Esta antologia reúne ensinamentos de Santo Ireneu de Lyon sobre a fé recebida dos apóstolos, a unidade dos evangelhos, a revelação do Pai pelo Filho, a Encarnação, o dom do Espírito Santo, a liberdade humana e a esperança da ressurreição.
Os excertos de Contra as heresias e da Demonstração da pregação apostólica foram organizados por tema. Versões equivalentes aparecem uma única vez; passagens complementares foram reunidas com subtítulos. As omissões indicadas nas traduções foram preservadas.
Sumário
- A fé apostólica, os evangelhos e as Escrituras
- O Filho revela o Pai e dá a vida
- A Encarnação e a recapitulação da humanidade
- O Espírito Santo, o batismo e a Igreja
- A liberdade, o crescimento e a amizade com Deus
- A nova aliança e a esperança da ressurreição
- Fontes e critérios
A fé apostólica, os evangelhos e as Escrituras
Uma só fé em toda a Igreja
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, I, 10, 1–2; PG 7, 550–554.
A Igreja, disseminada por todo o mundo até aos confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos a fé num só Deus, Pai todo-poderoso, que «fez o céu, a terra, o mar e tudo o que ele contém» (Ex 20,11; Act 4,24); num só Cristo Jesus, Filho de Deus, que encarnou pela nossa salvação; e no Espírito Santo que, através dos profetas, anunciou os desígnios de Deus e a vinda do bem-amado Jesus Cristo nosso Senhor, o seu nascimento da Virgem, a sua Paixão, a sua ressurreição de entre os mortos, a sua ascensão em corpo e alma aos céus, à glória do Pai, para «sujeitar todas as coisas» (Ef 1,22) e ressuscitar todo o género humano na carne – a fim de que, diante de Cristo Nosso Senhor, nosso Deus, nosso Salvador e nosso Rei, segundo os desígnios do Pai invisível, «todo o joelho se dobre nos céus, na terra e nos infernos, e toda a língua O confesse» (Fil 2,10-11) e de que Ele julgue com justiça todas as criaturas. […]
A Igreja preserva com grande cuidado esta pregação, esta fé que recebeu, como se habitasse uma só casa; embora disseminada por todo o mundo, acredita em tudo isto de forma idêntica em toda a parte, como se tivesse «um só coração e uma só alma» (Act 4, 32), prega, ensina e transmite esta mensagem com voz humana, como se tivesse uma só boca. As línguas que se falam no mundo são diversas, mas a força da tradição é uma e a mesma. As Igrejas estabelecidas na Germânia não crêem nem ensinam coisas diferentes das dos Iberos ou dos Celtas, ou das do Oriente, do Egipto ou da Líbia, nem das que foram fundadas no centro do mundo. Assim como o sol, criatura de Deus, é único e o mesmo em todo o mundo, assim a pregação da verdade brilha em toda a parte, iluminando todos os homens que querem «conhecer a verdade» (1Tim 2,4).
Nota editorial: Retirou-se a glosa «a Terra Santa» que o acervo acrescentava entre colchetes a «centro do mundo», por não constar do trecho cotejado. Não se acrescentou outra identificação geográfica.
O Evangelho recebido dos apóstolos
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, prefácio e 1, 1; 10, 5; excertos. Tradução Cerf 1984, p. 276, revista, indicada numa versão.
A pregação e a sua transmissão
O Senhor de todas as coisas deu aos seus apóstolos o poder de proclamarem o Evangelho. E é através deles que conhecemos a verdade, isto é, os ensinamentos do Filho de Deus. Foi a eles que o Senhor disse: «Quem vos ouve é a Mim que ouve, e quem vos rejeita é a Mim que rejeita; mas quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou» (Lc 10,16). Porque nós só conhecemos o plano da nossa salvação através daqueles que nos fizeram chegar o Evangelho, não por outros.
Este Evangelho foi primeiro pregado pelos apóstolos. Depois, por vontade de Deus, eles transmitiram-no-lo nas Escrituras, para que se tornasse «coluna e sustentáculo» da nossa fé (1Tim 3,15). Não podemos dizer que o pregaram antes de terem dele um conhecimento perfeito, como alguns se atrevem a afirmar, esses que se arvoram em corretores dos apóstolos.
Com efeito, depois de Nosso Senhor ter ressuscitado de entre os mortos e de terem sido «revestidos com a força do Alto» (Lc 24,49) pela vinda do Espírito Santo, os apóstolos ficaram cheios de certezas acerca de tudo, possuindo pois um conhecimento perfeito. Foram então «até aos confins do mundo» (Sl 18,5; Rom 10,18) proclamar a Boa Nova dos bens que nos vêm de Deus e anunciar aos homens a paz do Céu. E todos eles possuíam igualmente o Evangelho de Deus.
Os evangelhos escritos
Assim, Mateus, no meio dos hebreus e na sua própria língua, publicou uma forma escrita do Evangelho, enquanto Pedro e Paulo evangelizavam Roma e aí fundavam a Igreja. Após a morte destes dois apóstolos, Marcos, discípulo de Pedro e seu intérprete (1Pe 5,13), transmitiu-nos por escrito a pregação de Pedro. Por seu lado, Lucas, companheiro de Paulo, consignou num livro o Evangelho pregado por este. Por fim, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que tinha repousado sobre o seu peito, também publicou um Evangelho durante a sua estadia em Éfeso. […]
O testemunho de Marcos
Marcos, intérprete e companheiro de Pedro, declarou o seguinte no início da sua redação do Evangelho: «Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Tal como está escrito nos profetas, “eis que envio o meu mensageiro diante de ti para preparar o teu caminho”». […] Como se vê, Marcos faz das palavras dos santos profetas o início do Evangelho, e põe logo a abrir, como Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Aquele que os profetas proclamaram como Deus e Senhor. […] No fim do Evangelho, Marcos diz: «E o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi levado aos Céus e sentou-Se à direita de Deus». É a confirmação da palavra do profeta: «Oráculo do Senhor ao meu senhor: Senta-Te à minha direita e eu farei dos teus inimigos escabelo para os teus pés» (Sl 109,1).
Nota editorial: A referência foi ampliada para incluir o prefácio e a passagem sobre Marcos, que não pertence ao capítulo 1. A apresentação dos quatro evangelistas aparece uma única vez.
Um Evangelho em quatro formas
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 11, 8–9 e 9, 1; excertos. Tradução Bouchet, Leccionário, p. 493, indicada no acervo.
As quatro formas do Evangelho
Não pode haver mais nem menos evangelhos. Com efeito, uma vez que são quatro as regiões do mundo e quatro os ventos principais; e, por outro lado, uma vez que a Igreja está espalhada por toda a Terra e tem por «coluna e sustentáculo» (1Tim 3,15) o evangelho e o Espírito da vida, é natural que ela tenha quatro colunas, soprando a imortalidade de todos os lados e dando vida aos homens. Quando o Verbo, o Artesão do Universo, que tem o seu trono sobre os querubins e sustenta todas as coisas (cf Sl 79,2; Heb 1,3), Se manifestou aos homens, deu-nos um evangelho com quatro formas, embora mantido por um único Espírito. Implorando a sua vinda, David dizia: «Manifestai-Vos, Vós que tendes o vosso trono sobre os querubins» (Sl, 79,2). Porque os querubins têm quatro figuras (cf Ez 1,6), que são imagens da atividade do Filho de Deus.
«O primeiro era semelhante a um leão» (Ap 4,7), e caracteriza o poder, a preeminência e a realeza do Filho de Deus; «o segundo, a um touro», expressando a sua função de sacerdote que oferece sacrifícios; «o terceiro tinha um rosto como que de homem», evocando claramente a sua face humana; «o quarto era semelhante a uma águia em pleno voo», indicando o dom do Espírito que paira sobre a Igreja. Os evangelhos segundo João, Lucas, Mateus e Marcos estão, pois, de acordo com estes seres vivos sobre os quais Cristo Jesus tem o seu trono. […]
Encontramos estes mesmos traços no próprio Verbo de Deus. Ele falava aos patriarcas que existiram antes de Moisés segundo a sua divindade e a sua glória; aos homens que viveram sob a Lei, atribuiu uma função sacerdotal e ministerial; em seguida, fez-Se homem por nós; por fim, enviou o dom do Espírito a toda a Terra, escondendo-nos à sombra das suas asas (cf Sl 16,8). […] São, pois, fúteis, ignorantes e presunçosos todos quantos rejeitam a forma como se apresenta o evangelho, ou nele introduzem um número de figuras maior ou menor que as que referimos.
