São Gregório de Nissa — Antologia de homilias e reflexões

Esta antologia reúne homilias e reflexões de São Gregório de Nissa sobre a misericórdia de Cristo, o amor de Deus, a pureza do coração e o crescimento na vida espiritual. O percurso começa com o bom samaritano e prossegue pela caridade, a contemplação, a vigilância e a esperança da vida eterna.

Os fragmentos foram organizados por tema. As versões repetidas aparecem uma única vez; os trechos complementares são preservados e identificados, com as referências das obras.

Sumário

Cristo, o bom samaritano, e a misericórdia

O bom samaritano

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 14, sobre Ct 5,13–16.

«Este é o meu amado; este o meu amigo, mulheres de Jerusalém.» (Ct 5,16). A Esposa do Cântico mostra aquele que procurava, dizendo: «Eis quem eu procuro, Aquele que, para Se tornar nosso irmão, veio de Judá. Tornou-Se amigo daquele que caiu nas mãos dos salteadores, curando-lhe as feridas com azeite, vinho e ligaduras; içou-o para a sua própria montada, levou-o para uma estalagem, deu duas moedas de prata para que cuidassem dele, e prometeu pagar, quando regressasse, o que tivessem gastado no cumprimento das suas ordens». Cada um destes detalhes tem um significado bem evidente.

O doutor da Lei tentou o Senhor e quis mostrar a sua superioridade em relação aos outros, dizendo: «E quem é o meu próximo?» O Verbo expõe-lhe então, sob a forma de uma narrativa, a história sagrada da misericórdia: a queda do homem, a emboscada dos salteadores, o roubo da veste incorruptível, as feridas do pecado, a invasão causada pela morte em metade da nossa natureza (uma vez que a nossa alma permanece imortal), a passagem inútil da Lei (uma vez que nem o sacerdote nem o levita trataram das feridas daquele que tinha caído nas mãos dos salteadores).

«É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados» (Heb 10,4); só o podia fazer Aquele que revestiu toda a natureza humana: a dos judeus, dos samaritanos, dos gregos, numa palavra, de toda a humanidade. Com o seu corpo, que é a montada, Ele veio ao encontro da miséria do homem: curou-lhe as feridas, fê-lo repousar na sua própria montada, e fez da sua misericórdia uma estalagem, onde todos os que penam e se vergam sob o seu fardo encontram repouso (cf Mt 11,28).

«Se permanecerdes em Mim, Eu permanecerei em vós» (Jo 6,56). […] Aquele que encontra abrigo na misericórdia de Cristo recebe dele duas moedas de prata, uma das quais consiste em amar a Deus com toda a alma, e a outra em amar o próximo como a si mesmo, segundo a resposta do doutor da lei (cf Mc 12,30s). Mas, uma vez que «não são os que ouvem a Lei que são justos diante de Deus, mas os que praticam a Lei é que serão justificados» (Rom 2,13), é preciso, não apenas receber essas duas moedas […], mas dar também a nossa contribuição pessoal, pelas obras, para que se cumpram estes dois mandamentos. Foi por isso que o Senhor disse ao estalajadeiro que tudo aquilo que ele providenciasse para cuidar do ferido lhe seria devolvido por ocasião da sua segunda vinda, em conformidade com o zelo deste homem.

Nota editorial: A abertura e a explicação da parábola foram reunidas à continuação sobre os dois mandamentos. O cotejo da obra situa a passagem na homilia 14; foi corrigida a indicação de homilia 15 que acompanhava uma das versões.

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Usar os bens sem deles abusar — Vivamos segundo Deus

São Gregório de Nissa — Sermão 1 sobre o amor aos pobres; PG 46, 463–466, nos excertos indicados pelo acervo.

A misericórdia e a beneficência são amigas de Deus; quando elas se estabelecem no coração de um homem, divinizam-no e o moldam segundo a semelhança do Bem soberano, para que ele seja imagem da primeira e imaculada essência, que ultrapassa todo conhecimento.

Vós, portanto, criaturas racionais, dotadas de inteligência capaz de interpretar e ensinar as coisas divinas, não vos deixeis seduzir pelas realidades passageiras; esforçai-vos antes por alcançar Aquele pelo qual tudo se torna eterno.

Limitai-vos no uso dos bens desta vida: as coisas não vos pertencem. Deixai, pois, uma parte do que possuís para os pobres, que são amados por Deus, pois tudo pertence a Deus, nosso Pai comum, e nós somos irmãos.

O ideal mais justo seria que todos desfrutassem igualmente da herança; na falta disso, se alguns se atribuem uma parte maior, que os outros recebam pelo menos uma porção dela. E se alguém quiser possuir tudo, excluindo os seus numerosos irmãos, tal pessoa será um tirano cruel, um bárbaro sem coração, uma fera insaciável.

Usai, portanto, os bens da terra, mas não abuseis deles.

Nós, que por cada palavra da divina Escritura somos convidados à imitação do Senhor que nos criou na sua benevolência, eis que desviamos tudo para nossa própria utilidade, medimos tudo de acordo com a nossa vantagem. Atribuímo-nos bens para a nossa própria vida e reservamos o resto para os nossos herdeiros. E não pensamos nas pessoas que estão na miséria nem nos preocupamos minimamente com os pobres. Oh corações sem misericórdia!

Um homem vê o seu próximo sem pão e sem meios para obter o alimento indispensável e, longe de se apressar a oferecer-lhe a sua ajuda para o tirar da miséria, observa-o como observaria uma planta verdejante em vias de secar por falta de água. E, no entanto, este homem possui uma riqueza imensa e seria capaz de oferecer a muitos a ajuda dos seus bens. Do mesmo modo que o débito de uma única fonte pode irrigar numerosos campos numa grande extensão, assim a opulência de uma só casa consegue salvar da miséria um grande número de pobres, a menos que a parcimônia e a avareza do homem o venha a impedir, tal como uma rocha que cai num ribeiro lhe desvia o curso.

Não vivamos unicamente segundo a carne, vivamos segundo Deus.

Nota editorial: A reflexão sobre o uso dos bens e a interpelação em favor dos pobres são trechos complementares do mesmo sermão.

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A pobreza em espírito e a humildade de Cristo

São Gregório de Nissa — Homilias sobre as Bem-aventuranças, n.º 1

Se Deus é bem-aventurado, como afirma o apóstolo Paulo (cf 1Tim 1,11. 6,15), e se os homens participam dessa bem-aventurança pela sua semelhança com Ele, mas lhes é impossível imitarem-no, a bem-aventurança é irrealizável para a condição humana. Mas o homem pode imitar a Deus de certa maneira. Como? A meu ver, a pobreza em espírito designa a humildade. O apóstolo Paulo dá-nos como exemplo a pobreza de Deus, que, «sendo rico, Se fez pobre por nós, para nos fazer participantes da sua riqueza» (2Cor 8,9). Tudo aquilo que podemos entrever acerca da natureza divina ultrapassa os limites da nossa condição, tudo menos a humildade, que partilhamos com os que vivem neste mundo, que foram moldados do barro ao qual regressam (cf Gn 2,7.3,19). Assim, pois, se imitares a Deus naquilo que é conforme à tua natureza e não ultrapassa as tuas capacidades, revestes-te da forma bem-aventurada de Deus como de uma veste.

Ninguém pense que é fácil adquirir a humildade. Pelo contrário, é mais difícil que adquirir qualquer outra virtude. Por quê? Porque, quando o homem que tinha semeado trigo estava a descansar, o inimigo semeou a parte mais considerável da sementeira, o joio do orgulho, que deitou raízes em nós (cf Mt 13,25). […]

Como quase todos os homens têm uma inclinação natural para o orgulho, o Senhor dá início às bem-aventuranças afastando esse mal e aconselhando-nos a imitarmos o verdadeiro pobre voluntário, que é verdadeiramente bem-aventurado, a fim de nos parecermos com Ele, segundo as nossas capacidades, por uma pobreza voluntária que nos permite participar da sua bem-aventurança. «Tende em vós os mesmos sentimentos que Cristo Jesus», recomenda São Paulo. «Ele, que era de condição divina, não prevaleceu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de escravo» (Fil 2,5-7).

