Christos Yannaras — Parte II de VI
Love at the Core of Existence
Apresentação
Neste segundo encontro, Christos Yannaras aprofunda uma questão fundamental de sua reflexão filosófica e teológica: a existência é determinada pela necessidade ou encontra seu fundamento na liberdade e no amor? Partindo da linguagem filosófica grega e da distinção entre essência (ousía) e hipóstase, o autor examina a transformação introduzida pela revelação cristã na compreensão do ser. O Deus revelado em Jesus Cristo não é uma essência impessoal submetida à necessidade, mas o Deus Trinitário, cuja existência se manifesta como liberdade, comunhão e amor.
A argumentação culmina no testemunho apostólico da Encarnação: em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a Igreja reconhece que o fundamento último da existência não é uma necessidade abstrata, mas o amor pessoal.
Fonte: Christos Yannaras’ Insights on God, Man, the Church, and the World — Parte 2/6 · Sebastian Press Academia. Tradução do grego para o português, com organização editorial e subtítulos acrescentados.
I. Tradução — Texto de Christos Yannaras
1. Cristo revela o modo de existência de Deus
Portanto, ao contemplarmos a pessoa histórica de Cristo, contemplamos o modo pelo qual Deus existe, o modo pelo qual Deus é. Consequentemente, vemos o Pai. A Igreja expressou-se por meio da linguagem de sua época. E a linguagem da época em que a Igreja surgiu, em que foi fundada, a língua comum daquele tempo, era o grego. Os gregos designavam as realidades existentes principalmente por meio de duas palavras. Com a palavra ousía (οὐσία), designavam todos os seres da mesma espécie, isto é, um conjunto de realidades existentes que possuem a mesma natureza, a mesma forma.
Mas a forma não é simplesmente aquilo que vemos. É um modo de existência, um modo de participação no ser.
2. O significado de ousía: essência como modo de existência
A palavra ousía é muito característica, porque deriva do feminino do particípio do verbo ser, do verbo «sou»: ón, ousa, on (ὤν, οὖσα, ὄν), especificamente de ousa. Portanto, chamamos ousía ao modo pelo qual existe um conjunto de seres que possuem a mesma forma, a mesma espécie. Tomemos, por exemplo, o cavalo. Existe uma essência, um modo pelo qual cada cavalo é cavalo. Existe também a essência do gato. Cada gato existe do mesmo modo pelo qual existe qualquer outro gato. É a esse modo que damos o nome de essência.
Esse modo, porém, não existe separadamente de suas realizações concretas na existência, isto é, das suas hipóstases. Consequentemente, reunimos na palavra ousía aquelas características que fazem com que, por exemplo, no caso do ser humano, possamos falar de uma essência humana. Quais são essas características? São aquelas que fazem com que cada ser humano seja humano. Naturalmente, cada ser humano existe segundo o modo de existência comum a todos os demais seres humanos, mas acrescido de uma particularidade própria.
Seria necessário falar durante muito tempo para explicar com precisão todo o conteúdo da palavra ousía. O que desejo que seja compreendido, para que possamos avançar em nossa conversa, é que a palavra ousía indica um modo de existência. A essência não existe por si mesma, separadamente. Ela é um modo.
3. A concepção grega da essência e o problema da necessidade
Naturalmente, esse modo coincide com uma determinada definição. Dizemos, por exemplo, que a essência do ser humano consiste em ser um animal que caminha ereto, capaz de rir, dotado de inteligência, e assim por diante. Esse modo é determinado. Para os antigos gregos, era predeterminado. Isto significa que eles não possuíam uma resposta para a pergunta: quem determinou as essências? Quem estabeleceu que os seres humanos seriam assim, que os cavalos seriam assim, que as flores e os mamíferos seriam assim? Não havia uma resposta. E por que não?
Porque não era Deus quem determinava a razão de ser de cada essência. Isso porque o próprio Deus também estava submetido a uma determinação. Quando os gregos empregavam a palavra Deus, entendiam por ela uma realidade definida, determinada. Mas determinada por quem? Por uma racionalidade dada, por um lógos cuja origem desconhecemos e que determina todas as coisas. Uma racionalidade que já estabeleceu tudo antecipadamente e, portanto, também aquilo que Deus é. É necessário que Deus seja aquilo que é. Existe uma expressão entre os filósofos pré-socráticos que afirma, em substância, que até os deuses estão submetidos à necessidade.