O Evangelho segundo Mateus
Mateus, no seu evangelho, registra a genealogia de Cristo como homem: «genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão» (Mt 1, 1-18). Este evangelho apresenta, pois, Cristo na Sua forma humana; é por isso que aí Cristo é um homem permanentemente animado de sentimentos de humildade e de mansidão. […] O apóstolo Mateus conhece um único Deus, o mesmo que prometeu a Abraão multiplicar a sua descendência como as estrelas do céu (Gn 15, 5) e que, pelo Seu Filho Cristo Jesus, nos chamou do culto das pedras até ao Seu conhecimento (Mt 3, 9), de forma que [se cumprisse a Escritura que diz]: «àquele que não é meu povo, hei de chamar meu povo, e minha amada, àquela que não é minha amada» (Os 2, 25; Rom 9, 25).
Lucas, companheiro e colaborador dos apóstolos
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 14–15; SC 34.
Lucas era inseparável de Paulo e foi seu colaborador na pregação do Evangelho, como ele próprio evidencia, não para se glorificar, mas impelido pela verdade. Com efeito, quando Barnabé e João, chamado Marco, se separaram de Paulo e embarcaram para Chipre, Lucas escreveu: «Embarcámos para Tróade» (At 16,11) […]; e descreve detalhadamente toda a viagem e a sua chegada a Filipos, onde anunciaram a Palavra pela primeira vez. […] No relato da viagem com Paulo, conta as situações com toda a precisão possível. […] Tendo estado presente em todos os acontecimentos, Lucas registou-os de maneira rigorosa; não se encontra nele mentira nem orgulho, porque todos aqueles factos eram conhecidos. […]
Lucas não foi apenas companheiro, foi também colaborador dos apóstolos, sobretudo de Paulo, que o diz claramente nas suas cartas: «Demas abandonou-me por amor ao mundo presente e foi para Tessalónica; Crescente foi para a Galácia, e Tito para a Dalmácia. Lucas é o único que está comigo» (2Tim 4,9-11). Isto prova com clareza que Lucas esteve sempre inseparavelmente ligado a Paulo. Na carta aos Colossenses, também lemos: «Saúda-vos o amado Lucas, o médico» (Col 4,14). […] Por outro lado, conhecemos muitos acontecimentos do Evangelho – e dos mais importantes – unicamente por Lucas. […] Quem sabe, de resto, se Deus não fez de modo que muitas passagens do Evangelho tivessem sido reveladas apenas por Lucas […] para que todos se deixassem guiar pelo testemunho que vem em seguida, [no seu segundo livro] sobre os atos e a doutrina dos apóstolos, e, guardando inalterada a regra da verdade, todos pudessem ser salvos. Assim, o testemunho de Lucas é verdadeiro; o ensinamento dos apóstolos é manifesto, sólido, e nada esconde. […] Tais são as vozes da Igreja, de onde toda a Igreja retira a sua origem.
Cristo, tesouro escondido nas Escrituras
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 26.
Foi Cristo que Se tornou presente a todos aqueles a quem Deus, desde o início, comunicou a Sua Palavra, o Seu Verbo. E, se alguém ler a Escritura nessa perspectiva, encontrará uma expressão que diz respeito a Cristo e uma prefiguração do novo chamamento. Pois é Ele o tesouro escondido no «campo», isto é, no mundo (Mt 13,38). Tesouro escondido nas Escrituras, pois foi assinalado por símbolos e parábolas que, humanamente falando, não podiam ser compreendidas antes do cumprimento das profecias, isto é, antes da vinda do Senhor. Foi por isso que foi dito ao profeta Daniel: «Guarda isto em segredo e conserva selado este livro até ao tempo final» (12,4). […] E Jeremias também disse: «Compreendê-los-eis plenamente no futuro» (23,20). […]
Lida pelos Cristãos, a Lei é um tesouro escondido outrora no campo, mas que a cruz de Cristo revela e explica […]: ela manifesta a sabedoria de Deus, dá a conhecer os Seus desígnios com vista à salvação do homem, prefigura o Reino de Cristo, anuncia antecipadamente a Boa Nova da herança da Jerusalém santa, prediz que o homem que ama a Deus progredirá até O ver e escutar a Sua palavra, e que será glorificado por essa palavra. […]
Foi dessa maneira que o Senhor explicou as Escrituras aos Seus discípulos depois da ressurreição, provando-lhes, através delas, que «o Messias tinha de sofrer essas coisas para entrar na Sua glória» (cf Lc 24,26). Se, portanto, alguém ler desta maneira as Escrituras, será um discípulo perfeito «semelhante a um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro» (Mt 13,52).
O Filho revela o Pai e dá a vida
O Filho revela o Pai
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 6, 4, 7 e 3; excertos na ordem da versão do acervo.
O que nos ensina o Senhor é que ninguém pode conhecer a Deus a não ser que Ele Se lhe revele; por outras palavras, não podemos conhecer a Deus sem o seu auxílio. Mas o Pai quer ser conhecido: conhecê-Lo-ão aqueles a quem o Filho O revelar. […] A palavra «revelar» não designa somente o futuro, como se o Verbo não tivesse começado a revelar o Pai senão depois de ter nascido de Maria, mas aplica-se à totalidade do tempo. Desde o princípio que o Filho, presente na Criação que Ele mesmo modelou, revela o Pai a todos aqueles a quem o Pai quer revelar-Se, quando Ele assim o quer e como Ele quer. Em todas as coisas e através de todas as coisas, há um único Deus Pai, um só Verbo, um só Espírito e uma só salvação para todos os que creem nele.
Com efeito, ninguém pode conhecer o Pai sem o Verbo de Deus, isto é, se o Filho não O revelar, nem conhecer o Filho sem o «agrado» do Pai (Mt 11,26). Ora, o que o Pai quer, na sua bondade, o Filho realiza-o: o Pai envia, o Filho é enviado e vem. E o Verbo de Deus conhece esse Pai infinito que para nós é invisível, e dá a conhecer o que é inexprimível (cf. Jo 1,18).
Ver a Deus e participar na sua vida
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 20, 4–7; SC 100; excertos complementares.
O Verbo e a criação
Há um único Deus, que, pelo seu Verbo, sua Palavra e sua Sabedoria, fez e harmonizou todas as coisas. Deus Criador deu esse mundo ao género humano. […] Nenhum dos seres que Ele criou conhece a sua grandeza, porque ninguém escrutinou a sua origem. […] No entanto, o seu amor é conhecido desde sempre, graças Àquele por quem todas as coisas foram criadas (cf Rom 1,20), que não é outro senão o Verbo, nosso Senhor Jesus Cristo, que nos últimos tempos Se fez homem entre os homens, para unir o fim ao princípio, isto é, o homem a Deus.
É por isso que os profetas, depois de terem recebido desta mesma Palavra o dom da profecia, pregaram antecipadamente a sua vinda na carne, pela qual se realizou a comunhão entre Deus e o homem, de acordo com a vontade do Pai. Desde o início, de facto, o Verbo anunciou que Deus havia de ser visto pelos homens, que com eles viveria e conversaria na Terra (cf Ba 3,38), e que Se tornaria presente à obra que tinha modelado, para a salvar. […]
A visão de Deus, dom do seu amor
«Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8). Claro que, tendo em consideração a Sua grandeza e a Sua glória inexprimível, «nenhum homem pode ver Deus e viver» (Ex 33,20), porque o Pai é inatingível. Mas, tendo em consideração o Seu amor, a Sua bondade para com os homens e a Sua omnipotência, Ele vai ao ponto de dar aos que O amam o privilégio de ver a Deus […], pois «o que é impossível aos homens é possível a Deus» (Lc 18,27). Por si próprio, com efeito, o homem não verá Deus; mas Deus, se assim o quiser, será visto pelos homens, por aqueles que Ele quiser, quando quiser e como quiser, pois Deus tudo pode. Foi visto outrora graças ao Espírito, segundo a profecia, depois foi visto graças ao Filho, segundo a adopção, e será visto no Reino dos Céus, segundo a paternidade. Pois o Espírito prepara o homem para o Filho de Deus, o Filho condu-lo ao Pai, e o Pai dá-lhe uma natureza imperecível e a vida eterna que resultam dessa visão de Deus para todo aquele que O vê.