Haverá coisa mais miserável para Deus do que tomar a condição de servo? Haverá coisa mais ínfima para o Rei do universo do que partilhar a nossa natureza humana? O Rei dos reis e Senhor dos senhores, o Juiz do universo, paga impostos a César (1Tim 6,17; Heb 12,23; Mc 12,17). O Senhor da criação abraça este mundo, vem por uma gruta por não ter lugar na estalagem, refugia-Se num estábulo, na companhia de animais. Aquele que é puro e imaculado toma sobre Si as manchas da natureza humana e, depois de ter partilhado toda a nossa miséria, vai a ponto de fazer a experiência da morte. Considera a desmesura da sua pobreza voluntária! A Vida toma o gosto da morte, o Juiz é levado a tribunal, o Senhor da vida de todos submete-Se a um magistrado, o Rei das potências celestes não Se subtrai às mãos dos carrascos. É por estes exemplos, diz o apóstolo Paulo, que podemos medir a sua humildade (Fil 2,5-7).

Nota editorial: Foram preservadas a explicação da pobreza espiritual e as passagens complementares sobre a humildade da Encarnação e da Paixão. A exortação de Fl 2,5–7 aparece uma única vez.

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«Compadeceu-Se de toda aquela gente, porque eram como ovelhas sem pastor»

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos

«Onde levas o teu rebanho a pastar» (Cant 1,7), ó bom pastor que o carregas aos ombros (cf Lc 15,5)? Porque toda a raça humana é uma única ovelha que Tu tomaste aos ombros. Mostra-me o lugar da tua pastagem, faz-me conhecer as águas do repouso, leva-me às ervas suculentas, chama-me pelo nome (cf Jo 10,3), para que eu ouça a tua voz, eu que sou tua ovelha, que a tua voz seja para mim a vida eterna.

Sim, diz-mo, «Tu, a quem o meu coração ama» (Cant 1,7). É assim que Te chamo porque o teu nome está acima de todo o nome (cf Fil 2,9), inexprimível e inacessível a toda a criatura dotada de razão. Mas este nome, testemunho dos meus sentimentos por Ti, exprime a tua bondade. Como poderia não Te amar, a Ti, que me amaste […] a ponto de dares a tua vida pelas ovelhas de quem és o pastor (cf Jo 10,11)? Não é possível imaginar maior amor do que teres dado a vida pela minha salvação (cf Jo 15,13).

Ensina-me, pois, onde levas o teu rebanho a pastar, que eu possa encontrar a pastagem da salvação, saciar-me com o alimento celeste que todo o homem deve comer se quiser entrar na vida, correr para Ti, que és a fonte, e beber a grandes tragos a água divina que fazes brotar para os que têm sede. Essa água corre do teu lado desde que a lança aí abriu uma chaga (cf Jo 19,34), e todo aquele que a prova torna-se uma fonte de água que jorra para a vida eterna (cf Jo 4,14).

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A caridade e o crescimento no Bem

Aqui está quem é maior do que Salomão!

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 1; a versão do acervo indica tradução de Migne, 1992, p. 40, revista.

O texto do Cântico dos Cânticos de Salomão apresenta a alma como uma noiva, preparada para uma união incorpórea, espiritual e sem mancha com Deus. Aquele que «deseja que todos os homens se salvem e conheçam a verdade» (1Tim 2, 4) expõe assim o meio mais completo, o feliz meio de alcançar a salvação, a saber, aquele que passa pelo amor. Há quem encontre a salvação no temor, evitando fazer o mal pela consideração dos castigos que nos ameaçam na geena. Há também quem leve uma vida de rectidão e de virtude porque tem a esperança de receber o salário reservado àqueles que tiveram uma existência piedosa; estes agem, não por amor do bem, mas com a esperança de serem recompensados.

Ora, para avançarmos na perfeição, temos de começar por expulsar da alma o temor; é uma atitude servil não estarmos vinculados ao mestre apenas por amor. […] Não amamos com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças (Mc 12, 30) um dos dons com os quais somos recompensados, mas Aquele que é a própria fonte destes bens. Assim deve ser a alma segundo a palavra de Salomão. […]

Julgas que evoco o Salomão, o filho de Bersabé, que no alto da montanha sacrificou mil bois e que, a conselho de sua mulher estrangeira, cometeu um pecado? Não. Estou a pensar noutro Salomão, naquele que também nasceu de David segundo a carne, e que tem por nome «paz», pois o nome de Salomão significa «homem de paz». Esse é o verdadeiro Rei de Israel, o construtor do Templo de Deus, o detentor do conhecimento universal, Aquele cuja sabedoria é incomensurável – mais ainda, que é por essência sabedoria e verdade, cujo nome e cujo pensamento são perfeitamente divinos e sublimes. Ele serviu-Se de Salomão como de um instrumento; é Ele que, através da voz de Salomão, Se dirige a nós, primeiro nos Provérbios, depois no Eclesiastes, e depois no Cântico dos Cânticos, apresentando assim à nossa reflexão, com ordem e método, a forma de progredir com vista à perfeição.

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A ordem da caridade

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 4, sobre Ct 2,4, segundo a Septuaginta.

«Ordenai em mim a caridade» (Ct 2,4, LXX): recebemos aqui um ensinamento particularmente elevado, a saber, a caridade que devemos ter com Deus e a conduta que devemos ter com os homens. Se é preciso que «tudo aconteça com decoro e com ordem» (1Cor 14,40), quão mais rigorosa deve ser a ordem a este nível. […]

Conheçamos, pois, a ordem da caridade que a Lei nos ensina, isto é, que devemos amar a Deus e amar os nossos inimigos, para nunca invertermos a ordem do cumprimento da caridade. Temos de amar a Deus com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com todas as nossas forças e com toda a nossa sensibilidade, e ao próximo como a nós mesmos; o homem de coração puro deverá amar sua mulher «como Cristo amou a Igreja» (Ef 5,25), e, se estiver sujeito às paixões, como ao teu próprio corpo (cf Ef 5,28), como manda Paulo, que estabeleceu a ordem nesta matéria; e temos de amar os nossos inimigos, sem retribuir o mal com o mal, mas respondendo à injustiça com o bem.

Na realidade, porém, a ordem da caridade está confundida e perturbada na vida da maior parte dos homens; […] pois amam com toda a sua alma e com todas as suas forças as riquezas, as honras, ou mesmo as mulheres, se as desejam ardentemente, a ponto de serem capazes de dar a vida por elas, mas só amam a Deus na medida em que lhes convém, não têm com o próximo a caridade que se deve aos inimigos e só pensam em agravar o mal que receberam daqueles que os odeiam.

É por isso que a Esposa diz: «Ordenai em mim a caridade» (Ct 2,4, LXX), para que demos a Deus tudo o que Lhe é devido e encontremos a medida adequada em relação aos outros.

Nota editorial: O lema bíblico foi ajustado à passagem efetivamente comentada: «Ordenai em mim a caridade» (Ct 2,4, LXX), em lugar da indicação de Ct 1,4 que acompanhava a versão publicada.

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«Jesus respondeu-lhe: […] ‘Tu, segue-Me’»

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 5; excerto conhecido como «De pomba em pomba».

«Levanta-te e vem, minha bem-amada, minha bela, minha pomba» (Cant 2,10).

A natureza divina convida a alma humana a participar dela, transcendendo-a sempre pela sua eminência no bem. A alma cresce na sua participação no transcendente e nunca deixa de crescer; mas o bem no qual participa permanece o mesmo, manifestando-se sempre igualmente transcendente à alma que dele participa sempre mais.

