Hierodiácono Gennadios Manolis, Teólogo
Ao longo de sua história multissecular, a Igreja Ortodoxa esteve frequentemente exposta à ameaça das heresias. Não, certamente, a Igreja enquanto Corpo de Cristo, pois «as portas do Hades não prevalecerão contra ela»[1], mas seus membros individualmente, que, em diferentes épocas, tornam-se vítimas de lobos que se apresentam «vestidos de ovelhas»[2]. Também hoje essa ameaça é real, pois continuam atuando centenas de heresias extremamente perigosas para o ser humano.
A presença das heresias constitui um fenômeno que acompanha a Igreja desde os primeiros tempos de sua existência e de sua caminhada para a evangelização do mundo. Já nos primeiros anos do cristianismo surgiram, no seio da Igreja, diversas concepções heréticas, decorrentes da incapacidade de uma parcela dos primeiros cristãos de compreender o sentido do Evangelho. Tais concepções, porém, foram enfrentadas e combatidas pelos santos Apóstolos[3]. A heresia é um fenômeno que já o apóstolo Paulo considera uma manifestação do «mistério da iniquidade»[4]. A partir do século IV, contudo, surgiram grandes doutrinas errôneas que abalaram a Igreja.
A definição do termo «heresia» (αἵρεσις) é-nos dada por São Basílio Magno, que, em seu primeiro cânon sagrado, escreve:
«Heresias são [as daqueles] que se separaram completamente e se tornaram estranhos à própria fé»[5].
O professor P. Christinakis ressalta, entre outras coisas, que heresia é o desvio do dogma ortodoxo, uma fé diferente da fé da Igreja Ortodoxa[6]. A palavra αἵρεσις provém do verbo que significa «preferir», «escolher» e, em seu emprego teológico, designa a oposição à fé e ao ensinamento católicos da Igreja por parte de um ou mais de seus membros. As heresias põem em dúvida a autenticidade da fé cristã e introduzem na Tradição e no ensinamento dogmático da Igreja concepções errôneas e doutrinas falsas. Ao mesmo tempo, porém, o corpo da Igreja — clero e povo — mobiliza-se para manifestar a doutrina errônea e o engano e para restabelecer a verdade. O resultado dessa ação do corpo da Igreja é a salvaguarda da fé reta, isto é, da Ortodoxia.
O professor N. Matsoukas examina a heresia em contraposição aos dogmas e explica que os dogmas constituem a vida reta, enquanto a heresia é a vida corrompida e errônea[7]. Por fim, o professor I. Karmiris define categoricamente a heresia como «todo ensinamento errôneo que se desvia da genuína fé cristã»[8]. Trata-se da fé descrita nos Evangelhos, e qualquer desvio dela conduz à condenação e à exclusão do corpo da Igreja, conforme adverte o apóstolo Paulo:
«Se alguém vos anunciar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja anátema»[9].
A heresia, portanto, não permanece simplesmente como um desvio consciente e persistente do cristão em relação à fé da Igreja, expressa de maneira explícita e clara; ela também acarreta consequências, pois é condenada[10] mediante a exclusão e a separação do corpo da Igreja[11]. Consequentemente, quando falamos de heresia, falamos de um desvio da verdadeira fé. É como minar o caminho que conduz à salvação[12]. Segundo o apóstolo Paulo[13], Deus permite que existam entre os cristãos falsos ensinamentos — heresias — que, embora provoquem rupturas na unidade da Igreja, suscitam também uma crise por meio da qual os cristãos genuínos e firmes podem manifestar com maior vigor a reta fé e o ensinamento da Igreja e evitar as maquinações do Diabo[14].
À pergunta sobre quem são os hereges, respondem os sagrados cânones, que, entre outras coisas, estabelecem:
«Chamamos hereges àqueles que outrora foram rejeitados pela Igreja e àqueles que, posteriormente, foram por nós anatematizados; além destes, também aqueles que fingem professar a fé íntegra, mas se separaram e constituíram assembleias contrárias aos nossos bispos canônicos»[15].