O esplendor de Deus dá vida
Aqueles que veem a Deus terão parte na vida, porque o esplendor de Deus é vivificante. É por esta razão que Aquele que é esquivo, incompreensível e invisível Se oferece para ser visto, compreendido e captado pelos homens: para dar vida àqueles que O captam e O veem. Porque, se a sua grandeza é inescrutável, também a sua bondade é inexprimível; é por ela que Ele Se faz ver e dá vida àqueles que o veem. É impossível viver sem vida, e não há vida senão através da participação em Deus, que consiste em ver a Deus e gozar da sua bondade.
Assim, os homens verão a Deus para viverem, tornando-se imortais através dessa visão e chegando até Deus. Foi isso que foi anunciado figurativamente pelos profetas: que Deus será visto pelos homens portadores do seu Espírito, que esperam incessantemente a sua vinda, segundo o que Moisés diz no Deuteronómio: «Naquele dia veremos, porque Deus falará ao homem e ele viverá» (Dt 5,24). […]
Aquele que opera tudo em todos é invisível e inexprimível, no seu poder e na sua grandeza, para todos os seres por Ele criados; no entanto, não lhes é de modo algum desconhecido, pois todos aprendem, através da sua Palavra, que há um só Deus Pai, que contém todas as coisas e a todas dá existência, como diz também o Senhor: «Ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que está no seio do Pai, é que O revelou» (Jo 1,18).
Nota editorial: As passagens sobre a visão de Deus foram reunidas; a explicação equivalente sobre a impossibilidade humana e o dom divino não é repetida.
Abraão exultou por ver o dia de Cristo
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 5, 5 e 7, 1–2. Sophia.docx, item 28; versão equivalente do acervo indica Bouchet, Lectionnaire, p. 146; cf. SC 100.
Como Abraão era profeta, viu no Espírito o dia da vinda do Senhor e o desígnio da sua Paixão, pela qual ele próprio e todos os que, como ele, criam em Deus seriam salvos; e estremeceu com grande alegria. O Senhor não era portanto desconhecido de Abraão, pois que ele desejou ver o seu dia. […] Ele desejou ver esse dia a fim de poder, também ele, abraçar Cristo; tendo-o visto de maneira profética pelo Espírito, exultou.
Simeão, que era da sua posteridade, vivendo a alegria do patriarca, disse: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos» (Lc 2,29-31) […] Deste modo, a exultação de Abraão desceu sobre os que viram Cristo e nele acreditaram; e, dos seus filhos, esta exultação subiu de novo para Abraão. […]
Foi, pois, com toda a justiça que o Senhor deu testemunho dele dizendo: «Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia; ele viu-o e exultou de alegria». E não foi só a propósito de Abraão que o disse, mas de todos os que, desde o início, adquiriram o conhecimento de Deus e profetizaram a vinda de Cristo. Porque eles receberam esta revelação da parte do próprio Filho, esse Filho que, nestes tempos que são os últimos, Se tornou visível e palpável e conversou com os homens, para suscitar das pedras filhos de Abraão, e tornar a sua descendência semelhante às estrelas do céu (cf Gn 15,5).
Nota editorial: A autoria do fragmento sem cabeçalho foi identificada pelo cotejo da obra. Recuperou-se o título a partir de João 8,56 e corrigiu-se «posterioridade» para «posteridade». Adotou-se a versão do documento; as variantes do acervo ficaram no registro editorial interno.
A Encarnação e a recapitulação da humanidade
O próprio Deus veio salvar-nos
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 20, 2–4; excertos.
O Verbo, a Palavra de Deus, veio habitar no homem, tornou-Se «Filho do homem» para habituar o homem a receber Deus e habituar Deus a habitar no homem, como aprouve ao Pai. Portanto, o sinal da nossa salvação, o Emanuel nascido da Virgem, foi dado pelo próprio Senhor (Is 7,14). Na verdade, é o próprio Senhor que salva os homens, já que eles não se podem salvar a si próprios. […] Disse o profeta Isaías: «Fortalecei as mãos débeis, robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos que têm o coração indeciso: ‘Tomai ânimo, não temais! Eis o vosso Deus, que vem para vos vingar. Deus vem em pessoa retribuir-vos e salvar-vos’» (35,3-4). Pois somente com a ajuda de Deus, e não por nós próprios, podemos ser salvos.
Eis outro texto onde Isaías profetizou que Aquele que nos iria salvar não era um mero homem, nem um ser incorpóreo, como os anjos: «Não foi um mensageiro nem um enviado que os redimiu, mas foi Ele em pessoa. Com o seu amor e a sua ternura, livrou-os do perigo, sustentou-os e amparou-os constantemente nos tempos antigos» (63,9). Mas este Salvador, o Verbo, também seria verdadeiramente um homem visível: «Contempla Sião, os teus olhos verão Jerusalém» (cf 33,20). […] E outro profeta disse: «Uma vez mais, terá compaixão de nós, apagará as nossas iniquidades e lançará os nossos pecados ao fundo do mar» (Miq 7,19). […] O Filho de Deus, que também é Deus, virá da terra de Judá, em Belém (Miq 5,1), para difundir o seu louvor por toda a terra. […] Por isso, Deus fez-Se homem e o próprio Senhor salvou-nos, dando-nos o sinal da Virgem.
Nota editorial: Corrigiu-se a indicação III, 2, 2. A versão equivalente aparece uma única vez; o cotejo situa o conjunto no capítulo 20.
O Verbo recebeu de Maria a nossa humanidade
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 21, 9–22, 1; cf. SC 211.
Deus havia prometido que da linhagem de David sairia o Rei eterno que reuniria todas as coisas em Si mesmo (Sl 131,11; Ef 1,10). Portanto, Deus retomou a obra que tinha projetado inicialmente (Gn 2,7). […] E, tal como Adão, o primeiro homem modelado, recebeu a sua substância de uma terra virgem e imaculada […] e foi moldado pela mão de Deus, isto é, a Palavra de Deus «por quem todas as coisas foram feitas» (Jb 10,8; Jo 1,3) […], do mesmo modo foi de Maria ainda virgem que nasceu o Verbo, que é esta recuperação de Adão. […] Por que foi que Deus não o tirou de novo do barro? Por que fez sair de Maria a obra que modelou? Foi para que a obra assim modelada não fosse diferente da primeira, mas a mesma, que não fosse outra a que é salva, mas a mesma, que a mesma fosse retomada, respeitando a semelhança.
Portanto, enganam-se os que dizem que Cristo nada recebeu da Virgem. Estes querem rejeitar a herança da carne, mas rejeitam também a semelhança […]; já não se poderia dizer que Cristo era semelhante ao homem feito à imagem e à semelhança de Deus (Gn 1,27). Era o mesmo que afirmar que Cristo Se manifestou apenas na aparência, aparentando ser um homem, ou que Se tornou um homem sem nada assumir do homem. Se Ele não recebeu de um ser humano a substância da Sua carne, não Se fez homem nem Filho do homem; e se não Se fez aquilo que nós éramos, pouca importância têm as Suas dores e o Seu sofrimento. […] O Verbo de Deus fez-Se verdadeiramente homem, recuperando em Si mesmo a obra que Ele tinha modelado. […] O apóstolo Paulo afirma claramente na carta aos Gálatas: «Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher» (4,4).
Cristo, novo Adão, e a obediência de Maria
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 22, 3–4 e 23, 1; excertos.
