Rainha das Virtudes e Caminho para a Páscoa
À medida que a Santa Igreja nos conduz mais uma vez pelo glorioso período da Grande Quaresma, somos chamados a refletir sobre uma das práticas mais fundamentais e, simultaneamente, mais mal compreendidas da vida espiritual: o jejum. Longe de ser uma mera abstinência alimentar ou um conjunto de regras dietéticas, o jejum constitui, segundo a rica tradição bíblica e patrística da Igreja Ortodoxa, a própria “rainha das virtudes” — um poderoso meio de transformação espiritual que nos prepara para acolher a Ressurreição de Cristo.
O Fundamento Bíblico: Do Gênesis ao exemplo de Cristo
A importância do jejum na economia divina revela-se desde as primeiras páginas da Sagrada Escritura. Como observa Taxiarchis Polimou, o jejum é um instituto muito antigo. É o primeiro mandamento dado ao homem por Deus.
No livro do Gênesis, lemos que Deus ordenou ao homem que podia comer de todas as árvores do Paraíso, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2, 16-17). O homem desobedeceu e, assim, entrou no mundo o pecado e a morte. Torna-se, portanto, particularmente compreensível o mal que causou a não observância do mandamento do jejum) [¹].
Ao longo do Antigo Testamento, os grandes vultos da fé santificaram-se através desta prática. Moisés jejuou quarenta dias no Monte Sinai antes de receber as Tábuas da Lei (Ex 34, 27-28). O profeta Daniel jejuou antes de elevar suas preces a Deus (Dn 9, 3-5). O profeta Isaías, por sua vez, adverte que o jejum não deve estar separado do amor ao próximo, pois, isolado, nada pode oferecer. Quando, porém, o jejum é acompanhado pelo amor ao próximo, então Deus ouvirá as nossas orações) (Is 58, 2-12) [¹].
No Novo Testamento, é o próprio Cristo quem nos dá o exemplo supremo. Antes de iniciar sua vida pública, retirou-se ao deserto e jejuou quarenta dias (Mt 4, 1-2). Se o Senhor, sendo Deus, julgou necessário preparar-se desta forma para a sua missão, quanto mais nós, frágeis humanos, necessitamos deste exercício espiritual! Entretanto, adverte-nos o Mestre contra a hipocrisia farisaica: quando jejuardes, não vos mostreis tristes como os hipócritas, mas, cuidando do nosso cabelo e lavando o nosso rosto. (Mt 6, 16-18) [¹]
Um ensinamento particularmente significativo encontra-se no episódio em que os discípulos não conseguiram expulsar um demônio de um jovem. Cristo, após realizar a cura, explicou-lhes: “aquela espécie (de demônios) só sai com oração e jejum”. (Mt 17, 14-21), revelando assim o poder extraordinário destas duas virtudes quando unidas [¹].
A Voz dos Padres: O Jejum como Transformação Integral
A tradição patrística desenvolve e aprofunda extraordinariamente o sentido do jejum, apresentando-o não como um fim em si mesmo, mas como um caminho de ascese que atinge todas as dimensões do ser humano.
São Basílio Magno, num dos seus discursos sobre o jejum, exalta os seus múltiplos benefícios:
“η νηστεία προφυλάσσει τα νήπια, σωφρονίζει το νέο, κάνει σεβαστό το γέροντα […] Για τις γυναίκες στολίδι ταιριαστό, χαλινάρι των ακμαίων, φυλακτήριο της συζυγικής ζωής, τροφός της παρθενίας” (o jejum protege as crianças, disciplina o jovem, torna o idoso respeitável […] Para as mulheres, é um ornamento adequado, um freio para as que estão na flor da idade, um guarda da vida conjugal, um alimento da virgindade). Mais ainda, o grande Capadócio descreve o poder do jejum de pacificar sociedades inteiras: “Με μιας όλη την πόλη και όλο το λαό βάζει σε τάξη, κοιμίζει την κραυγή, εξορίζει τη μάχη, κατασιγάζει την ύβρη” (De uma só vez, põe em ordem toda a cidade e todo o povo, adormece o clamor, exila a contenda, acalma a insolência) [¹].
São João Crisóstomo, o “Boca de Ouro”, oferece-nos um dos ensinamentos mais completos sobre a natureza integral do jejum. Com a sua característica veemência pastoral, pergunta:
“Νηστεύεις; Απόδειξέ το μου διαμέσου των έργων. Αν δεις φτωχό να τον ελεήσεις. Αν δεις εχθρό να συμφιλιωθείς μαζί του. Αν δεις μια όμορφη γυναίκα να την αντιπαρέλθεις” (Jejuas? Prova-me através das obras. Se vires um pobre, tem piedade dele. Se vires um inimigo, reconcilia-te com ele. Se vires uma mulher bonita, ignora-a).
E acrescenta:
“Ας μη νηστεύει λοιπόν μόνο το στόμα αλλά και το μάτι και η ακοή και τα πόδια και τα χέρια και όλα τα μέλη του σώματός μας” (Que não jejue apenas a boca, mas também o olho, o ouvido, os pés, as mãos e todos os membros do nosso corpo).
