Como é que o corpo do Senhor, uma vez ressuscitado, continuou a ser um corpo verdadeiro, podendo, ao mesmo tempo, entrar no local onde os discípulos se encontravam apesar de as portas estarem fechadas?
Devemos estar cientes de que a ação divina nada teria de admirável se a razão humana pudesse compreendê-la; e que a fé não teria mérito se o intelecto lhe fornecesse provas experimentais. Sendo, por si mesmas, incompreensíveis, tais obras do nosso Redentor devem ser meditadas à luz das outras ações do Senhor, de forma que sejamos levados a acreditar nestes seus feitos maravilhosos por força daqueles que ainda o são mais. Com efeito, o corpo do Senhor que se juntou aos discípulos não obstante estarem as portas fechadas é o mesmo que a natividade tornou visível aos homens, ao sair do seio fechado da Virgem. Não fiquemos, pois, admirados de que o nosso Redentor, depois de ter ressuscitado para a vida eterna, tenha entrado com as portas fechadas, porque, tendo vindo ao mundo para morrer, Ele saiu do seio da Virgem sem o abrir.
E, como a fé daqueles que O viam era ainda hesitante, o Senhor convidou-os a tocarem essa carne que atravessara portas fechadas […]. Ora, aquilo que podemos tocar é necessariamente corruptível, e o que não é corruptível é intocável. Porém, após a sua ressurreição, o nosso Redentor deu-nos a possibilidade de ver, de forma maravilhosa e incompreensível, um corpo que era a um tempo incorruptível e palpável. Mostrando-o incorruptível, convidava-nos à recompensa; dando-o a tocar, confirmava-nos na fé. Fez, pois, com que O víssemos incorruptível e palpável para manifestar firmemente que o seu corpo ressuscitado continuava a ter a mesma natureza, mas tinha sido elevado a uma glória absolutamente diferente.
São Gregório Magno (c. 540-604)
Homilias sobre os Evangelhos, n.° 26; PL 76,1197
Fonte: Evangelho Cotidiano


