«Sim, mesmo que eu seja ignorante, a minha ignorância está comigo» (Jb 19,4). É próprio dos hereges ensoberbecerem-se com a vã arrogância da sua ciência, escarnecendo da simplicidade de uma fé reta e julgando a vida dos humildes desprovida de mérito. Pelo contrário, a Santa Igreja abaixa humildemente a cabeça diante de qualquer verdade que a sua verdadeira sabedoria alcança, evitando a jactância da ciência, a fatuidade da investigação dos mistérios e a presunção de sondar problemas que estão para além das suas forças; de facto, tem por mais útil aplicar-se a ignorar o que não pode compreender do que a definir descaradamente o queLeia mais →

«É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos que lhe são fiéis» (Sl 115,15). Quem deseja saber se em si habita o Deus de quem se disse: « Deus é prodigioso desde o seu santuário, pois é Ele o Deus de Israel, que dá força e vigor ao seu povo» (Sl 67,36) perscrute por um exame sincero o fundo do seu coração e busque atentamente com que humildade é capaz de resistir ao orgulho, com que benevolência consegue combater a inveja, até que ponto não se deixa levar por palavras lisonjeiras e se se alegra com o bem dos outros; veja se não desejaLeia mais →

Eis que, pela morte da carne, nós permaneceremos no pó até ao fim do mundo; Ele [o nosso Redentor], porém, ao terceiro dia, libertado da secura da morte, está na sua verde frescura, para nos mostrar o poder da sua divindade pela renovação da sua própria carne. […] Se é verdade que o corpo do Senhor está vivo agora, depois da sua morte, para o nosso corpo, a glória da ressurreição é adiada até ao fim do mundo. Job teve o cuidado de assinalar este distanciamento, dizendo: «E eu ressuscitarei da terra no último dia» (Jb 19,25). Temos, pois, a esperança da nossa ressurreição, porqueLeia mais →

«Dele dependem o que engana e o enganado; leva os conselheiros à loucura, e entontece os juízes» (Jb 12,16-17). Se todo o homem que tenta enganar o seu próximo é injusto, e se a Verdade diz aos injustos: «Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade», em que sentido se diz aqui que o Senhor conhece aquele que engana? Para Deus, conhecer significa observar e aprovar; portanto, Ele conhece o homem injusto porque o observa e o julga – pois como poderia julgar que um homem é injusto se não observasse? –, mas não conhece o homem injusto porque não aprova aLeia mais →

As palavras de Jesus Cristo Nosso Senhor que lemos no Evangelho recordam-nos que há uma unidade misteriosa para a qual devemos tender enquanto nos afadigamos no seio da multiplicidade deste mundo. Ora, tendemos para ela enquanto caminhamos e antes de descansarmos, enquanto estamos a caminho e ainda não chegámos à pátria, no tempo do desejo que não é ainda o dia do gozo. Tendamos para ela, mas tendamos sem covardia e sem interrupção, para que possamos finalmente alcançá-la. […] Marta estava ocupada com muitos cuidados, preparando uma refeição para o Salvador; Maria, sua irmã, que preferia ser alimentada por Ele, deixou a Marta as muitasLeia mais →

  Os doutores da Lei diziam: «Este homem está a blasfemar».; pois quem pode perdoar pecados senão Deus? Qual é a resposta do Salvador? Terá desaprovado o que diziam? Se Ele não fosse igual a Deus, deveria ter-lhes dito: «Por que Me atribuís tal pretensão?» […] Mas não o disse; pelo contrário, confirmou a afirmação dos seus inimigos. Dar testemunho de si próprio levanta suspeitas; é melhor que a verdade seja apoiada por outros, e não apenas os amigos, ainda é melhor se o for pelos inimigos. […] O nosso Mestre tinha demonstrado o seu poder aos seus amigos quando dissera ao leproso: «Quero, ficaLeia mais →

«O ímpio é orgulhoso todos os dias da sua vida» (Job 15,20, Vulg). Nem os eleitos estão imunes ao orgulho em alguns dos seus pensamentos e até nas suas ações. Mas, como são eleitos, não são soberbos todos os dias, uma vez que, antes de chegarem ao fim da vida, deixam que o seu coração se transforme de desmesura em temor, em humildade. Pelo contrário, o ímpio não passa um único dia sem soberba, pois termina a sua vida sem se afastar por um momento da desmesura. O seu olhar procura o que floresce no tempo, e ele desdenha considerar para onde será levado naLeia mais →

«Se retiver as águas, tudo secará; se as soltar, elas submergirão a terra» (Jb 12,15). Entendamos por água a ciência da pregação, como está escrito: «As palavras da boca de um homem [sábio] são águas profundas, torrente transbordante, fonte de sabedoria» (Pr 18,4); se as águas forem retidas, tudo seca. Sim, tirai aos pregadores a ciência, e os corações que poderiam ter verdejado na esperança da eternidade murcham imediatamente, permanecendo na secura do desespero, apreciando o transitório, ignorando a esperança daquilo que subsiste. E se por água entendemos a graça do Espírito Santo, como diz a palavra da Verdade no Evangelho: «Quem acredita em Mim,Leia mais →

O primeiro e o maior dos mandamentos, o fundamento da Lei e dos profetas (cf Mt 22,40), é o amor, que, no meu parecer, dá a sua maior prova através do amor aos pobres, da ternura e da compaixão pelo próximo. Nada honra tanto a Deus como a misericórdia, pois nada se Lhe assemelha tanto. «A retidão e a justiça são a base do teu trono» (Sl 89,15) e Ele prefere a misericórdia ao juízo (cf Os 6,6). Nada como a benevolência entre os homens para atrair a benevolência do Amigo dos homens (cf Sb 1,6); a sua recompensa é justa, Ele pesa e medeLeia mais →

O pecado de Adão foi comunicado a todo o género humano, a todos os seus filhos. […] Portanto, é necessário que também a justiça de Cristo seja comunicada a todo o género humano; tal como Adão, pelo pecado, fez que a sua descendência perdesse a vida, também Cristo, pela justiça, dará a vida aos seus filhos (cf Rom 5,19ss) […]. Na plenitude dos tempos, Cristo recebeu de Maria uma alma e a nossa carne. Ele veio salvar esta carne: não a abandonou na morada dos mortos (cf Sl 15,10), mas uniu-a ao seu espírito e fê-la sua. São as núpcias do Senhor, a sua uniãoLeia mais →