O grande Padre deixa claro o absurdo de nos abstermos de certos alimentos enquanto devoramos os irmãos com a língua:
“Διότι τι όφελος έχουμε όταν απέχουμε από πουλερικά και ψάρια, δαγκώνουμε όμως και κατατρώμε τους αδελφούς μας;” (Pois que proveito temos em abster-nos de aves e peixes, se mordemos e devoramos os nossos irmãos?) [¹].
São João Clímaco, o grande asceta do Sinai, aborda o aspeto prático da luta contra a gula, observando uma lei espiritual e fisiológica simultaneamente:
“εκείνος που καταπιέζει την κοιλία με πολλά φαγητά, επλάτυνε τα έντερα, ενώ εκείνος που της εναντιώνεται, τα εστένευσε. Όταν αυτά εστένευσαν, δε χρειάστηκαν πολλά φαγητά, οπότε κατά φυσικό τρόπο μαθαίνουμε να νηστεύουμε” (quem oprime o ventre com muitas comidas alarga os intestinos, enquanto quem lhe resiste os estreita. Quando estes se estreitam, não precisam de muitas comidas, pelo que aprendemos naturalmente a jejuar) [¹].
São Gregório Palamas, o grande teórico do hesicasmo, revela a dimensão contemplativa do jejum:
“η νηστεία και η εγκράτεια τις μεν επαναστάσεις του σώματος τις κοιμίζουν, τη λύσσα του θυμού και της επιθυμίας τη μαραίνουν. Φέρνουν αιθρία καθαρή και ανέφελη στην διάνοια, καθαρίζοντάς την από τους ατμούς που βγαίνουν από το πλήθος των βρωμάτων” (o jejum e a temperança adormecem as revoltas do corpo e fazem murchar o furor da ira e do desejo. Trazem uma serenidade pura e sem nuvens à mente, limpando-a dos vapores que emanam da multidão de alimentos). E conclui com a dinâmica pascal do jejum: “Με τη νηστεία και την εγκράτεια, φθείρεται ο εξωτερικός άνθρωπος και όσο φθείρεται αυτός, τόσο ανακαινίζεται ο εσωτερικός” (Com o jejum e a temperança, o homem exterior corrompe-se e, quanto mais este se corrompe, mais o homem interior se renova) [¹].
A Rainha das Virtudes no Hino do Triódio
O período quaresmal é cantado na Igreja com uma beleza teológica ímpar. O Triódio, esse livro litúrgico que nos guia durante a Grande Quaresma, está repleto de hinos que exaltam o jejum de forma surpreendente. Como recorda o padre Demétrios Bokos, já no Doxastikón dos Louvores do Domingo de Carnaval (domingo anterior ao início da Quaresma), somos exortados:
“Προκαθάρωμεν εαυτούς, αδελφοί, τη βασιλίδι των αρετών· ιδού γαρ παραγέγονε, πλούτον ημίν αγαθών κομίζουσα· των παθών κατευνάζει τα οιδήματα, και τω Δεσπότη καταλλάττει τους πταίσαντας” (Purifiquemo-nos a nós mesmos, irmãos, com a rainha das virtudes; pois eis que chegou, trazendo-nos riqueza de bens; ela acalma os inchaços das paixões e reconcilia os pecadores com o Senhor). [²]
Este título — “rainha das virtudes” — pode parecer surpreendente, uma vez que outros Padres atribuem esta coroa à oração, à esmola, à discrição ou ao amor. No entanto, o hino justifica-o: o jejum traz-nos riqueza de bens. É ele que nos introduz nas outras virtudes. Todas as realizações espirituais dos santos têm o seu ponto de partida no jejum. Moisés contemplou Deus depois de jejuar; Elias foi elevado aos céus brilhando pelo jejum; os Três Jovens apagaram a chama da fornalha pelo fogo do jejum; Daniel fechou a boca dos leões com o jejum; Paulo tornou-se temível corredor dos céus através dele. Todos os santos, cingindo-se para o bom combate do jejum, alcançaram feitos admiráveis. [²]
O Triódio não se cansa de enaltecer esta virtude. O jejum é descrito como espada que corta do coração toda a malícia; é o princípio dos combates espirituais, a vitória contra os demônios, a temperança toda-armada, a beleza dos Anjos, a confiança para com Deus. É ainda chamado “άμωμος, πάνσεπτος, σωτήριος”, sendo imaculado, todo-venerável, salutar, salvação das almas, mãe da temperança, acusador do pecado e advogado do arrependimento, modo de vida dos anjos, mais resplandecente que as virtudes, concidadão dos céus. [²]
O que torna estes elogios ainda mais notáveis é que, em toda a parte, o jejum é nomeado “τρυφή” e “φαιδρότης” (delícia e resplendor), isto é, prazer e não sofrimento. É ele que nos torna novamente habitantes do Paraíso, de onde nos tinha expulsado a incontinência de Adão. O próprio Senhor indicou que vencêssemos pelo jejum o diabo, vestindo a luminosa túnica do jejum, em vez de endeusarmos o ventre. [²]
O Caminho da Humildade: A Sabedoria do Abba Doroteu
Talvez a questão mais profunda sobre o jejum seja: como consegue ele ser tão eficaz? A resposta, segundo a sabedoria dos Padres, é simples: porque conduz diretamente à base de toda a vida espiritual — a humildade.
