O ícone bizantino da Teofania, ou o Batismo de Nosso Senhor, é uma poderosa expressão da manifestação divina no Jordão. Ele nos apresenta Cristo imerso nas águas quase negras, que evocam as trevas do Hades, aquelas mesmas que o iriam engolir após sua morte e antes de sua gloriosa Ressurreição. No ícone, Cristo não apenas entra nas águas do Jordão, mas, simbolicamente, toca as águas primordiais do cosmos, a criação em sua totalidade, mergulhada na corrupção do pecado e da morte. Ao emergir, Ele traz consigo toda a criação transfigurada e renovada, como o Vitorioso que inaugura a Nova Criação.

Este ato de Cristo não é apenas simbólico, mas ontológico. Ao entrar no Jordão, Ele santifica as águas e, por meio delas, toda a natureza. Como ensinam os Padres da Igreja, Cristo veio para restaurar não apenas o ser humano, mas o cosmos inteiro. No Batismo de Cristo, vemos o início da recapitulação de todas as coisas n’Ele, o novo Adão.

O Mistério do Batismo e a Vocação Sacerdotal

No mistério do Batismo cristão, somos chamados a participar dessa renovação cósmica. O Batismo não apenas nos purifica do pecado, mas nos confere a dignidade sacerdotal: tornamo-nos, em Cristo, verdadeiros sacerdotes que cuidam do mundo e o oferecem de volta ao Pai. Como Adão no Éden, nossa vocação é revestir a criação com as cores e o frescor da vida divina, restaurando-a à sua beleza original, marcada pelo resplendor da graça.

Por isso, na celebração da Teofania, especialmente nas igrejas ortodoxas e orientais católicas, há um forte vínculo com a água. O costume de abençoar rios, mares e outras fontes de água com a cruz vitoriosa de Cristo é um testemunho vivo dessa renovação. É como se o cosmos inteiro fosse convidado a participar da transfiguração que começa no Jordão e se estende a todo o mundo.

Curiosidades e Simbolismos Litúrgicos

1. O Torvelinho nas Águas

O salmo que diz que o Jordão “inverteu o seu curso” (Salmo 114:3, Septuaginta) é frequentemente representado nos ícones com um torvelinho nas águas. Esta imagem simboliza o impacto cósmico da presença de Cristo, que não apenas santifica, mas redireciona o curso da criação de volta ao seu Criador. Curiosamente, há relatos de que, no Rio Jordão, durante a celebração da Teofania, forma-se um torvelinho visível, como que ecoando este símbolo litúrgico. Embora possa haver explicações naturais, o fenômeno carrega um profundo significado espiritual para os fiéis.

2. O Ritual de Jogar a Cruz nas Águas

Em muitas tradições ortodoxas, especialmente em países como Grécia, Rússia e Sérvia, celebra-se a Teofania à beira de rios, lagos ou mares. O sacerdote lança uma cruz na água abençoada, e jovens corajosos mergulham para recuperá-la. Esse rito não apenas simboliza a vitória de Cristo sobre as forças do caos e da morte, mas também o zelo dos fiéis em participar ativamente dessa vitória. Na Rússia, por exemplo, o ritual ocorre mesmo em rios congelados, onde abrem-se buracos no gelo para o lançamento da cruz.

3. A Renovação do Mundo

A Teofania não é apenas a celebração do Batismo de Cristo, mas o anúncio da redenção de toda a criação. Ao tocarmos as águas com a cruz de Cristo, somos convidados a mergulhar no âmago do mundo, reconhecendo nele o potencial de ser transfigurado pela graça divina. É uma festa que nos lembra de nossa vocação como co-participantes na obra de Cristo, o novo Adão, que restaura o cosmos à sua glória divina.

Referências Bibliográficas:

  1. Escrituras Sagradas:
    • Salmo 114:3 (Septuaginta): “O mar viu e fugiu, o Jordão voltou atrás.” Esse versículo é frequentemente associado ao ícone da Teofania.
    • Mateus 3:13-17: Relato do Batismo de Cristo, base para a celebração da Teofania.
    • Romanos 8:19-23: Sobre a redenção de toda a criação em Cristo.
  2. Escritos Patrísticos:

    • São Gregório de Nazianzo: Ele escreve extensivamente sobre o Batismo de Cristo, especialmente em sua homilia para a festa da Teofania. Exemplo: “Cristo desce às águas não porque precisa de purificação, mas para purificar as águas.”
    • São João Crisóstomo: Em suas homilias sobre o Batismo de Cristo, enfatiza a santificação do cosmos pelo ato de Cristo.
  3. Tradição Litúrgica:

    • Grande Bênção das Águas: Parte do rito da Teofania, em que se clama: “Hoje as águas do Jordão se transfiguram pela presença do Senhor.”
    • Hinos da Teofania: Muitos dos hinos e troparia da festa destacam a renovação cósmica realizada por Cristo no Jordão.
  4. Estudos e Comentários:

    • Alexander Schmemann em For the Life of the World: Aborda o significado sacramental do Batismo e a vocação sacerdotal do homem em oferecer a criação a Deus.
    • Kallistos Ware em The Orthodox Way: Explora o simbolismo da Teofania e a renovação do cosmos.

O texto acima foi desenvolvido a partir desta reflexão:

«Gosto muito de pensar no ícone bizantino da Teofania (de sua “manifestação” no Batismo), em que Jesus mergulha no Jordão, e suas águas, quase negras, envolvem-no como as trevas do Hades que iriam engoli-lo após a sua morte, na Páscoa (ou mansão dos mortos).

Cristo toca as “águas”, as águas primordiais do mundo; toca toda a natureza do cosmos. E, saindo de seu âmago, a traz consigo, transfigurada e renovada: Ele, o Vitorioso.

Não à toa, o mistério do Batismo é a porta de entrada para nos tornamos os sacerdotes, os verdadeiros sacerdotes, que cuidam do mundo e da natureza. Oferecem a Criação de volta ao Pai – e a revestem das cores e do frescor iniciais do Éden.

Por isso, a presente festa da Teofania, nas igrejas ortodoxas e nas igrejas católicas orientais, é celebrada, por costume, à beira de um rio. Tocam-se as suas “águas” com a cruz vitoriosa de Cristo; e nós, transfigurados, mergulhamos no âmago do mundo».

Curiosidades:

  1. Como naquele salmo que diz que o Jordão inverteu o seu curso, em algumas representações do ícone é pintado um torvelinho em suas águas. Diz-se que, até hoje, nessa festa, no Rio Jordão, vê-se um torvelinho (há um vídeo), embora deva ser algum fenômeno natural.

  2. Quanto à celebração à beira de um rio em cada região, costuma-se jogar a cruz no rio para que valentes homens mergulhem e a recuperem (inclusive nos gélidos — e congelados — rios da Rússia, nessa época do ano!)

Por: Philippe Gebara
Janeiro/2016