Por Marcelo P. Souza
(Publicado em Patristic Faith, 12 de janeiro de 2022)

Deus criou todas as coisas por Sua vontade livre, e todas as coisas existem fora de Sua natureza. Deus se tornou Criador quando assim o quis; a criação não é eterna, e não há nenhuma necessidade intrínseca em seu vir-a-ser. Deus transcende a criação, é infinitamente bom, e, assim, dá origem às coisas criadas e aos seres criados. A geração do Filho e a processão do Espírito Santo são distintas da criação, pois aquelas são eternas, procedendo da própria substância de Deus. A criação, por outro lado, é obra e resultado da vontade livre de Deus, e por isso não é coeterna com Ele. Quando a criação vem a existir, nada é acrescentado ao ser de Deus. A criação também é contingente, visto que sua existência não é necessária, e depende inteiramente da vontade divina. Toda necessidade que exista na criação é aquela que Deus impõe que exista.

Deus criou o universo a partir do nada (ex nihilo) e criou o homem (Adão e depois Eva) à Sua imagem (com intelecto) e segundo Sua semelhança, o que implicava crescimento na obediência. Deus criou o homem à Sua imagem, significando que lhe conferiu uma porção do poder do Verbo, isto é, o poder racional. Deus fez o homem segundo Sua semelhança com o propósito da incorruptibilidade. A criação é obra da Trindade – o Pai é o “Criador do céu e da terra”; o Espírito Santo é o Senhor, “Criador da vida”; e o Filho é Aquele “por quem todas as coisas foram feitas”. O Pai cria por meio do Filho no Espírito Santo. Há três Pessoas, mas uma só natureza, e, portanto, uma só vontade pela qual as três Pessoas escolhem livremente criar por amor. O Pai é a causa primordial de tudo o que foi feito, o Filho é a causa operativa, e o Espírito Santo é a causa perfectiva.

A criação é realizada pelo Pai, através do Filho, no Espírito Santo. São Atanásio afirma que:

“A renovação da criação foi operada pelo mesmo Verbo que criou o mundo no princípio. Não há, pois, contradição entre criação e salvação: o mesmo Pai empregou o mesmo Agente para ambas as obras, realizando a salvação do mundo através do mesmo Verbo que o fez no princípio.”

Deus concedeu graça ao homem, a qual os outros seres criados não possuíam, a saber, a impressão de Sua própria imagem, que São Atanásio define como uma participação no ser racional do próprio Verbo, tornando-se o homem racional e capaz de expressar a Mente de Deus, ainda que de modo limitado. O homem foi criado à imagem de Deus e, ao possuir razão, refletia o próprio Verbo. Adão e Eva foram criados com uma natureza humana perfeita e, após algum tempo em seu estado primordial aprendendo a obedecer a Deus e a crescer em Seu conhecimento, o homem escolheu desobedecer.

Deus cria como um Deus livre e pessoal, trazendo todas as coisas à existência por Sua vontade, em Sua sabedoria – e os logoi de todas as coisas estão contidos nessa vontade e sabedoria; deste modo, a tradição cristã conserva um aspecto do pensamento pagão, a saber: o universo criado é uma imagem das realidades eternas. Para São Máximo, o Confessor, quando Deus cria o homem, comunica-lhe quatro de Suas próprias propriedades: ser, eternidade, bondade e sabedoria.[¹] Como imagem de Deus, o homem é criado como um microcosmo, unindo, em sua existência hipostática, os aspectos inteligíveis e sensíveis da criação.

Os anjos foram criados como seres espirituais, enquanto os animais e outras criaturas não-humanas são seres corpóreos com o sopro de vida. O homem, como espiritual e corporal, une tudo em si, e é incumbido de continuar a realizar essa unidade; como sacerdote, deve oferecer-se a si mesmo e a toda a criação como sacrifício a Deus. São Máximo o Confessor lista cinco polaridades que se reconciliam no próprio ser do homem enquanto microcosmo: Deus e criação, o inteligível e o sensível, céu e terra, paraíso e mundo, homem e mulher. Adão, por fim, fracassou em manter essas polaridades unidas, mas o Segundo Adão, Jesus Cristo, as reúne novamente.

