Esta antologia reúne homilias sobre os Evangelhos e ensinamentos dos Morais sobre Jó de São Gregório Magno. A pregação animada pelo Espírito, a conversão, a humildade, a caridade e a esperança da ressurreição orientam o percurso.
Versões equivalentes foram cotejadas e reunidas. Os itens 13 e 14 de Sophia.docx, idênticos, aparecem uma única vez e integralmente, junto aos excertos complementares da vinha. O item 23, sobre as lâmpadas e o azeite da consciência, foi também preservado integralmente.
Sumário
- A Palavra, o Espírito e a pregação
- O precursor anuncia o Verbo e o Esposo
- Preparar no coração o caminho do Senhor
- O Espírito ensina por dentro e acende o amor
- A água da pregação e os dons do Espírito
- Uma só sabedoria, diversos dons
- Trazer à luz o sentido oculto das Escrituras
- A voz exterior precisa da graça interior
- Pregar dois a dois, no amor de Deus e do próximo
- Os trabalhadores chamados para a vinha
- Oração, conversão e penitência
- Os milagres iluminam o caminho das boas obras
- Pedir a Cristo a luz perdida
- Gritar com perseverança apesar do tumulto interior
- Pedir a luz que não tem começo nem fim
- A penitência abre a herança dos justos
- Levantar o coração curvado para as coisas do alto
- Os pecadores arrependidos nos ensinam a esperança
- A penitência devolve a veste da inocência
- A graça revolve a terra endurecida do coração
- Paulo, transformado pela graça do Espírito
- Deixar muito é nada reservar para si
- Não construir a esperança sobre água corrente
- Jejuar para crescer no amor ao próximo
- Guardar no coração o azeite da consciência
- Humildade, sabedoria e retidão do coração
- A humildade pesa mais do que as palavras
- A paz de um coração simples
- A memória do justo permanece diante de Deus
- A incerteza da vida pede vigilância e humildade
- O orgulho consome a glória e as obras
- A armadilha de se julgar mais sábio
- Tornar-se pequeno para alcançar a sabedoria
- Deus observa os atos sem aprovar a iniquidade
- A Igreja se mantém humildemente na verdade
- A simplicidade do justo e o testemunho interior
- A caridade e a vida da Igreja
- Toda virtude nasce da raiz da caridade
- Preparar para Deus a morada do coração
- Amar o irmão para amar o Deus invisível
- Reconhecer o Senhor pela hospitalidade
- Ser amigo de Deus na oração e na justiça
- Corrigir no momento oportuno, com vigor e suavidade
- Consolar os aflitos e desejar sua salvação
- A Igreja sofre a fraqueza e a duplicidade dos seus membros
- O combate da Igreja não é contra a carne e o sangue
- O martírio oculto da paciência e do amor
- Os anjos são mensageiros da obra de Deus
- O Redentor e a fé na Encarnação
- João precede o Redentor na vida e na morte
- Reconhecer a divindade sob a humanidade do Senhor
- A humildade do Verbo e a loucura da pregação
- O Redentor desconhecido em sua própria casa
- O Pai é testemunha do Filho; Deus conhece o justo
- A Encarnação e o banquete das núpcias
- As mulheres permanecem junto ao Senhor na Paixão
- A ressurreição e a pátria eterna
- O Ressuscitado é incorruptível e palpável
- O Redentor espera na margem do descanso eterno
- Pedro conduz a rede à terra firme
- A mesma carne, transformada na glória
- A verdadeira ressurreição da nossa carne
- A ressurreição da Cabeça sustenta os membros
- Eu sei que o meu Redentor vive
- A semente anuncia a esperança da ressurreição
- Responder ao chamado de Deus na incorruptibilidade
- A mão de Deus eleva sua criatura à glória
- A árvore cortada voltará a reverdecer
- Viver no tempo com os olhos na eternidade
- O Senhor restaura as nações na fé
- Levantar a cabeça porque a redenção se aproxima
- A palavra do Senhor não passará
- As pastagens eternas do Bom Pastor
- Que o amor nos atraia a seguir Cristo no céu
- Fontes e critérios
A Palavra, o Espírito e a pregação
O precursor anuncia o Verbo e o Esposo
São Gregório Magno — Catequeses sobre o Evangelho, n.º 7
«Eu batizo na água; mas no meio de vós está Alguém que não conheceis.» Não é no Espírito, mas na água que João batiza. Incapaz de perdoar os pecados, lava com água o corpo dos batizados, mas não lava o espírito pelo perdão. Então porque batiza ele, se não perdoa os pecados com o seu batismo? Porquê, a não ser para permanecer no seu papel de precursor? Tal como, nascendo, precedeu o Senhor que ia nascer, assim também, batizando, precede o Senhor que ia batizar. Precursor de Cristo pela sua pregação, foi-o também dando um batismo que era uma imagem do sacramento que estava para vir.
João anunciou um mistério quando declarou que Cristo estava no meio dos homens e que eles não O conheciam, pois o Senhor, quando Se revelou na carne, era ao mesmo tempo visível no seu corpo e invisível na sua majestade. E João acrescenta: «O que vem depois de mim passou à minha frente» (Jo 1,15) […]; e explica as causas da superioridade de Cristo quando precisa: «Porque existia antes de mim», como que para dizer claramente: «Se é superior a mim, tendo nascido depois de mim, é porque o tempo do seu nascimento não O restringe dentro dos seus limites. Nascido de uma mãe no tempo, foi gerado pelo Pai fora do tempo.»
João manifesta o humilde respeito que Lhe deve, prosseguindo: «Não sou digno de desatar a correia das suas sandálias.» Era costume entre os antigos que, se alguém se recusasse a desposar uma jovem que lhe estava prometida, desatasse a sandália do que viesse a ser marido dela. Ora, Cristo manifestou-Se como Esposo da santa Igreja. […] Mas porque os homens pensavam que João era o Cristo – coisa que o próprio João negou –, ele declara-se indigno de desatar a correia da sua sandália. É como se dissesse claramente […]: «Eu não adoto incorretamente o nome de esposo» (cf Jo 3,29).
Preparar no coração o caminho do Senhor
São Gregório Magno — Homilias sobre o Evangelho, n.º 20
É evidente para qualquer leitor que João não se limitou a pregar, mas também conferiu um batismo de penitência. Não pôde, no entanto, conferir um batismo que remisse os pecados, pois a remissão dos pecados só nos é dada no batismo em Cristo. Por isso, o evangelista diz que ele «pregava um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados» (Lc 3,3); não podendo conferir um batismo que perdoasse os pecados, anunciava esse, que ainda estava por vir. Tal como as suas palavras de pregação eram precursoras da Palavra do Pai feita carne, assim o seu batismo […] precedia o do Senhor, como sombra da verdade (cf Col 2,17).
Este mesmo João, interrogado sobre quem era, respondeu: «Eu sou a voz daquele que brada no deserto» (Jo 1,23; cf Is 40,3). O profeta Isaías chamara-lhe «voz», pois ele precedia a Palavra. E o que bradava ele? «Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas». O que faz aquele que prega a fé verdadeira e as boas obras? Prepara a estrada nos corações dos ouvintes para o Senhor que vem. Possa a graça omnipotente penetrar nestes corações, iluminando-os com a luz da verdade […].
Acrescenta São Lucas: «Os vales serão levantados, as montanhas e colinas abatidas». Que designam aqui os vales, senão os humildes, e os montes e as colinas, senão os orgulhosos? Com a vinda do Redentor, segundo a sua própria palavra, «quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado» (Lc 14,11). Pela fé no mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo feito homem (1Tim 2,5), os que nele creem receberam a plenitude da graça, enquanto os que se recusam a crer foram humilhados no seu orgulho. Todos os vales serão levantados porque os corações humildes, ao acolherem a palavra da santa doutrina, serão cumulados pela graça das virtudes, segundo o que está escrito: «Das fontes fez jorrar rios, que serpenteiam nos vales» (Sl 104,10).
O Espírito ensina por dentro e acende o amor
São Gregório Magno — Homilias sobre os Evangelhos, nº 30, 3.5
O Senhor promete justamente que o Espírito «há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.» Porque, se este Espírito não tocar o coração dos que escutam, vã é a palavra dos que ensinam. Portanto, que ninguém atribua àquele que ensina o que a boca do professor lhe fez compreender: se não houver Alguém que nos ensine por dentro, a língua do que ensina trabalha no vazio.
Vós todos os que aqui estais, escutais a minha voz da mesma maneira; e, no entanto, não entendeis da mesma maneira o que escutais. […] Quer dizer que a voz não instrui, se a alma não receber a unção do Espírito. A palavra do pregador é vã se não for capaz de acender o fogo do amor nos corações. Os discípulos que diziam: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Lc 24,32) tinham recebido esse fogo da própria boca da Verdade. Quando se ouvem tais palavras, o coração abrasa-se, o torpor frio abandona-o, o espírito já não consegue encontrar repouso e dá por si a desejar os bens do Reino dos céus. O amor verdadeiro que o preenche arranca-lhe lágrimas. […] Como fica feliz por escutar esse ensinamento que vem do alto e esses mandamentos que, em nós, se transformam numa tocha que nos inflama […] de amor interior. A palavra chega ao nosso ouvido e o nosso espírito, transformado, consome-se numa doce chama interior.
A água da pregação e os dons do Espírito
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Se retiver as águas, tudo secará; se as soltar, elas submergirão a terra» (Jb 12,15).
Entendamos por água a ciência da pregação, como está escrito: «As palavras da boca de um homem [sábio] são águas profundas, torrente transbordante, fonte de sabedoria» (Pr 18,4); se as águas forem retidas, tudo seca. Sim, tirai aos pregadores a ciência, e os corações que poderiam ter verdejado na esperança da eternidade murcham imediatamente, permanecendo na secura do desespero, apreciando o transitório, ignorando a esperança daquilo que subsiste.
E se por água entendemos a graça do Espírito Santo, como diz a palavra da Verdade no Evangelho: «Quem acredita em Mim, como diz a Escritura, “do seu ventre brotarão rios de água viva”»; e o evangelista acrescenta: «Disse isto acerca do Espírito, que estavam prestes a receber os que nele acreditaram» (Jo 7,38-39), esta interpretação está claramente de acordo com as palavras de Job: «Se retiver as águas, tudo secará»; pois, se a graça do Espírito Santo for retirada ao espírito daquele que escuta a Palavra, a sua mente, que estava verde de esperança quando a ouviu, seca imediatamente. E falar, não de água, mas de águas, no plural, é recordar a graça dos sete dons espirituais, pois os dons que nos enchem são outras tantas águas que se derramam no nosso coração.
Uma só sabedoria, diversos dons
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Não se fez o ouvido para ouvir e o paladar para saborear as iguarias?» (Jb 12,11). Não escapará certamente a ninguém que os cinco sentidos do nosso corpo, a vista, o ouvido, o paladar, o olfato e o tato, em tudo o que sentem e distinguem, extraem do cérebro o seu poder de distinguir e sentir. E, embora o sentido do cérebro seja o único juiz que em nós preside, contudo, é graças aos órgãos que lhes são próprios que ele distingue os cinco sentidos, e Deus opera esta maravilha: o olho não ouve, o ouvido não vê, a boca não cheira, as narinas não provam e as mãos não têm olfato. Finalmente, se a ordem dessas atividades depende unicamente do sentido do cérebro, cada um dos sentidos só pode exercer a atividade que recebeu por ordem do arquiteto soberano.
Destas considerações fisiológicas e externas, devemos, portanto, tirar conclusões internas e espirituais: ir além do que em nós se manifesta no mundo para chegar ao que em nós é secreto e até a nós nos escapa. De facto, note-se que, sendo embora uma por si mesma, a sabedoria reside nos indivíduos em graus diferentes, concedendo tal poder a um, tal outro a outro, e, à maneira do cérebro, fazendo de cada um de nós, de certa forma, sentidos especializados, de modo que, sem nunca ser diferente de si mesma, age através de nós em sentidos variados e produzindo obras diferentes, pois um recebe o dom da sabedoria, outro o da ciência, um possui diversidade das línguas, outro o carisma das curas.
Trazer à luz o sentido oculto das Escrituras
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Ele retira às profundezas o seu véu de trevas e traz à luz a sombra da morte» (Job 12,22). O que faz o crente quando compreende o sentido misterioso das palavras obscuras dos profetas? Não está a retirar às profundezas o seu véu de trevas? É por isso que, dirigindo-Se aos seus discípulos, a Verdade ordena: «O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia».
Com efeito, quando os nossos comentários desfazem os misteriosos nós das alegorias, dizemos à luz aquilo que ouvimos nas trevas. Ora, a sombra da morte era a dureza da Lei, que prescrevia a todo o pecador a punição da morte física. Mas, quando o nosso Redentor temperou a aspereza das prescrições da Lei com a sua mansidão, quando estabeleceu que a sanção da falta não era a morte do corpo e revelou quão temível era a morte da alma, trouxe manifestamente à luz a sombra da morte. Porque uma morte que separa a carne da alma é uma simples sombra daquela morte que separa a alma de Deus. Assim, pois, a sombra da morte é trazida à luz quando, compreendendo o que é a morte do espírito, se deixa de temer a morte da carne. […]
Com efeito, o Senhor retira às profundezas o seu véu de trevas quando traz à luz o julgamento que procede dos seus conselhos secretos, a fim de tornar manifestos os seus sentimentos sobre cada um de nós.
A voz exterior precisa da graça interior
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Se ele destruir, ninguém poderá construir; se ele fechar, ninguém poderá abrir» (Jb 12,14). Deus Todo-Poderoso destrói o coração do homem quando o abandona e constrói-o quando o enche. Deus não destrói a alma do homem lutando, mas retirando-Se: entregue a si mesma, a alma está perdida. Por isso, quando, em castigo pelos seus pecados, a graça de Deus omnipotente não enche o coração de um ouvinte, é em vão que o pregador tenta instruí-lo do exterior, pois toda a boca que fala é muda se Aquele que inspira as palavras que ressoam não gritar no fundo do coração. E não deve espantar-nos que um coração réprobo não ouça o pregador, quando o próprio Senhor, quando fala, encontra por vezes a resistência de uma existência perversa […].
Job acrescenta, e com razão: «Se ele prender alguém, ninguém lhe abrirá a porta». Quando um homem se comporta mal, constrói para si próprio uma prisão na sua consciência, de modo que o seu coração o acusa, mesmo que de fora não lhe venha nenhuma acusação. Porque, quando a justiça de Deus o abandona à cegueira da sua maldade, o homem fica como que fechado dentro de si mesmo, sem encontrar um meio de fuga que não merece encontrar. Com efeito, é frequente vermos pessoas que desejam escapar à perversidade dos seus atos, mas que, por estarem ao mesmo tempo esmagadas sob o peso desses atos, fechadas numa prisão de hábitos culposos, não conseguem fugir de si próprias.
Nota editorial: Corrigida a indicação recebida «livro XII» para XI, pelo cotejo de Jb 12,14.
