Um Guia para Compreender e Viver esta Disciplina Espiritual
O presente texto é uma compilação e adaptação livre, de caráter catequético e didático, elaborada a partir de múltiplas fontes da tradição ortodoxa. As referências completas encontram-se ao final para quem desejar aprofundamento.
Parte I: Compreendendo o Jejum
O que é o Jejum?
Quando pensamos na palavra “Quaresma”, o termo “jejum” é uma das primeiras coisas que vêm à mente. No entanto, é importante compreender que a pedra angular da Quaresma não é o jejum, mas sim o arrependimento e o crescimento na fé. O jejum é uma ferramenta, um auxílio que nos ajuda nessa jornada espiritual.
Infelizmente, o jejum é frequentemente mal compreendido como uma mera privação, quando na verdade é uma disciplina espiritual. Como nos lembra o Evangelho do Domingo da Tyrofagia (Queijo):
“Quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas… Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai que está em oculto; e teu Pai, que vê em oculto, te recompensará” (Mt 6,16-18).
O Propósito Espiritual do Jejum
Na tradição ortodoxa, usamos a palavra “paixões” para descrever as tendências que cada pessoa tem e que nos levam ao pecado: ira, luxúria, poder, avareza, egoísmo etc. A paixão mais básica de todas é a fome. Podemos passar um dia sem um pensamento de ira ou luxúria, mas não passamos muitas horas sem um pensamento de fome.
Se conseguirmos dominar nossa paixão pela comida, poderemos, com esperança, controlar nossas outras paixões. Se conseguirmos nos disciplinar a abrir mão de certos tipos de alimento, poderemos também nos disciplinar a abandonar comportamentos espiritualmente destrutivos.
O jejum não é sobre abrir mão de algo apenas para recuperá-lo depois. O jejum é sobre:
- Obter controle sobre nossas paixões;
- Manter esse controle;
- E, finalmente, entregar o controle de nós mesmos a Deus.
Jejum e Oração: Caminhando Juntos
Assim como a oração nos aproxima de Deus, o jejum nos liberta das amarras deste mundo. Ambas as disciplinas são necessárias e se complementam: a oração nos eleva, o jejum nos liberta; a oração nos aproxima, o jejum nos purifica para essa aproximação.
Parte II: O que comemos (e o que não comemos)
A Regra Básica
É tradição na Igreja Ortodoxa jejuar de alimentos que contêm sangue. Por isso, jejuamos de:
- Carne (de animais terrestres);
- Peixe (animais com espinha dorsal);
- Laticínios (leite, queijo, iogurte, manteiga);
- Ovos;
- Óleo e vinho;
Por que óleo e vinho? Até alguns séculos atrás, o óleo e o vinho eram armazenados em odres de animais (pele). Por isso, a tradição os inclui na abstinência. Podemos comer azeitonas e uvas, mas não o azeite e o vinho derivados delas.
O que é permitido?
- Frutos do mar (camarão, lula, polvo, mexilhões, ostras, caranguejo) são permitidos porque não contêm sangue.
- Vegetais, frutas, grãos, nozes e sementes formam a base da alimentação nos períodos de jejum.
Exceções durante os períodos de jejum
A Igreja, em sua sabedoria, oferece consolações nos dias de festa que caem durante os períodos de jejum:
- Peixe é permitido em:
- 25 de março (Festa da Anunciação)
- Domingo de Ramos
- Óleo e vinho são permitidos aos sábados e domingos durante a Quaresma (exceto no Sábado Santo)
Parte III: Os períodos de Jejum no Ano Litúrgico
Ao longo do ano, os cristãos ortodoxos jejuam entre 180 e 200 dias. A Igreja observa quatro grandes períodos de jejum:
- A Grande Quaresma
- Duração: 40 dias (da Segunda-Feira Pura até a sexta-feira anterior ao Sábado de Lázaro) + Semana Santa
- Caráter: O jejum mais rigoroso do ano. Preparação para a Páscoa (Pascha).
- Regra: Jejum estrito (sem carne, peixe, laticínios, ovos, óleo ou vinho) nos dias de semana. Óleo e vinho permitidos aos sábados e domingos.
- O Jejum da Natividade (ou Jejum do Advento)
- Duração: 40 dias (15 de novembro a 24 de dezembro)
- Caráter: Preparação para o Natal de Cristo.