O homem não é um ser autônomo, mas sua verdadeira humanidade realiza-se apenas em Deus – e, como tal, ele possui qualidades divinas.[²] O homem é criado para crescer em sua participação na vida divina; essa participação é um dom, mas também uma tarefa a ser realizada pelo esforço humano livre. Essa polaridade entre dom e tarefa reflete os conceitos de imagem e semelhança, sendo que esta última implica um progresso dinâmico em cooperação, ou sinergia, entre a vontade divina e a escolha humana – como diz São Paulo, um progresso “de glória em glória” (2Cor 3,18), já que o homem é sempre um ser aberto. O homem foi criado como uma unidade hilemórfica de corpo e alma, e a morte – a separação entre ambos – é antinatural, pois não fazia parte da criação (pelo menos do homem).

Os Padres falam de corpo e alma, mas também do nous, o aspecto do espírito humano (ou coração, ou alma) que se conecta diretamente com Deus. É a capacidade que o homem possui de transcender a si mesmo para participar de Deus – e pode estar claro, no caso da criação (e daqueles que se redimem no esforço ascético), ou obscurecido, como está após a Queda.

O homem é criado em comunhão com Deus, e é nessa comunhão, como parte de seu estado natural, que ele pode ter um conhecimento e uma experiência diretos de Deus. É esse estado de amizade com Deus que era a condição do homem antes da Queda. No entanto, o mal entrou no mundo pela vontade, e o mal não é uma essência, mas uma condição ou uma privação do bem. Diádoco de Fótice afirma que “o bem existe enquanto o mal não existe, ou melhor, existe apenas no momento em que é praticado.”[³]

O simples desejo de provar, corporalmente, da árvore do conhecimento do bem e do mal foi o primeiro pecado, uma doença da vontade, isto é, o uso indevido do livre arbítrio. O homem estava naturalmente disposto ao conhecimento e amor de Deus, mas no contexto da criação, o pecado se origina no mundo espiritual, na vontade dos anjos caídos; foi por essa persuasão alheia que o homem assentiu à sugestão e ao atrativo de um objetivo ilusório (o que marca o início da vontade gnômica no homem), consentindo com a desobediência e o mal em seu desejo e escolha. Como diz São Máximo: “o mal é o movimento irracional das potências naturais em direção a algo que não é seu objetivo próprio, baseado em um julgamento errôneo. Por ‘objetivo’ entendo a Causa dos seres, que todas as coisas naturalmente desejam.”[⁴]

São Máximo o Confessor argumenta que a criação das coisas visíveis foi chamada de “árvore do conhecimento do bem e do mal” por causa de seu poder espiritual de nutrir a mente, e de seu poder natural de encantar os sentidos – e, ainda assim, tendo o poder de perverter a mente. Em outras palavras, quando contemplada espiritualmente, a criação oferece o conhecimento do bem; mas quando recebida corporalmente, oferece o conhecimento do mal, isto é, torna-se uma “mestre das paixões”, levando o homem a esquecer-se das coisas divinas.[⁵]

Como afirma São Gregório Palamás, nossos primeiros pais tinham a responsabilidade de nunca esquecer Deus, e de tornarem-se experientes no hábito da contemplação; mas a experiência das coisas agradáveis aos sentidos nada aproveita àqueles que ainda são imperfeitos (como Adão e Eva, que ainda cresciam em obediência e sabedoria rumo à semelhança com Deus). Em sua imperfeição, eram facilmente desviados para o bem ou para o oposto.[⁶]

É por isso que Deus proibiu temporariamente o homem de dela participar, retardando assim sua fruição, para que, por meio da participação na graça, o homem conhecesse primeiro a Deus; e então, ao partilhar da graça, “acrescentasse à imortalidade que lhe foi dada pela graça a impassibilidade e a imutabilidade… tornasse-se Deus por divinização… examinasse com Deus as criações de Deus e adquirisse conhecimento delas, não como homem, mas como deus.”[⁷] Se o homem tivesse mostrado obediência por um tempo, teria começado a se habituar ao bem, e teria sido mais difícil que ocorresse a Queda.

