«O discípulo predileto de Jesus disse a Pedro: “É o Senhor”». Aquele que é amado é o primeiro a ver; o amor faz incidir um olhar mais atento sobre todas as coisas; aquele que ama sente sempre com mais vivacidade. […] Que dificuldade torna a mente de Pedro tão lenta e o impede de ser o primeiro a reconhecer Jesus, como tinha feito anteriormente? Onde está aquele testemunho singular que o fizera exclamar: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo»? (Mt 16,16) Onde está ele? Em casa de Caifás, o sumo-sacerdote, Pedro não tivera dificuldade em ouvir o murmúrio de uma serva; agora, porém, tarda em reconhecer o seu Senhor.
«Quando ouviu dizer que era o Senhor, vestiu a túnica, que tinha tirado». Que coisa estranha, meus irmãos! […] Pedro entra nu na barca e deita-se ao mar vestido! […] Em geral, os culpados tapam-se para se dissimularem. Tal como Adão, Pedro deseja esconder a sua nudez após o seu pecado; antes de pecarem, estavam ambos vestidos com uma nudez santa. «Vestiu a túnica, que tinha tirado, e lançou-se ao mar». Pedro esperava que o mar lavasse essa peça de roupa sórdida que era a traição; lançou-se ao mar para voltar a ser o primeiro, aquele a quem tinham sido confiadas grandes responsabilidades (cf Mt 16,18ss); vestiu a túnica, cingindo-se para o combate do martírio, segundo as palavras do Senhor: «E outro te cingirá e te levará para onde não queres» (Jo 21,18). […]
Os outros apóstolos vêm com o barco, puxando a rede cheia de peixes: com muito esforço, arrastam consigo a Igreja, lançada aos ventos do mundo. É ela que estes homens trazem na rede do Evangelho para a luz do Céu, que arrancam aos abismos para a conduzir até junto do Senhor.
São Pedro Crisólogo (c. 406-450)
Sermão 78; PL 52, 420
Fonte: Evangelho Quotidiano


