São Nicolau Cabasilas

A vida em Cristo

20 de dezembro de 2009 — São Nicolau Cabasilas (1320-1363), teólogo grego — A vida em Cristo, I, II. Trad. it. cit., UTET, pp. 72-74

O Salvador está sempre e totalmente presente aos que vivem nele: provê a toda necessidade deles, é todo para eles e não permite que dirijam o olhar para nenhum outro objeto, nem que busquem coisa alguma fora dele.

Com efeito, não há nada de que tenham necessidade os santos, a não ser ele: ele os gera, os faz crescer e os alimenta, é luz e respiração, por si plasma neles o olhar, o ilumina por meio de si e enfim se oferece a si mesmo à visão deles. Ao mesmo tempo nutre e é alimento; é ele que concede o pão da vida, e o que ele concede é a si mesmo; é a vida dos viventes, o perfume de quem respira, a veste para quem quer vesti-Ia.

E ainda ele que nos concede poder caminhar e é o caminho, e também o lugar de repouso e a meta. Nós somos os membros, ele a cabeça. É preciso combater? Ele combate conosco e é ele que dá a vitória a quem se fez honra. Vencemos? Pois é ele a coroa. Assim de toda parte reconduz a si a nossa mente e não permite que se dirija a nenhum outro, nem que seja tomada de amor por em outra coisa. Se voltarmos o desejo numa direção, ele o detém e o sacia; se em outra, de novo; se numa outra ainda, é sempre ele que ocupa também esse caminho e segura quem passa.

“Se subo aos céus, tu lá estás; se me deito no Xeol, aí te encontro. Se tomo as asas da alvorada para habitar nos limites do mar, mesmo lá é tua mão que me conduz, e tua mão direita me sustenta” (SI 139,8-10).

Com certa maravilhosa violência, com tirania amiga, a si só nos atrai, a si só nos une.

É esta, creio eu, aquela violência com a qual obriga os convidados a entrar na sua casa e ao seu banquete, dizendo ao servo: “Obriga-os a entrar, até que esteja cheia a minha casa” (Lc 14,13)2.

S. Nicolas Cabasilas (1320-1363), teólogo grego, A vida em Cristo, I, lI. Trad. it. cit., UTET, pp. 72-74.

O fruto mais excelente da Redenção

20 de dezembro de 2009 — São Nicolau Cabasilas (1320-1363), teólogo leigo grego — Homilia mariana

Era necessário que a Virgem fosse associada a seu Filho em tudo quanto diz respeito à nossa salvação. Assim como ela O fez participante da sua carne e do seu sangue e foi gratificada em recompensa dos seus benefícios, do mesmo modo tomou parte em todos os seus sofrimentos e dores. Ele foi pregado à cruz e trespassado no peito pela lança; ela teve o coração trespassado por uma espada, como lhe tinha anunciado o santo Simeão (Lc 2, 35).

A primeira, foi levada em conformidade à morte do Salvador por uma morte semelhante à sua (Rm 6, 5). Por isso é que ela tomou parte na Ressurreição antes de todos os outros. De facto, depois que o Filho destruiu a tirania do inferno, ela teve a felicidade de O ver ressuscitado e de receber a sua salvação e acompanhou-O, tanto quanto pôde, até à Sua partida para o Céu. Depois da ascensão, tomou o lugar que o Salvador deixara livre entre os Seus apóstolos e os outros discípulos, acrescentando assim aos benefícios que Deus tinha dispensado à humanidade, o de completar o que faltava a Cristo (Col 1, 24), muito melhor do que qualquer outra pessoa.

Mais do que a qualquer outro, não convinha isto à sua mãe?

Mas era preciso que esta alma santíssima se desprendesse deste corpo sacratíssimo. Ela deixou-o e uniu-se à alma do Filho, ela, uma luz criada, unida à luz sem princípio. E o seu corpo, depois de ter ficado algum tempo sobre a terra, foi também elevado ao Céu.

S. Nicolas Cabasilas (l320-l363), teólogo leigo grego Homilia mariana

Deus à nossa procura

20 de dezembro de 2009 — São Nicolau Cabasilas (1320-1363), teólogo leigo grego — A Vida em Jesus Cristo

Os sacramentos são os sinais da morte e da sepultura de Cristo. Graças a eles nós somos gerados para a vida sobrenatural, crescemos e estamos unidos duma maneira admirável ao Salvador. Por eles, segundo a palavra de S. Paulo, « temos a vida, o movimento e o ser» (Ac l7,28)

O baptismo permite-nos ser e subsistir em Cristo; a santa unção confirma o novo cristão, comunicando-lhe as energias próprias para esta vida; a eucaristia prolonga esta vida e a mantém em todo o seu vigor. Resumindo, nós vivemos deste pão, nos fortificamos por esta unção, depois de termos recebido o ser nesta imersão.

Assim, nós vivemos em Deus, transportados deste mundo visível ao mundo invisível. Nós não mudamos de lugar mas de existência e de vida: pois não somos nós que nos movemos e elevamos para Deus, mas foi Deus que veio e desceu até nós. Nós não procuramos, nós fomos procurados. Não é a ovelha que se põe em busca do Pastor, nem a moeda de prata do dono da casa; mas foi o Mestre que se inclinou para a terra e encontrou a sua imagem, foi o Pastor que se dirigiu para o lugar onde errava a ovelha e que, tendo-a posto sobre os ombros, reconduziu-a dos seus desvarios. Ele não nos transportou, por isso, a outro lugar, mas deixou-nos na terra e tornou-nos celestes pela infusão da sua vida nas nossas almas. Ele não nos eleva aos céus, mas baixa os Céus até nós, segundo a palavra do salmo: « Ele inclinou os céus e desceu» (Sl.l7,l0).

