«Coroados pelo humilde Rei da Glória»
2 de janeiro de 2024 — São Fulgêncio de Ruspe (467–532) — Sermão 3, 1-3, 5-6 ; CCL 91 A, 905-909
Ontem, celebrámos o nascimento temporal do nosso Rei eterno; hoje, celebramos o martírio triunfal do seu soldado. […] O nosso Rei, o Altíssimo, humilhou-Se por nós; mas a sua vinda não foi em vão, pois Ele trouxe grandes dons aos seus soldados, a quem não só enriqueceu abundantemente, mas também fortaleceu para serem invencíveis na luta: trouxe-lhes o dom da caridade, que torna os homens participantes da natureza divina. […]
A mesma caridade que Cristo trouxe do Céu à terra levou Estêvão da terra ao Céu. […] Para merecer a coroa que o seu nome significa, Estêvão tomou como arma a caridade, e com ela triunfou por toda a parte. Por amor de Deus, não cedeu perante os judeus que o atacavam; por amor do próximo, intercedeu pelos que o apedrejavam. Por caridade, argumentava com os que estavam no erro, para que se corrigissem; por caridade, orou pelos que o apedrejavam, para que não fossem castigados. Confiando na força da caridade, venceu a crueldade de Saulo e mereceu ter como companheiro no Céu aquele que na terra fora seu perseguidor. Movido por santa e infatigável caridade, desejava conquistar com a sua oração aqueles que não pudera converter com as suas palavras. E agora, Paulo alegra-se com Estêvão, com Estêvão goza da glória de Cristo, com Estêvão triunfa, com Estêvão reina. Onde primeiro entrou Estêvão, martirizado pelas obras de Paulo, entrou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estêvão.
São Fulgêncio de Ruspe (467-532) Sermão 3, 1-3, 5-6 ; CCL 91 A, 905-909
«Ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus» (1Cor 4,1)
19 de outubro de 2016 — São Fulgêncio de Ruspe (467–532) — Sermão I, 2-3
Para definir o papel dos servos que colocou à frente do seu povo, o Senhor diz a seguinte palavra, que o Evangelho nos transmite: «Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor estabelecerá à frente da sua casa, para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo? Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar, encontrar assim ocupado». […]
Se perguntarmos que medida de trigo é esta, São Paulo responde-nos: é «a medida de fé que Deus vos repartiu» (Rom 12,3). Àquilo a que Cristo chama medida de trigo, chama Paulo medida de fé, para nos ensinar que não há outra medida de trigo espiritual senão o mistério da fé cristã; e nós damos-vos essa medida de trigo em nome do Senhor cada vez que, iluminados pelo dom espiritual da graça, vos falamos segundo a regra da verdadeira fé. Essa medida, recebei-la vós dos administradores do Senhor sempre que ouvis da boca dos servos de Deus a palavra da verdade.
Que ela seja o nosso alimento, essa medida de trigo que Deus nos faz partilhar. Colhamos nela o sustento para a forma como nos conduzimos, a fim de obtermos a recompensa da vida eterna. Acreditemos naquele que Se dá a Si mesmo a cada um de nós para não desfalecermos no caminho (cf Mt 15,32), e Se reserva como nossa recompensa para encontrarmos alegria na pátria eterna. Acreditemos e esperemos nele; amemo-lo acima de tudo e em tudo. Porque Cristo é o nosso alimento e será a nossa recompensa. Cristo é o sustento e o conforto dos viajantes que caminham, a satisfação e a exaltação dos bem-aventurados que chegam ao seu repouso.
São Fulgêncio de Ruspe (467-532) Sermão I, 2-3
«Eu te ordeno: levanta-te!»
12 de junho de 2016 — São Fulgêncio de Ruspe (467–532) — O perdão dos pecados; CCL 91A, 693
«Num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta, pois ela há-de soar, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados.» Ao dizer «nós», São Paulo fala daqueles que receberão o dom da transformação futura, isto é, dos seus companheiros na comunhão da Igreja e numa vida reta. E sugere a natureza desta transformação quando prossegue: «É necessário que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade e que este corpo mortal se revista de imortalidade» (1Cor 15,52-53). Para recebermos esta transformação como recompensa justa, ela tem de ser precedida pela transformação que provém da abundância da graça. […]
Na vida atual, é pois a graça que age para que a justificação, através da qual ressuscitamos espiritualmente, inicie essa transformação; em seguida, aquando da ressurreição do corpo que completa a transformação dos homens justificados, a glorificação será perfeita. […] Primeiro a graça da justificação e, em seguida, a da glorificação transforma-os de tal modo, que a glorificação permanece neles imutável e eterna.