É uma necessidade. Tudo está predeterminado. Mas, se antes de Deus existe uma necessidade que determina a sua existência, então não resta espaço para a liberdade da existência. Tudo aquilo que existe encontra-se submetido a uma necessidade.
4. A revelação do Deus Trinitário: a liberdade como princípio da existência
É precisamente essa concepção que a Igreja vem transformar radicalmente. E ela a transforma por meio da verdade acerca do Deus Trinitário. A palavra Pai designa alguém que quer existir e que realiza essa vontade de existir gerando o Filho e fazendo proceder o Espírito. Ele é a causa de sua própria existência. A existência encontra sua causa naquele que quer gerar o Filho e fazer proceder o Espírito. E Ele faz isso por amor. Por amor significa em absoluta liberdade. Jamais podemos amar obrigatoriamente, por necessidade.
Consequentemente, a geração do Filho e a processão do Espírito constituem o triunfo da liberdade como princípio causal da existência. O Pai quer existir porque é Pai, não porque é Deus. A palavra Deus designa a essência. A palavra Pai designa aquilo que é o Deus da Igreja.
5. A Igreja nasceu de uma experiência histórica, não de uma teoria filosófica
Gostaria de acrescentar ainda uma coisa: como foi que a Igreja começou a dizer tudo isso? Havia, por acaso, alguns filósofos sábios que pensaram todas essas coisas, formularam-nas e, depois, os demais homens simplesmente as aceitaram? Como sabemos, a Igreja surgiu, nasceu tendo como núcleo doze pescadores, doze homens simples. Não possuía uma origem filosófica. Entretanto, esses doze pescadores tinham uma experiência histórica concreta. Não uma inspiração, não uma ideia, não uma opinião. Uma experiência histórica. João diz: «Aquilo que vimos com nossos olhos, aquilo que ouvimos com nossos ouvidos, aquilo que nossas mãos apalparam, é isso que testemunhamos».
O que era isso? Era a presença de uma pessoa histórica, Jesus de Nazaré, que, por meio de sua vida e dos sinais que a acompanhavam, afirmava — não apenas com palavras, mas com os sinais de sua vida, com seu próprio modo de existência — que era o Filho de Deus.
6. Os milagres de Cristo como sinais da liberdade diante da natureza
Quais eram esses sinais? O que revelavam? E de que maneira tornavam convincente a conclusão de que Ele era o Filho de Deus? Esses sinais manifestavam que, nele, haviam sido vencidas as leis da natureza. Isto é, que na pessoa de Cristo haviam sido superados os limites, as condições e as necessidades que governam a natureza humana. A natureza humana está submetida ao tempo, ao espaço, à corrupção e à morte. Cristo era livre dessas limitações. Era livre, por exemplo, da corrupção. E não apenas era livre, mas possuía também a capacidade de libertar a existência da corrupção.
Ele realizava curas. Os milagres de Cristo não eram demonstrações de algum poder sobrenatural. Não eram uma exibição de capacidades extraordinárias, como aquelas realizadas pelos faquires. Cristo realizava um milagre e dizia: «Não conteis nada a ninguém sobre este milagre». Não é verdade? Isso significava que o milagre não tinha por finalidade demonstrar um poder sobrenatural. O milagre era simplesmente um sinal de que Cristo possuía a capacidade de libertar a existência das necessidades que a dominam e a atormentam, das limitações próprias da natureza.
7. A Encarnação: Deus é livre até mesmo de sua divindade
É essa experiência que os Apóstolos testemunham. A possibilidade de Deus tornar-se homem. Isto é, o testemunho de que Deus é livre até mesmo de sua própria divindade. Pode existir segundo outro modo de existência, com outra essência. Não está obrigado a ser Deus. E isso não é deduzido como uma conclusão teórica. É reconhecido a partir da experiência de que Ele se tornou homem. E, sendo homem, era perfeitamente Deus, sem deixar de ser verdadeiramente homem. Algo que a mente humana encontra enorme dificuldade em compreender. Foi por isso que surgiram também as heresias.
