«E que eu não encontre um só homem sábio entre vós» (Jb 17,10). Apela-se à sabedoria não querendo encontrar sábios [os amigos de Job] porque os homens enganados pela suficiência da sua falsa sabedoria não podem chegar à verdadeira sabedoria. É deles que está escrito: «Ai de vós, que sois sábios aos vossos próprios olhos e prudentes diante de vós mesmos!» (Is 5,21). É a eles que se diz: «Não vos comprazais na vossa própria sabedoria» (Prov 3,7; cf Rom 12,16). Era também por isso que, quando encontrava pessoas sábias segundo a carne, o grande pregador [Paulo] lhes pedia que adquirissem a verdadeira sabedoria, começandoLeia mais →

«Tenho a carne consumida, os ossos agarrados à pele» (Jó 19: 20). Os ossos designam a força do corpo; a carne, a sua fraqueza. Uma vez que Cristo e a Igreja são uma só pessoa, o que representarão os ossos? O Senhor. E a carne? Os discípulos, que, na hora da sua Paixão, só conheceram a sabedoria dos fracos. E a pele, que é exterior à carne e permanece no corpo, representa as santas mulheres, que, dispostas a prestar-Lhe assistência corporal, serviam o Senhor nas suas necessidades exteriores. Quando os discípulos de Jesus, ainda muito fracos, pregavam ao povo a fé na verdade, eram aLeia mais →

Irmãos bem-amados, hoje o Verbo de Deus, Deus, Filho de Deus, que no início estava com Deus, por quem tudo foi feito e sem quem nada se fez (cf Jo 1:3), para libertar o homem da morte eterna, tornou-Se homem. Para revestir a nossa humildade sem que a sua majestade ficasse diminuída, abaixou-Se de tal forma que, permanecendo o que era e assumindo o que não era, uniu a verdadeira natureza do servo àquela em que era igual a Deus Pai. Caríssimos irmãos, demos graças a Deus Pai, por meio de seu Filho, no Espírito Santo, porque, na sua infinita misericórdia nos amou e teveLeia mais →

Não me desagrada seguir o exemplo de Paulo: munido das cartas que tinha pedido para ir contra Cristo, dirigia-se a Damasco quando, subitamente, a graça do Espírito Santo o inundou pelo caminho; perdendo a sua crueza, Paulo muda e eis que se oferece, por Cristo, aos golpes que vinha trazer aos cristãos. Aquele que ontem, vivendo segundo a carne, se empenhava em levar a morte aos santos do Senhor tem hoje prazer em imolar a vida da sua própria carne para salvar a vida desses mesmos santos. As frias maquinações da sua crueza transformam-se em caridade ardente e aquele que blasfemava e perseguia descobriu umaLeia mais →

Considerando que o espírito se liberta da carne, que a carne se transforma em podridão, que a podridão se reduz a pó e que o pó se reduz aos seus elementos, a ponto de se tornar invisível aos olhos do homem, alguns espíritos desesperam de vir a ressuscitar. Tendo diante dos olhos ossos secos, não têm fé de que esses ossos venham a revestir-se da sua carne e possam readquirir a verde frescura da vida. Mas, se não têm fé na ressurreição por obediência, deveriam tê-la ao menos pela razão. Com efeito, não é verdade que o mundo imita todos os dias, nos seus própriosLeia mais →

Job não diz «Criador», mas «Redentor», designando claramente Aquele que, depois de ter criado todas as coisas, querendo redimir-nos do nosso cativeiro, apareceu entre nós na encarnação e, pela sua Paixão, nos libertou da morte eterna. É de notar a fé com que Job se entrega ao poder divino daquele sobre quem Paulo afirmou: «Ele foi crucificado em fraqueza, mas vive pelo poder de Deus» (2Cor 13,4). Disse Job: «Sim, eu sei que o meu Redentor vive»; que o mesmo é dizer sem ambiguidades: Ele foi flagelado, escarnecido, espancado, coroado de espinhos, cuspido, crucificado, morreu – isto sabe o incrédulo; por mim, creio com féLeia mais →

«Até os loucos me desprezam» (Job 19,18 Vulg). Os sábios não tinham fé na verdade, mas podemos dizer que o mesmo acontecia aos loucos, uma vez que, constatando que fariseus e doutores da Lei desprezavam o Senhor, a multidão os seguia nessa incredulidade: vendo nele o homem, desprezava as lições do Redentor do mundo. Com efeito, o termo «loucos» designa por vezes os pobres do povo. […] Ora, o nosso Redentor ignorou os sábios e os ricos deste mundo, pois vinha ao encontro dos pobres e dos loucos. Apesar disso, observa nesta altura, como que para fazer crescer a sua dor: «Até os loucos meLeia mais →

«A árvore mantém a esperança; depois de cortada, voltará a reverdecer e os seus ramos despontarão» (Job 14,7-10). […] Na Sagrada Escritura, a árvore simboliza a cruz, mas também o homem, quer o justo quer o injusto, e ainda a sabedoria de Deus encarnada. Com efeito, é à cruz que o profeta se refere quando diz: «Destruamos a árvore no seu vigor» (Jer 11,19), referindo-se ao corpo do Senhor. A palavra «árvore» também evoca o homem, quer o justo quer o injusto, quando o Senhor afirma pela boca do profeta: «Sou Eu, o Senhor, que humilho a árvore elevada e elevo a árvore humilhada» (EzLeia mais →

«Tu o fortaleceste durante algum tempo para o levares para a vida eterna» (Job 14,20 Vulg). Fortalecido durante algum tempo, o homem recebeu, durante esse tempo, a força de viver neste mundo de maneira a ser levado para uma vida eterna onde nenhum limite porá termo à sua vida. Mas, neste breve período em que foi fortalecido, pôs-se em condições de encontrar na eternidade uma vida sem fim ou suplícios que sofrerá sem deles escapar. E foi por ter sido fortalecido durante algum tempo que Job acrescenta estas palavras: «Tu o desfiguras e o afastas». O homem é desfigurado quando a sua beleza é destruídaLeia mais →

«O homem, ao morrer, acaba. O mortal expira e onde está ele?» (Jb 14,10). Haverá algum homem que não tenha pecado. Há um só, aquele que veio a este mundo sem nascer do pecado. E, como estamos todos acorrentados no pecado, todos morremos da própria perda da justiça, despojados da veste da inocência que nos tinha sido concedida no Paraíso e consumidos pela morte da carne que é sua consequência. […] É esta nudez de seu filho pecador que o pai quer cobrir ao vê-lo regressar, dizendo: «Trazei depressa a melhor túnica». Sim, a melhor túnica, que é a veste da inocência que o homemLeia mais →