Recapitular a família humana
Lucas apresenta uma genealogia que remonta do nascimento de Nosso Senhor até Adão e comporta setenta e duas gerações; deste modo, como que liga o fim ao princípio, dando a entender que o Senhor foi Aquele que recapitulou em Si as nações dispersas desde Adão, as línguas e as gerações dos homens, incluindo o próprio Adão. É também por isso que Paulo chama a Adão «figura daquele que havia de vir» (Rom 5,14), porque o Verbo, Artesão do universo, tinha esboçado em Adão a futura história da humanidade de que Se revestiria o Filho de Deus. […]
O nó desatado pela obediência
A Virgem Maria foi obediente quando disse: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Pelo contrário, Eva foi desobediente, tendo desobedecido quando era ainda virgem. E assim como Eva, desobedecendo, se tornou causa de morte para si mesma e para todo o gênero humano, assim também Maria, tendo por esposo aquele que lhe tinha sido antecipadamente destinado, mas mantendo-se virgem, se tornou, pela sua obediência, causa de salvação para si mesma e para todo o gênero humano. […] Porque o que foi ligado só pode ser desligado quando se faz em sentido inverso o processo que tinha dado origem ao nó, de tal maneira que o primeiro laço é desatado por um segundo, tendo o segundo a função de desatar o primeiro.
Era por isso que o Senhor dizia que os primeiros seriam os últimos, e os últimos os primeiros (Mt 19,30). E também o profeta afirma a mesma coisa, ao dizer: «Em lugar dos teus pais, virão os teus filhos» (Sl 44,17). Porque, ao tornar-Se «o Primogênito dos mortos», ao receber no seu seio os pais antigos, o Senhor fê-los renascer para a vida em Deus, tornando-Se Ele mesmo «o princípio» (Col 1,18), já que Adão fora o princípio dos mortos. É também por isso que Lucas começa a sua genealogia pelo Senhor, fazendo-a depois remontar até Adão (Lc 3,23ss.), indicando assim que não foram os pais que deram a vida ao Senhor, mas foi Ele, pelo contrário, que os fez renascer no Evangelho da vida. Da mesma maneira, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, porque aquilo que a virgem Eva tinha atado pela sua incredulidade foi desatado pela Virgem Maria pela sua fé.
A procura da ovelha perdida
Era, pois, indispensável que, vindo ter com a ovelha perdida (Mt 18,12), recapitulando uma tão longa história, vindo à procura da sua obra, por Ele mesmo modelada (Lc, 19,10; Gn 2,8), o Senhor salvasse o homem que tinha sido feito à sua imagem e semelhança (Gn 1,26), isto é, Adão.
Nota editorial: Reuniram-se a genealogia, a comparação entre Eva e Maria e a busca de Adão. A passagem equivalente sobre a vida dos antigos pais foi conservada numa única versão.
João Batista prepara o caminho do Senhor
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 10, 1 e 11, 4; excertos.
Um povo preparado para o Senhor
A propósito de João Batista, lemos em Lucas: «Será grande aos olhos do Senhor […] e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor» (Lc 1,15s). Para quem preparou João um povo e diante de que Senhor é ele grande? Diante daquele que disse que João era «mais que profeta» e que «entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista» (Mt 11,9.11). Porque João preparou um povo anunciando a vinda do Senhor aos seus companheiros de servidão e pregando-lhes a penitência, a fim de que, quando o Senhor chegasse, eles estivessem em estado de receber o seu perdão, de regressar Àquele de quem se tinham afastado pelos seus pecados e as suas transgressões. […] Por isso, ao trazê-los de volta para o Senhor, João preparava para Ele um povo com boas disposições, com o espírito e com o poder de Elias. […]
O cântico de Zacarias
Sim, «na sua misericórdia», Deus visita-nos «como sol nascente; para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da luz» (Lc 1,78-79). Foi nestes termos que Zacarias, liberto do mutismo que tinha atraído na sua incredulidade, e cheio do Espírito novo, bendisse a Deus de maneira nova. A partir de então tudo era novo, porque o Verbo, por um processo novo, acabara de cumprir o desígnio da sua vinda na carne: reintegrar na amizade de Deus o homem que dele se tinha afastado. Era por isto que este homem ensinava a honrar a Deus de uma maneira nova.
Testemunha da luz
O evangelista João diz-nos: «Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz» (1,6-8). Esse precursor, João Batista, que dava testemunho da luz, foi enviado pelo Deus que […] tinha prometido por meio dos profetas enviar o seu mensageiro diante de seu Filho, para Lhe preparar o caminho (cf Ml 3,1; Mc 1,2), quer dizer, para dar testemunho da luz com o espírito e com o poder de Elias. […] É precisamente por João ser uma testemunha que o Senhor diz que ele é mais que profeta. Todos os outros profetas anunciaram a vinda da luz do Pai e desejaram ser julgados dignos de ver Aquele que pregavam. João profetizou como eles, mas viu-O presente, mostrou-O e convenceu muitos a crerem nele, de tal forma que ocupou simultaneamente o lugar de profeta e de apóstolo. Foi por isso que Cristo disse que ele era «mais que profeta».
Nota editorial: Quatro versões parcialmente equivalentes foram reunidas, preservando os complementos sobre Zacarias e o testemunho da luz.
O Espírito Santo, o batismo e a Igreja
A regra da fé e o batismo trinitário
Santo Ireneu de Lyon — Demonstração da pregação apostólica, 6–8; tradução Verbraken / Orval indicada no acervo.
Eis a regra da nossa fé, eis o fundamento do nosso edifício, eis aquilo que dá firmeza ao nosso comportamento. Em primeiro lugar: Deus Pai, incriado, ilimitado, invisível, Deus uno, criador do universo; é o primeiro artigo da nossa fé. Segundo artigo: o Verbo de Deus, Filho de Deus, Jesus Cristo, Nosso Senhor, que foi revelado aos profetas segundo o género das suas profecias e segundo os desígnios do Pai; por meio de Quem todas as coisas foram feitas; no final dos tempos, para recapitular todas as coisas, dignou-Se encarnar, aparecendo entre os humanos, visível, palpável, para destruir a morte, fazer surgir a vida e operar a reconciliação entre Deus e o homem. Terceiro artigo: o Espírito Santo, por Quem os profetas profetizaram, os nossos pais conheceram as coisas de Deus e os justos foram conduzidos para a via da justiça; no final dos tempos, foi enviado aos homens de uma maneira nova, a fim de os renovar em toda a face da terra, para Deus.
É por isto que o baptismo do nosso novo nascimento é colocado sob o signo destes três artigos. Deus Pai concede-no-lo, com vista ao nosso novo nascimento em Seu Filho, pelo Espírito Santo. Porque aqueles que trazem em si o Espírito Santo são conduzidos ao Verbo, que é o Filho, o Filho condu-los ao Pai, e o Pai concede-lhes a imortalidade. Sem o Espírito, é impossível ver o Verbo de Deus, e sem o Filho ninguém pode aproximar-se do Pai. Porque o conhecimento do Pai é o Filho; o conhecimento do Filho faz-se pelo Espírito Santo; e o Filho concede o Espírito segundo a complacência do Pai.
O Espírito Santo reúne os povos e dá vida nova
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 17, 1–2.
O Espírito prometido pelos profetas desceu sobre o Filho de Deus feito Filho do homem (Mt 3,16) e acostumou-Se com Ele a habitar os homens, a repousar neles, a residir na obra modelada por Deus. O Espírito realizou neles a vontade do Pai, renovando-os e fazendo-os passar da sua vetustez à vida nova de Cristo.
Foi este Espírito que David pediu para o homem, dizendo: «Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito» (Sl 51[50],12). Foi também este Espírito que Lucas afirma que desceu sobre os discípulos após a ascensão do Senhor, no dia de Pentecostes, com poder sobre todas as nações, para os introduzir na vida e lhes abrir o Novo Testamento. Animados de um mesmo sentimento, os discípulos celebraram os louvores de Deus em todas as línguas, pois o Espírito trouxe a unidade aos povos separados e ofereceu ao Pai as primícias de todas as nações (At 2).