- Regra: Menos rigoroso que a Quaresma. Geralmente, permite-se óleo e vinho nas terças e quintas-feiras, e peixe aos sábados e domingos (com exceção dos últimos dias antes da Natividade).
- O Jejum dos Santos Apóstolos
- Duração: Variável (começa no dia seguinte ao Domingo de Todos os Santos e se estende até 28 de junho, véspera da festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo)
- Caráter: Em honra aos Apóstolos Pedro e Paulo.
- Regra: Semelhante ao Jejum da Natividade.
- O Jejum da Dormição
- Duração: 14 dias (1º a 14 de agosto)
- Caráter: Preparação para a festa da Dormição da Theotokos.
- Regra: Similar à Grande Quaresma, mas mais curto.
Jejuns de Um Dia e Dias Fixos
Além dos grandes períodos, a Igreja prescreve jejum em:
- Todas as quartas-feiras: Recordando a traição de Cristo
- Todas as sextas-feiras: Recordando a crucificação de Cristo
- 5 de janeiro: Véspera da Teofania
- 29 de agosto: Decapitação de São João Batista
- 14 de setembro: Exaltação da Santa Cruz
Períodos sem Jejum (Dias de Festa)
A Igreja também nos dá períodos de alegria onde o jejum é suspenso:
- A semana seguinte ao Domingo do Publicano e Fariseu
- A semana seguinte à Páscoa (Semana Luminosa)
- A semana seguinte ao Pentecostes
- O período de Natal (25 de dezembro a 4 de janeiro)
Parte IV: Níveis de Jejum — Uma abordagem gradual
A Igreja, em sua sabedoria, não espera que todos jejuem da mesma forma. Assim como na vida espiritual, o jejum é uma jornada. São Serafim de Rose nos lembra que a regra do jejum
“não pretende ser uma camisa de força, mas sim o padrão contra o qual cada um deve medir sua própria prática, e em direção ao qual devemos sempre lutar, de acordo com as próprias forças e circunstâncias”.
Se você nunca jejuou antes, não é recomendado começar com um jejum rigoroso. Experimente progredir gradualmente:
Grau 1: Jejum Básico (Iniciante)
Nível |
Descrição |
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Nível 1 |
Jejuar de carne às quartas e sextas-feiras (e durante a Semana Santa) |
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Nível 2 |
Jejuar de carne e peixe às quartas e sextas-feiras (e durante a Semana Santa) |
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Nível 3 |
Jejuar de carne durante toda a Quaresma |
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Nível 4 |
Jejuar de carne e peixe durante toda a Quaresma |
Grau 2: Jejum Intermediário
Nível |
Descrição |
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Nível 1 |
Nível 4 do básico + jejuar de laticínios às quartas e sextas (e Semana Santa) |
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Nível 2 |
Nível 4 do básico + jejuar de laticínios durante toda a Quaresma |
Grau 3: Jejum Paroquial (Padrão)
- Observar as regras do jejum básico
- Abster-se de carne, peixe, laticínios e ovos durante todo o período
- Abster-se de óleo e vinho durante todo o período
Grau 4: Jejum Ascético (Rigoroso)
- Xerofagia (“comer seco”): vegetais (crus ou cozidos apenas com água e sal), frutas, nozes, pão e mel durante a semana
- Abster-se de uma refeição completa até o entardecer/pôr do sol
Importante: Após alguns anos em um nível, desafie-se a subir um degrau. E jamais se orgulhe de seu jejum — isso anularia completamente seu benefício espiritual
Parte V: O Jejum que vai além da comida
Mais importante do que jejuar de alimentos é jejuar dos comportamentos que são espiritualmente destrutivos. Precisamos jejuar das coisas que nos afastam de Deus:
- Jejuar de televisão excessiva
- Jejuar de redes sociais e do celular
- Jejuar de álcool em excesso
- Jejuar de linguagem obscena
- Jejuar de fofocas e julgamentos
- Jejuar do orgulho e da vaidade
E, talvez o mais importante: jejuar de julgar os outros.
São Paulo nos adverte em Romanos 14,3-4:
“Quem come não despreze quem não come; e quem não come não julgue quem come, porque Deus o acolheu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio Senhor ele está em pé ou cai.”