O Abba Doroteu, nesse precioso manual de espiritualidade que são as suas Instruções, explica a relação entre o trabalho corporal e a disposição da alma. Após a queda, diz ele,
a alma foi cativada pela filadonia (amor ao prazer) e ficou encerrada na sua falsa autonomia. Amou as paixões corporais. Tornou-se toda carne). Por isso, a alma chegou a compadecer-se com o corpo e a identificar-se com a sua disposição. Diferentes estados corporais produzem diferentes disposições na alma: Uma disposição tem a alma do são e outra a do doente. Uma do faminto e outra do saciado. [²]
Assim, quando por alguma razão o corpo é humilhado, a alma é humilhada juntamente. O jejum é um desses “trabalhos corporais” que humilham o corpo e, consequentemente, conduzem a alma à humildade. Eis porque os santos ensinam que os trabalhos corporais conduzem à humildade. [²]
Abba Doroteu ilustra dramaticamente a necessidade desta humildade com a história de um homem que, por falta dela, caiu na mais terrível loucura espiritual. Começou por desprezar todos os seus contemporâneos, depois os grandes santos, depois os apóstolos, até que orgulhou-se contra o próprio Deus e enlouqueceu completamente. [²] Eis, conclui o padre Demétrios Bokos, de que coisas terríveis nos protege a humildade. E eis porque o jejum, precisamente porque nos conduz à humildade, é justamente intitulado rainha das virtudes. [²]
O Verdadeiro Sentido do Jejum
Sintetizando o ensinamento da Escritura e dos Padres, podemos compreender que o jejum não se limita apenas à redução do consumo de alimentos, mas também ao freamento de todos os membros do nosso corpo. O jejum verdadeiro é aquele em que todo o nosso ser — olhos, ouvidos, boca, mãos, pés — participa da ascese, abstendo-se não apenas de certos alimentos, mas de todo pecado. [¹]
Além disso, é fundamental entender que o jejum não é um fim, mas um meio. Através dele, torna-se mais fácil o nosso caminho para o Rei Celestial, Cristo. Isto significa o verdadeiro jejum segundo a tradição da nossa Santa Igreja. [¹]
Como adverte o padre Demétrios Bokos, é preciso cuidado para não cairmos no erro de alguns que, dando supostamente importância a temas mais “espirituais” e ao que é proclamado levianamente, de que não é o que entra pela boca que contamina, mas o que sai do coração, alguns abolem completamente o jejum ou dão-lhe muito pouca importância. Esta atitude representa uma má compreensão da distinção entre jejum verdadeiro e inútil, que os Padres sempre fizeram, mas nunca para abolir a prática, e sim para a purificar. [²]
Conclusão: O Combate que Conduz à Ressurreição
A Grande Quaresma é apresentada pela Igreja como um “στάδιο των αρετών” (estádio das virtudes), um campo de treino espiritual onde somos chamados ao combate. E que combate é este? Com temperança, todos nos esforcemos por humilhar a carne, percorrendo o divino estádio do imaculado jejum. … Crucifiquemos os membros pela temperança. … Com temperança, mortifiquemos as paixões; com o jejum, alcemos voo com o espírito para o céu. [²]
É um combate, sim, mas com um desfecho glorioso. Pois todo este esforço — esta “βασιλίς των αρετών” (rainha das virtudes) — tem um objetivo: preparar-nos para acolher Aquele que venceu o mundo. Como escreve Taxiarchis Polimou, ao longo da Quaresma caminhamos para a Páscoa, para esse momento em que todos os inimigos da nossa fé se colocam em fuga, para a gloriosa Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. [¹]
É precisamente porque acreditamos n’Aquele que venceu a morte que podemos empreender este caminho. Avante, pois, entremos no bom combate da Grande Quaresma e estejamos certos de que Cristo está conosco! Se Deus é por nós, quem será contra nós? Amém!). [¹]
Que a rainha das virtudes nos conduza, pela humildade e pela ascese, ao encontro do Rei ressuscitado, e que o nosso jejum seja verdadeiramente aquele que a Igreja nos ensina: integral, alegre, humilde e transfigurador.
Fontes:
[¹] POLIMOU, Taxiarchis. Η νηστεία κατά τη βιβλική και πατερική παράδοση (O jejum segundo a tradição bíblica e patrística). Romfea.gr. Disponível em: https://www.romfea.gr/pneumatika/6925-i-nisteia-kata-ti-bibliki-kai-pateriki-paradosi. Acesso em: 16 fev. 2026.
[²] BOKOS, Pe. Demétrios. Νηστεία, η βασίλισσα των αρετών (O jejum, a rainha das virtudes). Koinonia Orthodoxias, 06 mar. 2025. Disponível em: https://www.koinoniaorthodoxias.org/martiria-kai-didaxi/nisteia-i-vasilissa-twn-aretwn/. Acesso em: 16 fev. 2026