A presença dos hereges já havia sido assinalada pelo apóstolo Pedro nos tempos do Novo Testamento, quando escreveu:
«Houve também falsos profetas entre o povo, como também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão dissimuladamente heresias de perdição»[16].
O professor M. Farantos, interpretando São Gregório de Nissa, também aponta um elemento característico dos hereges, observando que «os hereges possuem forte inclinação para o subjetivismo e o liberalismo. Os hereges […] fundamentalmente não fazem teologia, mas dogmatizam segundo sua própria autoridade, negligenciando as coisas de Deus, conforme sua própria opinião»[17].
Segundo a fé ortodoxa, a verdade não é um conceito abstrato nem uma construção intelectual. A Verdade é uma Pessoa: é a Pessoa do Deus-Homem[18]. A Igreja constitui o Seu Corpo; anuncia Cristo, comunica Cristo, vive Cristo, transmite Cristo e o Seu Evangelho, não como uma ideologia, mas como uma realidade vivenciada, tal como a experimentaram e transmitiram «aqueles que desde o princípio foram testemunhas oculares e servidores da Palavra»[19].
A heresia, ao contrário, escolhendo, rejeitando, acrescentando ou retirando elementos da plenitude da Revelação divina em Cristo Jesus, deforma a verdade; isto é, deforma o próprio Cristo. São Gregório Palamas afirma de maneira particularmente expressiva:
«Os que pertencem à Igreja de Cristo pertencem à verdade; e aqueles que não pertencem à verdade tampouco pertencem à Igreja de Cristo»[20].
Assim, todo «ensinamento diverso e estranho»[21] que separa ou autonomiza a Pessoa de Cristo do Mistério da Igreja é, segundo o ensinamento dos Padres Teóforos de nossa Igreja, um engano que não possui relação alguma com a verdade.
A seguir, procuraremos delinear brevemente algumas das causas do fenômeno das heresias, que acabam conduzindo ao engano e à própria heresia.
Desde o princípio, uma de suas causas geradoras foi a autonomização da razão humana em relação à Tradição e à consciência comum da Igreja. Trata-se da concepção egoísta e arrogante segundo a qual o ser humano pode, por si mesmo, compreender e interpretar a verdade de Deus. Desse modo, os hereges rejeitam tudo aquilo que não cabe em sua razão e interpretam à sua própria maneira a fé da Igreja[22].
Outra causa é a utilização de fontes e tradições provenientes de outras religiões — judaísmo, religiões orientais, magia, cartomancia, astrologia, feng shui, homeopatia, yoga etc. —, bem como de elementos da filosofia, com a finalidade de racionalizar as verdades dogmáticas que a razão humana não pode interpretar sem a fé no Deus Trino, vivida por meio do culto e da vida em Cristo[23].
A permanência egoísta no erro inicial levou os hereges a se separarem da Tradição e do corpo da Igreja, desprezando até mesmo as decisões dos Concílios Ecumênicos. Apesar de seu erro ter sido constatado pela Igreja, continuaram difundindo suas concepções e opiniões particulares e criando seus próprios grupos e assembleias separadas.
Em muitos casos, o poder político ou o desejo insaciável de enriquecimento fácil também conduziu numerosas pessoas ao erro em matéria de fé, a fim de encobrirem suas iniquidades sob um véu religioso[24]. Com isso, porém, arrastaram para as trevas e para o pecado pessoas pusilânimes, de pouca fé e espiritualmente frágeis. Como consequência, as heresias cresceram e chegaram a predominar entre grande parcela da humanidade, particularmente em nossos dias, quando o ser humano busca as coisas efêmeras e deixa de aspirar às realidades celestes.
Em conclusão, poderíamos dizer que toda heresia constitui, quanto ao seu ponto de partida, uma repetição daquela mesma e primordial investida da tentação. Constitui outra fé, outra maneira de viver, que, como observa Santo Irineu de Lião, «nem os profetas anunciaram, nem o Senhor ensinou, nem os apóstolos transmitiram»[25]. Trata-se de uma maneira de viver situada fora das coordenadas eclesiais. É um caminho que cada herege percorre sem discernimento e sem verdadeira iluminação, porque se deixou persuadir novamente pela promessa de uma salvação indolor e falsificada[26].
