Dr. Vassilis Adrahtas
Doutor em Estudos em Religião e Sociologia da Religião*

O Natal revela a encarnação de Deus, que significa Deus assumindo tudo o que compõe a humanidade: corpo, alma, intelecto, emoções, cultura e história. Como a humanidade é uma realidade fixa e em constante evolução, o nascimento de Cristo foi um evento único, mas paradoxalmente, precisa ocorrer repetidamente. A encarnação divina em Jesus Cristo é simultaneamente um evento único e um processo contínuo, que se manifesta de várias maneiras, especialmente por meio da teologia.

A Teologia como Processo de Encarnação

A teologia é chamada a traduzir e incorporar a Palavra de Deus para cada era, lugar e cultura. No entanto, muitas vezes ela esquece sua própria historicidade e acaba transformando paradigmas criativos em becos sem saída.

Desde o final do século XIX, a teologia ortodoxa moderna tem enfrentado as rápidas mudanças da vida contemporânea, abordando questões como individualismo e liberdade. Embora tenha havido progressos, muitas respostas teológicas foram absolutizadas, ignorando a dinâmica da vida humana e as necessidades de cada época.

Paradigmas Tornados Becos Sem Saída

Os principais paradigmas que marcaram a teologia ortodoxa moderna — comunitarismo, personalismo, espiritualidade, misticismo, “elderismo”, escatologia e terapeutismo — são todos aspectos válidos da experiência ortodoxa. Porém, quando usados para englobar toda a tradição da Igreja, esses paradigmas se tornam limitantes:

  1. Comunitarismo: Valorizando a communio, idealiza comunidades passadas e frequentemente cai em etnofiletismo ou exclusivismos.
  2. Personalismo: Foca no conceito de prosopon, mas corre o risco de transformar a liberdade em relativismo.
  3. Espiritualidade-Misticismo: Adapta-se ao espírito da época (Zeitgeist), mas frequentemente se torna escapismo.
  4. Elderismo: Confunde carisma espiritual com manipulação psicológica, especialmente em resposta à desconfiança em relação às hierarquias da Igreja.
  5. Escatologia: Traz renovação, mas pode justificar o status quo eclesiástico.
  6. Terapeutismo: Reduz a ortodoxia a uma terapia pessoal, desconsiderando seu contexto socioeconômico e político.

Conselhos e Direitos Humanos

Nos tempos atuais, a teologia ortodoxa enfrenta dois paradigmas conflitantes: um “aconselhamento divino” prescritivo e uma teologia neoliberal que santifica o humanismo e os direitos humanos, frequentemente alinhada à correção política.

Ambas as abordagens refletem uma inadequação fundamental. Enquanto uma se perde em regras, a outra confunde valores ocidentais com revelação divina. Ambas afastam a teologia de sua missão de encarnar a Palavra de Deus de forma crítica e profética.

Rumo a uma Nova Perspectiva

A teologia ortodoxa precisa redescobrir seu propósito: abordar questões específicas sem tentar oferecer respostas definitivas para todas as condições humanas. É necessário um retorno ao compromisso criativo com a tradição viva, permitindo que Cristo “nasça” repetidamente por meio de novas expressões teológicas.

Conclusão

A missão da teologia não é apenas preservar paradigmas, mas continuar dando à luz Cristo, adaptando-se às necessidades de cada época. O desafio é permanecer fiel à tradição enquanto se engaja de forma crítica e construtiva com o mundo contemporâneo.

Sobre o Dr. Vassilis Adrahtas

Dr. Vassilis Adrahtas nasceu em Bankstown, Austrália, em 1968, mas cresceu em Atenas, onde também recebeu a maior parte de sua formação educacional. Ele possui um doutorado em Sociologia pela Universidade Panteion, na Grécia, e um doutorado em Estudos em Religião pela Universidade de Sydney, na Austrália. Apesar de sua ampla formação acadêmica, sua primeira e maior paixão sempre foi a teologia.

Com uma experiência profissional diversificada, Dr. Adrahtas já atuou como professor, tradutor, editor, produtor de rádio, pesquisador acadêmico e no setor de publicações e mídia impressa. No entanto, dedicou a maior parte de sua carreira ao ensino superior. Ele lecionou em instituições renomadas, como o St. Andrew’s Greek Orthodox Theological College, a Universidade de Sydney, a Universidade Nacional de Atenas, a Hellenic Open University (Patras), a Macquarie University, a Western Sydney University, a University of New South Wales (UNSW) e a Charles Sturt University.

Sua especialização abrange diversas áreas, incluindo Cristianismo Primitivo, Patrística, Filosofia Bizantina, Estudos Islâmicos e Religiões Indígenas Australianas. Ao longo de sua trajetória acadêmica, publicou inúmeros artigos e capítulos em livros especializados e é autor e/ou editor de mais de dez livros. Entre suas publicações mais recentes destacam-se: Islam, Civility and Political Culture (Palgrave Macmillan, 2021, editado em coautoria com Milad Milani) e 20 Years with Nikos / 20 χρόνια με τον Νίκο (Sociedade Internacional dos Amigos de Nikos Kazantzakis – Filial de Sydney, 2021).

Atualmente, Dr. Adrahtas continua a contribuir para o diálogo entre religião, cultura e sociedade por meio de seus escritos e atividades acadêmicas, consolidando sua posição como uma referência em teologia e estudos inter-religiosos.