Pregar dois a dois, no amor de Deus e do próximo
São Gregório Magno — Homilias sobre o Evangelho, 17,1-3; PL 76,1139 (a partir da trad. bréviaire)
O nosso Senhor e Salvador, irmãos caríssimos, instrui-nos pelas suas palavras e pelas suas ações. As suas ações são, já por si, mandamentos porque, quando faz alguma coisa, mesmo sem nada dizer, Ele mostra-nos como devemos agir. Eis, pois, que envia os seus discípulos a pregar dois a dois, porque os mandamentos da caridade são dois: o amor a Deus e o amor ao próximo. O Senhor envia os seus discípulos a pregar dois a dois para nos sugerir, sem o dizer, que quem não tem caridade pelos outros não deve empreender o ministério da pregação.
O Senhor envia-os «dois a dois à sua frente a todas as aldeias e localidades a que Ele mesmo deveria ir» (Lc 10,1). Ele virá depois, porque a pregação é um preâmbulo: o Senhor vem habitar a nossa alma depois de as palavras de exortação a terem preparado para acolher a verdade. É por isso que Isaías diz aos pregadores: «Preparai o caminho do Senhor, aplanai as veredas para o nosso Deus» (40,3); e o salmista: «Abri caminho para Aquele que Se eleva ao pôr do sol» (Sl 67,5 vulg). O Senhor ergue-Se ao pôr do sol porque, tendo-Se deitado por ocasião da sua Paixão, manifestou-Se com maior glória na sua ressurreição; ressuscitando, esmagou aos pés a morte que tinha sofrido. Assim, pois, abrimos caminho Àquele que Se eleva ao pôr do sol quando vos pregamos a sua glória para que, vindo a seguir, Ele vos ilumine pela presença do seu amor.
Nota editorial: Versões equivalentes reunidas. Corrigido «cominho do Senhor» para «caminho do Senhor».
Os trabalhadores chamados para a vinha
São Gregório Magno — Homilia XIX sobre os Evangelhos.
O Reino dos céus é comparado a um pai de família que contrata trabalhadores para cultivar a vinha. Ora, quem, a não ser o nosso Criador, merecerá com justiça ser comparado a tal pai de família, Ele que governa aqueles que criou, e que exerce neste mundo o direito de propriedade sobre os Seus eleitos como um amo o faz com os servos de sua casa? Possui uma vinha, a Igreja universal, que produziu, por assim dizer, tantos sarmentos quanto santos, desde Abel, o justo, até ao último eleito que nascerá no fim do mundo.
Este Pai de família contrata trabalhadores para cultivar a Sua vinha ao nascer do dia, à terceira hora, à sexta, à nona e à décima primeira, dado que não terminou, do princípio do mundo até ao fim, de reunir pregadores para instruir a multidão dos fiéis. O nascer do dia, para o mundo, era de Adão a Noé; a terceira hora, de Noé a Abraão; a sexta, de Abraão a Moisés; a nona, de Moisés até à vinda do Senhor; e a décima primeira, da vinda do Senhor até ao fim do mundo. Os santos apóstolos foram enviados para pregar nesta última hora e, apesar da sua vinda tardia, receberam o salário por completo.
O Senhor não deixa, em tempo algum, de enviar trabalhadores para cultivarem a sua vinha […]: através dos patriarcas, dos doutores da Lei, dos profetas e, finalmente, através dos apóstolos, procurou, por assim dizer, que a sua vinha fosse cultivada pelos seus trabalhadores. Todos aqueles que a uma fé firme juntaram boas obras foram trabalhadores dessa vinha […].
Os trabalhadores contratados ao nascer do dia, à hora terceira, à sexta e à nona designam portanto o povo hebraico, que, aplicando-se […] desde o começo do mundo a prestar culto a Deus com fé firme, não parou, por assim dizer, de se empenhar no cultivo da vinha. Porém, à décima primeira hora, foram chamados os pagãos, a quem foram dirigidas estas palavras: «Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?». De facto, ao longo de todo aquele tempo por que o mundo passou, os pagãos tinham negligenciado o trabalho que conduz à vida eterna, e passavam o dia inteiro sem nada fazer. Mas reparai bem, irmãos, o que respondem à pergunta que lhes é feita: «Ninguém nos contratou». De facto, nem patriarca nem profeta algum se acercara deles; dizer: «Ninguém nos contratou para trabalhar» significa: «Ninguém nos pregou os caminhos da vida».
E nós, que invocaremos como desculpa se nos abstivermos de realizar boas obras? Pensai bem: nós recebemos a fé ao sair do seio da nossa mãe, escutámos as palavras da vida desde o berço e fomos alimentados ao peito da Santa Igreja, dela bebendo, ao mesmo tempo que o leite materno, o néctar da doutrina celeste.
Podemos repartir estas diferentes horas do dia pelas idades da vida de cada homem. A madrugada é a infância da nossa inteligência. A terceira hora poderá corresponder à adolescência, pois o sol começa já, por assim dizer, a tomar altura; é quando os ardores da juventude começam a aquecer. A sexta hora é a da maturidade: o sol como que estabelece nesse momento o seu ponto de equilíbrio, pois o homem está na plenitude da sua força. A nona hora designa a velhice, quando o sol desce de alguma forma do alto do céu, porque os ardores da idade madura arrefecem nesse tempo. Enfim, a décima primeira hora é aquela idade a que chamamos a velhice avançada. […] Dado que uns são conduzidos a uma vida honesta logo na infância, outros durante a adolescência, aqueloutros na idade madura, aqueles na velhice, outros ainda em idade muito avançada, é como se fossem chamados para a vinha em diferentes horas do dia.
Examinai bem, portanto, a vossa maneira de viver, irmãos, e vede se começastes a agir como os trabalhadores de Deus. Refleti bem e considerai se trabalhais na vinha do Senhor […]. Aquele que até à sua última idade negligenciou viver para Deus é como o trabalhador que ficou sem nada fazer até à décima primeira hora […]. «Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?» É como se dissesse com toda a clareza: «Se não quisestes viver para Deus durante a juventude e a idade madura, arrependei-vos ao menos na idade derradeira. […] Vinde, ainda assim, para os caminhos da vida» […].
Não foi à décima primeira hora que veio o bom ladrão? (Lc 23,39s). Não foi por causa da idade avançada, mas por causa do suplício, que ele chegou no ocaso da sua vida. Confessou Deus na cruz, e deu o último suspiro quase no preciso momento em que o Senhor dava a sua sentença, E o Senhor do Reino, que antes de Pedro admitiu o bom ladrão nas delícias do paraíso, distribuiu bem o salário ao começar pelo último.
Nota editorial: Os itens 13 e 14 de Sophia.docx são idênticos e foram integrados uma única vez, integralmente. Os dois posts acrescentam a abertura e as horas da vida humana; suas passagens comuns não foram repetidas.
Oração, conversão e penitência
Os milagres iluminam o caminho das boas obras
São Gregório Magno — Sermões sobre o Evangelho, nº 2; PL 76, 1081 (Trad. Luc comentada, DDB 1987, p139 rev.)
O nosso Redentor, prevendo que os discípulos ficariam perturbados com a sua Paixão, anuncia-lhes com muita antecedência os sofrimentos da sua Paixão e a glória da sua Ressurreição (Lc 18,31-33); deste modo, vendo-O morrer como lhes anunciara, não duvidariam da sua Ressurreição. Mas, presos ainda à nossa condição carnal, os discípulos não podiam compreender estas palavras que anunciavam o mistério (v. 34). É então que intervém um milagre: diante dos seus olhos, um cego recupera a visão, para que aqueles que eram incapazes de assimilar as palavras do mistério sobrenatural fossem sustentados na sua fé à vista de um ato sobrenatural.
Devemos ter um duplo olhar sobre os milagres do nosso Salvador e Mestre: eles são fatos, que devemos aceitar como tais, e são signos, que remetem para outra coisa. […] Assim, no plano da história, não sabemos nada acerca deste cego. Mas sabemos que ele é designado de forma obscura. Este cego é o gênero humano expulso, na pessoa do seu primeiro pai, da alegria do Paraíso, que não tem qualquer conhecimento da luz divina e que está condenado a viver nas trevas. Contudo, a presença do seu Redentor ilumina-o; começa então a ver as alegrias da luz interior, e, desejando-as, pode pôr os pés no caminho das boas obras.
Pedir a Cristo a luz perdida
São Gregório Magno — Homilia II sobre os Evangelhos; Luc commenté, DDB, 1987, p. 140, conforme a versão equivalente.
É quando Jesus se aproxima de Jericó que o cego recupera a vista. Jericó significa «lua» e na Sagrada Escritura a lua é o símbolo da carne votada ao desaparecimento, pois em determinado momento do mês ela diminui, simbolizando o declínio da nossa condição humana, votada à morte. Mas, ao aproximar-se de Jericó, o nosso Criador faz com que o cego recupere a vista; ao tornar-Se próximo de nós pela carne, de que Se revestiu com a sua mortalidade, Ele torna a dar ao gênero humano a luz que este tinha perdido. É porque Deus assume a nossa natureza que o homem acede à condição divina.
É a humanidade que está representada neste cego sentado na beira do caminho a mendigar, pois a Verdade diz de Si mesma: «Eu sou o caminho» (Jo 14,6). Aquele que não conhece o brilho da luz eterna é de facto cego, mas se começa a crer no Redentor então fica «sentado à beira do caminho». Se, embora crendo nele, não Lhe implora o dom da luz eterna, se se recusa a pedir-Lho, será sempre um cego à beira do caminho; um cego que não pede. […] Que todo o homem que reconhece as trevas que o tornam cego, que compreende que lhe falta a luz eterna, grite do fundo do seu coração, grite com toda a sua alma: «Jesus, filho de David, tem piedade de mim».
Nota editorial: Corrigida a indicação «Homilia 12» para II, pelo cotejo com a versão equivalente e o contexto do cego de Jericó.
Gritar com perseverança apesar do tumulto interior
São Gregório Magno — Homilias sobre o Evangelho n°2; PL 76, 1081 (a partir da trad. Luc commenté, DDB 1987, p.141 rev.)
Que todo o homem que conhece as trevas que fazem dele um cego […] grite a plenos pulmões: «Jesus filho de David, tem misericórdia de mim!». Mas ouçamos também o que se segue aos gritos do cego: «Aqueles que caminhavam à frente repreendiam-no para o fazer calar» (Lc 18, 39). Quem são eles? Eles estão ali para representar os desejos da nossa condição neste mundo, promotores de confusão, os vícios do homem e o seu tumulto, que, querendo impedir a vinda de Jesus a nós, perturbam o nosso pensamento semeando nele a tentação, e querem abafar a voz do nosso coração que ora. Com efeito, acontece frequentemente que a nossa vontade de nos virarmos de novo para Deus […], o nosso esforço para afastar os nossos pecados através da oração, é contrariado pela sua imagem; a vigilância do nosso espírito afrouxa ao seu contacto, eles semeiam a confusão no nosso coração, sufocam o grito das nossas preces. […]
Que fez então este cego para receber a luz malgrado estes obstáculos? «Ele gritava cada vez mais: ‘Filho de David, tem misericórdia de mim!’». […] Sim, quanto mais o tumulto dos nossos desejos nos acabrunhar, mais insistente deve ser a nossa prece. […] Quanto mais abafada for a voz do nosso coração, mais vigorosamente ela deve insistir até se sobrepor ao tumulto dos pensamentos invasores e tocar o ouvido fiel do Senhor. Creio que todos nos reconheceremos nesta imagem: no momento em que nos esforçamos por desviar o nosso coração deste mundo para o reencaminhar para Deus […], são muitos os importunos que pesam sobre nós e que temos de combater. É um enxame que o desejo de Deus tem dificuldade em afastar dos olhos do nosso coração. […] Mas, persistindo vigorosamente na oração, deteremos no espírito Jesus que passa. Donde a narração do Evangelho: «Jesus parou e ordenou que o levassem até Ele» (v. 40).
Pedir a luz que não tem começo nem fim
São Gregório Magno — Homilias sobre os Evangelhos, n.º 2, 7
Consideremos que o Senhor diz ao cego que se aproxima: «Que queres que te faça?». Desconhecia Aquele que detinha o poder de dar a vista o que queria o cego? O que o Senhor pretende é tão só que Lhe peçamos as coisas, se bem que saiba de antemão que as pediremos e que Ele no-las concederá. Exorta-nos a rezar por elas até ao enfado aquele que, no entanto, nos diz: «O vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós Lho pedirdes» (Mt 6, 8). Se, portanto, nos pergunta, é para que Lho peçamos; se interroga, é para levar o nosso coração a rezar. […]
Aquilo que o cego pede ao Senhor não é ouro, mas luz. Ele não quer saber de pedir outra coisa senão luz. […] Imitemos este homem, irmãos caríssimos […]. Não peçamos ao Senhor nem enganadoras riquezas, nem presentes terrenos, nem honras passageiras, mas luz; não a luz circunscrita pelo espaço e limitada pelo tempo, interrompida pela noite e que partilhamos com os animais, mas a luz que só os anjos dividem conosco e que não tem começo nem fim. O caminho para chegar a essa luz é a fé. E é com toda a razão que o Senhor diz ao cego a quem de imediato vai dar a luz: «Vê! A tua fé te salvou».
A penitência abre a herança dos justos
São Gregório Magno — Homilia 20 sobre os Evangelhos, § 14 (a partir da trad. Le Barroux rev.)
João Batista recomenda-nos que façamos grandes coisas: «Produzi frutos dignos do arrependimento» e ainda: «Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo» (Lc 3, 8.11). Ora, isto é também o que afirma Aquele que é a Verdade: «Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência e são os violentos que se apoderam dele». Estas palavras vêm-nos do alto e devemos meditar nelas com grande atenção. Pois como pode o Reino dos Céus ser tomado pela força? Quem pode fazer violência ao Céu? E, se o Reino dos Céus sofre violência, porque é que isso só é verdade depois do tempo de João Batista?
A Lei antiga […] martirizava os pecadores com penas rigorosas, mas sem os trazer à vida pela penitência. João Batista, anunciando a graça do Redentor, prega a penitência, a fim de que o pecador, morto em consequência do seu pecado, viva por efeito da sua conversão; foi, pois, verdadeiramente desde então que o Reino dos Céus se abriu aos que o tomam pela força. O que é o Reino dos Céus senão a morada dos justos? […] De facto, são os humildes, os castos, os mansos e os misericordiosos que alcançam as alegrias do alto. Mas, quando os pecadores […] se emendam das suas faltas pela penitência, também obtêm a vida eterna e entram nesse Reino. Assim […], ordenando a penitência aos pecadores, João ensinou-os a fazer violência ao Reino dos Céus.
Irmãos bem amados, reflitamos, também nós, em todo o mal que temos feito e choremos. Apoderemo-nos da herança dos justos pela penitência. O Todo-Poderoso quer aceitar esta violência da nossa parte; Ele quer que tomemos, pelas lágrimas, aquele Reino que não nos era devido pelos nossos méritos.