Deste modo, vemos o Verbo guiar a esposa para os cumes pelo crescimento na virtude, como quem sobe uma escada. Primeiro, envia-lhe um raio de luz pelas janelas dos profetas e as treliças dos mandamentos da Lei, ordenando-lhe que se aproxime da luz e se torne bela, tomando na luz a forma da pomba. Depois, quando ela já tomou parte nesses bens na medida em que pode contê-los, atrai-a de novo, como se ela ainda não tivesse participado nos bens, à participação na beleza transcendente. Assim, à medida que ela vai progredindo na direção daquilo que está sempre uns passos à sua frente, também o seu desejo aumenta, e o excesso de bens, manifestos na sua transcendência, levam-na a pensar que se encontra sempre no começo da sua ascensão.

É por isso que o Verbo diz de novo: «Levanta-te» (Cant 2,13) àquela que já se encontra de pé; e: «Vem» àquela que já veio. Com efeito, quem assim se levanta nunca mais acabará de se levantar, e quem corre para o Senhor jamais esgotará o amplo espaço para a corrida divina. Temos, pois, de nos levantar continuamente, sem nunca cessarmos de nos aproximar na nossa corrida; pois cada vez que o Verbo diz: «Levanta-te» e: «Vem», dá-nos força para subirmos um pouco mais.

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«Levanta-te! Anda, vem daí…» (Cant 2,10)

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 5, sobre Ct 2,10–14.

Não chega levantares-te da tua queda, diz [o Esposo], avança e progride no Bem até ao fim do teu caminho na virtude. É isto que nos ensina a história do paralítico: o Verbo não Se contenta em o fazer levantar da sua enxerga, mas ordena-lhe que ande (cf Mt 9,5). O movimento da marcha significa, penso eu, a progressão e o crescimento no Bem.

«Levanta-te! Anda, vem daí…»: quanto poder existe nesta ordem! A voz de Deus é verdadeiramente uma voz poderosa, como diz o salmista: «Faz ouvir a sua voz, que é poderosa» (Sl 67,34) e: «Ele disse e tudo foi feito, Ele ordenou e tudo foi criado» (Sl 32,9). No nosso texto também Ele diz àquela que está deitada: «Levanta-te! Anda, vem daí…» e, sem demora, a sua palavra torna-se ato. Porque, mal recebe o poder do Verbo, ela testemunha o próprio Verbo que a chama quando diz: «Levanta-te! Anda, vem daí, minha bela amada! Minha pomba…» (cf Ct 2,13-14). […]

Da mesma forma que a natureza humana tinha tomado a aparência da serpente quando ela jazia no chão e nele fixava os olhos, assim também, quando se levanta e volta o seu rosto para o Bem, voltando as costas ao mal, ela toma a aparência daquilo para que se voltou. Ela volta-se para o arquétipo da beleza; por isso, aproximando-se da luz, torna-se luz. E, na luz, reflete a bela forma da pomba, essa pomba cuja forma revela a presença do Espírito Santo.

Nota editorial: Na frase sobre a imagem da serpente, corrigiu-se o sujeito para «a natureza humana», conforme o texto grego. A passagem descreve a transformação humana ao voltar-se para o Bem.

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«Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?»

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 5; excerto conhecido como «O inverno passou».

«Eis que o inverno passou», diz o Esposo, «e que desapareceram as chuvas» (Cant 2,11). O mal tem muitos nomes — é inverno, chuva e granizo –, conforme a diversidade dos seus efeitos, e cada um destes nomes simboliza uma tentação específica. Chamamos-lhe inverno para simbolizar a multiplicidade de formas do mal. […] Quando há tempestades, o mar cresce, erguendo-se dos abismos, imitando os rochedos e as montanhas, elevando-se acima das águas dos cumes; e atira-se contra a terra como seu inimigo, precipitando-se sobre a costa e abalando-a com os sucessivos golpes dos seus fluxos, quais ataques de máquinas de guerra.

Analisemos o significado simbólico destes e doutros males do inverno. […] O que é este mar de ondas severas? O que é esta chuva e este granizo? E como é que a chuva deixa de cair? O sentido profundo dos enigmas do inverno relaciona-se com a liberdade da nossa vontade. […] No princípio, a natureza humana florescia […]; mas o inverno e a desobediência secaram-lhe as raízes, a flor caiu e foi absorvida pela terra: o homem foi despojado da sua beleza imortal e a erva das suas virtudes secou, pelo arrefecimento do amor de Deus, enquanto a iniquidade crescia; ergueram-se em nós paixões sem nome, provocadas por ventos hostis, e causaram naufrágios funestos nas almas.

Mas, quando veio Aquele que traz a primavera à nossa alma, Aquele que, quando um vento mau desperta o mar, ameaça o vento e diz ao mar: «Cala-te e está quieto», imediatamente se restabeleceu a calma e a serenidade, e a nossa natureza voltou a florescer, guarnecendo-se com as flores que lhe são próprias. As flores da nossa vida são as virtudes, que florescem agora e produzem os seus frutos «na estação própria» (Sl 1,3). Foi por isso que o Verbo declarou: «Eis que o inverno passou».

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«Jesus respondeu-lhes: ‘Dei-vos o poder de […] dominar toda a força do inimigo’».

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 5; excerto conhecido como «As pequenas raposas».

Agarrai-nos as raposas, essas raposas pequenas que destroem as vinhas; e as nossas vinhas estão em flor» (Ct 2,15). Como penetrar na profundidade deste pensamento? Que maravilha de grandeza divina se encerra aqui, que transcendência do poder de Deus nos é revelada neste texto?

Que nome dá o Poder verdadeiro e único àquele de quem se fala com expressões tão fortes, ao assassino, ao poderoso em malícia, […] ao dominador do poder das trevas (cf Ef 6,12), ao que tem o poder da morte (cf Heb 2,14), […] àquele cuja natureza temível o Verbo nos descreve, mostrando-o tão grande e tão poderoso, ao chefe das legiões demoníacas? Chama-lhe pequena raposa. E é também assim que designa, com igual desprezo, todo o seu séquito, todo o exército que tem ao seu serviço, incitando os caçadores a caçá-lo. […]

Podemos dizer que esses caçadores são os santos apóstolos, que Ele enviou a caçar essas feras e a quem disse: «Farei de vós pescadores de homens» (Mt 4,19). De fato, eles não conseguiriam pescar homens nem apanhar as almas na rede da sua mensagem, se não tivessem primeiramente expulsado essas raposas das suas tocas, ou seja, dos corações onde estavam à espreita, para neles abrir um lugar para o Filho de Deus reclinar a cabeça, quando a raça das raposas deixasse de ter morada nos corações […].

O Verbo disse-lhes: «Os poderes da terra contra os quais o homem luta […] não passam de pequenas raposas, astutas, mas insignificantes em comparação com o vosso poder. Se as dominardes, a nossa vinha, isto é, a natureza humana, recuperará a sua beleza própria, e antecipará a vindima dos cachos com as flores da vida virtuosa. ‘Agarrai-nos as raposas, essas raposas pequenas que destroem as vinhas; e as nossas vinhas estão em flor’».

