Bispo de Alexandria, Confessor e Doutor da Igreja
Nascido c. 296, falecido em 2 de maio de 373

O século IV, conhecido como a Idade de Ouro da literatura cristã, apresenta-nos a figura grandiosa de Santo Atanásio de Alexandria. Seu gênio contribuiu imensamente para o fortalecimento da Igreja, mais do que qualquer favor imperial concedido por Constantino. Seu nome está para sempre ligado ao triunfo do Símbolo de Nicéia, que ainda hoje recitamos na liturgia.

Dom Guéranger, grande autor eclesiástico do século XIX, comenta:

“Há nome mais ilustre que o de Santo Atanásio entre os seguidores da Palavra da Verdade que Jesus trouxe à Terra? Não é este nome símbolo do valor indomável na defesa do depósito sagrado, da firmeza do herói diante das mais terríveis provas, da ciência, do gênio, da eloquência, de tudo o que pode representar o ideal de santidade de um Pastor fiel à doutrina divina? Atanásio viveu para o Filho de Deus; Sua causa foi a de Atanásio. Quem estava com Atanásio, estava com o Verbo eterno, e quem maldizia o Verbo eterno, maldizia Atanásio.”

Comemoramos esse grande Santo no dia 2 de maio.

 

1. Arianismo: Heresia Devastadora

Desde os primeiros séculos da Igreja, Deus permitiu o surgimento de heresias. Ao refutá-las, os doutores da Igreja esclareceram melhor a doutrina católica, consolidando os fundamentos da fé cristã.

Uma das heresias mais destrutivas foi o arianismo, surgido no século III e fortalecido no século IV, devido ao apoio de bispos e imperadores.

No final do século III, Melécio, bispo de Licópolis, entrou em cisma com São Pedro de Alexandria por discordar da reintegração de cristãos que haviam cedido à perseguição. Ário, um presbítero de Alexandria, juntou-se aos cismáticos e começou a difundir uma doutrina que negava a divindade de Cristo. Santo Alexandre, Patriarca de Alexandria, condenou essa heresia.

2. Atanásio: Sustentáculo Anti-Ariano

A heresia ariana espalhou-se rápida e perigosamente, encontrando apoio entre os poderosos do mundo. O imperador Constantino, preocupado com a divisão, enviou Ósio de Córdoba a Alexandria para mediar o conflito. Percebendo a gravidade do erro, Ósio aconselhou a convocação do Concílio de Nicéia (325), que condenou o arianismo e formulou o Credo Niceno.

Foi nesse concílio que um jovem e brilhante teólogo, então secretário do Patriarca Alexandre, se destacou por sua eloquência e fervor na defesa da ortodoxia: Atanásio.

3. Moldador dos Acontecimentos

Atanásio possuía uma combinação singular de intelecto aguçado, intuição rápida e coragem inabalável. Era de estatura baixa, mas sua personalidade era gigantesca. Sua fé e determinação foram fundamentais para a sobrevivência da ortodoxia contra o arianismo.

4. Jovem Patriarca de Alexandria

Aos trinta anos, Atanásio sucedeu Santo Alexandre na Sé de Alexandria. Seu episcopado foi marcado por constantes ataques dos arianos e perseguições por parte do império.

5. A Astúcia dos Santos

Os hereges tentaram desacreditar Atanásio com acusações falsas. Em um concílio em Tiro, apresentaram uma mulher que o acusou de abusos. Um sacerdote aliado de Atanásio aproximou-se dela e perguntou: “Foi este homem que te atacou?” Ela, enganada, respondeu “Sim!” — sem saber que falava com outra pessoa. A farsa foi desmascarada.

6. Exílio Causado por Amor à Ortodoxia

Os arianos, com apoio imperial, exilaram Atanásio cinco vezes. Ele passou anos entre Treveris, Roma e o deserto do Egito, onde conviveu com monges e escreveu obras teológicas de imensa relevância.

7. Perseguição Inclemente ao Santo

Mesmo com constantes exílios, Atanásio não cedeu. Retornou a Alexandria sempre que possível, sendo acolhido calorosamente pelo povo. No fim da vida, com a ascensão de imperadores mais favoráveis à ortodoxia, conseguiu governar em relativa paz até sua morte, em 2 de maio de 373.

8. O Grande Iluminador

O Bispo Bossuet afirmou sobre Atanásio:

“No caráter de Atanásio, tudo é grandioso. Sua energia prodigiosa resplandece em tempos decisivos. Sua grandeza o coloca entre os mais admiráveis personagens da história da humanidade. Como escritor e Doutor, foi um grande iluminador e coluna fundamental da Igreja.”