Levantar o coração curvado para as coisas do alto
São Gregório Magno — Homílias sobre o Evangelho, n°31
«Um dia de sábado, ensinava Jesus numa sinagoga. Estava lá certa mulher doente por causa de um espírito, há dezoito anos: andava curvada e não podia endireitar-se completamente.» […] O pecador, preocupado com as coisas da terra e não procurando as do Céu, torna-se incapaz de olhar para o alto: ao seguir os desejos que o conduzem para baixo, a sua alma, perdendo a retidão, curva-se, e apenas vê aquilo em que pensa incessantemente. Voltai para dentro do vosso coração, irmãos muito estimados, e examinai continuamente os pensamentos que não cessam de agitar o vosso espírito. Um pensa nas honras, outro no dinheiro, outra ainda em aumentar as suas propriedades. Todas essas coisas são inferiores e, quando o espírito investe nisso, altera-se, perdendo a sua retidão. E, porque não se engrandece para desejar os bens do alto, está como esta mulher curvada, que não consegue absolutamente olhar para cima. […]
Efetivamente, o salmista descreveu bem a nossa curvatura quando disse de si próprio, como símbolo de todo o gênero humano: «Ando cabisbaixo e profundamente abatido» (Sl 37,7). Considerava que o homem, tendo sido criado para contemplar a luz do alto, fora expulso do paraíso devido aos seus pecados, e que, conseqüentemente, as trevas reinavam na sua alma, fazendo-o perder o apetite das coisas do alto e arrastando toda a sua atenção para as inferiores. […] Se o homem que perdeu de vista as coisas do Céu pensasse apenas nas necessidades deste mundo, seria, sem dúvida, curvado e humilhado, mas não «em excesso». Ora, como não é só a necessidade que faz descer os seus pensamentos […], mas também o prazer proibido que o esmaga, não fica somente curvado, mas «curvado em excesso».
Os pecadores arrependidos nos ensinam a esperança
São Gregório Magno — Homilia 25
Maria torna-se testemunha da compaixão de Deus, […] aquela Maria a quem um fariseu queria quebrar o arroubo de ternura: «Se este homem fosse profeta», exclamava ele, «saberia quem é a mulher que Lhe toca e o que ela é: uma pecadora» (Lc 7,39). Mas as suas lágrimas apagaram-lhe as manchas do corpo e do coração; e ela precipitou-se a seguir os passos do seu Salvador, afastando-se dos caminhos do mal. Estava sentada aos pés de Jesus e escutava-O (Lc 10,39). Vivo, apertou-O nos braços; depois de morto, procurou-O, encontrando vivo Aquele que procurava morto. E encontrou nele tanta graça, que acabou por ser ela a levar a boa nova aos apóstolos, aos mensageiros de Deus!
Que havemos de ver aqui, meus irmãos, senão a infinita ternura do nosso Criador que, para dar novo ânimo à nossa consciência, nos dá constantemente exemplos de pecadores arrependidos. Lanço os meus olhos sobre Pedro, olho para o ladrão, examino Zaqueu, considero Maria, e só vejo neles apelos à esperança e ao arrependimento. A vossa fé foi tocada pela dúvida? Pensai em Pedro, que chora amargamente a sua covardia. Estais ardendo em cólera contra o vosso próximo? Pensai no ladrão, que em plena agonia se arrepende e ganha a recompensa eterna. A avareza seca-vos o coração? Prejudicastes alguém? Vede Zaqueu, que devolve quatro vezes mais aquilo que tinha roubado. Por causa de uma paixão, perdestes a pureza da carne? Olhai para Maria, que purifica o amor da carne com o fogo do amor divino.
Sim, Deus todo-poderoso oferece-nos constantemente exemplos e sinais da sua compaixão. Enchamo-nos, pois, de horror pelos nossos pecados, mesmo pelos mais antigos. Deus todo-poderoso esquece com facilidade que nós cometemos o mal e está pronto a olhar para o nosso arrependimento como se fosse a própria inocência. Nós que, depois das águas da salvação, nos tínhamos de novo manchado, renasçamos com as nossas lágrimas. […] O nosso Redentor consolará as vossas lágrimas com a sua alegria eterna.
A penitência devolve a veste da inocência
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«O homem, ao morrer, acaba. O mortal expira e onde está ele?» (Jb 14,10). Haverá algum homem que não tenha pecado. Há um só, aquele que veio a este mundo sem nascer do pecado. E, como estamos todos acorrentados no pecado, todos morremos da própria perda da justiça, despojados da veste da inocência que nos tinha sido concedida no Paraíso e consumidos pela morte da carne que é sua consequência. […]
É esta nudez de seu filho pecador que o pai quer cobrir ao vê-lo regressar, dizendo: «Trazei depressa a melhor túnica». Sim, a melhor túnica, que é a veste da inocência que o homem recebeu no dia da sua criação para sua felicidade e que, para sua miséria, seduzido pela serpente, perdeu. Contra esta nudez, diz também a Escritura: «Feliz daquele que estiver vigilante e vestido com as suas roupas; deste modo, não andará nu» (Ap 16, 15). Mantemos a nossa veste quando conservamos no espírito os preceitos da inocência; mas, se alguma falta nos obriga a comparecer diante do juiz, recuperamos a inocência perdida e a penitência devolve-nos a nossa veste.
A graça revolve a terra endurecida do coração
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Se retiver as águas, tudo secará; se as soltar, elas submergirão a terra» (Jb 12,15). A terra representa o pecador, sobre quem foi proferido este julgamento: «Tu és pó e em pó te hás de tornar» (Gn 3,19). É por isso que a terra permanece imóvel quando o pecador se recusa a obedecer aos mandamentos do Senhor, quando, orgulhoso, ergue a cabeça e fecha os olhos da alma à luz da Verdade.
Mas está escrito: «Ele pára e faz tremer a terra» (Ha 3,6); porque, quando a verdade se fixa num coração, a imobilidade da alma é abalada; mas, quando a graça do Espírito Santo, por um dom do alto, se derrama nela com a palavra do pregador, eis que a terra é revolvida, porque a alma endurecida no pecado perde a teimosia da sua imobilidade, transformada a ponto de se submeter, chorando, aos mandamentos do Senhor, tanto quanto ontem, na sua soberba, erguia a cabeça diante dele. Basta ver a terra de um coração humano banhada pelas águas da graça: suporta sem desagrado os ultrajes que ontem se empenhava em infligir, distribui os seus bens, mortifica a sua carne pela abstinência, ela que ontem, saciada de carne, se deixava levar pelos encantos mortais das torpezas; ama até mesmo aqueles que a odiavam.
Assim, quando o dom divino se derrama na alma de um homem e ela passa a agir de maneira contrária ao que costumava fazer, a terra inverte-se: é rejeitada para baixo aquela que ontem se projetava para cima, e eleva-se para cima a face que ontem se afundava nas profundezas.
Nota editorial: Corrigiu-se no cabeçalho «Jacob» para «Jó». A frase «ama até mesmo aqueles que a amavam» foi corrigida para «ama até mesmo aqueles que a odiavam», conforme o sentido do cotejo de XI, 15.
Paulo, transformado pela graça do Espírito
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
Não me desagrada seguir o exemplo de Paulo: munido das cartas que tinha pedido para ir contra Cristo, dirigia-se a Damasco quando, subitamente, a graça do Espírito Santo o inundou pelo caminho; perdendo a sua crueza, Paulo muda e eis que se oferece, por Cristo, aos golpes que vinha trazer aos cristãos. Aquele que ontem, vivendo segundo a carne, se empenhava em levar a morte aos santos do Senhor tem hoje prazer em imolar a vida da sua própria carne para salvar a vida desses mesmos santos. As frias maquinações da sua crueza transformam-se em caridade ardente e aquele que blasfemava e perseguia descobriu uma humildade e uma piedade de pregador; aquele que tinha por ganho sem igual matar a Cristo nos seus discípulos considera agora que a sua vida é Cristo e o seu lucro, morrer por Ele.
Assim, a água foi libertada e a terra foi refeita (cf Job 12,15), porque, mal acolheu a graça do Espírito Santo, a alma de Paulo transformou-se, abandonando a sua condição de ser imóvel e cruel. Em sentido contrário, o Senhor exprime as suas queixas contra Efraim pela boca do profeta: «Efraim tornou-se um pão cozido sobre as cinzas que não foi virado» (Os 7,8). O pão cozido sobre as cinzas fica com uma camada de cinzas por cima, e fica tanto mais sujo quanto maior é o peso das cinzas. E que peso tem sobre si uma alma que só pensa nas coisas deste mundo? Talvez uma massa de cinzas. Mas, se essa alma quiser ser virada, a face pura que tinha voltada para baixo fica voltada para cima, uma vez sacudidas as cinzas que a cobriam.
Nota editorial: A indicação «livro IX» foi corrigida para XI, pelo cotejo do comentário a Jb 12,15.
Deixar muito é nada reservar para si
São Gregório Magno — Homilia 5 sobre o Evangelho; PL 76, 1093
Ouvistes, meus irmãos, que Pedro e André abandonaram as redes para seguirem o Redentor ao primeiro apelo da sua voz (Mt 4,20). […]
Talvez algum de vós diga baixinho: «O que abandonaram aqueles dois pescadores para obedecer ao apelo do Senhor, eles que não tinham quase nada?» Nesta matéria, porém, temos de considerar mais as disposições do coração do que os bens que se possuem. Deixa muito aquele que nada retém para si; deixa muito aquele que abandona tudo, mesmo que esse tudo seja pouco. Nós, pelo contrário, conservamos com paixão aquilo que possuímos, e buscamos com o desejo aquilo que não temos. Sim, Pedro e André deixaram muito, pois um e outro abandonaram até o desejo de possuir. Abandonaram muito porque, renunciando aos seus bens, renunciaram também às suas ambições. Seguindo o Senhor, renunciaram a tudo o que poderiam ter desejado se O não tivessem seguido.
Não construir a esperança sobre água corrente
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XXXIV, conforme a referência recebida.
Querer pôr a esperança e a confiança em bens passageiros é querer fazer fundações em água corrente. Tudo passa; só Deus permanece. Agarrarmo-nos ao que é transitório é desligarmo-nos do que é permanente. Quem é o homem que, arrastado no turbilhão de um rápido, consegue manter-se firme no seu lugar no meio dessa torrente fragorosa? Se não quisermos ser levados pela corrente, temos de nos afastar de tudo o que passa; senão, o objeto do nosso amor constranger-nos-á a chegar ao que precisamente queremos evitar. Aquele que se agarra aos bens transitórios será inevitavelmente arrastado para onde vão ter essas realidades a que se apega.
A primeira coisa a fazer é, pois, abstermo-nos de amar os bens materiais; a segunda, não pormos total confiança naqueles bens que nos são confiados para serem usados e não para serem desfrutados. A alma que se prende aos bens perecíveis cedo perde a sua estabilidade. O turbilhão da vida atual arrasta quem nele se deixa ir, e é uma tonta ilusão querer manter-se de pé quando se é levado nesta corrente.
Jejuar para crescer no amor ao próximo
São Gregório Magno — Homilias sobre os evangelhos, nº 16, 5
Iniciamos hoje os santos quarenta dias da quaresma, e convém-nos examinar atentamente por que razão esta abstinência é observada durante quarenta dias. Moisés, para receber a Lei pela segunda vez, jejuou quarenta dias (Ex 34,28). Elias, no deserto, absteve-se de comer durante quarenta dias (1Rs 19,8). O Criador dos homens, ao vir para o meio dos homens, não tomou qualquer alimento durante quarenta dias (Mt 4,2). Esforcemo-nos também nós, tanto quanto nos for possível, por refrear o nosso corpo pela abstinência neste tempo anual dos santos quarenta dias […], a fim de nos tornarmos, segundo a palavra de Paulo, «uma hóstia viva» (Rom 12,1). O homem é, ao mesmo tempo, uma oferenda viva e imolada (cf Ap 5,6) quando, sem deixar esta vida, faz morrer nele os desejos deste mundo.
Foi a satisfação da carne que nos levou ao pecado (Gn 3,6); que a carne mortificada nos leve ao perdão. O autor da nossa morte, Adão, transgrediu os preceitos de vida comendo o fruto proibido da árvore. É, por conseguinte necessário que nós, que fomos privados das alegrias do Paraíso pelo alimento, nos esforcemos por reconquistá-las pela abstinência.
Mas ninguém suponha que esta abstinência é suficiente. O Senhor disse pela boca do profeta: «O jejum que Eu aprecio é este, […] repartir o teu pão com o esfomeado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir o nu, e não desprezar o teu irmão» (Is 58,6-7). Eis o jejum que Deus aprova […]: um jejum realizado no amor ao próximo e impregnado de bondade. Prodigaliza, pois aos outros daquilo que retiras a ti próprio; assim, a tua penitência corporal permitir-te-á cuidar do bem-estar físico do teu próximo em necessidade.
Guardar no coração o azeite da consciência
São Gregório Magno — Homilia XII sobre os Evangelhos.
«As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo, enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias». O azeite designa aqui o esplendor da glória; as almotolias são os nossos corações, onde guardamos todos os nossos pensamentos. As virgens prudentes levam azeite nas almotolias, porque guardam na sua consciência todo o esplendor da sua glória, como diz São Paulo: «Este é o nosso motivo de glória: o testemunho da nossa consciência» (2Cor 1,12). As virgens insensatas, pelo contrário, não levam azeite consigo porque não guardam a sua glória no segredo do seu coração, isto é, fazem-na depender dos louvores dos outros.
«No meio da noite ouviu-se um brado: "Aí vem o esposo; ide ao seu encontro"». Todas as virgens se levantaram. Mas as candeias das virgens insensatas apagaram-se, porque as suas obras, que de fora pareciam resplandecentes aos olhos dos homens, por dentro não eram mais do que trevas; e não receberam de Deus nenhuma recompensa, pois já tinham recebido dos homens os louvores que as satisfaziam.
Nota editorial: O item 23 de Sophia.docx foi preservado integralmente. A imagem das virgens prudentes é interpretada pela retidão da consciência, em contraste com a busca dos louvores humanos.
Humildade, sabedoria e retidão do coração
A humildade pesa mais do que as palavras
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
Muitas vezes, o justo que é vencido pela adversidade – tal como aconteceu ao bem-aventurado Job, que, depois de uma vida justa, foi atingido por uma série de flagelos – é obrigado a relatar as suas boas ações. Mas, quando ouve a palavra do justo, o injusto vê nela orgulho em vez de sinceridade, pois julga as palavras do justo com o seu próprio coração e não acredita que as palavras do sábio possam ser proferidas com humildade. Com efeito, se é uma grave falta reivindicar o que não se é, muitas vezes não há falta em reconhecer humildemente a virtude que se possui. Assim, acontece frequentemente o justo e o injusto proferirem as mesmas palavras; mas os respetivos corações estão muito longe de se assemelharem e, consoante vêm do injusto ou do justo, as palavras ofendem ou agradam ao Senhor.