Com efeito, eles ficam transformados na Terra por esta primeira ressurreição, que os ilumina para que se convertam. Através dela, passam da morte para a vida, do pecado para a justiça, da descrença para a fé, de uma conduta incorreta para uma vida santa. É por isso que a segunda morte não tem poder sobre eles. Diz o Apocalipse: «Felizes os que participam na primeira ressurreição: a segunda morte não tem poder sobre eles» (20,6). […] E é também por isso que nos devemos apressar a participar na primeira ressurreição, se não quisermos ser condenados ao castigo da segunda morte. Aqueles que, transformados nesta vida pelo seu respeito a Deus, passam de uma vida má para uma vida boa, passam da morte para a vida; seguidamente, a sua vida de miséria ficará transformada numa vida de glória.
São Fulgêncio de Ruspe (467-532) O perdão dos pecados; CCL 91A, 693
«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu» (Act 9,3)
25 de janeiro de 2012 — São Fulgêncio de Ruspe (467–532), bispo no Norte de África — Um sermão atribuído, nº 59; PL 65, 929
Saulo foi enviado pelo caminho de Damasco para se tornar cego, pois se ele cegou, foi para ver o verdadeiro Caminho (Jo 14,6). […] Perdeu a vista do corpo, mas o seu coração foi iluminado para que a verdadeira luz brilhasse, quer aos olhos do seu coração, quer aos do corpo. […] Foi enviado para dentro de si mesmo, para se procurar a si mesmo. Andava errante na sua própria companhia, viajante inconsciente, e não se encontrava porque interiormente tinha perdido o caminho.
Foi por isso que ouviu uma voz que lhe dizia […]: «Desvia os teus passos do caminho de Saulo, para encontrares a fé de Paulo. Despe a túnica da tua cegueira e reveste-te das vestes do teu Salvador (Gl 3,27). […] Eu quis manifestar na tua carne a cegueira do teu coração, para que pudesses ver o que não vias e não te parecesses com aqueles que ‘têm olhos mas não vêem e ouvidos mas não ouvem’ (Sl 115,5-6). Que Saulo se afaste deles com as suas cartas inúteis (Act 22,5), para que Paulo escreva as suas tão necessárias epístolas. Que Saulo, o cego, desapareça […] para que Paulo se torne a luz dos crentes.» […]
Paulo, quem te transformou assim? «Ele respondeu: Esse homem, que Se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai à piscina de Siloé e lava-te.’ Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!» (Jo 9,11). Porquê esse espanto? Eis que Aquele que me criou me recriou; com o poder com que me criou, agora curou-me; eu tinha pecado mas Ele purificou-me».
Portanto, Paulo, vem, deixa o velho Saulo, em breve também verás Pedro. […] Ananias, toca em Saulo e dá-nos Paulo; afasta para longe o perseguidor, envia em missão o pregador: os cordeiros já não terão medo, as ovelhas de Cristo viverão na alegria. Toca no lobo que perseguia Cristo, para que agora, com Pedro, ele leve a pastar as ovelhas.
São Fulgêncio de Ruspe (467-532), bispo no Norte de África Um sermão atribuído, nº 59; PL 65, 929
Jesus impôs as mãos sobre os olhos do cego
28 de julho de 2009 — Homilia atribuída a São Fulgêncio de Ruspe (467-532), bispo — (trad. em Kephas, Fayard, t. 2, p. 172 rev)
O espelho projeta; o espelho apaga. Com efeito, Aquele que, «vindo ao mundo, a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9) é o verdadeiro espelho do Pai. Cristo passa enquanto imagem do Pai (Heb 1, 3) e afasta a cegueira dos olhos dos que não vêem. Este Cristo que veio do céu passa, a fim de que todo o homem O veja, de acordo com a palavra profética do velho Simeão, que recebeu o Verbo recém-nascido nos seus braços e O contemplou com alegria, dizendo: «Agora, Senhor, podes deixar ir o teu servo partir em paz, segundo a Tua palavra porque os meus olhos viram a Salvação» (Lc 2, 29-30).
Só, o cego não podia ver Cristo, espelho do Pai. Qual era então a fidelidade d’Aquele que os profetas tinham anunciado: «Então se abrirão os olhos do cego e se desimpedirão os ouvidos do surdo, o coxo saltará como um veado e a língua do mudo dará gritos de alegria»? (Is 35, 5-6) Cristo abriu os olhos ao cego, que viu em Cristo o espelho do Pai. Maravilhoso remédio contra a natureza! […]
O primeiro homem foi criado luminoso, tornando-se cego quando se abandonou à serpente: este cego tornou a nascer quando voltou a acreditar. Porque o seu corpo era fraco, mas a sua natureza também estava corrompida. Necessitava duplamente da Luz. […] O artífice, o seu Criador, passou e reflectiu no espelho esta imagem do homem caído, vendo a miséria do cego. Milagre do poder de Deus, que cura quem encontra e ilumina quem visita.
Homilia atribuída a São Fulgêncio de Ruspe (467-532), bispo (trad. em Kephas, Fayard, t. 2, p. 172 rev)