São Atanásio, o Grande, Bispo de Alexandria (II)

Nascido por volta de 296, falecido em 2 de maio de 373

São Atanásio foi o maior defensor da fé católica no tema da Encarnação que a Igreja já conheceu. Durante sua vida, recebeu o título de “Pai da Ortodoxia”, pelo qual é reconhecido até hoje. Apesar da complexidade cronológica de sua trajetória, os principais acontecimentos de sua vida podem ser reconstruídos a partir de suas obras e dos registros contemporâneos.

Infância e Formação

Atanásio nasceu em Alexandria, provavelmente entre os anos 296 e 298. Algumas fontes indicam o ano de 293, mas essa data é questionável. Sua família é pouco conhecida, e há indícios de que ele tenha recebido uma educação reservada às classes mais altas. Seu aprendizado incluiu gramática, retórica e filosofia, preparando-o para uma futura carreira eclesiástica.

Conta-se que sua primeira apresentação ao bispo Alexandre ocorreu em circunstâncias peculiares. Observando um grupo de crianças brincando à beira-mar, o bispo percebeu que imitavam o ritual do batismo cristão. Após questioná-las, constatou que Atanásio, que desempenhava o papel de bispo, havia batizado alguns dos colegas. Impressionado, Alexandre tomou o jovem sob sua tutela e supervisionou sua formação religiosa.

Ascensão e o Concílio de Nicéia

Desde cedo, Atanásio demonstrou um zelo fervoroso pela fé. Antes dos 20 anos, escreveu dois tratados fundamentais: Contra os Pagãos e Sobre a Encarnação, onde expôs os princípios da fé cristã. Durante a controvérsia ariana, Atanásio emergiu como o principal opositor da heresia, defendendo que Cristo é consubstancial ao Pai.

Em 325, acompanhou o bispo Alexandre ao Primeiro Concílio de Nicéia, onde se destacou pela eloquência e clareza na defesa da ortodoxia. O concílio resultou na condenação do arianismo e na formulação do Credo Niceno, estabelecendo que Cristo é “da mesma substância do Pai” (homoousios). Cinco meses após o concílio, Alexandre faleceu, e Atanásio foi escolhido como seu sucessor, apesar de sua juventude.

Primeiros Conflitos e Exílio

Os primeiros anos de seu episcopado foram marcados pela administração pastoral e pela consolidação da fé. No entanto, os seguidores de Ário, liderados por Eusébio de Nicomédia, conseguiram influenciar o imperador Constantino e lançar falsas acusações contra Atanásio, incluindo imposição de impostos ilegais e profanação dos sacramentos. Em 335, foi convocado a um sínodo em Tiro, onde foi condenado em sua ausência. Em resposta, fugiu para Constantinopla e apelou diretamente ao imperador, que o exilou em Tréveris.

Dois anos depois, após a morte de Constantino, Atanásio foi chamado de volta a Alexandria. Seu retorno foi celebrado com júbilo, mas seus adversários continuaram a conspirar contra ele. Em 340, um bispo ariano, Gregório da Capadócia, foi imposto à força na sede de Alexandria, obrigando Atanásio a fugir para Roma. O Papa Júlio I convocou um sínodo que reafirmou sua inocência, mas a perseguição persistiu.

A Luta pela Ortodoxia

Em 343, Atanásio participou do Concílio de Sárdica, que o apoiou e excomungou seus opositores. Entretanto, a instabilidade política no império favoreceu o partido ariano. Exilado novamente, buscou refúgio no deserto egípcio, onde conviveu com os monges e fortaleceu a vida monástica.

Com a ascensão do imperador Juliano, em 361, um decreto permitiu o retorno dos bispos exilados, e Atanásio voltou a Alexandria. Contudo, sua presença incomodava o novo imperador, que ordenou sua expulsão. Em outubro de 362, Atanásio teve de se esconder novamente, mas, com a morte de Juliano em 363, foi reinstalado pelo imperador Joviano.

Últimos Anos e Legado

A instabilidade continuou durante o reinado de Valentiniano, que inicialmente apoiou os arianos. Mais uma vez, Atanásio foi obrigado a deixar Alexandria, refugiando-se por meses em uma tumba familiar. Eventualmente, o imperador permitiu seu retorno, e seus últimos anos foram dedicados à reafirmação do Credo Niceno e ao fortalecimento da Igreja contra o arianismo.

São Atanásio faleceu pacificamente em 2 de maio de 373, após uma vida de lutas em defesa da ortodoxia cristã. Sua festa é celebrada no calendário litúrgico da Igreja no dia de sua morte.

Seus escritos continuam sendo um dos mais importantes testemunhos teológicos da Igreja primitiva, sendo fundamentais para a consolidação da doutrina cristã sobre a Trindade e a Encarnação.