Assim, o fariseu que foi ao Templo dizia: «Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo»; mas o publicano saiu do Templo justificado, e ele não. Também o rei Ezequias, estando gravemente enfermo e próximo do fim da vida, dizia, compungido, na sua oração: «Lembrai-Vos, Senhor, como tenho procedido fielmente e de coração sincero na vossa presença» (Is 38,3); e o Senhor não responde a essa declaração de perfeição com desprezo ou a rejeição, mas atende imediatamente a sua oração. Temos, pois, o fariseu, que se declarou justo nas suas obras, e Ezequias, que afirmou ser justo até nos seus pensamentos: a mesma atitude e, contudo, um ofendeu o Senhor e o outro não. Porquê?
Porque Deus omnipotente pesa as palavras de cada um de nós segundo os nossos pensamentos, e o seu ouvido não escuta orgulho em palavras que vêm da humildade do coração. Por isso, ao descrever as suas boas obras, o bem-aventurado Job não se encheu de orgulho diante de Deus, pois descrevia humildemente o que tinha realmente feito.
A paz de um coração simples
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Tem os ouvidos cheios de ruídos aterradores, e no meio da paz suspeita de armadilhas» (Jb 15-21, Vg). Pelo contrário, não há coisa mais feliz que um coração simples, que, mostrando-se aos outros pela inocência, nada tem a temer deles; pelo contrário, na sua simplicidade, é como cidadela fortificada, não o preocupa ter de sofrer da parte dos outros aquilo que ele próprio não se lembra de ter feito. Daí as sábias palavras de Salomão: «O temor do Senhor dá firme confiança» (Pr 14,26); e ainda: «A alma segura é como um banquete contínuo» (Pr 15,15). A paz da segurança é como um alimento que se renova sem cessar.
Pelo contrário, o espírito extraviado opera constantemente, seja concebendo ações maléficas contra os outros, seja temendo ser vítima delas. E tudo o que imagina contra o próximo, tudo isso teme que o próximo imagine contra si. Suspeitas por tudo, alarmes por tudo. Quando se lembra de alguém, tem a certeza de que lhe quer mal. Não ter a paz da segurança é ter os ouvidos cheios de ruídos aterradores.
Olhai para um homem assim, pensai em quem quiserdes: muitas vezes, quando um amigo lhe fala com simplicidade e sem segundas intenções hostis, ele suspeita de uma armadilha, porque os seus atos estão sempre carregados de astúcia e não concebe que alguém possa agir com simplicidade em relação a ele. […] «Não acredita que possa voltar das trevas para a luz, pois nada mais vê em seu redor que a espada» (Jb 15,22, Vg): crendo-se rodeado de armadilhas, perde a esperança da salvação.
A memória do justo permanece diante de Deus
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«A memória da vossa vida será comparada à cinza» (Jb 13,12 Vg). Aqueles cujo pensamento terreno os modela com base no século procuram deixar neste mundo, em cada um dos seus atos, a memória da sua pessoa; quer se trate de títulos de guerra, dos muros altaneiros dos edifícios ou de tratados eloquentes sobre as ciências do século, todos se esforçam incansavelmente por criar um nome que não seja esquecido.
Mas a vida corre muito depressa para o seu fim e não pode garantir qualquer estabilidade, uma vez que também ela, na sua mobilidade, se escoa rapidamente. Com efeito, um sopro leva a cinza, como diz a Escritura: «Não assim, não assim com os ímpios, eles são como o pó que o vento sopra da face da Terra» (Sl 1,4 Vg).
Podemos, pois, comparar a memória dos insensatos com a cinza, porque eles estão no ponto onde um sopro a leva. Sim, por mais que tentem completar a glória do seu nome, na realidade, apenas fizeram da sua memória cinzas, que o vento deste mundo mortal cedo faz desaparecer.
Pelo contrário, diz a Escritura que «o justo terá memória eterna» (Sl 111,6 Vg): pelo facto de as suas ações estarem impressas no olhar de Deus, ele garante a sua memória na eternidade.
A incerteza da vida pede vigilância e humildade
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
Nem os eleitos estão imunes ao orgulho em alguns dos seus pensamentos e até nas suas ações. Mas, como são eleitos, não são soberbos todos os dias, uma vez que, antes de chegarem ao fim da vida, deixam que o seu coração se transforme de desmesura em temor, em humildade.
Pelo contrário, o ímpio não passa um único dia sem soberba, pois termina a sua vida sem se afastar por um momento da desmesura. O seu olhar procura o que floresce no tempo, e ele desdenha considerar para onde será levado na eternidade. É na vida da carne que ele deposita a sua confiança, atribuindo longa duração àquilo que tem no momento. O seu coração fortalece-se na desmesura, e o seu próximo é desprezado. Ele não contempla a morte que se aproxima lentamente e pode ocorrer dum momento para o outro, nem pensa na incerteza da felicidade. Na verdade, um olhar sobre a incerteza e a efemeridade da vida impedi-lo-ia de confundir a certeza com a incerteza. Daí, a sábia frase: «E o número dos anos da sua tirania é incerto» (Job 15,20). […]
Como a vida atual é sempre incerta, a morte, que se vai aproximando de nós em silêncio, deve ser constantemente temida, pois não é possível prevê-la. […] Por outro lado, se o Criador quis que o dia do nosso fim permanecesse oculto para nós, foi para que, na incerteza do momento da morte, estivéssemos preparados para morrer a qualquer momento.
Nota editorial: Corrigido o título recebido «Morais sobre Jacob» para «Morais sobre Jó».
O orgulho consome a glória e as obras
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Que a morte antiga devore a beleza da sua pele e lhe consuma os braços» (Job 18,13 Vg). A beleza da pele designa a glória temporal, que se deseja exteriormente e se conserva como uma aparência brilhante na pele. A palavra «braços» aplica-se apropriadamente às nossas obras, uma vez que o trabalho físico é efetuado pelos braços. E o que é a morte senão o pecado, que separa a alma da vida interior e a mata? […] Assim, pois, se o pecado é a morte, podemos entender por morte antiga a soberba, pois está escrito: «A raiz de todo o pecado é a soberba» (Eclo 10,15 Vg).
A beleza da sua pele e os seus braços são, portanto, devorados pela morte antiga, porque a glória e a atividade do injusto são deitadas por terra pela soberba. Ele poderia ter-se mantido na sua glória nesta vida sem pecado se não fosse orgulhoso; poderia recomendar-se ao juízo do seu Criador por algumas das suas obras se, aos olhos do seu Juiz, essas mesmas obras não tivessem sido deitadas por terra pelo orgulho. Há muitas pessoas ricas que poderiam ter conservado o poder e a glória sem pecado, se tivessem querido conservá-los com humildade.
Mas orgulham-se das suas riquezas, vangloriam-se das suas honras, desdenhando o resto do mundo e depositando toda a confiança da sua vida na abundância dos bens. Assim falava um homem rico: «Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos: descansa, come, bebe e regala-te!» (Lc 12,19). Quando o Juiz do alto vê estes pensamentos, arranca-lhes a sua confiança.
A armadilha de se julgar mais sábio
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Vou esclarecer-te, escuta-me; vou narrar-te o que vi» (Job 15,17). O que é próprio do arrogante é nunca ter um sentimento de retidão, por pequeno que seja, que não o ponha ao serviço do orgulho; é não se elevar com a sua inteligência acima de si próprio senão para cair, inchado de vaidade, na armadilha do orgulho; é julgar-se mais sábio que os sábios; é reivindicar o respeito de quem vale mais do que ele; é pretender ensinar, com ar de autoridade, os que são mais santos que ele. Daí aquela frase: «Vou esclarecer-te, escuta-me». […]
Depois da afirmação: «O ímpio é orgulhoso em todos os seus dias» (Job 15,20), Job comenta: «e o número dos dias da sua tirania é incerto». de fato, porque te orgulhas com esta ou aquela certeza quando a pena da incerteza é o destino da condição humana? Mas aos homens de vida depravada, Deus omnipotente não reserva apenas os suplícios da vida futura; já neste mundo lhes enche o coração de penas quando fraquejam, pois ao pecar são eles próprios que mais sofrem, sempre temerosos, sempre desafiadores, receando que os outros lhes inflijam aquilo que se recordam de lhes ter feito.
Tornar-se pequeno para alcançar a sabedoria
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«E que eu não encontre um só homem sábio entre vós» (Jb 17,10). Apela-se à sabedoria não querendo encontrar sábios [os amigos de Job] porque os homens enganados pela suficiência da sua falsa sabedoria não podem chegar à verdadeira sabedoria. É deles que está escrito: «Ai de vós, que sois sábios aos vossos próprios olhos e prudentes diante de vós mesmos!» (Is 5,21). É a eles que se diz: «Não vos comprazais na vossa própria sabedoria» (Prov 3,7; cf Rom 12,16).
Era também por isso que, quando encontrava pessoas sábias segundo a carne, o grande pregador [Paulo] lhes pedia que adquirissem a verdadeira sabedoria, começando por se tornar insensatos: «Se algum de vós se considera sábio segundo o julgamento deste mundo, faça-se insensato para se tornar sábio» (1Cor 3,18); e a própria Verdade diz: «Bendito sejais, ó Pai, Senhor do Céu e da terra, que escondestes estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelastes aos pequeninos» (Mt 11,25).
Assim como aqueles que são sábios diante de si mesmos não podem alcançar a verdadeira sabedoria, também o bem-aventurado Job, que deseja a conversão daqueles que o escutam, tem o direito de desejar que entre eles não se encontre um único sábio; ou seja, aprendei a tornar-vos loucos diante de vós mesmos para serdes verdadeiramente sábios diante de Deus.
Deus observa os atos sem aprovar a iniquidade
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Dele dependem o que engana e o enganado; leva os conselheiros à loucura, e entontece os juízes» (Jb 12,16-17).
Se todo o homem que tenta enganar o seu próximo é injusto, e se a Verdade diz aos injustos: «Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade», em que sentido se diz aqui que o Senhor conhece aquele que engana?
Para Deus, conhecer significa observar e aprovar; portanto, Ele conhece o homem injusto porque o observa e o julga – pois como poderia julgar que um homem é injusto se não observasse? –, mas não conhece o homem injusto porque não aprova a sua conduta. Conhece-o, pois, porque o apanha em flagrante delito, e não o conhece, porque não o reconhece aos olhos da sua sabedoria.
Do mesmo modo, diz-se de todo o homem verdadeiro que ele não conhece a falsidade, não porque não saiba censurar outro por uma palavra falsa, mas porque esse mesmo engano, se o conhece em análise, não o conhece em amor, no sentido em que não o comete; mas, se for cometido por outro, é capaz de o condenar.
A Igreja se mantém humildemente na verdade
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Sim, mesmo que eu seja ignorante, a minha ignorância está comigo» (Jb 19,4).
É próprio dos hereges ensoberbecerem-se com a vã arrogância da sua ciência, escarnecendo da simplicidade de uma fé reta e julgando a vida dos humildes desprovida de mérito. Pelo contrário, a Santa Igreja abaixa humildemente a cabeça diante de qualquer verdade que a sua verdadeira sabedoria alcança, evitando a jactância da ciência, a fatuidade da investigação dos mistérios e a presunção de sondar problemas que estão para além das suas forças; de facto, tem por mais útil aplicar-se a ignorar o que não pode compreender do que a definir descaradamente o que não sabe.
Por outro lado, diz-se que quem é por nós está connosco e, inversamente, quem é contra nós não está connosco. Como, portanto, o coração do herege se ensoberbece com o seu saber e o do fiel se humilha com o sentimento da sua ignorância, o bem-aventurado Job pode dizer em seu nome, mas também de acordo com a Igreja universal: «Mesmo que eu seja ignorante, a minha ignorância está comigo»; que é o mesmo que dizer claramente aos hereges: a vossa ciência não está convosco, está contra vós, porque vos instala num orgulho insensato, mas a minha ignorância está comigo, é a meu favor, pois, longe de ter a audácia orgulhosa de investigar a Deus, mantenho-me humildemente na verdade.
A simplicidade do justo e o testemunho interior
São Gregório Magno — Comentário moral do livro de Job, 10, 47-48; PL 75, 946 (a partir da trad. bréviaire)
«Aquele que, como eu, é escarnecido pelo seu amigo invocará a Deus e Ele o ouvirá» (Job 12, 4 Vulg). […] Sucede a alma perseverar no bem, e contudo sofrer a troça dos homens. Agir de modo admirável e receber injúrias. Então, aquele que os elogios poderiam ter atraído exteriormente, repelido pelas afrontas, entra em si próprio. Fortalece-se em Deus tanto mais solidamente, quanto não encontra no exterior nada onde possa descansar. Põe toda a sua esperança no seu Criador e, no meio das troças ultrajantes, só implora o testemunho interior. A alma do homem afligido aproxima-se de Deus tanto mais quanto é abandonada pelo favor dos homens. Cai imediatamente em oração, e sob a opressão vinda do exterior, purifica-se para apreender as realidades interiores. É por isso que este texto diz com razão: «Aquele que, como eu, é escarnecido pelo seu amigo, invocará a Deus e ele o ouvirá […]». Quando estes infelizes encontram armas na oração, voltam a cantar interiormente a bondade divina: esta dá-lhes satisfação, porque, exteriormente, estão privados dos elogios dos homens. […]
«Zomba-se da simplicidade do justo» (Job 12, 4). A sabedoria deste mundo consiste em camuflar o coração debaixo de artifícios, em encobrir o pensamento com as palavras, em apresentar como verdadeiro o que é falso, em provar a falsidade do que é verdadeiro. Pelo contrário, a sabedoria dos justos consiste em nada inventar para se valorizar, em transmitir o pensamento com as palavras, em amar a verdade como ela é, em fugir da falsidade, em fazer o bem gratuitamente, em preferir suportar o mal do que fazê-lo, em nunca procurar vingar-se de uma ofensa, em considerar como um benefício um insulto que se recebe por causa da verdade. Mas é precisamente esta simplicidade dos justos que se torna motivo de troça, porque os sábios deste mundo julgam que a pureza é uma tolice. Tudo que se faz com integridade, eles consideram-no, evidentemente, como um absurdo; tudo o que a Verdade aprova na conduta dos homens parece uma tolice à pretensa sabedoria deste mundo.
A caridade e a vida da Igreja
Toda virtude nasce da raiz da caridade
São Gregório Magno — Homilias sobre os evangelhos, nº27; PL 76, 1204
Todas as palavras sagradas do Evangelho estão cheias de mandamentos do Senhor. Então, porque é que o Senhor diz que o amor é o Seu mandamento? «É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros». É que todos os mandamentos procedem exclusivamente do amor, todos os preceitos são apenas um, e assentam sobre o fundamento único da caridade. Os ramos de uma árvore vêm da mesma raiz; de igual modo, todas as virtudes nascem exclusivamente da caridade. O ramo de uma boa obra não permanece verde quando esta se desliga da raiz da caridade. Os mandamentos do Senhor são, pois múltiplos, e ao mesmo tempo são um só – múltiplos pela diversidade das suas obras, um na raiz do amor.
Como manter este amor? O próprio Senhor o dá a entender: na maior parte dos preceitos do Evangelho, ordena aos Seus amigos que se amem n’Ele, e amem os seus inimigos por causa d’Ele. Aquele que ama o seu amigo em Deus e o seu inimigo por causa de Deus possui a verdadeira caridade.
