Tradução e adaptação ao português por: Pe. André Sperandio

McGuckin, John Anthony. The Orthodox Church: An Introduction to its History, Doctrine, and Spiritual Culture. Blackwell Publishing.

O Pedalion (O Timão), compilado por São Nicodemos o Hagiorita e São Macário de Corinto no século XVIII, reúne os cânones dos concílios e sínodos da Igreja Ortodoxa. Embora tenha maior autoridade do que os livros simbólicos, sua interpretação exige discernimento, pois alguns cânones tornaram-se obsoletos ao longo do tempo. Diferente da Igreja Católica Romana, a Ortodoxia raramente revisa ou sistematiza suas leis canônicas, deixando sua aplicação a cargo dos bispos, que devem equilibrar a akribeia (rigor) e a oikonomia (flexibilidade).

A ampla disponibilidade do Pedalion levou alguns a usá-lo de forma fundamentalista, aplicando-o de maneira legalista contra outros, o que é um mau uso dos textos sagrados. Seu estudo deve ser conduzido pela hierarquia e voltado para a própria vida, não para julgar os outros. Além disso, a organização do Pedalion por tópicos, sem um devido contexto histórico, pode levar a interpretações distorcidas, evidenciando a necessidade de um estudo mais rigoroso e acadêmico sobre os cânones.

A tudo isso, podemos acrescentar agora (visto que foi compilado no século XVIII e tornou-se mais amplamente disponível em uma tradução para o inglês no início do século XX) as evidências da Santa Tradição fornecidas pelos cânones (ou regras disciplinares) dos diversos concílios e sínodos da história da Igreja. Os cânones possuem uma autoridade mais direta do que os livros simbólicos, mas exigem uma exegese mais “refratada”, pois as mudanças nas condições históricas deixaram algumas dessas regras obsoletas.

Os cânones foram reunidos em um volume conhecido como O Timão (Pedalion), por São Nicodemos o Hagiorita e São Macário de Corinto. Trata-se de um vasto corpo legislativo (por vezes confuso e, em certos casos, inaplicável) acumulado ao longo de séculos de sínodos passados. A Ortodoxia nunca descartou nenhuma de suas legislações sinodais, e raramente as atualizou ou sistematizou de maneira estrita e coerente, ao contrário do que ocorre na Igreja Católica Romana, onde papas e comissões jurídicas revisam regularmente o direito canônico latino.

Alguns textos disciplinares possuem um valor universal altíssimo para a Igreja nos dias de hoje (como os cânones de São Basílio, que regulam a abordagem eclesial ao matrimônio, ou os cânones de Niceia, que governam a estrutura eclesiástica), enquanto outros se aproximam da condição de letras mortas de uma era passada (como as injunções proibindo clérigos de comerem com não-ortodoxos ou de estarem presentes onde há música sendo tocada).

A aplicação dos cânones cabe, de maneira mais apropriada, ao bispo local, que é chamado, pela graça de seu ofício, a exercer o discernimento sobre quando e onde insistir na aplicação estrita da lei canônica (akribeia) ou recorrer a sua adaptação judiciosa conforme as circunstâncias (oikonomia). O exercício desse julgamento misericordioso é um dos atributos mais sublimes do episcopado nos dias atuais e demonstra que os hierarcas de hoje compartilham do mesmo carisma de governo que outrora inspirou os Santos Padres. Sua aplicação da discrição é uma maneira clara de representar Cristo misericordioso em meio ao seu povo necessitado.

Infelizmente, a ampla disponibilidade desse volumoso compêndio de cânones e regras (cujo uso adequado requer tanto aprendizado quanto discernimento) fez com que, nos últimos anos, ele se tornasse, para algumas mentalidades mais fundamentalistas, uma espécie de arma usada contra outros ortodoxos com quem não simpatizam. No entanto, o uso ostensivo do livro de cânones como instrumento de ameaça demonstra imediatamente que muitos estão fazendo mau uso dos textos sagrados.

É invariavelmente o caso, em minha opinião, que juristas autoproclamados deveriam ser energicamente desencorajados de abrir o Pedalion. Seu uso deve ser regulado pela hierarquia. Uma exceção seria feita para aqueles que o consultam com o intuito de aplicá-lo à própria vida, e não para corrigir a vida dos outros. Trata-se da antiga questão da trave e do cisco.

Um problema central que precisa ser abordado é a falsificação que ocorre inevitavelmente em um projeto como o Pedalion, onde cânones antigos são sistematicamente referenciados por tópicos e acumulados como fontes para uma resposta global, sem grande consideração pelo contexto histórico, ocasional ou apologético em que os cânones foram originalmente promulgados pelos Padres conciliares. As raras e insatisfatórias tentativas de São Nicodemos de fornecer um contexto histórico em certos pontos — sobre questões que ele próprio considerava controversas — apenas demonstram a necessidade de empreender essa tarefa de forma minuciosa, sistemática e com o devido rigor acadêmico.