Hoje, muitas pessoas procuram a verdade e a salvação no engano, nos ídolos, nas falsidades, na riqueza e no prazer, ou ainda em diversas outras maquinações do Diabo. A Verdade, porém, que conduz à perfeição em Cristo e se torna meio de salvação, liberdade espiritual e júbilo encontra-se na Igreja: é o próprio Senhor, Deus e Criador de todas as coisas, que Se sacrificou por nossa salvação.
- [1] Mt 16,18.
- [2] Mt 7,15.
- [3] I. Karmiris, «Αίρεσις», ΘΗΕ, vol. 1, Atenas, 1962, col. 1088.
- [4] 2Ts 2,7.
- [5] G. Rallis – M. Potlis, Σύνταγμα των θείων και ιερών κανόνων των τε αγίων και πανευφήμων αποστόλων, και ιερών οικουμενικών και τοπικών συνόδων, και των κατά μέρος αγίων Πατέρων, vol. IV, Ed. Grigori, Atenas, 1992, p. 89.
- [6] P. Christinakis, Θέματα Κανονικού και Εκκλησιαστικού Δικαίου Α, Ed. Symmetria, Atenas, 1994, p. 127.
- [7] N. Matsoukas, Δογματική και Συμβολική Θεολογία Β. Έκθεση της Ορθόδοξης πίστης σε αντιπαράθεση με τη δυτική Χριστιανοσύνη, Ed. Pournaras, Tessalônica, 1992, p. 20.
- [8] I. Karmiris, «Αίρεσις», col. 1087.
- [9] Gl 1,9.
- [10] G. Kachrimanis, «Αίρεσις, (Κανονικόν και Εκκλησιαστικόν Δίκαιον)», ΘΗΕ, vol. 1, Atenas, 1962, col. 1090.
- [11] G. Manolis, «Το Συνοδικόν και ο αναθεματισμός της ελληνοειδωλολατρείας», Άξιον Εστί, n. 5, março–maio de 2008, pp. 7–9.
- [12] Ars. Vliakoftis, Σύγχρονες Αιρέσεις. Μια πραγματική απειλή, Ed. Parakatathiki, Tessalônica, 2004, p. 70.
- [13] 1Cor 11,19.
- [14] G. Kachrimanis, «Αίρεσις, (Κανονικόν και Εκκλησιαστικόν Δίκαιον)», col. 1090.
- [15] G. Rallis – M. Potlis, Σύνταγμα των θείων και ιερών κανόνων των τε αγίων και πανευφήμων αποστόλων, και ιερών οικουμενικών και τοπικών συνόδων, και των κατά μέρος αγίων Πατέρων, vol. II, Ed. Grigori, Atenas, 1992, p. 181.
- [16] 2Pd 2,1.
- [17] M. Farantos, «Ορθοδόξως και αιρετικώς θεολογείν κατά Γρηγόριον Νύσσης», Θεολογία 70 (1999), p. 265.
- [18] V. Georgopoulos, «Το μυστήριο της Εκκλησίας και το φαινόμενο των αιρέσεων», Εφημέριος, julho de 2009, p. 21.
- [19] Lc 1,2.
- [20] Gregório Palamas, Ἀναίρεσις γράμματος Ἰγνατίου Ἀντιοχείας, ΕΠΕ 3, p. 606.
- [21] Hb 13,9.
- [22] Ars. Vliakoftis, Σύγχρονες Αιρέσεις. Μια πραγματική απειλή, p. 71.
- [23] Cf. Ant. Alevizopoulos, Αποκρυφισμός – Γκουρουϊσμός – «Νέα Εποχή», Atenas, 1997.
- [24] Ap. Nikolaidis, Κοινωνιολογία των Αιρέσεων. Από την αίρεση στην εκκλησία και από την Εκκλησία στις αιρέσεις και το μυστικισμό, Ed. Grigori, Atenas, 2009, p. 171.
- [25] Irineu de Lião, Refutação e Destruição da Falsamente Chamada Gnose, 8,1.
- [26] V. Georgopoulos, «Το μυστήριο της Εκκλησίας και το φαινόμενο των αιρέσεων», p. 22.