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Frutificar naquele que nos foi dado na plenitude dos tempos

São Gregório de Nissa — Terceira homilia sobre o Cântico dos Cânticos

«O meu amado é um cacho de uvas de Chipre entre as vinhas de Engadi» (Ct 1,14). […] Este cacho divino cobre-se de flores antes da Paixão e derrama o seu vinho na Paixão. […] Na videira, o cacho não tem sempre a mesma forma, muda com o tempo: floresce, incha e, depois de estar perfeitamente maduro, vai-se transformar em vinho. A videira promete, pois, pelo seu fruto: ainda não está maduro e no ponto para dar vinho, mas espera a plenitude dos tempos. No entanto, não é absolutamente incapaz de nos alegrar. Com efeito, já antes do sabor, encanta o olfato na espera de bens futuros, e seduz os sentidos da alma pelos aromas da esperança. Porque a garantia da graça esperada torna-se já alegria para os que esperam com constância. Assim é a uva de Chipre que promete o vinho antes de o ser: pela sua flor – a sua flor é a esperança –, dá-nos a garantia da graça futura. […]

Aquele cuja vontade está em harmonia com a do Senhor, porque «a medita dia e noite», torna-se «uma árvore plantada à beira de um riacho, que dá fruto na estação própria, e cuja folha não morre» (Sl 1,1-3). É por isso que a videira do Esposo, que criou raízes no solo fértil de Engadi, isto é, no fundo da alma que é regada e enriquecida pelos ensinamentos divinos, produz este cacho rico e cheio, no qual pode contemplar o seu próprio jardineiro e o seu enólogo. Bem-aventurada esta terra cultivada, cuja flor reproduz a beleza do Esposo! Uma vez que este é a luz verdadeira, a vida verdadeira e a verdadeira justiça […], e também muitas outras virtudes, se alguém, por suas obras, se assemelha ao Esposo, quando olha para o cacho da sua própria consciência, vê o próprio Esposo, porque reflete a luz da verdade numa vida luminosa e imaculada. Foi por isso que esta videira fecunda disse: «A minha vinha floresce, os botões estão a abrir» (cf Ct 7,13). O Esposo, que é esta verdadeira vinha em pessoa, aparece amarrado ao lenho, e o seu sangue tornou-se bebida de salvação para os que exultam na sua redenção.

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Contemplação, pureza e sabedoria

Bem-aventurados os puros de coração

São Gregório de Nissa — Homilias sobre as Bem-aventuranças, 6, excertos; PG 44, 1269, conforme a referência de uma das versões.

A promessa de ver a Deus

A impressão que se tem quando se olha a imensidão do mar é a mesma que o meu espírito sente quando, do alto das palavras escarpadas do Senhor, como do cimo de uma falésia, contemplo o seu abismo infinito. […] A minha alma sente vertigens diante destas palavras do Senhor: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8). Deus oferece-Se ao olhar daqueles que têm o coração puro. Ora, «ninguém jamais viu a Deus» (Jo 1,18), diz São João. E São Paulo confirma esta ideia, ao falar daquele «a quem nenhum homem viu, nem pode ver» (1Tim 6,16). Deus é o rochedo abrupto e afilado, que não oferece o menor amparo à imaginação. Também Moisés Lhe chamava inacessível […], pondo na boca de Deus as seguintes palavras: «O homem não pode contemplar-Me e continuar a viver» (Ex 33,20). Quer dizer que a vida eterna é a visão de Deus, e que estes pilares da fé nos afirmam que tal é impossível? […]

Mas o Senhor estimula a nossa esperança, e deu-nos uma prova na pessoa de Pedro, tornando firmes as águas sob os pés deste discípulo que estava prestes a afogar-se(Mt 14,30). A mão do Verbo estender-se-á igualmente para nós, que estamos submersos nestes abismos, para nos devolver as forças. Ficaremos então mais seguros, porque seremos firmemente dirigidos pela mão do Verbo.

«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus»: semelhante promessa ultrapassa as nossas maiores alegrias; após tal felicidade, que mais podemos desejar? […] Aquele que vê a Deus possui, por via dessa visão, todos os bens imagináveis: uma vida sem fim, uma incorruptibilidade perpétua, uma alegria inesgotável, um poder invencível, delícias eternas, a luz verdadeira, as doces palavras do Espírito, uma glória incomparável, uma satisfação ininterrupta, enfim, todos os bens. Que tal beatitude seja para nós uma fonte de esperança!

A imagem divina no coração purificado

A saúde do corpo é um bem para a vida humana. Ora, somos felizes se, para além de conhecermos a definição da saúde, vivermos saudáveis. […] O Senhor Jesus não nos diz que seremos felizes por conhecermos certas matérias relativas a Deus, mas que o seremos se O possuirmos em nós próprios. Com efeito, «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5, 8). Ele não diz que Deus Se deixa ver por todos quantos tiverem purificado o olhar da alma […]. Há outra frase que exprime o mesmo pensamento com maior clareza: «O Reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17, 21); esta passagem ensina-nos que aquele que purificou o seu coração de todas as criaturas e de todas as ligações desordenadas vê a imagem da natureza divina na sua própria beleza. […]

Há em ti, em certa medida, uma aptidão para ver a Deus. Aquele que te formou depositou no teu ser uma força imensa. Ao criar-te, Deus encerrou em ti a sombra da Sua própria bondade, como se imprime o desenho de um selo na cera. Mas o pecado dissimulou esta marca de Deus, que ficou oculta pela sujidade do mesmo pecado. Se, fazendo um esforço de vida perfeita, purificares a sujidade que tens no coração, a beleza divina voltará a brilhar em ti. Assim como um pedaço de ferro de que foi limpa a ferrugem brilha ao sol, assim também o homem interior, aquilo a que o Senhor chama o «coração», reencontrará a semelhança com o seu modelo quando tiver limpado as manchas de ferrugem que lhe deterioram a beleza.

O caminho da purificação do coração

«Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8). Com facilidade acreditamos que um coração purificado nos fará conhecer a alegria suprema. Mas, tal purificação de coração parece tão ilusória como a subida aos céus. Que escada de Jacob (Gn 28,12), que carro de fogo semelhante ao que transportou o profeta Elias para o céu (2Rs 2,11) encontraremos nós que nos leve o coração até à beleza celeste e que no-lo liberte de todo o seu peso terreno? […]

Não é sem dificuldade que alcançamos a virtude: quanto suor, quantas provações! Quanto esforço e sofrimento! As Escrituras lembram-nos muitas vezes: «como é estreita a porta e quão apertado é o caminho» que leva ao Reino, ao passo que «larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição», pelo pecado (Mt 7,13-14). E, no entanto, as mesmas Escrituras asseguram-nos de que podemos alcançar essa existência superior. […] Como nos tornarmos puros? O Sermão da montanha no-lo ensina em quase todos os passos. Lede os mandamentos nele expressos uns após outros, e descobrireis a verdadeira arte da purificação do coração. […]

Ao mesmo tempo que Cristo nos promete a bem-aventurança, instrui-nos e forma-nos para o bom êxito desta promessa. Não é certamente sem dificuldades que se atinge a bem-aventurança. Mas compara bem tais dificuldades com a existência de que elas te afastam, e verás quão mais penoso é o pecado, se não no imediato, pelo menos na vida futura. […] Infelizes aqueles cujo espírito se mantém, com obstinação, na impureza! Apenas verão a face do Adversário. Contrariamente, a existência de um justo ficará marcada pela efígie de Deus. […]. Sabemos que traços revestem, por um lado, uma vida de pecado e, por outro, uma vida de justiça. Face à alternativa, temos a liberdade de escolher. Fujamos, portanto do rosto do demônio, arranquemos a sua máscara odiosa e, revestidos da imagem divina, purifiquemos o coração. Possuiremos assim a alegria e a imagem divina brilhará em nós, graças à nossa pureza em Cristo Jesus, Nosso Senhor.

Nota editorial: As três seleções pertencem à sexta homilia. Foram conservadas como passagens distintas, na sequência da promessa, da imagem divina e da purificação da vida.

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«A lâmpada do teu corpo são os olhos»

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 4; excerto conhecido como «Os olhos da pomba».

«Como são lindos os teus olhos de pomba», diz o Esposo [do Cântico dos Cânticos] (Ct 1,15).