Ao escolher desejar e desobedecer, a unidade original do homem foi rompida, e a natureza humana foi “dividida em uma infinidade de partes, e nós, que somos da mesma natureza, nos devoramos como animais selvagens.”[⁸] A experiência direta de Deus que o homem possuía na criação é perdida através de um nous obscurecido, e substituída pela participação em realidades sensíveis; como feras irracionais, sustentando apenas a natureza física do corpo, e desviando-se da beleza inteligível e do esplendor da perfeição divina, o homem passa a adorar a criatura em vez do Criador. Em vez de perseverar no esforço e escolher persistir e avançar em sua participação nas coisas boas, porém menos sensíveis, o homem preferiu desfrutar das coisas sensíveis mais facilmente apreensíveis.

Adão e Eva no Paraiso

A natureza foi criada viçosa e bela, correspondendo à beleza das realidades inteligíveis, e, assim, constituía uma tentação adicional para que o homem desfrutasse do que estava ao alcance, em vez de aspirar ao que exigia conhecer e gozar. Contemplando o céu, alegrava-se com o que via, amando o Criador que lhe concedera o gozo da vida eterna, que lhe outorgara os prazeres do paraíso. Deus lhe deu domínio semelhante ao dos anjos, e uma existência semelhante à dos arcanjos, fez dele ouvinte da voz celeste; mas logo se saciou de tudo e tornou-se, de algum modo, insolente em sua plenitude, preferindo o deleite que se apresentava aos olhos da carne à beleza inteligível, e antepondo um ventre cheio às alegrias espirituais.[⁹]

A Queda dá origem ao amor-próprio, que é o princípio das paixões, e o orgulho, ou arrogância, é a consumação do amor-próprio. Na redenção, todo o propósito da vida cristã é a superação do amor-próprio.

Há também implicações morais e metafísicas disso, já que o amor-próprio se impõe porque já não percebemos Deus na criação, e o mundo sensível torna-se um véu para as coisas de Deus. Como consequência, acabamos numa dialética, com dois polos do amor-próprio: dor e prazer. A ignorância de si e dos outros fragmenta nosso próprio ser, pois, no amor-próprio, terminamos amando e adorando nossos corpos, que são as únicas coisas que ainda nos são visíveis. Passamos a nos orientar pelas coisas físicas e substituímos Deus pelo mundo através dos sentidos – o que é o conhecimento do mal.

Em Seu amor, Deus manifesta-Se através de um corpo e, então, atrai nossa atenção para as realidades superiores. Para isso, o Verbo de Deus, incorruptível e imaterial, assume um corpo de nossa própria espécie, ainda que puro. Oferecendo esse corpo à morte como oferenda e sacrifício sem mancha, Ele elimina a morte de todos os Seus semelhantes. O mesmo Verbo que fez o homem no princípio agora o redime.

Referências:

¹ São Máximo o Confessor, Quatrocentos Capítulos sobre o Amor, III.25.
² John Meyendorff, Byzantine Theology, p. 139.
³ Tratado Ascético III, citado em Vladimir Lossky, A Teologia Mística da Igreja do Oriente, p. 128.
A Thalássio: Sobre Diversas Questões 1.2.12.
A Thalássio, Introdução.
Cento e Cinquenta Capítulos 50.1-7, citado em Dumitru Stăniloae, A Experiência de Deus, vol. II, p. 164.
Ibid., 1.2.18.
Ibid., 1.2.15.
⁹ Stăniloae, p. 165.