O primeiro dia do Ano Novo da Igreja também é chamado de início da Proclamação. O termo deriva do latim e significa “impor”. Originalmente, era usado para designar a imposição de tributos no Egito. A primeira Proclamação de alcance mundial ocorreu em 312, quando o imperador Constantino († 21 de maio) teve a visão milagrosa da Cruz no céu. Antes da introdução do calendário juliano, Roma iniciava o Ano Novo em 1º de setembro.
Segundo a Sagrada Tradição, Cristo entrou na sinagoga em 1º de setembro para anunciar sua missão à humanidade (cf. Lc 4,16-22). Citando Isaías 61,1-2, o Salvador proclamou:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e a recuperação da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e proclamar o ano aceitável do Senhor…”
Esta cena é retratada em um manuscrito da Biblioteca Vaticana (Cod. Gr. 1613, p. 1).
A tradição ainda afirma que os hebreus entraram na Terra Prometida em setembro.
A Indicção (Indictio)
Para a manutenção das forças armadas, os imperadores romanos determinavam que seus súditos fossem tributados anualmente em todos os distritos. Esse decreto era renovado a cada quinze anos, pois os soldados deviam servir por períodos de quinze anos. Ao final de cada ciclo, avaliavam-se as mudanças econômicas e decretava-se um novo tributo, válido para o período seguinte.
Esse decreto, emitido antes do inverno, recebeu o nome de Indicção (Indictio), isto é, “Definição” ou “Ordem”. O mesmo sistema foi mantido pelos imperadores de Constantinopla, que por vezes usaram o termo Epinemesis (Distribuição, Dianome).
É crença comum que São Constantino, o Grande, introduziu a Indicção em 312 d.C., após a visão da cruz, a derrota de Maxêncio e sua proclamação como imperador do Ocidente. Outros, porém, atribuem a instituição da Indicção a Augusto César, três anos antes do nascimento de Cristo.
Essa segunda hipótese é apoiada, por exemplo, por uma bula papal de 781 d.C., datada: Anno IV, Indictionis LIII — isto é, o quarto ano da quinquagésima terceira Proclamação. Calculando 52 ciclos completos de 15 anos cada, mais três anos do quinquagésimo terceiro ciclo, chega-se ao ano 3 a.C.
Três tipos de Indicção
- Indicção Imperial ou Cesariana (Constantiniana): introduzida no Ocidente, começa em 24 de setembro.
- Indicção Papal: começa em 1º de janeiro.
- Indicção Constantinopolitana: adotada pelos patriarcas de Constantinopla após a queda do Império Romano do Oriente em 1453. Essa, vigente na Igreja, inicia-se em 1º de setembro, sem numeração de ciclos.
A escolha de setembro se deve também ao ciclo agrícola: a colheita e o armazenamento dos frutos marcam o fim de um período, e a semeadura abre o novo. Assim, a Igreja celebra este dia pedindo a Deus tempo favorável, chuvas na estação e abundância dos frutos da terra.
As Escrituras (Lv 23,24-25; Nm 29,1-2) testemunham que Israel celebrava nesse tempo a Festa das Trombetas, oferecendo hinos de ação de graças. Por isso, neste dia a Igreja também recorda a entrada de Cristo na sinagoga de Nazaré, onde lhe foi entregue o livro de Isaías, e Ele proclamou: “O Espírito do Senhor está sobre mim…” (Lc 4,16-30).
Celebração na Tradição da Igreja
Até hoje a Igreja celebra o início do Ano Novo em 1º de setembro. Esse era o costume em Constantinopla até sua queda (1453) e na Rússia até o reinado de Pedro I. No Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, o 1º de setembro continua sendo celebrado festivamente como Ano Novo Eclesiástico.
Entre os judeus, o Ano Novo — ainda que baseado em calendário móvel — também ocorre geralmente em setembro.
O serviço litúrgico de 1º de janeiro, por sua vez, é dedicado à Circuncisão de Nosso Senhor e à memória de São Basílio, o Grande, sem menção ao início de um novo ano.
O Primeiro Concílio Ecumênico de Niceia (325) confirmou que o ano eclesiástico deveria iniciar-se em 1º de setembro.
Além disso, setembro é significativo na história cristã porque foi nesse mês que Constantino, o Grande, derrotou Maxêncio, adversário da fé cristã. Após a vitória, concedeu liberdade para a confissão do cristianismo em todo o Império Romano.
Durante muitos séculos, o ano civil do mundo cristão seguiu o ano eclesiástico, começando em 1º de setembro. Só mais tarde foi transferido para 1º de janeiro — primeiro na Europa Ocidental e, depois, na Rússia, sob Pedro, o Grande.
Fonte: Orthodox Times – Ecclesiastical New Year, 1 September