O louvor que fazemos aos olhos [da Esposa] é dizer que são como de pomba. Eis o que, a meu ver, isso significa.

Quando as pupilas são claras, quem as fixa pode ver nelas a própria face. Com efeito, os especialistas do estudo dos fenómenos da natureza dizem que o olho é impressionado pelas imagens emanadas pelos objetos visíveis e que é assim que se produz a visão. É por isso que louvamos a beleza dos olhos, dizendo que a imagem da pomba aparece na sua pupila: porque recebemos em nós mesmos a imagem daquilo para que voltamos o olhar. Quem não olha para a carne para o sangue, fixa o seu olhar na vida espiritual; como diz o Apóstolo, «vive no Espírito» (Gl 5,25), caminha segundo o Espírito; tornou-se inteiramente espiritual e já não físico ou carnal.

Por isso, a alma liberta das paixões carnais testemunha que possui nos seus olhos a imagem da pomba, ou seja, que a marca da vida espiritual brilha na pupila da sua alma. Visto que tem o seu olhar purificado, tornou-se capaz de receber a imagem da pomba e pode também contemplar a beleza do Esposo. Com efeito, quando a jovem possui olhos de pomba, fixa pela primeira vez a beleza do Esposo: «Ninguém pode dizer “Jesus é o Senhor”, senão pelo Espírito Santo» (1Cor 12,3). E ela diz: «Ah! Como é belo o meu amado. Todo ele é delicioso! (cf Ct 5,16) Desde que [te vi] nada mais me parece belo e afastei-me de tudo o que anteriormente contava como belo; nunca mais o meu juízo sobre beleza se perdeu, a ponto de me levar a encontrá-la fora de ti. […] A tua beleza é extensiva a toda a eternidade da vida e o teu nome é: amor dos homens».

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«Prestai atenção ao que ouvis»

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 9, sobre Ct 4,11.

O Livro dos Provérbios pede ao discípulo da Sabedoria que se inscreva na escola da abelha, dizendo aos amantes da Sabedoria: olhai para a abelha, vede como é laboriosa e o respeito que atrai para o seu trabalho; reis e súditos usam os seus produtos para conservar a saúde do corpo. E acrescenta que a abelha é procurada e estimada por todos, que é desprovida de força, mas ama a sabedoria, e, por causa disso, é dada como exemplo de vida a quantos procuram a virtude: «Foi respeitada porque amou a Sabedoria» (Prov 6,8,LXX).

Este texto aconselha-nos, pois, a não esquecermos nenhum ensinamento divino, mas sobrevoarmos a pradaria das palavras inspiradas, aproveitando o que puderem dar-nos para adquirirmos a Sabedoria, modelando em nós pedaços de cera e depositando no coração, qual colmeia, o produto desse trabalho, construindo na memória, quais alvéolos de cera, cofres onde possamos guardar todo o tipo de ensinamentos. Assim, à imitação da sábia abelha, cujo favo é doce e cujo ferrão não fere, aplicar-nos-emos sem descanso à augusta tarefa das virtudes. Pois é um trabalho de peso conquistar, por meio das dores deste mundo, os bens eternos, e aplicar as próprias dores a favor de reis e súditos, com vista à saúde da sua alma. Uma alma assim será procurada pelo Esposo e estimada pelos anjos; ela realiza a força na fraqueza, amando a Sabedoria.

Assim, a industriosa abelha dá-nos exemplo de ciência e de amor ao trabalho. Aliás, a repartição dos divinos carismas espirituais é feita na proporção do zelo posto no trabalho.

Nota editorial: Na imagem da abelha, corrigiram-se «cera» e «nardo» para «favo» e «ferrão», conforme a passagem grega cotejada.

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«Deixo-vos a paz […]. Não se perturbe nem intimide o vosso coração»

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos; excerto conhecido como «A cova dos leões».

Com razão refere o Verbo os leões e os leopardos, a fim de tornar mais doce, por comparação com coisas desagradáveis, o usufruto daquilo que é agradável. […] Tendo perdido a semelhança com Deus, o homem transformou-se num animal selvagem, à imitação da natureza animal, tornando-se leopardo e leão pela sua vida de pecado. […]

A vida em paz torna-se mais doce após uma guerra, e deliciosa em comparação com os relatos sombrios. A saúde é um bem mais doce para os sentidos do nosso corpo quando, saindo dos horrores da doença, a nossa natureza se restabelece. E o divino Esposo, para fazer crescer na alma que para Ele ascende a intensidade e a plenitude da alegria que lhe proporciona o bem, não Se contenta em mostrar à esposa a sua beleza, mas recorda-lhe a horrível forma dos animais selvagens, a fim de que ela se delicie ainda mais com as belezas presentes comparando-as com aquilo com o qual as trocou. Talvez o Verbo prepare providencialmente outra graça para a sua esposa. Com efeito, Ele quer que nós, embora estejamos por natureza sujeitos à mudança, não deslizemos para o mal em consequência da nossa natureza mutável, mas, por um progresso contínuo no sentido da perfeição, sejamos ajudados por esta disposição para a mudança a ascender aos bens superiores, de maneira que o caráter mutável da nossa natureza nos impossibilite a mudança para o mal. É por isso que o Verbo, como pedagogo e guardião, para nos afastar do mal, nos recorda os animais selvagens que nos dominaram no passado, a fim de que, afastando-nos do mal, realizemos a nossa estabilidade e a nossa imobilidade no bem e, mudando continuamente para bem, não mudemos para mal.

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Vigilância e água viva

Os cintos cingidos e as lâmpadas acesas

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 11, 1; PG 44, 996.

Eis um dos grandes preceitos do Senhor: que os seus discípulos sacudam tudo o que é terreno como se fosse poeira […], para se deixarem levar, num grande impulso, para o Céu. Ele exorta-nos a vencer o sono, a procurar as realidades do alto (Col 3,1), a ter o espírito permanentemente desperto, a afastar dos olhos o adormecimento sedutor. Quero falar deste torpor e desta sonolência que conduzem o Homem ao erro e forjam imagens de sonhos: honra, riqueza, poder, grandeza, prazer, êxito, lucro ou prestígio. […]

Para esquecermos tais sonhos, o Senhor pede-nos que ultrapassemos este sono pesado: não deixemos escapar o real na busca frenética do nada. Ele chama-nos, pois, a velar: «Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas» (Lc 12,35). A luz que arde nos nossos olhos expulsa o sono; a cinta que nos rodeia os rins mantém o nosso corpo em alerta, exprimindo um esforço que não tolera qualquer torpor.

Como é claro o sentido desta imagem! Cingir os rins com a temperança é viver à luz de uma consciência pura. A lâmpada acesa da franqueza ilumina o rosto, faz brilhar a verdade, mantém a alma desperta, tornando-a impermeável à falsidade e estranha à futilidade dos nossos pobres sonhos.

São eles, com efeito, que esperam o Senhor no regresso das bodas, e que se sentam às portas do céu com olhos vigilantes, para que o Rei glorioso (Sl 23,7) ali possa passar de novo, quando regressar das bodas e entrar na bem-aventurança que está no alto dos céus. Saindo dali «como um esposo do seu leito» (Sl 18,6) […], Ele uniu a Si, qual virgem, a nossa natureza que se prostituíra aos ídolos, tendo-a restituído à sua integridade virginal pela regeneração sacramental. As bodas completaram-se nesse momento, pois a Igreja foi desposada pelo Verbo […] e, introduzida na câmara dos mistérios, os anjos esperavam o regresso do Rei da glória para a bem-aventurança que é conforme à sua natureza.

Eis porque o texto diz que a nossa vida deve ser semelhante à dos anjos. Tal como eles vivem longe do vício e da ilusão, prontos a receber a parusia do Senhor, devemos igualmente ficar vigilantes à porta da nossa morada e manter-nos prontos para obedecer, quando Ele vier bater-nos à porta.

