de outubro de 2026.

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