Foi também por isso que o Senhor prometeu enviar-nos um Paráclito que nos reconciliaria com Deus. Pois, tal como não se pode fazer massa com a farinha seca nem pão sem água, assim também nós, que éramos uma multidão, não poderíamos ser um em Cristo Jesus (1Cor 10,17) sem a água vinda do Céu. E, tal como a terra não frutifica a menos que receba água, também nós, que inicialmente éramos apenas madeira seca, nunca teríamos dado fruto vivo sem a chuva generosa vinda do alto. Os nossos corpos receberam a união com a incorruptibilidade pelo batismo e as nossas almas receberam-na pelo Espírito. Ambos são necessários, pois ambos contribuem para dar a vida em Deus.
A água viva e o Paráclito dado à Igreja
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 17; excertos. O acervo indica 17, 2.
Depois de o Senhor ter dado aos Seus discípulos o poder de fazer renascer os homens para Deus (Jo 3,3 ss.), disse-lhes: «Ide, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,19). Com efeito, Deus havia prometido pelos Profetas que nos últimos tempos derramaria o Seu Espírito sobre os Seus servos e servas, para que recebessem o dom da profecia (Jl 3,1). […] Assim fez Nosso Senhor com a Samaritana, a quem prometeu dar «água viva» para que nunca mais tivesse sede nem se visse obrigada a tirar com esforço água do poço, mas que nela se tornasse «fonte de água que dá a vida eterna» (Jo 4,10-14). Trata-se da mesma água que o próprio Senhor recebeu de Deus e que, por seu turno, o Senhor dá a todos os que permanecerem n’Ele, ao enviar-lhes o Espírito Santo sobre a terra inteira. […]
Gedeão havia profetizado que por sobre toda a terra se espalharia o orvalho, ou seja, o Espírito de Deus (Jz 6,39). Foi precisamente este Espírito que desceu sobre o Senhor como «Espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, Espírito de temor de Deus» (Is 11,2) e que, por sua vez, o Senhor deu à Igreja, ao enviar do alto dos Céus o Paráclito sobre toda a terra, de onde também Satanás fora precipitado como o relâmpago, segundo a palavra do Senhor (Lc 10,18). É por isso que nos é necessário esse orvalho de Deus, para que não sejamos tornados estéreis nem consumidos pelo fogo e para que tenhamos também um Advogado onde temos um Acusador (Ap 12,10).
Com efeito, o Senhor encomendou ao Espírito Santo o cuidado da Sua criatura, daquela humanidade que caíra nas mãos dos ladrões e a quem Ele, cheio de compaixão, vendou as feridas, entregando dois denários reais (Lc 10, 30 ss.) para que nós, recebendo pelo Espírito a «efígie e a inscrição» (Lc 20,23) do Pai e do Filho, façamos frutificar esse denário que nos foi confiado e o restituamos com bons rendimentos ao Senhor (Mt 25,14 ss.)
Onde está a Igreja, está o Espírito de Deus
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 24, 1–2.
A pregação da Igreja apresenta, sob todos os aspectos, uma solidez inabalável; permanece idêntica a si mesma e beneficia do testemunho dos profetas, dos apóstolos e de todos os seus discípulos, testemunho que engloba “o começo, o meio e o fim”, a totalidade do desígnio de Deus infalivelmente ordenada para a salvação do homem e pedra angular da nossa fé. Por isso, nós guardamos com cuidado essa fé que recebemos da Igreja… Com efeito, foi à Igreja que foi confiado o “dom de Deus” (Jo 4,10) – assim como o sopro tinha sido confiado à primeira obra que Deus modelou, Adão (Gn 2,7) – a fim de que todos os membros da Igreja possam dele participar e por ele ser vivificados. Nela é que foi depositada a comunhão com Cristo, isto é, o Espírito Santo, penhor do dom da incorruptibilidade, confirmação da nossa fé e escada para a nossa ascensão até Deus: “Na Igreja, escreve S. Paulo, Deus colocou apóstolos, profetas, doutores” e todos os outros, por acção do Espírito (1 Co 12,28.11).
Onde estiver a Igreja, está também o Espírito Santo; e onde está o Espírito de Deus, está também a Igreja e toda a graça. E o Espírito é Verdade (1 Jo 5,6). É por isso que aqueles que se excluem do Espírito deixam de se alimentar no seio de sua Mãe para receber a vida e de participar da fonte límpida que brota do corpo de Cristo (Jo 7,37), mas, pelo contrário, “constroem para si cisternas quebradas” (Jr 2,13)… Tornando-se estrangeiros à verdade, é fatal que persistam no erro e sejam sacudidos por ele, que… não tenham nunca uma doutrina firmemente estabelecida, uma vez que preferem ser argumentadores de palavras mais do que discípulos da verdade. Porque não se alicerçam na única Rocha mas na areia.
A liberdade, o crescimento e a amizade com Deus
Crescer para acolher o dom de Deus
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 38, 1–2; passagem identificada por cotejo.
Deus não poderia ter feito o homem perfeito logo desde o princípio? Tudo é possível a Deus, que desde sempre é idêntico a Si mesmo e que não foi criado. Mas os seres criados, porque a sua existência começou depois da de Deus, são necessariamente inferiores àquele que os criou. […] Porque são criados, não são perfeitos; quando chegam ao mundo, são como crianças e, tal como as crianças, não estão acostumados nem treinados para uma conduta perfeita. […] Naturalmente que Deus podia dar ao homem a perfeição desde o princípio; mas o homem era incapaz de a receber, porque era apenas uma criança.
Foi por isso que Nosso Senhor, nos últimos tempos, quando recapitulou em Si todas as coisas (Ef 1,10), veio até nós, não de acordo com o seu poder, mas tal como nós éramos capazes de O ver. Na verdade, Ele teria podido vir na sua glória inexprimível, mas nós não éramos ainda capazes de suportar a grandeza dessa glória. […] O Verbo de Deus, que era perfeito, fez-Se criança para com o homem, não por sua causa, mas por causa do estado de infância em que o homem se encontrava.
Deixar-se modelar pelas mãos de Deus
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, prefácio, 4 e 39, 2; tradução SC 100, revista, indicada no acervo.
O homem é uma combinação de alma e de carne, uma carne formada por semelhança com Deus, modelada pelas duas Mãos de Deus, ou seja, pelo Filho e o Espírito, aos Quais Ele disse: «Façamos o homem» (Gn 1, 26). […]
Mas como podes ser divinizado, se ainda não és homem? Como podes ser perfeito, se ainda mal foste criado? Como serás imortal tu que, na natureza mortal, não obedeceste ao teu Criador? […] Visto que és obra de Deus, espera pacientemente pela Mão do teu Artista, que faz todas as coisas em tempo oportuno. Apresenta-Lhe um coração manso e dócil, e mantém a forma que este Artista te concedeu, conservando em ti a água que Dele provém e sem a qual te tornarás rígido, acabando por rejeitar a marca dos Seus dedos.
Se te deixares formar por Ele, ascenderás à perfeição, pois por esta arte de Deus será ocultada a argila que existe em ti; foi a Sua Mão que criou a tua substância. […] Se, porém, te tornares rígido, recusando a Sua arte e mostrando-te desagradado com o que Ele fez em ti, terás rejeitado, pela tua ingratidão para com Deus, não apenas a Sua arte, mas a própria vida; porque formar é próprio da bondade de Deus e ser formado é próprio da natureza do homem. Se, pois, te entregares a Ele, dando-Lhe a tua fé e a tua submissão, receberás os benefícios da Sua arte e serás uma obra perfeita de Deus. Se, pelo contrário, resistires e fugires às Suas Mãos, a causa da tua imperfeição residirá, não Nele, mas em ti, que não obedeceste.
O Criador abre os olhos do cego
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, V, 15, 2–4; passagem identificada por cotejo.