Nota editorial: As três versões da reflexão sobre a vigilância foram reunidas. Conservam-se a exposição mais desenvolvida e a continuação sobre as núpcias do Verbo e a espera dos anjos, apresentando uma única vez os trechos sobre temperança e consciência pura.

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«A água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna»

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 9 e 8, respectivamente, excertos sobre Ct 4,15 e Ct 4,8.

O poço de água viva — Homilia 9

Quando a Sagrada Escritura nos instrui sobre a realidade vivificante, quando nos fala através de profecias que emanam de Deus: «Eles abandonaram-Me, a Mim, fonte de água viva» (Jer 2,13), ou das palavras do Senhor à samaritana: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: “Dá-Me de beber”, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva», ou ainda: «Se alguém tem sede, venha a Mim e beba», porque: «”Daquele que crê brotarão rios de água viva”. Dizia isto do Espírito que haveriam de receber os que nele cressem» (Jo 7,37.39) — a natureza divina é sempre designada como água viva.

O testemunho verdadeiro do Verbo atesta que a Esposa do Cântico dos Cânticos (cf Cant 4,15) é um poço de água viva, cuja corrente desce do Líbano. Haverá coisa mais paradoxal? Com efeito, todos os poços contêm uma água dormente; só a Esposa contém uma água que corre, tendo por isso, ao mesmo tempo, a profundidade do poço e a mobilidade do rio. Quem poderá exprimir convenientemente as maravilhas contidas nesta comparação! Não é possível elevá-la mais alto, porque ela se assemelha em tudo à beleza arquetípica, imitando na perfeição o brilho pelo seu brilho, a vida pela sua vida, a água pela sua água.

O Verbo de Deus é vivo, e viva é também a alma que recebeu o Verbo. Esta água decorre de Deus, como diz a Fonte: «Saí de Deus e dele venho». E contém aquilo que flui no poço da alma, sendo por isso o reservatório desta água viva que corre, ou melhor, que brota do Líbano (cf Cant 4,15).

A sede que cresce — Homilia 8

«Vem do Líbano, esposa, vem do Líbano, aproxima-te. Desce do cimo de Amaná, do cume de Senir e do Hermon, dos esconderijos dos leões, das tocas dos leopardos» (Cant 4,8). O que significa isto? A fonte da graça atrai a si aqueles que têm sede, como diz a própria fonte no Evangelho: «Se alguém tem sede, venha a Mim e beba» (Jo 7,37). Ele não impõe limites à sede, nem ao anseio por Ele, nem à saciedade, e a duração do seu mandamento é um convite permanente a ter sede e a beber dele.

Para aqueles que já beberam dele e aprenderam, através dessa experiência, que o Senhor é bom (cf 1Pe 2,3), o facto de beberem torna-se um apelo a uma participação ainda maior. Assim, aquele que sobe ao monte ouve um chamamento incessante que o impele a ir cada vez mais longe. Recordemos como o Verbo estimula a Esposa […]: «Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem, minha pomba, escondida nas fendas dos rochedos» (Cant 2,13-14).

«Desce do cimo de Amaná, do cume de Senir e do Hermon»: o texto evoca o sacramento do nascimento do alto, de onde brotam as fontes do Jordão; acima delas ergue-se a montanha, dividida em dois picos, o Sanir e o Hermon. O rio que brota destas fontes é o início da nossa transformação em Deus. Por isso, a alma ouve aquele que a chama, dizendo-lhe: «Vem do incenso, do princípio da fé», do cimo destes montes de onde jorraram para ti as fontes do sacramento.

Nota editorial: São dois excertos distintos da mesma obra. Os subtítulos identificam a homilia de cada um; foi retirado um marcador vazio do editor.

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Encarnação, batismo e vida nova

«Hoje tem início o mistério da Paixão»

São Gregório de Nissa — Sermão da Natividade de Cristo; PG 46,1128 ss.

«Ao ouvir tal notícia [do nascimento de Jesus], Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele» (Mt 2,3). […] É o mistério da Paixão, que aparecia já na mirra dos Magos; os recém-nascidos foram massacrados sem dó nem piedade. […] O que significa esta matança de crianças? Como ousou Herodes cometer crime tão horrendo? Um estranho sinal apareceu no céu, anunciando aos Magos a chegada doutro rei. Entendes, Herodes, o significado destes sinais? […] Se Jesus é o Senhor dos astros, não estará protegido dos teus ataques? Julgas ter poder de vida e de morte, mas não tens nada a temer de criança tão terna. Se Deus O submeteu ao teu poder; porque conspiras contra Ele? […]

Mas deixemos o luto, a queixa amarga de Raquel, que «chora os seus filhos», porque hoje o Sol de Justiça (cf Mal 3,20) dissipa as trevas do mal e difunde a sua luz por toda a natureza, Ele, que assumiu a nossa natureza humana. […] Nesta festa da Natividade, «as portas da morte são destruídas, as barras de ferro são quebradas» (Sl 107,16) e «abrem-se as portas da justiça» (Sl 118,19). […] Se por um homem, Adão, veio a morte ao mundo, hoje, por um homem vem a salvação (Rom 5,18). […] Depois da árvore do pecado, surgiu a árvore do bem, a cruz. […] Hoje tem início o mistério da Paixão.

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«Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador»

São Gregório de Nissa — Sermão sobre o Natal, passim; PG 46, 1128 (a partir da trad. coll. Icthus, vol. 8, pp. 163ss.)

Irmãos, informados do milagre, vamos como Moisés ver esta coisa extraordinária (Ex 3, 3): em Maria, o arbusto em chamas não se consome. A Virgem dá ao mundo a Luz mantendo a sua virgindade. […] Corramos pois a Belém, a cidade da Boa Nova! Se formos verdadeiramente pastores, se permanecermos despertos em guarda, ouviremos a voz dos anjos que anunciam uma grande alegria: […] «Glória a Deus nas alturas, porque a paz desceu à terra!» Aonde ontem apenas havia maldição, teatros de guerra e exílio, a terra recebe a paz, porque hoje «da terra brotará a lealdade, desde o céu há-de olhar a justiça» (Sl 84, 12). Eis o fruto que a terra dá aos homens, em recompensa pela boa vontade que reina entre eles (Lc 2, 14). Deus une-Se ao homem para elevar o homem às alturas de Deus.

Ao ouvirmos esta novidade, irmãos, partamos para Belém, a fim de contemplarmos […] o mistério do presépio: uma criança envolta em panos repousa numa manjedoura. Virgem após o parto, a Mãe incorruptível abraça o Filho. Com os pastores, repitamos a palavra do profeta: «Como nos contaram, assim nós vimos na cidade do Senhor dos exércitos» (Sl 47, 9).

Mas por que procura o Senhor refúgio nesta gruta de Belém? Por que dorme numa manjedoura? Por que Se sujeita ao recenseamento de Israel? Irmãos, Aquele que traz a libertação ao mundo vem nascer na nossa submissão à morte. Ele nasce nesta gruta para Se mostrar aos homens, mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Está deitado numa manjedoura porque é Aquele que faz crescer a erva para o gado (Sl 103, 14), porque é o Pão da Vida que alimenta o homem com um alimento espiritual, para que também ele viva pelo Espírito. […] Haverá festa mais feliz que a de hoje? Cristo, o Sol da Justiça (Mal 3, 20), vem iluminar a nossa noite. Aquele que tinha caído torna a levantar-se, aquele que fora vencido é libertado […], aquele que tinha morrido regressa à vida. […] Hoje, cantemos todos a uma só voz em toda a terra: «Por um homem, Adão, veio a morte; por este Homem, vem-nos hoje a salvação» (cf Rom 5, 17).

