(Para este artigo, tomo algumas ideias e palavras de Pier Cesar Bori, no livro A Interpretação Infinita)
No quinto ano do exílio do povo eleito, que tinha sido deportado para a Babilónia, o profeta Ezequiel teve uma visão: entre nuvens, vento e fogo, apareceram quatro seres viventes, movidos pelo impulso do Espírito. Ao lado deles havia rodas cheias de olhos, cujo movimento correspondia ao movimento dos viventes.
Mais de mil anos depois, em Roma, em 593 d.C., o Papa Gregório Magno comentou o livro de Ezequiel e interpretou a visão da carruagem (todos pensavam que Ezequiel estava falando de uma carruagem, já que ele estava falando de rodas, embora nunca mencione a carruagem).
No contexto da fé da Igreja, o Papa Gregório Magno descobriu nas imagens da visão de Ezequiel um método de leitura das Sagradas Escrituras. Quis sublinhar que a Sagrada Escritura é sempre ativa, atual e, de certo modo, infinita. O papa nos deixou uma frase que expressa muito bem sua ideia e sua atitude em relação às Escrituras: A Escritura cresce com quem a lê.
Para São Gregório Magno, Deus fez-se próximo de nós graças à sua Palavra e, por isso, é muito necessário comprometermo-nos na leitura contínua da Sagrada Escritura, que transcende toda a ciência e todo o ensinamento. Este santo presta especial atenção ao fato de que a Palavra da Sagrada Escritura, ao expor o texto, enuncia um mistério, de modo que consegue dizer o que aconteceu ao mesmo tempo em que anuncia o que será. Isto significa que a Sagrada Escritura nos fala, por exemplo, de Davi mas ao mesmo tempo prefigura Cristo, ou fala-nos da travessia do Mar Vermelho, e assim profetiza a nossa libertação e o nosso batismo.
Segundo São Gregório, a Sagrada Escritura tem uma dinâmica tanto no sentido individual quanto no coletivo. O texto sagrado corresponde não só às necessidades espirituais de quem o lê, segundo a sua capacidade de leitura espiritual e a sua maturidade cristã, mas também aos acontecimentos que dizem respeito ao presente e ao futuro da Igreja.
São Gregório descobre no texto de Ezequiel que quando os seres vivos se moviam, as rodas também se moviam, que quando os seres se elevavam, eles subiam. Os seres vivos representam o leitor da Sagrada Escritura e as rodas representam o Antigo e o Novo Testamento. A possibilidade de seres vivos e rodas se moverem simultaneamente foi dada pela participação no mesmo Espírito. Em outras palavras, para ler e entender as Palavras de Deus registradas na Sagrada Escritura, é necessário lê-las com o Espírito.
A imagem da roda também leva a outra consideração de importância, pois embora carregue a ideia da infalibilidade do curso da Escritura e indique a adaptabilidade da palavra e sua pregação correta, a imagem da roda faz São Gregório dizer que a alma é trazida da vida contemplativa para a ativa. de modo que, tendo inflamado a mente a vida contemplativa, a vida ativa possa ser conduzida com maior perfeição.
Entre a vida contemplativa e a vida ativa há uma circularidade que o papa vê simbolizada nas rodas da visão de Ezequiel, ou seja, na Sagrada Escritura. A circularidade da contemplação e da ação é para nós, cristãos, porque cruza o limiar do terceiro milênio, um tema obrigatório. O nosso tempo caracterizou-se, também nas comunidades cristãs, pelo afã de fazer e de agir. Não é errado agir, pois o próprio Cristo nos pediu para fazê-lo, mas não é o problema de hoje precisamente que não contemplamos? A nossa ação não parece ser tão importante que nos esqueçamos de que aquele que pode realmente agir já o fez, enviando o seu Filho e concedendo-nos o seu Espírito?
Alguns pensam que a contemplação é se perder nas nuvens da fantasia e esquecer a realidade. Não é assim. A contemplação cristã não é algo exclusivamente intelectual, porque só é possível através da caridade que inflama o coração, e menos ainda é perder-se na fantasia, porque contemplar é ouvir o Pai que nos fala no Filho e com o Espírito nos envia a servir os irmãos. A verdadeira contemplação não pode perder a realidade, porque a Santíssima Trindade é a mais real e dá consistência a todas as outras realidades. A Escritura nos conduz às alturas do mistério divino, para que possamos voltar enriquecidos e nossas ações verdadeiramente valiosas diante de Deus.
Jesus é, como sempre, o modelo desta circularidade da vida cristã e da proposta da Sagrada Escritura. Ele é quem o cumpriu e os Evangelhos nos mostram orando fortemente e fazendo o bem constantemente. Foi a sua contemplação do rosto misericordioso do Pai que Ele veio mostrar-nos, porque ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e Aquele a quem o Filho o quer revelar. Agora que vamos colocar o plano pastoral em ação, é claro, temos de partir da contemplação, pois neste universo, fazer o bem sem Deus é tarefa impossível.