Quando se tratou do cego de nascença, não foi só por uma palavra, mas por uma ação, que o Senhor lhe concedeu a vista. Ele não agiu assim sem razão nem por acaso, mas para que conhecêssemos a mão de Deus que, no princípio tinha modelado o homem. Por isso, quando os discípulos Lhe perguntaram de quem era a culpa de aquele homem ser cego, dele mesmo ou de seus pais, o Senhor declarou: «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus». Estas «obras de Deus» são, primeiro que tudo, a criação do homem, que a Escritura descreve como uma ação: «E Deus tomou um pouco de argila e modelou o homem» (Gn 2,7). Foi por isso que o Senhor cuspiu no chão, fez lama e ungiu os olhos do cego: para mostrar de que modo se tinha realizado a moldagem inicial e, para aqueles que eram capazes de compreender, manifestar a mão de Deus, que tinha esculpido o homem a partir da argila. […]
E porque, nesta carne modelada em Adão, o homem tinha caído na transgressão e precisava do banho do novo nascimento (Tt 3,5), o Senhor disse ao cego, após ter-lhe untado os olhos com a lama: «Vai lavar-te à piscina de Siloé». Concedia-lhe assim, ao mesmo tempo, a remodelagem e a regeneração operada pelo banho. Desta forma, depois de se ter lavado, «ele ficou a ver», a fim de reconhecer Aquele que o tinha remodelado e de aprender quem era o Senhor que lhe tinha dado a vida. […]
Assim, Aquele que, no princípio, tinha modelado Adão, e a quem o Pai tinha dito: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (Gn 1,26), esse mesmo manifestou-Se aos homens no fim dos tempos e remodelou os olhos deste descendente de Adão.
A liberdade de crer e o combate pelo bem
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 37.
Deus fez o homem livre […] para que ele pudesse responder aos seus apelos voluntariamente e sem constrangimentos. De fato, em Deus não há violência, mas Ele convida-nos constantemente ao bem. Ele deu ao homem o poder de escolher, como havia feito com os anjos. […] E não é só no âmbito da sua atividade, mas também no campo da fé que o Senhor salvaguarda a liberdade […] do homem. Com efeito, Ele diz: «Faça-se segundo a tua fé» (Mt 9,29), mostrando assim que a fé é característica do homem, porque depende da sua decisão pessoal. Diz ainda: «Tudo é possível a quem crê» (Mc 9,23) e, noutra passagem, «Vai, que tudo se faça segundo a tua fé» (Mt 8,13). Todos estes textos mostram que o homem orienta o seu próprio destino conforme escolhe acreditar ou não. Por isso, «quem acredita no Filho tem a vida eterna. Quem se recusa a acreditar no Filho não verá a vida» […].
Dir-se-á então que teria sido melhor Deus não ter criado os anjos com a possibilidade de desobedecerem à sua Lei. Também não devia ter criado os homens, que tão depressa se tornariam ingratos para com Ele: na verdade, esse era o risco associado à sua natureza racional, capaz de examinar e julgar; devia tê-los feito semelhantes aos seres desprovidos de razão e de princípio de vida própria. […] Mas, nesse caso, o bem não teria nenhuma atração para os homens, a comunhão com Deus nenhum valor a seus olhos. O bem não despertaria neles o menor desejo, uma vez que seria adquirido sem terem de o procurar […]; o bem seria inato neles. […] Se o homem fosse bom por natureza e não por vontade […], não compreenderia que o bem é apetecível, não poderia apreciá-lo. Que gozo do bem teriam aqueles que o desconhecessem? Que glória, aqueles que não tivessem feito qualquer esforço para o alcançar? Que coroa, aqueles que não tivessem lutado para o obter? […] Pelo contrário, quanto mais a nossa recompensa resultar de um combate, mais valor terá; quanto maior for o seu preço, mais a desejaremos.
A lei da liberdade e a amizade com Deus
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 13, 1–4; excertos. SC 100, p. 525s., revista, indicada numa versão.
Da servidão à liberdade
A Lei foi promulgada para escravos, a fim de educar a alma para as coisas exteriores e corporais, levando-a como que acorrentada à docilidade aos mandamentos, a fim de que o homem aprendesse a obedecer a Deus. Mas o Verbo de Deus libertou a alma; e ensinou-a a purificar, de livre vontade, também o corpo. Portanto, era preciso que fossem retiradas as correntes da servidão, graças às quais o homem se pudera formar, e de futuro ele seguisse a Deus sem correntes. Mas ao mesmo tempo […] era preciso reforçar a submissão ao Rei, a fim de que ninguém voltasse para trás, mostrando-se indigno do seu Libertador. […]
A Lei enraizada no coração
Há certos preceitos naturais da Lei que são já de justiça; mesmo antes da dádiva da Lei a Moisés, os homens observavam esses preceitos, eram justificados pela sua fé e agradavam a Deus. O Senhor não aboliu esses preceitos, antes os alargou e os cumpriu, como provam as seguintes palavras: «Foi dito aos antigos: não cometerás adultério. Mas eu digo-vos: todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração». E ainda «Foi dito: não matarás. Eu, porém, digo-vos: quem se irritar contra o seu irmão sem motivo será réu perante o tribunal» (Mt 5, 21ss.). […] E por aí adiante. Nenhum destes preceitos implica a contradição nem a abolição dos anteriores, mas o seu cumprimento e o seu alargamento. Como o próprio Senhor o diz: «Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu» (Mt 5, 20).
Em que consistia essa superação? Em primeiro lugar, em crer, não apenas no Pai, mas também no Seu Filho doravante manifestado, pois é Ele que leva o homem à comunhão e à união com Deus. Em seguida, não apenas em dizer, mas em fazer – pois «eles diziam e não faziam» (Mt 23, 3) — e em evitar, não apenas actos maus, mas também o facto de os desejar. Com este ensinamento, Ele não contradizia a Lei, antes a cumpria e enraizava em nós os preceitos da Lei. […] O preceito de nos abstermos, não só dos actos proibidos pela Lei, mas também do desejo de os praticar não provém de alguém que contradiz e abole a Lei; mas sim d’Aquele que a cumpre e alarga.
Dar gratuitamente e amar mais
[…] não nos ordenou simplesmente que pagássemos a dízima, mas que distribuíssemos todos os bens pelos pobres; não quis que amássemos apenas os que nos são próximos, mas também os nossos inimigos; e que não fôssemos apenas «generosos e dispostos a partilhar» (1Tm 6,18), mas que déssemos amavelmente os nossos bens aos que querem ficar-nos com eles. […]
A quem te tirar a túnica, diz Cristo, dá-lhe também o manto; a quem ficar com o que te pertence, não lho reclames; e aquilo que quiserdes que os outros vos façam, fazei-o vós a eles (Mt 5,40; Lc 6,30-31). Deste modo, não nos entristeceremos, como pessoas a quem arrebatam os bens contra a sua vontade, mas, pelo contrário, alegrar-nos-emos, como pessoas que dão de bom grado, uma vez que faremos ao próximo um dom gratuito em vez de cedermos a uma pressão. E diz ainda: se alguém te obrigar a caminhar uma milha, caminha duas com ele; desse modo, não o seguimos como um escravo mas precedemo-lo como homens livres. Em todas as coisas, portanto, Cristo convida-te a tornares-te útil ao teu próximo, não considerando a sua maldade mas acrescentando a tua bondade. Convida-nos assim a tornar-nos semelhantes ao nosso Pai «que faz nascer o sol sobre os maus e sobre os bons e cair a chuva sobre os justos e sobre os injustos» (Mt 5,45).
E isto não é obra de quem vem abolir a Lei mas de quem a cumpre e a alarga (Mt 5,17). O serviço da liberdade é um serviço mais amplo; o nosso libertador propõe-nos uma submissão e uma devoção mais profundas. Porque Ele não nos libertou das amarras da Lei antiga para nos separarmos dele […], mas para que, tendo recebido mais abundantemente a sua graça, O amemos mais e, tendo-O amado mais, recebamos dele uma glória ainda maior quando estivermos para sempre na presença de seu Pai.
Já não servos, mas amigos
Assim, Nosso Senhor, a Palavra de Deus, começou por comprometer os homens numa servidão em relação a Deus e em seguida libertou os que se Lhe tinham mostrado submissos. Como Ele próprio disse aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vo-lo dei a conhecer» (Jo 15,15). […] Ao fazer dos seus discípulos amigos de Deus, mostra claramente que Ele é o Verbo, a Palavra de Deus. Porque foi por ter seguido o seu apelo espontaneamente e sem correntes, na generosidade da sua fé, que Abraão se tornou «amigo de Deus» (Is 41,8).