O jejum deve ser feito em segredo, visto apenas por Deus. Se formos a um jantar na casa de alguém e servirem carne, comamos a carne — não façamos questão do nosso jejum. Isso é humildade.
Parte VI: Quem está isento do Jejum?
A Igreja, em sua sabedoria maternal, oferece flexibilidade em circunstâncias especiais. São exceções à regra geral do jejum:
- Crianças: Até os 8 anos de idade, não são obrigadas a jejuar. Podem começar a ser introduzidas gradualmente, jejuando 2 ou 3 dias de forma não rigorosa.
- Idosos
- Pessoas enfermas ou com condições de saúde (como diabetes, gastrite, etc.)
- Gestantes e lactantes: O foco deve ser a nutrição adequada para si e para o bebê.
- Viajantes (quando as circunstâncias tornam impossível manter o jejum)
- Convidados em casa de não-ortodoxos: Receba a refeição com ação de graças e humildade.
Em todos esses casos, o princípio permanece: o jejum não deve prejudicar o corpo. Se você se enquadra em alguma dessas categorias, converse com seu pai espiritual. Ele o ajudará a desenvolver um plano que funcione para sua situação.
Parte VII: O Jejum e a Preparação para a Comunhão
A preparação para receber a Sagrada Comunhão está intimamente ligada ao jejum, embora as práticas possam variar com orientação espiritual.
Tradicionalmente, a preparação inclui:
- Jejum de alimentos (geralmente de 3 a 7 dias, dependendo da frequência com que se comunga)
- Confissão sacramental antes da Comunhão
- Jejum eucarístico: na manhã da Comunhão, nada deve ser ingerido antes de receber o Corpo e Sangue de Cristo (incluindo água, exceto em caso de necessidade de medicação)
Crianças: A partir do batismo podem receber a Comunhão, e as regras de jejum não se aplicam a elas até os 8 anos.
Parte VIII: Atitude correta diante do Jejum
O que o Jejum NÃO é:
- Uma lista de verificação para “agradar” a Deus
- Uma obrigação pesada que gera ansiedade
- Uma prática mágica
- Motivo para orgulho ou para julgar os outros
O que o Jejum É:
- Um remédio para nossas paixões
- Um treino para a alma aprender o autocontrole
- Uma ferramenta para nos aproximar de Deus
- Uma oferta de amor a Deus
Palavras de São João Crisóstomo:
De que serve jejuar de comida e não jejuar da língua? Não te beneficias em nada se, embora te abstenhas de carne, cometes injustiças e praticas más ações.
O Hino da Tyrofagia nos lembra:
Chegou o tempo, início das lutas espirituais, vitória sobre os demônios, armadura completa do autocontrole, dignidade dos anjos, confiança diante de Deus. Por ele, Moisés tornou-se íntimo do Criador e ouviu a voz invisível. Concede-nos, Senhor, por meio do jejum, adorar dignamente Tua Paixão e Santa Ressurreição, ó Filântropo.
Parte IX: Lembrete Final
A Quaresma não é um tempoo de privação. Não devemos “desistir” de algo apenas para recuperá-lo quando a Quaresma terminar. A Quaresma é sobre arrependimento — fazer pequenas e permanentes mudanças que nos aproximem do Senhor, mudanças que durem muito depois que a Quaresma terminar.
Este é o propósito da jornada quaresmal. O jejum é um auxílio para nos ajudar nisso.
Examinai tudo, retende o que é bom. (1 Tessalonicenses 5,21)
REFERÊNCIAS:
- AKROTIRIANAKIS, Stavros N. (Pe.). And When You Fast. Greek Orthodox Archdiocese of America.
- Different Levels of Fasting in the Orthodox Church. Saint John the Baptist Greek Orthodox Church.
- Fasting Rules & Regulations. Kimisis Tis Theotokou Greek Orthodox Church.
- ROSE, Seraphim (Hieromonge). The Rule of Fasting in the Orthodox Church. Publicado originalmente no Saint Herman Calendar.
- Sagrada Escritura. Novo Testamento. Evangelhos e Epístolas. Citações bíblicas conforme versão canônica da Igreja Ortodoxa.
- Hinos Litúrgicos da Igreja Ortodoxa. Doxastikon das Matinas do Domingo da Tyrofágia. Tradução de Seraphim Dedes.
- Todas as fontes foram acessadas no dia 15 de fevereiro de 2026.