Há homens que amam a sua família, mas só por causa dos sentimentos de afeto que nascem da ligação natural. […] As palavras sagradas do Evangelho não fazem nenhuma recriminação a esses homens. Mas o que se atribui espontaneamente à natureza é uma coisa, o que se deve pela obediência à caridade é outra. Os homens de que tenho estado a falar amam sem dúvida o seu próximo […], mas segundo a carne e não segundo o espírito. […] Ao dizer: «É este o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros», o Senhor acrescentou imediatamente: «como Eu vos amei». Estas palavras significam claramente: «Amai pela mesma razão por que Eu vos tenho amado.»
Preparar para Deus a morada do coração
São Gregório Magno — Homilias sobre os Evangelhos, n.° 30
«Meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada». Considerai, irmãos muito amados, que festa não é receber a Deus na morada do nosso coração! Se um amigo rico e poderoso quisesse entrar em nossa casa, evidentemente, toda a casa seria limpa, para que nada pudesse chocar o seu olhar quando entrasse. Que aquele que prepara para Deus a morada da sua alma purifique tudo o que estiver sujo devido às suas más ações.
Notai bem o que diz a Verdade: «Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada». Porque Ele pode passar no coração de alguns sem ficar lá a morar. Quando esses têm remorsos, veem claramente o olhar de Deus; mas, quando vem a tentação, esquecem o objeto do seu arrependimento anterior e caem de novo nos seus pecados, como se nunca os tivessem chorado. Pelo contrário, o Senhor vem morar no coração daquele que ama verdadeiramente a Deus e que observa os seus mandamentos, pois o amor de Deus preenche-o de tal modo que não se afasta desse amor no momento da tentação. Portanto, é esse, cuja alma não aceita ser dominada por um mau prazer, que ama verdadeiramente a Deus. […] Daí esta afirmação: «Quem Me não ama não guarda a minha palavra». Examinai-vos cuidadosamente a vós próprios, irmãos muito amados; perguntai-vos se amais verdadeiramente a Deus. Mas não vos fieis na resposta do vosso coração sem a comparar com os vossos atos.
Amar o irmão para amar o Deus invisível
São Gregório Magno — Homilias sobre o Evangelho, n.° 30; PL 76, 1220
«Como posso amar alguém que não conheço?» […] Se não podemos ver a Deus, temos no entanto outros meios para erguer os olhos do nosso espírito até Ele. Se não nos é possível vê-l’O em pessoa, podemos, já aqui, vê-l’O nos seus servos. Ao observar como eles fazem maravilhas, ficamos certos de que Deus habita neles. […] Nenhum de nós pode olhar diretamente para o sol, fixando-o no momento em que se levanta em todo o seu brilho, porque os nossos olhos, ao fixarem-se nos seus raios, ficam encandeados. Mas olhamos para as montanhas iluminadas pelo sol, e percebemos que ele se levantou. Do mesmo modo, dado que não podemos ver o Sol de justiça (Mal 3,20), olhemos para as montanhas que a sua claridade ilumina, isto é, os santos apóstolos, que brilham pelas suas virtudes, que resplandecem pelos seus milagres. […] Com efeito, a força de Deus em si mesma é o sol no céu; a força de Deus espalhada pelos homens é o sol na Terra […].
A condição para não tropeçarmos no nosso caminho na Terra é amarmos a Deus e ao nosso próximo com todo o nosso coração (Mt 22,37ss) […]. Foi por isso que o Espírito foi dado aos discípulos por duas vezes: primeiro, pelo Senhor que veio à Terra, depois pelo Senhor já no Céu (Jo 20,22; At 2,2). Foi-nos dado na Terra para amarmos o próximo; no Céu, para amarmos a Deus […]. Compreendemos assim estas palavras de João: «Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1Jo 4,20). Assim, pois, meus irmãos, acarinhemos o nosso próximo, amemos quem está perto de nós, para sermos capazes de amar Aquele que está acima de nós […] e de fruir, em Deus, de uma alegria perfeita com esse próximo.
Reconhecer o Senhor pela hospitalidade
São Gregório Magno — Homilia XXIII sobre os Evangelhos; PL 76, 1182; Le Barroux / Breviário, conforme o acervo.
Acabais de o ouvir, irmãos caríssimos: dois discípulos de Jesus caminhavam na estrada e, não acreditando que era Ele, d’Ele falavam, porém. O Senhor apareceu-lhes, sem contudo Se lhes mostrar sob uma forma por que O pudessem reconhecer. O Senhor realizou portanto no exterior, aos olhos do corpo, o que neles se cumpria no interior, aos olhos do coração. No seu próprio interior, os discípulos amavam e duvidavam em simultâneo; no exterior, o Senhor estava presente sem no entanto manifestar Quem era. Àqueles que d’ Ele falavam, oferecia a Sua presença; mas aos que duvidavam d’Ele, escondia o aspecto habitual, que lhes teria permitido reconhecê-Lo. Trocou algumas palavras com eles, reprovou-lhes a lentidão em compreender, explicou-lhes os mistérios da Sagrada Escritura que Lhe diziam respeito. E, no entanto, no coração deles continuava a ser um estranho, por falta de fé; fez então menção de seguir para diante […]. A Verdade, que é simples, nada fez com duplicidade, mas manifestou-Se simplesmente aos discípulos no Seu corpo tal como estava no espírito deles.
Com esta prova, o Senhor queria ver se os que ainda não O amavam como Deus eram ao menos capazes de O amar como viajante. A Verdade caminhava com eles; não podiam pois continuar estranhos ao amor; ofereceram-Lhe hospitalidade, propondo-Lhe que pernoitasse com eles, como se costuma fazer aos viajantes. Por que dizemos então que eles Lho propuseram, quando está escrito: «Insistiram com Ele»? Este exemplo mostra-nos bem que não devemos apenas oferecer hospitalidade aos viajantes, mas fazê-lo com insistência.
Os discípulos puseram a mesa, ofereceram da sua ceia; e, não tendo reconhecido a Deus quando da Sua explicação da Sagrada Escritura, eis que O reconhecem agora, na fracção do pão. Não foi pois ao escutar os mandamentos de Deus que ficaram iluminados, mas ao pô-los em prática.
Ponhamos pois amor no exercício da hospitalidade, queridos irmãos; pratiquemos de coração a caridade. Diz Paulo sobre este assunto: «Que permaneça a caridade fraterna. Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos» (Hb 13,1; Gn 18,1ss). Também Pedro diz: «Exercei a hospitalidade uns para com os outros, sem queixas» (1Pe 4,9). E a própria Verdade nos declara: «Era peregrino e recolhestes-Me». […] «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,35.40) […] Apesar disto, somos tão preguiçosos diante da graça da hospitalidade! Avaliemos, irmãos, a grandeza desta virtude. Recebamos Cristo à nossa mesa, para que possamos ser recebidos no seu festim eterno. Demos agora a nossa hospitalidade a Cristo que no estrangeiro está, para que no dia do julgamento não sejamos como estrangeiros que Ele não sabe de onde vêm (Lc 13,25), mas sejamos irmãos que em seu Reino recebe.
Nota editorial: Reuniram-se o caminho de Emaús e a exortação à hospitalidade. A fração do pão e a prática dos mandamentos aparecem uma única vez.
Ser amigo de Deus na oração e na justiça
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Mas eu quero falar com o Todo-Poderoso, e desejo conversar com Deus» (Job 13,3). Falamos com o Todo-Poderoso quando nos associamos à justiça do Mestre, submetendo os nossos atos a um exame escrupuloso.
Talvez também fale com Deus aquele que, depois de ter obedecido aos seus preceitos neste mundo, vem como juiz julgar com Ele os povos, como se diz dos pregadores que renunciam a todos os seus bens: «No mundo renovado, quando o Filho do homem vier sentar-Se no seu trono de glória, também vós que Me seguistes vos sentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel». Diz ainda o Senhor, por intermédio de Isaías: «Libertai o injusto, julgai o órfão, defendei a viúva, e vamos conversar» (Is 1,17). Com efeito, é justo que o homem que, para se dedicar à palavra de Deus, renuncia sem reservas ao mundo atual, discuta com Deus no seu juízo sobre os órfãos.
Assim, pois, rezar é falar; é discutir, julgar. Agora, o santo fala com o Todo-Poderoso, para depois discutir com Ele; porque só aquele que tiver sido, neste mundo, amigo de Deus na oração virá um dia julgar com Ele.
Corrigir no momento oportuno, com vigor e suavidade
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
A Santa Igreja sabe manter o vigor da sua disciplina, temperando-a com suavidade: ora não poupando os maus, parecendo poupá-los, ora, pelo contrário, poupando-os, parecendo não os poupar. Mas demonstramo-lo melhor expondo o que acontece de ordinário.
Proponhamos então aos olhares da nossa alma dois espíritos desviados vivendo no seio da Igreja: de um lado, um poderoso, um rebelde, e do outro um homem manso, um subalterno. Quando neste homem manso, neste subalterno, caminha surdamente um pecado, o pregador está lá para admoestar, atacar, acusar este pecado e, acusando o pecador, libertá-lo do pecado e restabelecê-lo no caminho da retidão. […]
Por outro lado, apercebemo-nos de que o poderoso, o rebelde, cometeu uma falta: procuramos a melhor hora da admoestação pelo mal que ele cometeu. Porque, se o pregador não sabe esperar a hora oportuna para apontar a falta, faz crescer no outro o mal que desejava atacar.
Acontece muitas vezes, com efeito, que um homem assim não sabe escutar a mais pequena palavra de admoestação. Diante da sua falta, o dever do pregador será, pois, apresentar aos que o escutam, entre as admoestações para a salvação de todos, faltas parecidas com as do homem que está ali à sua beira e que ainda não consegue acolher uma crítica estritamente pessoal, não vá ele tornar-se ainda pior. Que a invectiva lançada contra a falta se mantenha genérica, a palavra de acusação seja introduzida na sua alma sem a ferir, porque este poderoso, este espírito desviado, não percebe que ela é dirigida particularmente a ele. Que lhe fez então pregador? Poupando-o, não o poupou, não lançou palavras de culpabilização contra a sua pessoa, e, no entanto, pela sua admoestação genérica, tocou na chaga.
Nota editorial: Corrigido o lapso «inventiva» para «invectiva».
Consolar os aflitos e desejar sua salvação
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«E quisera Deus que a vossa alma estivesse no lugar da minha! Também eu vos consolaria com as minhas palavras e levantaria a cabeça sobre vós. A minha boca fortalecer-vos-ia e eu moveria os lábios para vos poupar» (Job 16,5-6). Por vezes, perante espíritos injustos que não se deixam reorientar pela pregação dos homens, é necessário desejar-lhes, com toda a bondade, as pragas de Deus. Porque, quando chegamos a isso pelo zelo de um grande amor, não é certamente um castigo que pedimos para os transviados, mas uma advertência; o que assim exprimimos não é uma maldição, mas uma oração.
Note-se que Job não diz: «E quisera Deus que a minha alma estivesse no lugar da vossa!»; pois, se quisesse ser como eles, estaria a amaldiçoar-se a si próprio. O que ele queria era a elevação daqueles a quem tinha desejado um destino semelhante ao seu. Ora, nós consolamos os espíritos injustos no meio da sua flagelação quando lhes fazemos ver que os golpes exteriores reforçam a sua salvação interior; levantamos a cabeça quando orientamos o seu espírito, que é a parte mestra do nosso ser, para a compaixão; e fortalecemo-los quando sublinhamos a violência da sua dor com a suavidade das nossas palavras.
De fato, há homens que, por estarem fechados à vida interior, se veem abatidos até ao desespero pelos golpes do mundo exterior, o que leva o salmista a dizer: «Não resistirão à desgraça» (Sl 139,11); porque só aquele que vai buscar a alegria à sua esperança interior é capaz de resistir aos males exteriores.
A Igreja sofre a fraqueza e a duplicidade dos seus membros
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Mas agora estou esmagado pela minha dor e todos os meus membros estão destruídos» (Jb 16,8). A Santa Igreja é esmagada pela sua dor quando vê aumentar a malignidade dos homens perversos. E, como a ascensão dos homens perversos também excita os fracos do seu meio a seguirem as paixões da depravação, Job tem razão em dizer: «e todos os meus membros foram destruídos». Pois os ossos referem-se aos fortes, e os membros aos fracos. Os membros da Igreja são, pois, destruídos quando, imitando os perversos que crescem neste mundo, a fraqueza dos fracos se agrava cada dia: à vista da felicidade dos ímpios, muitas vezes perdem a fé e sucumbem, cobiçam os bens temporais, e são como que aniquilados; porque, abandonando a essência imutável de Deus, prezando o transitório, podemos dizer que caminham para o não-ser.
E também é razoável dizer: «Mas agora estou esmagado pela minha dor», porque agora é o tempo da dor para a Igreja; o tempo da alegria virá mais tarde. Mas acontece muitas vezes que a Santa Igreja não tem só de sofrer os infiéis e os adversários que estão fora dela, mas também tem dificuldade em resistir às ciladas e à hostilidade daqueles que traz no seu seio. Por isso, a boca do bem-aventurado acrescenta estas palavras: «As minhas rugas testemunham contra mim». As rugas, que representam a duplicidade, são todos os membros da Santa Igreja que vivem, dentro dela, uma vida dupla, proclamando a sua fé com palavras e negando-a com os seus atos […]. No entanto, a Santa Igreja não tem estas rugas nos seus eleitos, porque eles não separam a sua atitude exterior da sua vida interior.
O combate da Igreja não é contra a carne e o sangue
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«E eis que um mentiroso se levanta diante de mim e fala contra mim» (Jb 16,8 Vg).
Até nas suas horas de tranquilidade a Santa Igreja é assolada pela mentira, pois há no seu seio muitos espíritos que, já não sendo fiéis à promessa da eternidade, mentem, dizendo-se fiéis. E, como eles não têm coragem para contradizer abertamente a sua pregação, ela suporta a mentira, não cara a cara, mas, por assim dizer, pelas costas. Quando, porém, soa a hora do maligno, aquele que agora calunia com medo vem contradizê-la na cara e as palavras da verdadeira fé são bloqueadas pelo seu clamor.
Mas temos de estar conscientes de que, quando nos confrontamos com os golpes dos homens carnais, não são tanto eles que pretendem a nossa morte, mas o espírito maligno, o príncipe das suas almas, como diz São Paulo: «Temos de lutar corpo a corpo, não contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas» (Ef 6,12). É por isso que, falando mais uma vez da mentira, Job faz o retrato do príncipe desta mentira, transformando assim a sua frase: «Concentrou em mim a sua cólera e, ameaçando-me, rangia os dentes contra mim. O meu inimigo olhava-me com olhos terríveis» (Job 16,10). O que são todos os injustos, senão membros do demónio? É ele que faz, através deles, o que lhes inspira no coração.
Ora, se para já ele apenas tem furor contra a Santa Igreja, o seu furor está disperso, porque é nos indivíduos que suscita tentações secretas contra ela. No dia, porém, em que se lançar contra ela em perseguição aberta, concentrará a sua fúria, porque reunirá todos os esforços da sua vontade para a derrubar.