Alguns vieram e disseram: «Vede, Ele era Deus e apenas parecia ser homem». Não. A Igreja reuniu-se em Concílio e declarou: «Não, estais enganados. Ele era verdadeiramente homem». Outros disseram: «Ele era apenas homem e possuía uma graça especial recebida de Deus». A Igreja rejeitou ambas as posições e afirmou: Não. Ele era verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Porque Deus não significa simplesmente onipotente, onisciente e todas aquelas características de que falavam os gregos. Deus significa aquele que existe porque ama. E todo aquele que ama esvazia-se de si mesmo, realiza a kénosis.
Consequentemente, a Encarnação do Filho é a manifestação de Deus. A manifestação de Deus como amor, como esvaziamento de si mesmo e como autodoação.
8. A Igreja como testemunho do amor que dá origem à existência
É sobre essa experiência histórica que a Igreja se edifica. E é essa experiência histórica que a Igreja testemunha. Não estamos falando de uma doutrina religiosa mais inteligente, mais completa ou mais perfeita, que oferecemos ao mundo. A Igreja não oferece ao mundo uma doutrina religiosa superior. Não é uma religião melhor. Não é sequer uma religião. É algo diferente. É o testemunho de que a causa de tudo aquilo que existe é o amor. Mas um amor pessoal.
É um esposo, um amante, que ama todas as coisas e as cria porque as ama, e que continuamente se entrega por inteiro a elas, porque as ama.
II. Comentário teológico
A existência como liberdade, comunhão e amor
A segunda parte das reflexões de Christos Yannaras apresenta uma das questões centrais de seu pensamento: a distinção entre uma existência compreendida a partir da necessidade e uma existência compreendida a partir da liberdade pessoal. O autor não pretende simplesmente acrescentar uma interpretação cristã à filosofia grega. Seu propósito é mostrar que a revelação do Deus Trinitário transforma radicalmente a maneira de compreender o ser, a pessoa, a liberdade e o amor.
1. Da essência à pessoa
Na filosofia grega, a noção de ousía permitia reconhecer aquilo que os seres possuem em comum. Os indivíduos pertencentes à mesma espécie compartilham uma natureza, um conjunto de características que os tornam aquilo que são. Yannaras, entretanto, chama a atenção para uma questão que ultrapassa a definição da essência: a existência concreta não se reduz à natureza comum. Cada ser humano participa da mesma natureza humana, mas existe de maneira singular. Não somos simplesmente exemplares de uma espécie. Somos pessoas, com uma identidade própria e irrepetível.
Essa distinção prepara o caminho para a compreensão cristã de Deus. A palavra Deus pode designar a natureza divina, mas os nomes Pai, Filho e Espírito Santo revelam a existência pessoal e trinitária de Deus. Na tradição teológica oriental, a distinção entre essência e hipóstase é fundamental. A essência responde à pergunta sobre o que algo é; a hipóstase diz respeito à sua existência concreta e singular.
2. O Pai e a liberdade divina
Ao afirmar que o Pai é o princípio da existência divina, Yannaras retoma um tema importante da tradição patrística, particularmente da teologia dos Padres Capadócios. O Pai é reconhecido como princípio pessoal da geração eterna do Filho e da processão eterna do Espírito Santo. Essa compreensão não significa que o Pai exista antes das outras Pessoas divinas, nem que o Filho e o Espírito sejam inferiores a Ele. As três Pessoas são eternas, consubstanciais e inseparáveis.
A linguagem de Yannaras sobre a liberdade do Pai deve ser compreendida nesse horizonte. Deus não existe porque esteja submetido a uma necessidade exterior ou a uma lei anterior à sua existência. Sua existência é absolutamente livre. Contudo, é importante distinguir essa liberdade de uma escolha temporal ou de uma possibilidade de Deus deixar de ser Deus. A teologia cristã confessa que Deus é eterno, imutável em sua divindade e plenamente livre. A liberdade divina não significa arbitrariedade, mas a ausência de qualquer determinação exterior a Deus.
3. A Encarnação como revelação do amor
A reflexão alcança seu ponto decisivo quando Yannaras passa da filosofia à experiência histórica dos Apóstolos. A fé cristã não nasceu de uma construção especulativa, mas do encontro com Jesus Cristo. Os Apóstolos testemunharam uma pessoa concreta, cuja vida, ensinamentos, milagres, morte e Ressurreição revelaram uma realidade que ultrapassava os limites da existência humana submetida à corrupção e à morte. Os milagres, nessa perspectiva, não são demonstrações espetaculares de poder. São sinais da liberdade de Cristo diante das limitações da natureza e manifestações de seu amor pela humanidade.