S. Nicolas Cabasilas (l320-l363), teólogo leigo grego A Vida em Jesus Cristo

Eis que faço novas todas as coisas

19 de julho de 2009 — São Nicolau Cabasilas (1320-1363), teólogo ortodoxo leigo grego — Homilia para a Natividade da Mãe de Deus, 16, 18

Quando chegou para a natureza humana o momento de se encontrar com a natureza divina e de ficar unida a ela tão intimamente que as duas não formassem senão uma só pessoa, cada uma delas devia necessariamente ter-se manifestado já na sua integridade. No que toca a Deus, Ele tinha-se revelado da maneira que convinha a Deus; a Virgem é aquela que dá à luz a natureza humana… Até parece que, se Deus se misturou com a natureza humana não na sua origem mas no fim dos tempos (Ga 4,4), foi porque, antes desse momento, esta natureza ainda não tinha plenamente nascido, ao passo que agora, em Maria, ela aparece pela primeira vez na sua integridade…

É tudo isto que viemos celebrar hoje, com todo o seu brilho. O dia do nascimento da Virgem é também o do nascimento da humanidade inteira, porque esse dia viu nascer o primeiro ser plenamente humano. Agora, “a terra” verdadeiramente “deu o seu fruto” (Sl 66,7), esta terra que, desde sempre, entre silvas e espinhos, apenas tinha produzido a corrupção do pecado (Gn 3,18). Agora o céu sabe que não foi criado em vão, uma vez que a humanidade, para a qual foi construido, vê a luz do dia…

É por isso que toda a criação faz subir até à Virgem um louvor sem fim, que todas as línguas cantam a sua glória em uníssono, que todos os homens e todos os coros dos anjos não cessam de compor hinos à Mãe de Deus. Também nós a cantamos e lhe oferecemos todos juntos o nosso louvor… Só a ti, Virgem digna de todo o louvor, assim com ao teu amor pelos homens, cabe apreciar o benefício da graça obtida não por nós mas pela tua generosidade. Escolhida como dom oferecido a Deus entre toda a nossa raça, revestiste de beleza o resto da humanidade. Santifica, pois, o nosso coração que concebeu as palavras que te dirigimos e impede o terreno da nossa alma de produzir qualquer mal, pela graça e bondade de teu Filho único, Senhor nosso Deus e nosso Salvador, Jesus Cristo.

São Nicolau Cabasilas (c. 1320-1363), teólogo ortodoxo leigo grego Homilia para a Natividade da Mãe de Deus, 16, 18

Vinde, benditos de meu Pai, recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo

19 de julho de 2009 — São Nicolau Cabasilas (1320-1363), teólogo ortodoxo leigo grego — A Vida em Jesus Cristo, Livro 4, 93-97; 102

«Depois de haver completado a purificação dos pecados, sentou-Se à direita da majestade divina nas alturas» (Heb 1, 3). […] Foi, pois, para nos servir que Ele veio de junto de Seu Pai a este mundo. E o cúmulo é que não é apenas no momento em que aparece nesta terra, revestido da enfermidade humana, que Se apresenta sob a forma de escravo, escondendo a Sua qualidade de senhor; será também mais tarde, no dia em que vier com todo o Seu poder e aparecer em toda a glória de Seu Pai, aquando da Sua manifestação. Quando vier no Seu reino, «cingir-Se-á, mandará que se ponham à mesa e servi-los-á» (Lc 12, 37). Eis Aquele pelo Qual reinam os soberanos e governam os príncipes!

É assim que Ele há-de exercer a Sua realeza, verdadeira e sem mancha […]; é assim que Ele domina aqueles que submeteu ao Seu poder: mais amável que um amigo, mais equitativo que um príncipe, mais terno que um pai, mais íntimo que os membros, mais indispensável que o coração. Ele não Se impõe pelo medo, nem submete através do salário. Somente em Si mesmo encontra a força do Seu poder, apenas prende os que Se lhe submetem. Porque reinar pelo medo ou com vista a um salário não é governar por si mesmo, mas pela esperança do lucro ou pela ameaça. […]

É preciso que Cristo reine em sentido próprio; qualquer outra autoridade é indigna Dele. Ele soube chegar a este ponto por uma via extraordinária […]: para Se tornar o verdadeiro Senhor, abraça a condição de escravo e torna-Se servo de escravos, até à cruz e à morte; e assim arrebata a alma dos escravos e apodera-Se directamente da vontade deles. Sabendo que é esse o segredo deste modo de reinar, Paulo escreve: «Humilhou-Se a Si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso é que Deus O exaltou» (Fil 2, 8-9). […] Pela primeira criação, Cristo é senhor da natureza; pela nova criação, tornou-Se senhor da nossa vontade. […] É por isso que Ele diz: «Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra» (Mt 28, 18).

São Nicolau Cabasilas (c. 1320-1363), teólogo ortodoxo leigo grego A Vida em Jesus Cristo, Livro 4, 93-97; 102

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