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Salvos pela água

São Gregório de Nissa — «Vida de Moisés», II, 121s; SC 1

Qualquer homem que oiça o relato do mar Vermelho compreende o mistério da água, à qual se desce com todo o exército dos inimigos e da qual se emerge sozinho, deixando o exército dos inimigos afundado no abismo. E percebe que este exército dos egípcios […] são as diversas paixões da alma às quais o homem se encontra sujeito: sentimentos de ira, impulsos diversos de prazer, de tristeza, de avareza. […] Todas estas coisas, e aquelas que estão na sua origem, com o chefe que promove o ataque odioso, se precipitam na água atrás dos israelitas.

Mas a água, pela força da vara da fé e o poder da nuvem luminosa (Ex, 14,16.19), torna-se uma fonte de vida para aqueles que nela procuram refúgio – e fonte de morte para quantos os perseguem. […] Isto significa, quando se deteta o sentido oculto neste acontecimento, que todos quantos passam pela água sacramental do batismo devem fazer morrer na água as más inclinações que os combatem – a avareza, os desejos impuros, o espírito de rapina, os sentimentos de vaidade e de orgulho, os impulsos de ira, a inveja, o ciúme…

É como o mistério da Páscoa judaica: chamava-se «páscoa» ao cordeiro cujo sangue preservara da morte os que dele tinham usufruído (Ex 12,21.23). Neste mistério, a Lei ordena que se coma, com a páscoa, pães ázimos, sem o velho fermento, ou seja, que nenhum resto de pecado apareça misturado com a vida nova (1Cor 5,7-8). […] Da mesma maneira, temos de afundar todo o exército egípcio, isto é, todas as formas de pecado, no banho da salvação, qual abismo do mar, e dele emergir sozinhos, sem nada que nos seja estranho.

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«Toda a criação […] tem gemido e sofrido as dores de parto, até ao presente» (Rom 8,22)

São Gregório de Nissa — Contra Eunômio

O apóstolo Paulo […] testemunha a respeito do Filho único que Ele não Se limitou a criar os seres, mas que, tendo a antiga criação envelhecido e tendo-se tornado caduca, operou uma nova criação. E assim, o próprio Cristo é o primogênito de toda a criação (Col 1,15) pelo evangelho anunciado aos homens. […]

Como se tornou Cristo «primogênito de uma multidão de irmãos» (Rom 8,29)? […] Por nós, Ele fez-Se como nós, tendo participado na carne e no sangue para nos transformar de corruptíveis em incorruptíveis, pelo nascimento do alto, da água e do Espírito (Jo 3,5). Mostrou-nos o caminho de um tal nascimento quando, pelo seu próprio batismo, atraiu o Espírito Santo sobre a água, tornando-Se assim o primogênito de todos os que são regenerados espiritualmente; e todos os que tomam parte nesta regeneração pela água e pelo Espírito são chamados irmãos.

Tendo depositado na nossa natureza humana a força da ressurreição de entre os mortos, Cristo tornou-Se também primícias dos que adormeceram e primogênito dos mortos (Col 1,18). Primeiro entre todos, abriu-nos o caminho da libertação da morte. Pela sua Ressurreição, destruiu os laços da morte que nos mantinham cativos. Assim, por esta dupla regeneração, do santo batismo e da ressurreição dos mortos, Ele tornou-Se o primogênito da nova criação.

Este primogênito tem irmãos, Ele que disse a Maria Madalena: «Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para meu e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus» (Jo 20,17). É por isso que, como mediador entre Deus e os homens (1Tim 2,5), abrindo o cortejo de toda a natureza humana, ele envia aos seus irmãos esta mensagem: «Pelas primícias que assumi em Mim, Eu reconduzo ao nosso Deus e Pai tudo o que é humano.»

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«O primeiro dia da vida nova»

São Gregório de Nissa — Homilia para a santa e salutar Páscoa

Eis uma máxima de grande sabedoria: «No dia da felicidade, esquecemos todos os males» (Sir 11,25). Hoje foi esquecida a sentença lançada sobre nós; melhor, não foi esquecida, foi anulada! Este dia apagou qualquer lembrança da nossa condenação. Outrora, o parto ocorria com dor; agora, o nascimento é sem sofrimento. Outrora, éramos apenas carne, nascíamos da carne; hoje, o que nasce é espírito, nascido do Espírito. Ontem, nascíamos simples filhos de homens; hoje, nascemos filhos de Deus. Ontem, éramos os rejeitados dos Céus na Terra; hoje, Aquele que reina nos Céus faz de nós cidadãos do Céu. Ontem, a morte reinava por causa do pecado; hoje, graças à Vida, é a justiça quem toma o poder.

Outrora, um único homem abriu-nos as portas da morte; hoje, um único homem traz-nos de novo à vida. Ontem, perdemos a vida por causa da morte; mas hoje a Vida destruiu a morte. Ontem, a vergonha fazia-nos esconder debaixo da figueira; hoje, a glória atrai-nos para a árvore de vida. Ontem, a desobediência expulsou-nos do Paraíso; hoje, a fé permite-nos entrar nele. De novo nos é oferecido o fruto da vida, para que o saboreemos como quisermos. De novo a nascente do Paraíso, cuja água nos irriga pelos quatro rios dos evangelhos (cf Gn 2,10), vem refrescar o rosto da Igreja. […]

Que fazer agora senão imitar, em seus saltos jubilosos, as montanhas e as colinas da profecia: «Montanhas, saltai como carneiros; e vós, colinas, como cordeiros!» (Sl 113,4). Vinde, cantemos de alegria no Senhor! (cf Sl 94,1). Ele quebrou o poder do inimigo e ergueu o grande troféu da cruz. […] Digamos, pois: «Grande é o Senhor, nosso Deus, Ele é o grande rei em toda a Terra!» (cf Sl 94,3; 46,3). Ele abençoa o ano coroando-o com os seus benefícios (cf Sl 64,12) e congrega-nos em coro espiritual, em Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem pertence a glória pelos séculos dos séculos. Amem!

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«Pilatos disse: ‘Aqui está o vosso Rei’» (Jo 19,14).

São Gregório de Nissa — 5º Sermão da Santa Páscoa (PG 46, 683; Leccionário, p. 367 rev.)

Bendito seja Deus! Festejemos o Filho único, o Criador dos céus, que lá ascendeu após ter descido às profundezas do inferno, e que envolve a terra inteira com os raios da Sua luz. Festejemos o sepultamento do Filho único e a Sua Ressurreição de vencedor, o júbilo do mundo inteiro e a vida de todos os povos. […]

Tudo isto nos foi obtido assim que o Criador ressurgiu dos mortos, ao rejeitar a ignomínia e transformando, no Seu esplendor divino, o perecível em imperecível. E qual foi a ignomínia rejeitada? Isaías dá-nos a resposta: «Sem figura nem beleza, vimo-Lo sem aspecto atraente, desprezado e abandonado pelos homens» (53, 2-3). E quando ficou Ele sem a Sua glória? Quando carregou aos ombros a madeira da cruz como troféu da Sua vitória sobre o diabo. Assim que Lhe foi posta na cabeça uma coroa de espinhos, a Ele, que coroa os Seus fiéis. Assim que foi revestido de púrpura Aquele que reveste de imortalidade os que renascem da água e do Espírito Santo. Assim que pregaram à madeira o Senhor da vida e da morte. […]

Aquele, porém, que ficou sem a Sua glória foi transfigurado na luz, e o júbilo do mundo despertou com o Seu corpo. […] «O Senhor é Rei, vestido de majestade» (Sl 93 (92), 1). De que majestade Se vestiu Ele? De incorruptibilidade, de imortalidade, do chamamento dos Apóstolos, da coroa da Igreja. […] São Paulo é disso testemunho, ao dizer: «É, de fato, necessário que este ser mortal se revista de imortalidade» (1Cor 15, 53). E o salmista diz também: «O Teu trono, Senhor, está firme desde sempre, e Tu existes desde a eternidade; o Teu reino é um reino para toda a eternidade, e o Teu domínio estende-se por todas as gerações» (Sl 93 (92), 2; 145 (144), 13). E ainda: «O Senhor é Rei: alegre-se a terra e rejubile a multidão das ilhas!» (Sl 97 (96), 1). A Ele a glória e o poder, amém!