Nota editorial: As passagens sobre os mandamentos, a generosidade e a amizade com Deus foram reunidas com subtítulos. A referência do excerto sobre a Lei natural foi corrigida de IV, 13, 3 para IV, 13, 1.
Seguir o Salvador é participar na salvação
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 13, 4 e 14, 1; excertos.
A amizade oferecida por Deus
Por ter seguido a Palavra de Deus, o Seu chamamento, espontânea e livremente, na generosidade da sua fé, Abraão tornou-se «o amigo de Deus» (Tg 2,23). Não foi por indigência Sua que o Verbo de Deus quis esta amizade de Abraão, Ele que é perfeito desde o princípio; «antes de Abraão existir, Eu sou!» (Jo 8,58). Mas para poder dar a vida eterna a Abraão, porque Ele é bom. […]
A comunhão de que o homem necessita
No princípio, não foi porque precisasse do homem que Deus modelou Adão, mas para ter alguém em quem depositar os seus benefícios. Porque, não só antes de Adão mas mesmo antes de toda a criação, já o Verbo glorificava o Pai, permanecendo nele, e era glorificado pelo Pai, tal como Ele próprio disse: «Pai, glorifica-Me junto de Ti mesmo com aquela glória que tinha em Ti antes que houvesse mundo». Também não foi porque tivesse necessidade do nosso serviço que Ele nos ordenou que O seguíssemos, mas para nos obter a salvação. Porque seguir o Salvador é participar da salvação, tal como seguir a luz é tomar parte da luz.
Quando os homens estão na luz, não são eles que iluminam a luz e a fazem resplandecer, antes são iluminados e tornados resplandecentes por ela; longe de lhe acrescentar o que quer que seja, eles beneficiam da luz e por ela são iluminados. O mesmo acontece com o serviço prestado a Deus; o nosso serviço não acrescenta nada a Deus, porque Deus não precisa do serviço dos homens; mas, àqueles que O servem e O seguem, Deus dá a vida, a incorruptibilidade e a glória eterna. […]
Se Deus solicita o serviço dos homens, é para poder, Ele que é bom e misericordioso, conceder os seus benefícios aos que perseveram no seu serviço. Porque, se Deus não precisa de nada, o homem precisa da comunhão de Deus. A glória do homem é perseverar no serviço de Deus. É por isso que o Senhor dizia aos seus discípulos: «Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi a vós» (Jo 15,16). Indicava assim que não eram eles que O glorificavam, seguindo-O, mas que, por terem seguido o Filho de Deus, eram glorificados por Ele. «Pai, quero que onde Eu estiver eles estejam também comigo, para contemplarem a minha glória» (Jo 17,24).
Os filhos chamados pelo seu nome
[…] É deles que Isaías diz: «Trarei do Oriente os Teus filhos e congregarei do Ocidente os que Te pertencem. […] Tragam-Me os Meus filhos lá de longe e as Minhas filhas dos confins da terra; são todos aqueles que têm o Meu nome, que Eu criei para a Minha glória» (Is 43,5.7).
Nota editorial: Três versões foram reunidas; conservaram-se a abertura sobre Abraão e o complemento de Isaías, sem repetir a comparação com a luz.
A nova aliança e a esperança da ressurreição
A vinha de Deus e os frutos da justiça
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, IV, 36, 2–3; SC 100.
Ao modelar Adão com o pó da terra (Gn 2,7) e ao eleger patriarcas, Deus plantou a vinha do gênero humano. Depois a confiou a vinhateiros pelo dom da Lei transmitida por Moisés. Cercou essa vinha com uma sebe, isto é, circunscreveu a terra que eles teriam de cultivar; construiu uma torre, ou seja, escolheu Jerusalém; montou um lagar, ou seja, preparou os que iam receber o Espírito profético. E enviou-lhes profetas, antes do exílio de Babilônia; e, após o exílio, outros ainda em maior número, para reclamarem os frutos e para lhes dizerem […]: «Endireitai os vossos caminhos e emendai as vossas obras» (Jr 7,3); «praticai uma verdadeira justiça e excedei-vos em bondade e compaixão, cada um para com seu irmão. Não oprimais a viúva e o órfão, o estrangeiro e o pobre, e não formeis nos vossos corações maus desígnios uns para com os outros» (Zac 7,9-10) […]; «lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos Meus olhos a malícia das vossas ações; […] aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos» (Is 1,16-17). […]
Tais eram as prédicas por que os profetas reclamavam o fruto da justiça. Mas como as multidões continuassem incrédulas, enviou-lhes finalmente o Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, a Quem os perversos vinhateiros mataram e lançaram para fora da vinha. Razão por que Deus a confiou – não a circunscrevendo já, antes a abrindo ao mundo inteiro – a outros vinhateiros para que estes Lhe entregassem o fruto na altura devida. A torre da eleição eleva-se por toda a Terra no seu esplendor, porque por toda a Terra a Igreja resplandece; por toda a Terra surge também ereto o lagar, porque por toda a Terra estão aqueles que recebem o Espírito de Deus. […]
Por isso dizia o Senhor aos Seus discípulos, para fazer de nós bons obreiros: «Que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida […]; velai, pois, orando continuamente» (Lc 21,34.36). […] «Estejam apertados os vossos cintos e acesas as vossas lâmpadas. Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor» (Lc 12,35–36).
A nova aliança e o chamamento dos povos
Santo Ireneu de Lyon — Demonstração da pregação apostólica, 90–95; excertos. Traduções Bouchet / Bouchut, Lectionnaire, pp. 296–297, revistas; cf. SC 62, pp. 157–159, conforme os dados do acervo.
Uma lei gravada no coração
«Dias virão, oráculo do Senhor, em que firmarei nova aliança com as casas de Israel e de Judá. […] Imprimirei a Minha Lei, gravá-la-ei no seu coração» (Jer 31, 31ss.). Isaías anuncia que estas promessas devem ser uma herança de apelo aos pagãos; também para eles se abriu o livro da nova aliança:
«Oráculo do Senhor Deus de Israel. Naquele dia, o homem voltará os seus olhos para o Criador, seus olhos contemplarão o Santo de Israel, não olhará mais para os altares obras das suas mãos» (Is 17, 7-8).
É evidente que estas palavras são dirigidas àqueles que abandonam os ídolos e creem em Deus nosso Criador, graças ao Santo de Israel; ora, o Santo de Israel é Cristo. […]
No livro de Isaías, é o próprio Verbo que diz que tem de Se manifestar entre nós – com efeito, o Filho de Deus fez-Se homem – e de Se deixar encontrar por nós, que anteriormente O não conhecíamos:
«Eu estava à disposição dos que não Me consultavam, saía ao encontro dos que não Me buscavam. Dizia: «Eis-Me aqui, eis-Me aqui» a um povo que não invocava o Meu nome» (Is 65, 1).
E Oseias anunciou que este povo de que fala Isaías tem de ser um povo santo:
«Usarei de misericórdia para com o não amado e direi ao que não é o Meu povo: «Tu és o Meu povo» e ele Me responderá: «Tu és o meu Deus»» (Os 2, 25).
É também este o sentido das palavras de São João Batista:
«Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão» (Mt 3, 9).
Com efeito, depois de terem sido arrancados, pela fé, ao culto das pedras, os nossos corações vêem a Deus e tornamo-nos filhos de Abraão, que foi justificado pela fé.
A vida recebida pelo novo chamamento
O Verbo de Deus encarnou e habitou entre nós, como afirma São João (Jo 1, 14), Seu discípulo. Graças a Ele, o coração dos pagãos foi mudado por esta nova vocação, e a Igreja dá muitos frutos naqueles que se salvam; e já não é um intercessor como Moisés, nem um mensageiro como Elias, mas o próprio Senhor que nos salva, dando à Igreja mais filhos do que os anciãos davam à sinagoga, como havia previsto Isaías ao dizer: «Regozija-te, estéril, que não tinhas filhos» (Is 54, 1; Gal 4, 27). […] Deus encontra a Sua felicidade na concessão da Sua herança às nações insensatas, àquelas que não pertencem à cidade de Deus. Agora pois que, graças a este apelo, a vida nos foi dada, e que em nós Deus levou à plenitude a fé de Abraão, não podemos voltar para trás, ou seja, não podemos regressar à primeira legislação, porque recebemos o Senhor da Lei, o Filho de Deus, e pela fé Nele aprendemos a amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a nós mesmos.