Nota editorial: Corrigida a indicação «livro VIII» para XIII, pelo cotejo de Jb 16,8–9. Conserva-se a referência bíblica da tradução recebida, que segue numeração divergente.
O martírio oculto da paciência e do amor
São Gregório Magno — Homilias sobre os Evangelhos, nº 35
Uma vez que hoje celebramos a festa dum mártir, irmãos, devemos preocupar-nos com a forma de paciência praticada por ele. Com efeito, se com a ajuda do Senhor nos esforçarmos por manter essa virtude, obteremos sem dúvida a palma do martírio ainda que vivamos na paz da Igreja. Porque há dois tipos de martírio: o primeiro consiste numa disposição do espírito; o segundo alia a essa disposição os atos da existência. Por isso, podemos ser mártires mesmo sem morrermos executados pelo gládio do carrasco. Morrer às mãos dos perseguidores é o martírio em ato, na sua forma visível; suportar as injúrias amando quem nos odeia é o martírio em espírito, na sua forma oculta.
Que haja dois tipos de martírio, um oculto, o outro público, a própria Verdade o comprova quando pergunta aos filhos de Zebedeu: «Podeis beber o cálice que Eu estou para beber?» E à sua asserção, «Podemos», o Senhor responde: «Na verdade, bebereis o Meu cálice.» Ora, que pode significar para nós este cálice senão os sofrimentos da Sua Paixão, da qual diz noutro lugar: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de Mim este cálice» (Mt 26,39)? Os filhos de Zebedeu, Tiago e João, não morreram os dois mártires, mas foi a ambos que o Senhor disse que haviam de beber esse cálice. De fato, se bem que não viesse a morrer mártir, João acabou por sê-lo todavia, já que os sofrimentos que não sentiu no corpo os sentiu na alma. Devemos então concluir do seu exemplo que nós próprios podemos ser mártires sem passar pela espada se conservarmos a paciência da alma.
Os anjos são mensageiros da obra de Deus
São Gregório Magno — Catequeses sobre o Evangelho, 34, 8-9
Muitas páginas da Sagrada Escritura atestam que os anjos existem… Mas é preciso saber que a palavra «anjo» designa a sua função: ser mensageiro. E chamam-se «arcanjos» os que anunciam os acontecimentos mais importantes. É assim que o arcanjo Gabriel é enviado à Virgem Maria; para esta função, para anunciar o maior de todos os acontecimentos, impunha-se enviar um anjo da mais elevada categoria…
Semelhantemente, quando se trata de estender um poder extraordinário, é Miguel que é o enviado. Com efeito, a sua acção como o seu nome, querem dizer: «Quem é como Deus?», fazem compreender aos homens que ninguém pode fazer o que pertence apenas a Deus realizar. O antigo inimigo, que desejou por orgulho fazer-se semelhante a Deus, dizia: «Subirei aos céus, estabelecerei o meu trono acima das estrelas de Deus, serei semelhante ao Altíssimo» (Is. 14,13). Mas o Apocalipse diz-nos que no fim dos tempos, assim que ele for abandonado à sua própria força, antes de ser eliminado pelo suplício final, deverá combater contra o arcanjo Miguel: «Travou-se uma batalha no céu: Miguel e os seus anjos pelejavam contra o Dragão. E o Dragão também combatia juntamente com os seus anjos. Mas não prevaleceram; o Dragão e os seus anjos foram precipitados na terra» (Ap 12, 7-9).
À Virgem Maria, foi pois Gabriel, cujo nome significa «Força de Deus», que foi enviado; não vinha ele anunciar aquele que quisera manifestar-se numa condição humilde, para triunfar do orgulho do demónio? Era pois pela «Força de Deus» que devia ser anunciado aquele que vinha como «o Senhor forte e poderoso, o Senhor herói nas batalhas» (Sl 24,8). Quanto ao arcanjo Rafael, o seu nome significa «Deus cura». Com efeito, foi ele que libertou da escuridão os olhos de Tobias, tocando-os como um médico vindo do alto (Tb 12,14). Aquele que foi enviado para tratar o justo na sua enfermidade bem pode ser apelidado de «Deus cura».
O Redentor e a fé na Encarnação
João precede o Redentor na vida e na morte
São Gregório Magno — Homilias sobre o Evangelho, n.º 6
Por que razão, quando é feito prisioneiro, João Batista envia os seus discípulos perguntar a Cristo: «És Tu Aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?», como se não soubesse quem era Aquele que lhes tinha apresentado? […] Esta pergunta depressa encontra resposta se examinarmos o tempo e a ordem com que se desenrolaram os factos. Nas margens do Jordão, João afirma que Jesus é o Redentor do mundo (Jo 1,29); contudo, uma vez na prisão, pergunta se Ele é Aquele que havia de vir. Não é que duvide de que Jesus seja o Redentor do mundo, mas quer saber se Aquele que veio em pessoa ao mundo vai também descer em pessoa às prisões da mansão dos mortos. Porque João também precederá nos infernos, com a sua morte, Aquele que anunciou ao mundo enquanto precursor. […] É como se dissesse claramente: «Da mesma forma que Te dignaste nascer pelos homens, diz-nos se Te dignarás também morrer por eles, de tal forma que, tendo sido precursor do teu nascimento, eu o seja também da tua morte e possa anunciar na mansão dos mortos que Tu vais vir, tal como anunciei ao mundo que Tu tinhas vindo».
É por isso que a resposta do Senhor fala da humilhação da sua morte logo após ter enumerado os milagres operados pelo seu poder: «Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo». À vista de tantos sinais e de tão grandes prodígios, ninguém tinha razão para se escandalizar, antes para se admirar. Surgiu contudo uma grave ocasião de escândalo no espírito dos que não acreditaram quando O viram morrer, mesmo depois de tantos milagres. Donde a palavra de Paulo: «Pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1Cor 1,23). […] Portanto, quando o Senhor diz: «Bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo», estará provavelmente a referir-se à abjeção e humilhação da sua morte. É como se dissesse abertamente: «É certo que faço coisas admiráveis, mas nem por isso Me recusarei a sofrer coisas ignominiosas. Uma vez que vou seguir João, morrendo, que os homens não desprezem em Mim a morte depois de terem venerado os milagres».
Reconhecer a divindade sob a humanidade do Senhor
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Andam às apalpadelas na escuridão» (Job 12,25). Pois perturbar-se com tantos milagres evidentes é andar às apalpadelas, como quem está no escuro: é tocar e não ver. E quem anda a vaguear é atraído ora para um lado, ora para outro; assim, ora se mostravam crentes: «Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer estas coisas» (Jo 9,33), ora diziam, com palavras desdenhosas, que Ele não vinha de Deus: «Não é Ele o filho do carpinteiro? A sua Mãe não se chama Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs não vivem entre nós?».
Por isso, é justo acrescentar: «E cambaleiam como bêbedos» (Job 12,25). Pois viram que ele ressuscitava os mortos e que, no entanto, era mortal. Como era possível não acreditarem em Deus vendo-O ressuscitar os mortos (cf Lc 7,14)? Mas também viram que Ele era mortal, viam-no com os seus próprios olhos, e, no seu desdém, recusavam-se a acreditar que fosse Deus, que fosse imortal. Por isso, manifestando-Se a eles em estado de fazer obras divinas e de sofrer a condição humana, Deus omnipotente fê-los ir andar no escuro, como homens embriagados, para que o orgulho deles, que, perante o mistério da sua encarnação, preferia o desdém à fidelidade, se revoltasse contra a sua humanidade e, ao mesmo tempo, se espantasse por dentro com a luz resplandecente da sua divindade
Nota editorial: Corrigida a indicação «livro IX» para XI, pelo cotejo de Jb 12,25.
A humildade do Verbo e a loucura da pregação
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Até os loucos me desprezam» (Job 19,18 Vulg). Os sábios não tinham fé na verdade, mas podemos dizer que o mesmo acontecia aos loucos, uma vez que, constatando que fariseus e doutores da Lei desprezavam o Senhor, a multidão os seguia nessa incredulidade: vendo nele o homem, desprezava as lições do Redentor do mundo.
Com efeito, o termo «loucos» designa por vezes os pobres do povo. […] Ora, o nosso Redentor ignorou os sábios e os ricos deste mundo, pois vinha ao encontro dos pobres e dos loucos. Apesar disso, observa nesta altura, como que para fazer crescer a sua dor: «Até os loucos me desprezam»; ou seja, fui desprezado por aqueles mesmo que queria sarar, assumindo a loucura da minha pregação. Com efeito, a Escritura declara: «Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação» (1Cor 1,21). Pois o Verbo é a sabedoria de Deus e aquilo a que, nesta sabedoria, se chama loucura é a carne do Verbo: vendo a incapacidade dos homens carnais para alcançarem a sabedoria de Deus por meio da prudência da carne, Ele quis sará-los pela loucura da sua pregação, ou seja, pela carne do Verbo. Por isso, declara: «Até os loucos me desprezam». Era o mesmo que dizer abertamente: sou desprezado por aqueles mesmos que quis salvar sem receio de passar por louco.
Na verdade, o povo dos judeus, observando os milagres do nosso Redentor, honrava-O perante estes sinais, dizendo: «Eis o Cristo»; porém, constatando a fraqueza da sua humanidade, desdenhava de acreditar no seu Criador e dizia: «É que Ele seduz as multidões» (Jo 7,12). Bem podia Ele, pois, acrescentar: «E, quando me afastava deles, insultavam-me» (Job 19,18 Vulg).
O Redentor desconhecido em sua própria casa
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Sou um desconhecido aos seus olhos» (Jb 19,15). Não ser conhecido na sinagoga era, para o nosso Redentor, estar em sua casa como quem está de passagem. É o que atesta o Profeta com aquelas palavras: «Porque te comportas nesta terra como um estrangeiro, como um viajante que apenas para a pedir dormida?» (Jr 14,8).
Visto que Ele não foi escutado como Senhor, não foi tido como proprietário da terra, mas como jornaleiro. E, como um viajante, parou apenas para pedir dormida: não levou para a Judeia senão alguns homens e foi por causa da vocação dos gentios que fez essa viagem.
Portanto, Ele foi, a seus olhos, alguém que está de passagem, visto que, pensando apenas naquilo que conseguiam ver, eles foram incapazes de discernir no Senhor o que não lhes era possível ver. E, desprezando a sua carne visível, não alcançaram a sua invisível majestade. É razão para dizer: «Sou um desconhecido aos seus olhos».
O Pai é testemunha do Filho; Deus conhece o justo
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Eu tenho a minha testemunha no Céu, um defensor nas alturas» (Job 16,19). Quando o Filho vacilou na Terra, tinha uma testemunha no Céu. Com efeito, o Pai é a testemunha do Filho, como diz no Evangelho: «O Pai, que Me enviou, também Ele deu testemunho de Mim». Mas também é justamente chamado seu confidente, porque é numa única vontade, num único conselho, que o Pai opera sempre com o Filho. E é também sua testemunha porque «ninguém conhece o Filho senão o Pai» (Mt 11,27). O Filho tinha, pois, a sua testemunha no Céu, um defensor nas alturas» no dia em que aqueles que O viram morrer na carne não se aperceberam do poder da sua divindade. Mas, embora os homens estivessem na ignorância, na sua morte, o Mediador entre Deus e os homens sabia que o Pai operava com Ele […].
Para além de serem verdadeiras para o bem-aventurado Job, estas palavras podem também aplicar-se a cada um de nós. Porque todo aquele que aspira ao louvor dos homens em todos os seus atos procura o testemunho dos homens na Terra. Mas aquele que procura agradar a Deus todo-poderoso com a sua conduta considera que o seu testemunho está no Céu. Acontece, porém, que muitas vezes as nossas boas obras são criticadas em nós por espíritos mal intencionados. Mas aquele que tem a sua testemunha no Céu não precisa de temer as críticas dos homens.
Nota editorial: Corrigida a indicação «livro XII» para XIII, pelo cotejo de Jb 16,19.
A Encarnação e o banquete das núpcias
São Gregório Magno — Homilias sobre o Evangelho, nº 38
Compreendestes quem é o Rei, Pai de um Filho que também é Rei? É Aquele acerca de Quem o salmista afirmava: «Ó Deus, dai o Vosso juízo ao rei e a Vossa justiça ao filho do rei» (71, 1). […] Ele «preparou um banquete nupcial para o seu filho»; ou seja, o Pai celebra as núpcias do Rei Seu Filho, a união da Igreja com Ele, no mistério da encarnação. E o seio da Virgem Maria foi o quarto nupcial deste Esposo. Por isso, há outro salmo que diz: «Do sol fez a Sua tenda, Ele mesmo é como um esposo que sai do seu pavilhão de núpcias» (18, 5-6). […]
Ele mandou os servos convidar os amigos para esta boda. Enviou-os uma vez, e depois uma segunda vez, ou seja, primeiro os profetas, depois os apóstolos, a anunciar a encarnação do Senhor. […] Pelos profetas, anunciou como futura a encarnação do Seu Filho único, pelos apóstolos pregou-a, depois de realizada.
«Mas eles, sem se importarem, foram um para o seu campo, outro para o seu negócio»; ir para o campo consiste em prestar atenção exclusivamente às tarefas deste mundo; ir para o negócio consiste em procurar avidamente o próprio lucro nos negócios deste mundo. Um e outro esquecem o mistério da encarnação, não conformando a sua vida com ele. […] Mais grave ainda é o caso daqueles que, não se contentando em desprezar os favores Daquele que os chama, ainda O perseguem. […] Mas o Senhor não ficará com lugares vazios no festim das núpcias do Rei Seu Filho. Manda procurar outros convivas, porque a Palavra de Deus, permanecendo embora ainda ignorada por muitos, encontrará um dia onde repousar. […]
Mas vós, irmãos, que pela graça de Deus já entrastes na sala do festim, isto é, na Santa Igreja, examinai-vos atentamente, não vá acontecer que, ao entrar, o Rei encontre algum reparo a fazer na veste da vossa alma.
As mulheres permanecem junto ao Senhor na Paixão
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Tenho a carne consumida, os ossos agarrados à pele» (Jó 19: 20). Os ossos designam a força do corpo; a carne, a sua fraqueza. Uma vez que Cristo e a Igreja são uma só pessoa, o que representarão os ossos? O Senhor. E a carne? Os discípulos, que, na hora da sua Paixão, só conheceram a sabedoria dos fracos. E a pele, que é exterior à carne e permanece no corpo, representa as santas mulheres, que, dispostas a prestar-Lhe assistência corporal, serviam o Senhor nas suas necessidades exteriores.
Quando os discípulos de Jesus, ainda muito fracos, pregavam ao povo a fé na verdade, eram a sua carne ligada aos seus ossos; e, quando tratavam das suas necessidades exteriores, as santas mulheres eram como a pele, que é exterior ao corpo. À hora da cruz, porém, os discípulos foram invadidos por um medo terrível da perseguição dos judeus e fugiram, um após outro; mas as mulheres ficaram. Assim, consumida a carne, os ossos do Senhor ficaram agarrados à pele: perante a fuga dos discípulos no momento da Paixão, a sua força encontrou estas mulheres muito perto. […] As mulheres não tiveram medo, não fugiram; mais ainda, como testemunha a Escritura, aguentaram até ao túmulo.
