«O ímpio é orgulhoso todos os dias da sua vida» (Job 15,20, Vulg). Nem os eleitos estão imunes ao orgulho em alguns dos seus pensamentos e até nas suas ações. Mas, como são eleitos, não são soberbos todos os dias, uma vez que, antes de chegarem ao fim da vida, deixam que o seu coração se transforme de desmesura em temor, em humildade. Pelo contrário, o ímpio não passa um único dia sem soberba, pois termina a sua vida sem se afastar por um momento da desmesura. O seu olhar procura o que floresce no tempo, e ele desdenha considerar para onde será levado naLeia mais →

«A memória da vossa vida será comparada à cinza» (Jb 13,12 Vg). Aqueles cujo pensamento terreno os modela com base no século procuram deixar neste mundo, em cada um dos seus atos, a memória da sua pessoa; quer se trate de títulos de guerra, dos muros altaneiros dos edifícios ou de tratados eloquentes sobre as ciências do século, todos se esforçam incansavelmente por criar um nome que não seja esquecido. Mas a vida corre muito depressa para o seu fim e não pode garantir qualquer estabilidade, uma vez que também ela, na sua mobilidade, se escoa rapidamente. Com efeito, um sopro leva a cinza, comoLeia mais →

Ouço falar da ressurreição e interrogo-me sobre o futuro dessa ressurreição. Com efeito, creio que estou destinado a ressuscitar, mas quero que me digam que tipo de ser serei. Preciso de saber se ressuscitarei noutro corpo, talvez sutil, isto é, aéreo, ou no corpo em que morrerei. Mas, se ressuscitar num corpo aéreo, já não serei eu a ressuscitar. Como pode haver verdadeira ressurreição se a minha carne não pode ser verdadeira carne? A razão sugere-nos claramente que, se não houver verdadeira carne, não haverá, obviamente, verdadeira ressurreição. Não, não temos o direito de falar de ressurreição enquanto aquilo que sucumbiu não ressuscitar. Pois bem,Leia mais →

«Tem os ouvidos cheios de ruídos aterradores, e no meio da paz suspeita de armadilhas» (Jb 15-21, Vg). Pelo contrário, não há coisa mais feliz que um coração simples, que, mostrando-se aos outros pela inocência, nada tem a temer deles; pelo contrário, na sua simplicidade, é como cidadela fortificada, não o preocupa ter de sofrer da parte dos outros aquilo que ele próprio não se lembra de ter feito. Daí as sábias palavras de Salomão: «O temor do Senhor dá firme confiança» (Pr 14,26); e ainda: «A alma segura é como um banquete contínuo» (Pr 15,15). A paz da segurança é como um alimento queLeia mais →

Nasceu pelo Espírito Santo de Mãe virgem, e pelo mesmo Espírito fecunda a sua Igreja puríssima, a fim de que, pelo nascimento do batismo, uma multidão inumerável de filhos seja gerada para Deus. Deles se diz que «não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus» (Jo 1,13). É nele que a descendência de Abraão é abençoada pela adoção de todo o mundo, e que o patriarca se torna pai das nações quando os filhos da promessa nascem da fé e não da carne. Sem excetuar nenhum povo, Ele forma, de todas as nações que há debaixoLeia mais →

A natureza humana foi assumida pelo Filho de Deus tão intimamente que não só nele, «o primogênito de toda a criatura» (Cl 1,15), mas em todos os santos, há apenas um e mesmo Cristo. E, tal como a cabeça não se pode separar dos membros, também os membros não podem ser separados da cabeça. […] Sofre com Ele, não apenas a coragem gloriosa dos mártires, mas também a fé de todos os que renascem do banho da regeneração. Com efeito, quando renunciamos ao diabo para crer em Deus, quando passamos da vetustez à renovação, quando depomos a imagem do homem terreno para nos revestirmos daLeia mais →

«E eis que um mentiroso se levanta diante de mim e fala contra mim» (Jb 16,8 Vg). Até nas suas horas de tranquilidade a Santa Igreja é assolada pela mentira, pois há no seu seio muitos espíritos que, já não sendo fiéis à promessa da eternidade, mentem, dizendo-se fiéis. E, como eles não têm coragem para contradizer abertamente a sua pregação, ela suporta a mentira, não cara a cara, mas, por assim dizer, pelas costas. Quando, porém, soa a hora do maligno, aquele que agora calunia com medo vem contradizê-la na cara e as palavras da verdadeira fé são bloqueadas pelo seu clamor. Mas temosLeia mais →

«É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos que lhe são fiéis» (Sl 115,15). Quem deseja saber se em si habita o Deus de quem se disse: « Deus é prodigioso desde o seu santuário, pois é Ele o Deus de Israel, que dá força e vigor ao seu povo» (Sl 67,36) perscrute por um exame sincero o fundo do seu coração e busque atentamente com que humildade é capaz de resistir ao orgulho, com que benevolência consegue combater a inveja, até que ponto não se deixa levar por palavras lisonjeiras e se se alegra com o bem dos outros; veja se não desejaLeia mais →

«Dele dependem o que engana e o enganado; leva os conselheiros à loucura, e entontece os juízes» (Jb 12,16-17). Se todo o homem que tenta enganar o seu próximo é injusto, e se a Verdade diz aos injustos: «Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade», em que sentido se diz aqui que o Senhor conhece aquele que engana? Para Deus, conhecer significa observar e aprovar; portanto, Ele conhece o homem injusto porque o observa e o julga – pois como poderia julgar que um homem é injusto se não observasse? –, mas não conhece o homem injusto porque não aprova aLeia mais →

«Se retiver as águas, tudo secará; se as soltar, elas submergirão a terra» (Jb 12,15). Entendamos por água a ciência da pregação, como está escrito: «As palavras da boca de um homem [sábio] são águas profundas, torrente transbordante, fonte de sabedoria» (Pr 18,4); se as águas forem retidas, tudo seca. Sim, tirai aos pregadores a ciência, e os corações que poderiam ter verdejado na esperança da eternidade murcham imediatamente, permanecendo na secura do desespero, apreciando o transitório, ignorando a esperança daquilo que subsiste. E se por água entendemos a graça do Espírito Santo, como diz a palavra da Verdade no Evangelho: «Quem acredita em Mim,Leia mais →