A Encarnação revela que o Filho de Deus assume verdadeiramente a natureza humana, sem deixar de ser Deus. Essa afirmação constitui o centro da cristologia ortodoxa: Jesus Cristo é uma única Pessoa divina, o Filho eterno do Pai, em duas naturezas, divina e humana, sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação, conforme a definição do Concílio de Calcedônia (451). Por isso, a afirmação de Yannaras de que Deus é livre até mesmo de sua divindade não deve ser interpretada como abandono ou transformação da natureza divina. O Filho assume a natureza humana sem perder sua divindade.
4. A kénosis: o amor como autodoação
O termo grego kénosis (κένωσις), que significa esvaziamento, ocupa um lugar fundamental nessa reflexão. Sua referência bíblica principal encontra-se na Epístola aos Filipenses: «Ele, existindo em forma de Deus, não considerou como algo a que se apegar o ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo» (cf. Fl 2,6-7). A kénosis não significa que Cristo tenha deixado de ser Deus, mas que a sua divindade se manifesta na humildade, na entrega e no amor. O Filho não revela o Pai mediante a imposição de um poder irresistível, mas mediante uma existência inteiramente oferecida.
A Cruz constitui a manifestação suprema desse amor. Assim, a liberdade divina não se expressa como domínio, mas como autodoação. O amor verdadeiro não busca possuir o outro, mas oferecer-se a ele.
5. A Igreja não é simplesmente uma religião melhor
Uma das afirmações mais provocativas de Yannaras aparece no encerramento do vídeo: a Igreja não oferece ao mundo uma religião superior; ela testemunha uma realidade inteiramente diferente. Essa afirmação deve ser compreendida no contexto de sua crítica à redução do cristianismo a um sistema de crenças, normas morais e práticas religiosas. A Igreja não existe apenas para transmitir ensinamentos sobre Deus. Sua razão de ser é testemunhar e tornar possível a participação na vida que Cristo revelou. A fé cristã não se limita à aceitação intelectual de determinadas verdades. Ela implica uma transformação do modo de existir.
Por isso, a vida eclesial encontra sua expressão mais profunda na comunhão eucarística, na qual a existência deixa de ser compreendida como uma realidade isolada e autossuficiente e passa a ser vivida como relação, participação e oferta. A Igreja é, nesse sentido, o lugar em que a verdade da existência como comunhão se torna experiência concreta.
6. O amor pessoal como fundamento de tudo o que existe
O pensamento de Yannaras culmina numa afirmação de grande profundidade: a causa de tudo aquilo que existe é o amor pessoal. A criação não é resultado de uma necessidade impessoal. Deus não cria porque precise do mundo, nem porque esteja obrigado a realizar alguma finalidade exterior a si mesmo. Ele cria livremente, por amor. A imagem do esposo ou do amante, utilizada por Yannaras, remete à linguagem bíblica e à tradição mística cristã, nas quais a relação entre Deus e a humanidade é frequentemente expressa por meio do amor nupcial.
Essa imagem não pretende atribuir a Deus paixões humanas, mas revelar o caráter pessoal, gratuito e inesgotável de seu amor. A existência criada é, portanto, um dom. E o ser humano, criado à imagem de Deus, encontra sua realização não no isolamento, na autossuficiência ou no domínio sobre os outros, mas na liberdade de amar e de participar da comunhão. Existir verdadeiramente como pessoa significa aprender a transformar a própria vida em relação, comunhão e autodoação.
III. Para reflexão e aprofundamento
A exposição de Yannaras convida-nos a reconsiderar algumas perguntas fundamentais. Se Deus não cria por necessidade, mas por amor, o que significa reconhecer a própria existência como dom? Se Cristo manifesta sua liberdade não pelo exercício do poder, mas pela entrega de si mesmo, como devemos compreender a liberdade humana? E se a Igreja não é simplesmente uma instituição destinada a transmitir ensinamentos religiosos, mas uma comunidade chamada a testemunhar a vida como comunhão, de que maneira essa verdade se manifesta em nossa experiência eclesial cotidiana?
Essas perguntas conduzem ao núcleo da reflexão de Yannaras: o amor não é apenas uma virtude moral ou um sentimento humano; é a chave para compreender o mistério da existência pessoal.