O Senhor pode, portanto, dizer: «Tenho a carne consumida, os ossos agarrados à pele». Quer dizer: aqueles que deviam estar mais ligados à minha força foram consumidos pelo medo no momento da minha Paixão, e àquelas a quem tinha confiado serviços exteriores encontrei, sem terror, fielmente ligadas a Mim.
A ressurreição e a pátria eterna
O Ressuscitado é incorruptível e palpável
São Gregório Magno — Homilias sobre os Evangelhos, n°26; PL 76,1197 (trad. Barroux rev.; cf. Delhougne, p. 204).
Como é que o corpo do Senhor, uma vez ressuscitado, continuou a ser um corpo verdadeiro, podendo, ao mesmo tempo, entrar no local onde os discípulos se encontravam apesar de as portas estarem fechadas?
Devemos estar cientes de que a ação divina nada teria de admirável se a razão humana pudesse compreendê-la; e que a fé não teria mérito se o intelecto lhe fornecesse provas experimentais. Sendo, por si mesmas, incompreensíveis, tais obras do nosso Redentor devem ser meditadas à luz das outras ações do Senhor, de forma que sejamos levados a acreditar nestes seus feitos maravilhosos por força daqueles que ainda o são mais. Com efeito, o corpo do Senhor que se juntou aos discípulos não obstante estarem as portas fechadas é o mesmo que a natividade tornou visível aos homens, ao sair do seio fechado da Virgem. Não fiquemos, pois, admirados de que o nosso Redentor, depois de ter ressuscitado para a vida eterna, tenha entrado com as portas fechadas, porque, tendo vindo ao mundo para morrer, Ele saiu do seio da Virgem sem o abrir.
E, como a fé daqueles que O viam era ainda hesitante, o Senhor convidou-os a tocarem essa carne que atravessara portas fechadas […]. Ora, aquilo que podemos tocar é necessariamente corruptível, e o que não é corruptível é intocável. Porém, após a sua ressurreição, o nosso Redentor deu-nos a possibilidade de ver, de forma maravilhosa e incompreensível, um corpo que era a um tempo incorruptível e palpável. Mostrando-o incorruptível, convidava-nos à recompensa; dando-o a tocar, confirmava-nos na fé. Fez, pois, com que O víssemos incorruptível e palpável para manifestar firmemente que o seu corpo ressuscitado continuava a ter a mesma natureza, mas tinha sido elevado a uma glória absolutamente diferente.
O Redentor espera na margem do descanso eterno
São Gregório Magno — Homilias sobre o Evangelho, n.º 24
O mar simboliza o mundo atual, batido pelas ondas tumultuosas das nossas ocupações e pelos turbilhões de uma vida caduca. E a terra firme da margem representa a perpetuidade do descanso eterno. Os discípulos afadigam-se no lago porque ainda estão presos nas ondas da vida mortal, mas o nosso Redentor, depois da sua ressurreição, permanece na margem, uma vez que já ultrapassou a condição da fragilidade da carne. É como se Ele tivesse querido servir-Se dessas coisas para falar aos seus discípulos do mistério da sua ressurreição, dizendo-lhes: «Já não vos apareço no mar (Mt 14,25), porque já não estou entre vós, no meio da agitação das ondas».
Foi no mesmo sentido que, noutro lugar, disse a esses mesmos discípulos após a ressurreição: «Disse-vos essas coisas quando ainda estava convosco» (Lc 24,44). Não lhes disse isto por já não estar com eles – pois o seu corpo estava presente e aparecia-lhes –, mas […] porque a sua carne imortal Se distanciava muito dos corpos mortais deles; Ele dizia que já não estava com os discípulos e contudo estava no meio deles. Na passagem que lemos hoje, diz-lhes a mesma coisa pela localização do seu corpo: enquanto os discípulos ainda navegam, Ele está em terra firme.
Pedro conduz a rede à terra firme
São Gregório Magno — Homilias sobre o Evangelho, nº 24 (a partir da trad. Le Barroux rev.))
Depois de terem apanhado tantos peixes grandes, «Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra.» Tereis compreendido por que motivo foi Pedro quem puxou a rede para terra; com efeito, foi a ele que foi confiada a Santa Igreja, foi a ele que foi pessoalmente dito: «Filho de João, tu amas-Me? Apascenta os meus cordeiros.» Assim, aquilo que foi claramente enunciado em palavras foi primeiramente significado pela ação. É o pregador da Igreja que nos separa das correntes deste mundo; é, pois, necessário que Pedro puxe para terra a rede cheia de peixes. Foi ele quem puxou os peixes para a terra firme da margem, porque foi ele que dá a conhecer aos fiéis, pela sua santa pregação, a imutabilidade da pátria eterna. E fê-lo, quer pelas suas palavras, quer pelas suas epístolas; e continua a fazê-lo todos os dias, pelos seus milagres. Sempre que nos conduz ao amor do repouso eterno, sempre que nos distancia do tumulto das coisas deste mundo, nós somos os peixes apanhados nas redes da fé, que ele puxa para a margem.
A mesma carne, transformada na glória
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
Analisemos cuidadosamente as palavras do bem-aventurado Job para ver se a ressurreição será verdadeira e se o corpo será verdadeiro na ressurreição. Na verdade, não podemos duvidar da sua esperança na ressurreição, pois ele diz: «Eu sei que o meu Redentor está vivo e no último dia Se levantará sobre a Terra» (Jb 19,25); e, quanto à hesitação sobre a verdadeira restauração do corpo, ele também a descartou com estas palavras: «Revestido da minha pele, estarei de pé» e, para afastar qualquer ambiguidade do nosso pensamento, acrescenta: «Na minha carne verei a Deus» (Jb 19,26). Eis aqui afirmadas, em termos expressos, a ressurreição, a pele e a carne. O que resta, então, que possa mergulhar o nosso espírito na dúvida? […]
Nós, que seguimos a fé do bem-aventurado Job e acreditamos que, após a ressurreição, o corpo do nosso Redentor era verdadeiramente palpável, confessamos que, após a ressurreição, a nossa carne será ao mesmo tempo a mesma e diferente, a mesma na sua natureza e diferente na sua glória, a mesma na sua verdade e diferente no seu poder. Será, portanto, subtil, porque também será incorruptível; mas será palpável, porque não perderá a essência da sua verdadeira natureza.
Mas com que esperança o santo mantém essa confiança na ressurreição, com que certeza a espera? É isso que expressam estas palavras: «Dentro de mim suspira o meu coração» (Job 19,27). Para nós, não há nada no mundo que seja mais seguro do que aquilo que guardamos no fundo do nosso coração; foi, pois, no fundo do seu coração que Job guardou a sua esperança na ressurreição.
Nota editorial: Corrigido no cabeçalho «Moral sobre Jacob» para «Morais sobre Jó».
A verdadeira ressurreição da nossa carne
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
Ouço falar da ressurreição e interrogo-me sobre o futuro dessa ressurreição. Com efeito, creio que estou destinado a ressuscitar, mas quero que me digam que tipo de ser serei. Preciso de saber se ressuscitarei noutro corpo, talvez sutil, isto é, aéreo, ou no corpo em que morrerei. Mas, se ressuscitar num corpo aéreo, já não serei eu a ressuscitar. Como pode haver verdadeira ressurreição se a minha carne não pode ser verdadeira carne? A razão sugere-nos claramente que, se não houver verdadeira carne, não haverá, obviamente, verdadeira ressurreição. Não, não temos o direito de falar de ressurreição enquanto aquilo que sucumbiu não ressuscitar.
Pois bem, Job bendito, dissipa o nevoeiro da nossa dúvida e, uma vez que, pela graça que te veio do Espírito Santo, começaste a falar-nos da esperança da ressurreição, mostra-nos claramente se é a nossa carne que vai realmente ressuscitar. O texto diz: «Voltarei a revestir-me da minha pele» (Jb 19,26). A expressão «a minha pele» elimina qualquer dúvida sobre o facto de se tratar de uma verdadeira ressurreição, pois mostra que, […] na glória da ressurreição, o nosso corpo não será impalpável, mais sutil que o vento e o ar. Na glória da ressurreição, o nosso corpo será, sem dúvida, sutil, devido à manifestação do seu poder espiritual, mas será palpável, pela verdade da sua natureza.
Por isso, o nosso Redentor mostrou as mãos e o lado aos seus discípulos, que duvidavam da sua ressurreição, e propôs-lhes que Lhe tocassem os ossos e a carne: «Tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».
A ressurreição da Cabeça sustenta os membros
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
Eis que, pela morte da carne, nós permaneceremos no pó até ao fim do mundo; Ele [o nosso Redentor], porém, ao terceiro dia, libertado da secura da morte, está na sua verde frescura, para nos mostrar o poder da sua divindade pela renovação da sua própria carne. […] Se é verdade que o corpo do Senhor está vivo agora, depois da sua morte, para o nosso corpo, a glória da ressurreição é adiada até ao fim do mundo. Job teve o cuidado de assinalar este distanciamento, dizendo: «E eu ressuscitarei da terra no último dia» (Jb 19,25).
Temos, pois, a esperança da nossa ressurreição, porque estamos em presença da glória da nossa Cabeça. Não se diga, nem sequer interiormente, que, se o Senhor ressuscitou da morte, é porque, sendo Deus e homem numa só e mesma pessoa, venceu, pela sua divindade, a morte que sofreu na sua humanidade, mas que nós, que somos apenas homens, não podemos ressuscitar de uma sentença de morte. Pois acontece que, na hora da sua ressurreição, também ressuscitaram os corpos de muitos santos. O Senhor quis mostrar-nos o exemplo da ressurreição em Si mesmo, mas também quis mostrar-nos o exemplo de outros seres semelhantes a nós na sua natureza puramente humana, para nos tornar fortes perante a ressurreição. Era necessário que o homem, no seu desespero de nunca vir a receber um dom que o Homem Deus tinha manifestado em Si mesmo, ousasse acreditar que o que via nos outros, cuja natureza ele sabia sem sombra de dúvida ser puramente humana, podia também acontecer nele.
Eu sei que o meu Redentor vive
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
Job não diz «Criador», mas «Redentor», designando claramente Aquele que, depois de ter criado todas as coisas, querendo redimir-nos do nosso cativeiro, apareceu entre nós na encarnação e, pela sua Paixão, nos libertou da morte eterna. É de notar a fé com que Job se entrega ao poder divino daquele sobre quem Paulo afirmou: «Ele foi crucificado em fraqueza, mas vive pelo poder de Deus» (2Cor 13,4). Disse Job: «Sim, eu sei que o meu Redentor vive»; que o mesmo é dizer sem ambiguidades: Ele foi flagelado, escarnecido, espancado, coroado de espinhos, cuspido, crucificado, morreu – isto sabe o incrédulo; por mim, creio com fé segura que, depois da sua morte, Ele vive, Ele, que caiu nas mãos dos ímpios.
Mas, abençoado Job, que confiança te dá a ressurreição do Senhor na ressurreição da tua própria carne? O texto continua: «Eu sei que ressuscitarei da terra no último dia». Sim, Ele realizará em nós um dia a ressurreição que manifestou na sua pessoa. Sim, Ele prometeu-nos a ressurreição que manifestou em Si mesmo, porque os membros participam da glória da sua Cabeça.
A semente anuncia a esperança da ressurreição
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XIV; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
Considerando que o espírito se liberta da carne, que a carne se transforma em podridão, que a podridão se reduz a pó e que o pó se reduz aos seus elementos, a ponto de se tornar invisível aos olhos do homem, alguns espíritos desesperam de vir a ressuscitar. Tendo diante dos olhos ossos secos, não têm fé de que esses ossos venham a revestir-se da sua carne e possam readquirir a verde frescura da vida. Mas, se não têm fé na ressurreição por obediência, deveriam tê-la ao menos pela razão.
Com efeito, não é verdade que o mundo imita todos os dias, nos seus próprios elementos, a nossa própria ressurreição? […] Consideremos a pequenez de uma semente que é lançada à terra para produzir uma árvore, e imaginemos, se formos capazes, onde se escondia, na pequenez dessa semente, a imensa árvore que dela cresceu, onde estava a madeira, a casca, a folhagem verde, a profusão de frutos. Era possível distinguir algum desses elementos na semente quando foi lançada na terra? E, no entanto, segundo o plano secreto daquele que ordena maravilhosamente o devir universal, na delicadeza da semente estava escondida a aspereza da casca da árvore, na fragilidade da semente estava escondida a força da sua resistência, e na secura da semente, a profusão da sua fecundidade.
E teremos de nos admirar com o facto de um pó tão fino, que escapa aos nossos olhos uma vez reduzido aos seus elementos, recupere a forma humana no dia em que o quiser Aquele que, a partir das mais ténues sementes, faz brotar árvores imensas? Uma vez que, pela nossa constituição, somos seres dotados de razão, a esperança da nossa ressurreição deve impor-se ao nosso olhar, à nossa contemplação do mundo exterior. Mas, como o juízo da razão se entorpeceu em nós, a graça do Redentor veio dar-nos mais um exemplo.
Responder ao chamado de Deus na incorruptibilidade
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Tu Me chamarás e Eu responder-te-ei» (Jb 14,15 Vg). Diz-se que respondemos a alguém quando fazemos que o nosso comportamento esteja de acordo com os atos dessa pessoa. Nesta transformação, o chamamento vem do Senhor e a resposta do homem, porque, perante o esplendor radiante do ser incorruptível, também o homem se mostra incorruptível, liberto da sua corrupção.
Ora, de facto, enquanto somos escravos da nossa corrupção, não respondemos ao autor da nossa vida, porque, não tendo a corrupção e a incorrupção uma medida comum, não há semelhança que nos permita dar uma resposta. Mas sobre esta mudança definitiva diz a Escritura: «Quando Ele Se mostrar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como é» (1Jo 3,2). Assim, responderemos verdadeiramente ao chamamento de Deus no dia em que, por ordem da soberana incorrupção, ressuscitarmos incorruptíveis.
E, como a criatura é impotente para realizar por si mesma tal estado, e só um dom de Deus omnipotente permite tal mutação, que confere a maravilhosa glória da incorruptibilidade, Job tem o direito de acrescentar: «Estenderás a tua mão direita para a obra das tuas mãos». É como se dissesse abertamente: se a tua criatura corruptível pode subsistir até à incorruptibilidade, é porque a mão do teu poder a endireita e a graça da tua atenção a mantém, a fim de que possa subsistir.
A mão de Deus eleva sua criatura à glória
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Chamar-me-ás e eu te responderei». […] E Job acrescenta: «Estenderás a tua mão direita para a obra das tuas mãos» (Jb 14,15). […] Com efeito, pelo próprio fato de ser criatura, a criatura humana tem a possibilidade de se afundar em si mesma; mas o homem recebeu daquele que o formou o favor de ser elevado acima de si mesmo pela contemplação, e de ser mantido em si mesmo pela sua incorrupção. Assim, pois, para não se afundar abaixo de si mesma e para subsistir na incorrupção, a criatura é elevada a um estado de imutabilidade pela mão direita daquele que dá a vida.