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Igreja e esperança da vida eterna

«Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens»

São Gregório de Nissa — Homilias sobre o Cântico dos Cânticos; excerto conhecido como «A fundação da Igreja».

A fundação da Igreja é uma criação do mundo; nela, na expressão do profeta (cf Is 65,17), foi criado um novo Céu — que é «a solidez da fé em Cristo», como diz São Paulo (Cl 2,5) –, foi fundada uma nova Terra, «que bebe a chuva que cai sobre ela» (Hb 6,7), foi modelado outro homem, renovado pelo nascimento do alto, à imagem do seu Criador; torna-se outra a natureza dos astros, dos quais se diz: «Vós sois a luz do mundo» e «Brilhais como luzes para o mundo» (Fil 2,15) e como astros numerosos que se erguem no firmamento da fé.

Não é de admirar que haja, neste mundo novo, uma multidão de astros contada e nomeada por Deus. E o Criador de tais astros afirma que o nome deles está escrito nos Céus — pois é deste modo que interpreto aquelas palavras do autor desta nova criação: «Os vossos nomes estão escritos nos Céus» (Lc 10,20). A multidão de astros que o Verbo aí criou não é o único paradoxo desta nova criação: há também o número de sóis criados, que iluminam toda a Terra habitada com os raios das suas boas obras, como diz o Autor destes sóis: «Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens» e também: «Os justos brilharão como o Sol» (Mt 13,43).

Assim como o homem que observa o mundo sensível e conhece a sabedoria manifestada pela beleza das suas realidades deduz do que viu a beleza invisível e a fonte desta sabedoria cujo fluxo estabelece a natureza dos seres, assim também aquele que fixa o olhar no mundo novo da criação da Igreja vê neste mundo Aquele que é e Se torna tudo em todos, e conduz o seu conhecimento pelo caminho das realidades finitas e compreensíveis até chegar ao incompreensível.

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«Primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga»

São Gregório de Nissa — Sermão sobre os defuntos

A vida presente é um caminho que conduz ao termo da nossa esperança, tal como se vê nos rebentos o fruto que começa a sair da flor, e que, graças a ela, chega à existência de fruto, apesar de a flor não ser o fruto. De igual modo, a seara que nasce das sementes não aparece imediatamente com a espiga: é a planta que desponta primeiro; em seguida, uma vez morta a planta, surge a haste de trigo e depois o fruto maduro no alto da espiga. […]

O nosso Criador não nos destinou à vida embrionária; o objectivo da natureza não é a vida dos recém-nascidos. Ela também não visa as épocas sucessivas que se renovam com o tempo pelo processo de crescimento que lhes altera a forma, nem a desagregação do corpo que sobrevém à morte. Todos esses estados são etapas no caminho por onde avançamos. O propósito e o fim da caminhada através destas etapas é a semelhança com o Divino […]; o fim esperado da vida é a beatitude. Mas hoje, tudo o que diz respeito ao corpo – a morte, a velhice, a juventude, a infância e a formação do embrião – todos esses estados, como outras tantas plantas, hastes e espigas, formam um caminho, uma sucessão e um potencial que permite a maturidade esperada.

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«No anoitecer da vida, entrar na luz»

São Gregório de Nissa — Vida de Santa Macrina, 23-25; SC 178

A oração de Macrina

O sol inclinava-se em direção ao poente. Mas o fervor da minha irmã Macrina não decaía; quanto mais se aproximava o momento da partida, mais ela corria em direção ao seu bem-amado. […]. Já não se dirigia a nós, os que estávamos ali presentes, mas apenas Àquele de quem não desviava o olhar […]: «Foste Tu, Senhor, que anulaste o nosso medo da morte. Foste Tu que fizeste com que, para nós, o termo da vida terrestre se tornasse o começo da vida verdadeira. És Tu que, por um tempo, deixas os nossos corpos repousar em dormição e os acordas novamente “ao som da trombeta final” (1Cor 15,52). És Tu que dás à terra, como depósito, o barro de que somos feitos, o barro que modelaste com as tuas mãos (Gn 2,7), e és Tu que fazes reviver aquilo que lhe deste, transformando, pela imortalidade e pela beleza, o que em nós é mortal e disforme. […]

«Deus eterno, “pertenço-Te desde o ventre materno; desde o seio de minha mãe, Tu és o meu Deus” (Sl 21,11). Tu, a quem a minha alma amou com toda as suas forças, a quem consagrei a minha carne e a minha alma desde a juventude, coloca junto de mim um anjo luminoso que me conduza pela mão ao lugar do refrigério, aonde se encontra a “água do repouso” (Sl 22,2), no seio dos santos patriarcas (Lc 16,22). Tu, que […] enviaste para o paraíso aquele homem crucificado contigo que se confiou à tua misericórdia, lembra-Te também de mim “quando estiveres no teu reino” (Lc 23,42), porque também eu fui crucificada contigo. […] Que me encontre diante da tua face “sem mancha nem ruga” (Ef 5,27); que a minha alma entre as tuas mãos seja acolhida […] “como o incenso diante da tua face”» (Sl 140,2). […]

Como tinha chegado a noite, alguém colocara uma lamparina ali por cima. Macrina então abriu os olhos e dirigiu o seu olhar para aquela luz, manifestando o seu desejo de dizer a oração de acção de graças da luz. Mas faltou-lhe a voz […]; soltou um profundo suspiro e tudo cessou: tanto a oração, como a sua vida.

Apêndice litúrgico: Luz esplendente

Luz esplendente da santa glória do Pai celeste, imortal, santo e glorioso Jesus Cristo! Sois digno de ser cantado a toda a hora e momento por vozes inocentes, ó Filho de Deus que nos dais a vida. Vós dissipais as trevas do universo e iluminais o espírito do homem, vencendo a noite com a luz da fé. Luz da Luz sem ocaso, imagem clara do esplendor divino: o céu e a terra proclamam a vossa glória. Chegada a hora do sol poente, contemplando a luz do entardecer, cantamos ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo (hino de vésperas I do Domingo IV da liturgia das horas).

Nota editorial: O hino final, acrescentado no acervo como texto de vésperas, é um complemento litúrgico e não um trecho atribuído a Gregório. A narrativa e a oração de Macrina pertencem à Vida de Santa Macrina.

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Fontes e critérios da seleção

As traduções portuguesas reproduzem o acervo Sophia e o fragmento entregue à edição. As publicações do acervo indicam principalmente Evangelho Cotidiano ou Evangelho Quotidiano como fonte. Esta antologia não constitui uma nova tradução.

PG designa Patrologia Graeca, e SC designa Sources Chrétiennes. As referências das obras foram mantidas, com correções de identificação assinaladas nas notas editoriais. Os sinais […] e […] indicam omissões presentes nos excertos.

Para o cotejo das Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, consultou-se a edição de Richard A. Norris Jr., Gregory of Nyssa: Homilies on the Song of Songs, Society of Biblical Literature, 2012, com texto grego e tradução inglesa. O cotejo recupera a localização de passagens e esclarece os lapsos assinalados; o texto português continua sendo o do acervo e do fragmento entregue.

Referência da edição: Gregory of Nyssa: Homilies on the Song of Songs. O bom samaritano está na homilia 14, sobre Ct 5,13–16.

Os mapas das publicações anteriores permanecem no registro editorial interno. Esta antologia não depende de vínculos para posts individuais.

Organização editorial preparada em 15 de outubro de 2026.

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