São Pascásio Radberto — Antologia de comentários ao Evangelho

Três comentários de São Pascásio Radberto sobre a fé que pede a cura, a humildade no serviço e a união de Cristo com a Igreja. Os excertos foram reunidos do acervo Sophia e do documento Sophia.docx, com as referências disponíveis e as omissões indicadas nas fontes.

Sumário

«Quero: fica limpo»

São Pascásio Radberto — Comentário sobre o Evangelho de Mateus, 5, 8; CCM 56 A, 475–476, conforme a fonte.

O Senhor cura todos os dias a alma de todos os homens que Lho imploram, que O adoram piedosamente e que proclamam com fé estas palavras: «Senhor, se quiseres, podes curar-me», seja qual for o número das suas faltas; pois «com o coração se acredita para obter a justiça» (Rom 10,10). Temos, pois, de dirigir os nossos pedidos a Deus cheios de confiança, sem nunca duvidar do seu poder. […] É por essa razão que o Senhor responde imediatamente ao leproso que Lho suplica: «Quero». Porque, mal o pecador começa a orar com fé, a mão do Senhor começa a tratar a lepra da sua alma. […]

Este leproso dá-nos um conselho muito bom sobre a forma de rezar: não põe em dúvida a vontade do Senhor, como se se recusasse a crer na sua bondade; mas, consciente da gravidade das suas faltas, também não presume dessa vontade. Ao dizer ao Senhor que, se Ele quiser, pode purificá-lo, afirma que esse poder pertence ao Senhor, ao mesmo tempo que afirma a sua fé. […] Se a fé for fraca, terá primeiramente de ser fortificada; pois só então revelará todo o seu poder para obter a cura da alma e do corpo.

É sobre esta fé que fala o apóstolo Pedro quando diz que o Senhor purificou «os seus corações pela fé» (At 15,9). […] A fé pura, vivida no amor, mantida pela perseverança, paciente na espera, humilde na sua afirmação, firme na confiança, cheia de respeito na oração e de sabedoria no que pede, tem a certeza de escutar em todas as circunstâncias esta palavra do Senhor: «Quero».

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A humildade de Cristo e o serviço de todos

São Pascásio Radberto — Comentário sobre o Evangelho de Mateus, livro X, sobre Mt 23,11–12.

«Quem se humilha será exaltado». Cristo não Se limitou a dizer aos seus discípulos que não permitissem que lhes chamassem mestres e que não ocupassem os primeiros lugares nos banquetes nem recebessem qualquer outra honra; deu Ele próprio o exemplo e o modelo da humildade na sua pessoa. Se é certo que o nome de mestre não Lhe era dado por complacência, mas por direito natural, pois «nele tudo subsiste» (cf Col 1,17), pela sua assunção de carne mortal comunicou-nos um ensinamento que nos conduz a todos à verdadeira vida; e, porque Ele é maior que nós, reconciliou-nos com Deus (cf Rm 5,10). Foi como se nos dissesse: não ameis as honrarias, não desejeis que vos chamem mestres, do mesmo modo que «Eu não procuro a minha glória; há Alguém que a procura e faz justiça» (Jo 8,50). Fixai os olhos em Mim, porque «o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção dos homens» (Mt 20,28).

Nesta passagem do Evangelho, o Senhor não instrui apenas os seus discípulos, mas também os chefes da Igreja, prescrevendo a todos que não se deixem levar pela avidez na procura de honrarias. Pelo contrário, quem quiser tornar-se grande seja o primeiro a fazer-se, como Ele, servo de todos (cf Mt 20,26-27).

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Cristo e a Igreja: as núpcias eternas

São Pascásio Radberto — Comentário sobre o Evangelho de Mateus, livro X, sobre Mt 22,1–2; PL 120, 741B–D.

Uma união estranha e extraordinária teve lugar quando «o Verbo encarnou» no seio da Virgem e «habitou entre nós» (Jo 1,14). Da mesma forma que todos os eleitos ressuscitaram em Cristo quando Ele ressuscitou, assim também nele foram celebradas núpcias: a Igreja foi unida a um Esposo pelos laços do matrimónio quando o homem-Deus recebeu em plenitude os dons do Espírito Santo e toda a divindade veio habitar num corpo semelhante ao nosso. […] Cristo tornou-Se homem pelo Espírito Santo e, «como um esposo [que sai] do seu leito» (Sl 19,6), saiu do seio da Virgem, que foi o seu quarto nupcial. Mas a Igreja, renascendo da água no mesmo Espírito, torna-se um só corpo em Cristo, de tal modo que «serão os dois uma só carne» (Mt 19,5), coisa que, em relação a Cristo e à Igreja, é um grande mistério (cf Ef 5,32).

Esse casamento dura desde o princípio da Encarnação de Cristo até ao momento em que Cristo virá e se realizarão todos os ritos da união nupcial. Então, aqueles que estiverem preparados e tiverem observado convenientemente as condições de uma tão grande união, entrarão com Ele, cheios de respeito, na sala das núpcias eternas (cf Mt 25,10). Enquanto espera, a esposa prometida a Cristo caminha para o seu Esposo, e observa a aliança com Ele todos os dias, com fé e ternura, até que Ele venha.

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Fontes e critérios

As traduções portuguesas são as preservadas no acervo Sophia e no fragmento 42 de Sophia.docx. Esta reunião não constitui nova tradução. A forma do nome foi uniformizada para Pascásio Radberto; o documento traz Pascácio Radbert. Foram normalizados espaços e corrigida a junção «cfEf» para «cf Ef».

A referência abreviada «10,23» do excerto sobre a humildade foi explicitada como livro X, comentário a Mateus 23. O fragmento sobre as núpcias foi localizado no mesmo livro, no comentário a Mateus 22. A referência editorial CCM do primeiro excerto reproduz o acervo.

Cotejo: Expositio in Matthaeum, livro X, texto latino, edição Migne.

Os mapas de origem permanecem no registro editorial interno. Organização editorial preparada em 18 de outubro de 2026.

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