A mão direita de Deus também pode referir-se ao Filho, porque todas as coisas surgiram por meio dele (cf. Jo 1,3). De fato, Deus Omnipotente estendeu a sua mão direita sobre a obra das suas mãos, porque foi para elevar ao mundo superior o gênero humano, caído e jacente no abismo, que Ele enviou o seu Filho unigênito. E foi a sua encarnação que nos permitiu, depois de termos caído por nossa própria vontade na corrupção, responder a Deus, que nos chama à glória da incorruptibilidade.
Quem poderá, pois, medir a generosidade da misericórdia divina, que conduz o homem a esta glória maravilhosa depois da sua queda? Deus mede o mal que fazemos e, no entanto, pela graça da sua bondade, perdoa-nos misericordiosamente.
A árvore cortada voltará a reverdecer
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«A árvore mantém a esperança; depois de cortada, voltará a reverdecer e os seus ramos despontarão» (Job 14,7-10). […] Na Sagrada Escritura, a árvore simboliza a cruz, mas também o homem, quer o justo quer o injusto, e ainda a sabedoria de Deus encarnada.
Com efeito, é à cruz que o profeta se refere quando diz: «Destruamos a árvore no seu vigor» (Jer 11,19), referindo-se ao corpo do Senhor. A palavra «árvore» também evoca o homem, quer o justo quer o injusto, quando o Senhor afirma pela boca do profeta: «Sou Eu, o Senhor, que humilho a árvore elevada e elevo a árvore humilhada» (Ez 17,24), porque as suas palavras são conformes à palavra da Verdade: «Quem se elevar será humilhado e quem se humilhar será elevado» (Lc 14,11). […] A árvore é ainda imagem de Deus encarnado, sobre quem a Escritura diz: «É uma árvore de vida para quantos a alcançam» (Pro 3,18), e que diz de Si próprio: «Se assim é tratada a madeira verde, o que se fará ao lenho seco» (Lc 23,31). […]
«A árvore mantém a esperança; depois de cortada, voltará a reverdecer». Quando, na sua Paixão, o Justo é atingido de morte por causa da verdade, recupera a vida na frescura verde da vida eterna. E aquele que, neste mundo, encontrava a sua força na fé, encontra a sua força no alto, na visão beatífica: «e os seus ramos despontarão»; porque acontece muitas vezes que, diante da Paixão do Justo, os fiéis se multiplicam num impulso de amor pela pátria celeste, experimentando a frescura verde da vida espiritual na alegria de o terem visto agir neste mundo com tal força de alma, para glória de Deus.
Viver no tempo com os olhos na eternidade
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XII; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Tu o fortaleceste durante algum tempo para o levares para a vida eterna» (Job 14,20 Vulg). Fortalecido durante algum tempo, o homem recebeu, durante esse tempo, a força de viver neste mundo de maneira a ser levado para uma vida eterna onde nenhum limite porá termo à sua vida. Mas, neste breve período em que foi fortalecido, pôs-se em condições de encontrar na eternidade uma vida sem fim ou suplícios que sofrerá sem deles escapar.
E foi por ter sido fortalecido durante algum tempo que Job acrescenta estas palavras: «Tu o desfiguras e o afastas». O homem é desfigurado quando a sua beleza é destruída pela morte e é afastado quando é forçado a deixar os bens que adquiriu voluntariamente e a passar para a eternidade; ele ignora o que acontecerá aos bens que adquiriu com tanto esforço enquanto vivia neste mundo.
Daí que Job prossiga: «Os seus filhos serão homenageados? Serão desprezados? Não o sabe» (Job 14,21 Vulg). Com efeito, se os vivos ignoram onde se encontram as almas dos mortos, tão-pouco os mortos sabem como está ordenada a vida na carne dos que lhes sobrevivem, pois a vida do espírito está muito afastada da vida da carne. E, se a natureza do corpóreo e do incorpóreo se opõem, também o seu conhecimento é distinto. Mas tal distinção não se aplica às almas santas, que veem em si mesmas o esplendor radiante de Deus omnipotente: não é de crer que ignorem a existência que há fora delas.
O Senhor restaura as nações na fé
São Gregório Magno — Morais sobre Jó, livro XI; SC 212, conforme a edição indicada no acervo.
«Ele multiplica as nações e as destruirá; quando são derrotadas, restabelece-as integralmente» (Job 12,23).
Podemos compreender que o Senhor multiplica as nações e as destruirá, porque todos os dias nascem seres destinados a morrer, e que restabelecerá integralmente as nações derrubadas, porque os mortos ressuscitarão.
Mas compreendemos melhor estas palavras se virmos como se cumprem na alma destes povos. O Senhor multiplica as nações e destruí-las-á, porque, embora as aumente pela fecundidade da sua descendência, abandona-as à sua incredulidade. Mas, uma vez derrubadas, restabelecê-las-á integralmente, porque reconduziu à estabilidade da fé as nações que tinha abandonado à sua incredulidade. E, depois de estas nações terem sido restauradas na sua integridade espiritual, o povo antigo, que parecia ter sido fiel a Deus, foi reprovado no seu coração e rejeitado, desviando-se da sua fé e revoltando-se contra Aquele que tinha anunciado.
O texto continua: «Andarão às apalpadelas, como se estivessem mergulhados nas trevas e Ele fá-los-á andar perdidos, como homens embriagados» (Job 12,24-25).
Levantar a cabeça porque a redenção se aproxima
São Gregório Magno — Homilia I, 3, sobre os Evangelhos, conforme o cabeçalho do post.
«As forças celestes serão abaladas». As forças celestes são os anjos e arcanjos, os tronos e dominações, os principados e potestades (cf Col 1,16). Quando o Juiz vier, eles tornar-se-ão visíveis. […] Então, «hão de ver o Filho do Homem vir numa nuvem, com grande poder e glória». […] É como se disséssemos claramente: verão com poder e glória Aquele que não quiseram escutar quando veio humildemente. […] Isso foi dito a pensar nos condenados. As palavras que se seguem foram dirigidas aos eleitos, para os consolar: «Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima». É como se a Verdade advertisse claramente os seus eleitos, dizendo-lhes: quando as desgraças se multiplicarem […], alegrai-vos no vosso coração; quando estiver a acabar o mundo, do qual não sois amigos, aproxima-se a redenção que desejastes.
Aqueles que amam a Deus são convidados a alegrar-se com a aproximação do fim do mundo, pois em breve viverão no mundo que amam, depois de ter passado aquele a que não estavam apegados. Que o fiel que deseja ver a Deus evite a todo o custo chorar pelas desgraças que atingem o mundo, pois sabe que essas mesmas desgraças conduzem ao seu fim. Com efeito está escrito: «Quem quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus» (Tg 4,4). Portanto, aquele que não se alegra ao ver aproximar-se o fim deste mundo mostra que é amigo dele, dando assim provas de ser inimigo de Deus.
Não se passe isso no coração dos fiéis, daqueles que creem que existe outra vida e que provam que a amam através das suas obras. […] Com efeito, o que é esta vida mortal senão um caminho? E que loucura, meus irmãos, esgotarmo-nos neste caminho, sem querer chegar ao fim! […] Assim, meus irmãos, não ameis as coisas deste mundo que, como vemos a partir dos acontecimentos que nos rodeiam, não poderá subsistir muito tempo.
A palavra do Senhor não passará
São Gregório Magno — Homilias sobre os evangelhos, n.º 1
«Olhai a figueira e as outras árvores: quando vedes que já têm rebentos, sabeis que o verão está próximo. Assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que está próximo o Reino de Deus». É como se o nosso Redentor dissesse claramente: se sabeis que o verão está a chegar ao ver os frutos nas árvores, também podeis reconhecer, pela ruína do mundo, que o Reino de Deus está próximo. Estas palavras mostram-nos que o fruto do mundo é a sua ruína; só cresce para depois cair; não brota senão para fazer perecer com calamidades tudo o que nele desponta. É por isso que o Reino de Deus é comparado com o verão, pois nessa altura as nuvens da nossa tristeza passarão e os dias da vida brilharão com a claridade do Sol eterno. […]
«Passará o céu e a Terra, mas as minhas palavras não passarão». Na natureza das coisas materiais, não há nada mais duradouro que o céu e a Terra; e aqui na Terra não há nada que passe mais depressa que uma palavra pronunciada. […] Assim, quando o Senhor declara: «Passará o céu e a Terra, mas as minhas palavras não passarão», é como se dissesse claramente: face à eternidade, tudo o que é duradouro à vossa volta é perecedouro; e tudo o que em Mim parece passar é na verdade fixo, e não passa, pois a minha palavra que passa exprime pensamentos que permanecem imutáveis. […]
Assim, pois, meus irmãos, não ameis este mundo, que não pode durar muito tempo, como vedes. Fixai no vosso espírito este mandamento que o apóstolo João nos dá para nos alertar: «Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele» (1Jo 2,15).
As pastagens eternas do Bom Pastor
São Gregório Magno — Homilia XIV sobre os Evangelhos; tradução do Breviário, conforme a versão complementar.
Jesus disse no Evangelho: «As minhas ovelhas escutam a minha voz, Eu conheço-as, elas seguem-Me e Eu dou-lhes a vida eterna» (Jo 10,27). Um pouco antes, tinha dito: «Se alguém entrar por Mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem» (v. 9). Porque entra-se pela fé, mas sai-se da fé pela visão face a face; passando da crença à contemplação, encontraremos pastagens para o repouso eterno.
São pois as ovelhas do Senhor quem tem acesso às pastagens, porque aquele que sai na simplicidade de coração recebe em alimento uma erva sempre verde. E estas pastagens das ovelhas são as alegrias profundas de um paraíso sempre verdejante. A pastagem dos eleitos é o rosto de Deus presente, contemplado numa visão sem sombra; a alma sacia-se sem fim deste alimento de vida.
Nestas pastagens, os que escaparam à rede dos desejos deste mundo são cumulados eternamente. Ali, canta o coro dos anjos, ali são reunidos os habitantes dos céus. Ali, há uma festa alegre para os que regressam, depois dos seus trabalhos, de uma triste estadia no estrangeiro. Ali se encontram o coro dos profetas de olhos penetrantes, os doze apóstolos juízes, a armada vitoriosa dos inúmeros mártires, tanto mais felizes quanto foram aqui em baixo duramente afligidos. Nesse lugar, é recompensada a constância dos confessores da fé. Ali se encontram os homens fiéis a quem os prazeres deste mundo não puderam amolecer a força de alma, as santas mulheres que venceram toda a fragilidade ao mesmo tempo que a este mundo; ali estão as crianças que pela sua maneira de viver se elevaram acima dos seus anos, os anciãos que a idade não pôde enfraquecer aqui em baixo e que não perderam a força para trabalhar. Irmãos bem amados, ponhamo-nos em busca dessas pastagens, onde seremos felizes na companhia de tantos santos.
Procuremos pois, irmãos caríssimos, alcançar estas pastagens, onde poderemos alegrar-nos na companhia dos cidadãos do céu. A alegria festiva dos bem-aventurados nos estimule. Reanimemos o nosso espírito, irmãos; afervore-se a nossa fé nas verdades em que acreditamos; inflame-se a nossa inspiração pelas coisas do céu. Amar assim já é caminhar. Nenhuma contrariedade nos afaste da alegria desta solenidade interior. Se alguém, com efeito, deseja atingir um lugar determinado, não há obstáculo no caminho que o demova do seu intento. Nenhuma prosperidade sedutora nos iluda. Insensato seria o viajante que, contemplando a beleza da paisagem, se esquecesse de continuar a sua viagem até ao fim.
Nota editorial: A imagem das pastagens e a exortação final à perseverança foram reunidas sem repetir a parte comum.
Que o amor nos atraia a seguir Cristo no céu
São Gregório Magno — Homilias sobre os Evangelhos, n.º 29
«O Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi elevado ao céu e sentou-Se à direita de Deus» (Mc 16,19). Partia assim para o lugar de onde era, regressava de um lugar onde continuava a permanecer; com efeito, no momento em que subia ao céu com a sua humanidade, unia pela sua divindade o Céu e a Terra. O que temos de destacar na solenidade de hoje, irmãos bem amados, é a supressão do decreto que nos condenava e do julgamento que nos votava à corrupção. Na verdade, a natureza humana a quem se dirigem estas palavras: «Tu és terra e regressarás à terra» (Gn 3,19), essa natureza subiu hoje ao Céu com Cristo. É por isso, caríssimos irmãos, que temos de segui-l’O com todo o nosso coração, até ao lugar onde sabemos pela fé que Ele subiu com o seu corpo. Fujamos dos desejos da Terra: que nenhum dos lugares cá de baixo nos entrave, a nós que temos um Pai nos céus.
Pensemos também que aquele que subiu aos céus cheio de suavidade regressará com exigências. […] Eis, meus irmãos, o que deve guiar a vossa ação; pensai nisso continuamente. Mesmo que estejais presos na confusão dos assuntos deste mundo, lançai desde hoje a âncora da esperança para a pátria eterna (Hb 6,19). Que a vossa alma procure apenas a verdadeira luz. Acabamos de ouvir que o Senhor subiu ao céu; pensemos seriamente naquilo em que acreditamos. Apesar das fraquezas da natureza humana, que nos retém ainda cá em baixo, que o amor nos atraia a segui-lo, porque estamos certos de que aquele que nos inspirou este desejo, Jesus Cristo, não nos decepcionará na nossa esperança.
Fontes e critérios
As traduções portuguesas procedem do acervo Sophia, com fonte declarada Evangelho Cotidiano / Evangelizo, e dos itens 13, 14 e 23 de Sophia.docx. Conservam-se os dados disponíveis da Patrologia Latina, do Breviário, de Le Barroux, de Delhougne e de Luc commenté. A edição SC 212 abrange os livros XI–XIV dos Morais sobre Jó. A designação «Jacob», presente em alguns cabeçalhos, foi corrigida para Jó.
Conferência bibliográfica: SC 212, Morales sur Job, livres XI–XIV, Éditions du Cerf. Cotejo das localizações em tradução histórica: Morais sobre Jó, livro XI, livro XII, livro XIII e livro XIV.
A categoria do acervo inclui textos cuja própria fonte identifica Gregório de Nissa, Gregório de Nazianzo, Gregório de Agrigento ou o Taumaturgo. Esses textos foram reservados para os respectivos autores. Também foram separados sermões com referências leoninas ou atribuição por esclarecer e dois excertos de um comentário aos salmos penitenciais cuja autenticidade não foi confirmada nesta preparação.
Os excertos conservam a linguagem e as interpretações alegóricas das traduções recebidas; as notas identificam as localizações corrigidas. Não se trata de nova tradução nem de edição crítica. Os mapas de origem, as reservas e os cotejos permanecem no registro editorial interno. Preparação em 21 de outubro de 2026.