Nota editorial: O post de origem reunia duas obras. Aqui conserva-se a Demonstração; o trecho de Contra as heresias foi separado na seleção seguinte. A passagem equivalente sobre os filhos de Abraão não é repetida.
A promessa de Abraão e a ressurreição dos justos
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, V, 32, 2; excerto.
A promessa feita anteriormente por Deus a Abraão manteve-se estável. Deus tinha-lhe dito, com efeito:
«Ergue os teus olhos e, do sítio em que estás, contempla o Norte, o Sul, o Oriente e o Ocidente. Toda a terra que estás a ver, dar-ta-ei, a ti e aos teus descendentes, para sempre» (Gn 13,14-15). […]
No entanto, Abraão não recebeu herança alguma durante a sua vida terrena, «nem mesmo um palmo de terra»; foi sempre um «estrangeiro e hóspede» de passagem (At 7,5; Gn 23,4). […] Portanto, se Deus lhe prometeu a herança da terra, e ele não a recebeu durante a sua estadia terrena, terá de recebê-la com a sua posteridade, isto é, aqueles que temem a Deus e nele creem, aquando da ressurreição dos justos.
Ora, a sua posteridade é a Igreja, que, pelo Senhor, recebe a filiação adotiva em relação a Abraão, como diz João Batista:
«Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão» (Mt 3,9).
Também o apóstolo Paulo diz na sua Epístola aos Gálatas:
«E vós, irmãos, à semelhança de Isaac, sois filhos da promessa» (Gal, 4,28).
Diz claramente ainda, na mesma epístola, que os que acreditaram em Cristo recebem, de Cristo, a promessa feita a Abraão:
«Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não se diz: “e às descendências”, como se de muitas se tratasse; trata-se, sim, de uma só: “e à tua descendência”, que é Cristo» (Gal 3,16).
E, para confirmar tudo isto, diz ainda
«Assim foi com Abraão: teve fé em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça. Ficai, por isso, a saber: os que dependem da fé é que são filhos de Abraão. E como a Escritura previu que é pela fé que Deus justifica os gentios, anunciou previamente como evangelho a Abraão: serão abençoados em ti todos os povos» (Gal 3,6-8). […]
Se portanto nem Abraão nem a sua descendência, isto é, todos os que são justificados na fé, recebem herança alguma nesta Terra, recebê-la-ão no momento da ressurreição dos justos, porque Deus é verídico e estável em todas as coisas. Era por este motivo que o Senhor dizia:
«Felizes os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5,5).
Nota editorial: Esta passagem aparecia também junto de um excerto da Demonstração da pregação apostólica. Foi restituída à sua obra e apresentada numa única versão.
A Eucaristia e a ressurreição da carne
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, V, 2, 3; tradução SC 153, pp. 37ss., revista, indicada no acervo.
Uma vez plantada na terra, a cepa dá fruto a seu tempo. Da mesma forma, o grão de trigo, depois de ter caído à terra e de se ter dissolvido nela (Jo 12, 24), ressurge multiplicado pelo Espírito de Deus que tudo mantém. Depois, graças a um trabalho competente, esses frutos tornam-se utilizáveis pelos homens; seguidamente, recebendo a Palavra de Deus, tornam-se Eucaristia, quer dizer, corpo e sangue de Cristo.
Da mesma forma, os nossos corpos, alimentados por essa Eucaristia, após deitados à terra e nela dissolvidos, ressuscitarão a seu tempo quando o Verbo de Deus lhes conceder a graça da ressurreição «para glória de Deus Pai» (Fil 2, 11). Porque Ele obterá a imortalidade para o que é mortal e a incorruptibilidade para o que é corruptível (1Cor 15, 53), porque a força de Deus manifesta-se na fraqueza (2Cor 12, 9).
Sendo assim, acautelar-nos-emos de nos inflarmos de orgulho – como se fosse de nós mesmos que obtivéssemos a vida – e de nos levantarmos contra Deus, mantendo pensamentos de ingratidão. Pelo contrário, sabendo por experiência que é exclusivamente através Dele […] que recebemos o dom de viver eternamente, nunca nos afastaremos dos pensamentos verazes sobre Deus e sobre nós mesmos. Conheceremos o poder de Deus e quantos benefícios Dele recebe o homem. Não nos equivocaremos a respeito da verdadeira concepção que é necessário ter de Deus e do homem. Aliás […], se Deus permitiu a nossa decomposição na terra, não será precisamente para que, sabendo tudo isso, estivéssemos doravante atentos a tudo, de forma a não menosprezarmos nem a nós mesmos, nem Deus? […]
Nota editorial: O final do post repetia, fora de sequência e de modo incompleto, o início de uma frase sobre o cálice e o pão. Esse fragmento foi preservado no registro interno; o corpo apresenta a passagem contínua, com a omissão assinalada.
O sinal de Jonas e a gratidão pela salvação
Santo Ireneu de Lyon — Contra as heresias, III, 20, 1; tradução Rousseau, Cerf 1984, p. 370, revista; cf. SC 34, p. 339.
Deus deu provas de paciência perante a fraqueza do homem, porque conhecia antecipadamente a vitória que lhe daria pelo Seu Verbo; pois, quando o poder se revelou na fraqueza (2Cor 12, 9), o Verbo deu a conhecer a bondade de Deus e o Seu poder magnífico. Com efeito, aconteceu ao homem o mesmo que ao profeta Jonas. Deus não permitiu que este fosse engolido por um monstro marinho para que desaparecesse e perecesse por completo, mas para que, depois de ter sido rejeitado pelo monstro, se mostrasse mais submisso a Deus e glorificasse mais Aquele que o tinha salvado de forma inesperada. Foi também para conduzir os ninivitas a um firme arrependimento e à conversão Àquele que os livraria da morte, impressionados que ficaram pelo sinal que se tinha realizado em Jonas. […] Da mesma maneira, no princípio, Deus não permitiu que o homem fosse engolido pelo grande monstro, autor da desobediência, para que desaparecesse e perecesse por completo, mas porque tinha antecipadamente preparado a salvação realizada pelo Seu Verbo, por meio do «sinal de Jonas». Salvação que foi preparada para aqueles que tiverem por Deus os mesmos sentimentos que Jonas e que como ele Lhe confessarem: «Adoro o Senhor, Deus do céu, que fez os mares e a terra» (Jon 1, 9).
Deus quis que o homem, Dele recebendo inesperadamente a salvação, ressuscite de entre os mortos e glorifique a Deus, dizendo com Jonas: «Na minha aflição invoquei o Senhor e Ele ouviu-me. Clamei a Vós do meio da morada dos mortos e ouvistes a minha voz» (Jon 2, 3). Deus quis que o homem continuasse fielmente a glorificá-Lo e a dar-Lhe graças sem cessar pela salvação que Dele recebeu.
Fontes e critérios
As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, cuja fonte declarada é Evangelho Cotidiano / Evangelho Quotidiano (EAQ), e do item 28 de Sophia.docx. Foram preservados os dados disponíveis de SC (Sources chrétiennes), PG e das traduções de Bouchet, Bouchut, Rousseau, Verbraken / Orval e Cerf. Esta antologia não constitui uma nova tradução.
O fragmento sem cabeçalho de Sophia.docx foi identificado em Contra as heresias, IV, 5, 5 e 7, 1–2. O título truncado foi recuperado a partir de João 8,56. O cotejo permitiu corrigir referências incompletas ou deslocadas, separar obras reunidas num mesmo post e ajustar lapsos mecânicos; as variantes permanecem no registro editorial interno.
Cotejo das obras: Contra as heresias, tradução histórica em New Advent; Demonstração da pregação apostólica, tradução de J. Armitage Robinson (1920).
Os mapas de origem e as decisões de reunião são conservados no registro editorial interno. Preparação editorial em 19 de outubro de 2026.



