Esta antologia reúne reflexões de São João Cassiano sobre a pureza do coração, a humildade, a caridade, a oração e o discernimento. Os fragmentos convidam à leitura pausada e à prática da vida cristã, em diálogo com a experiência dos Padres do deserto.
Os textos provêm do acervo de Sophia e do documento Sophia.docx. Foram organizados por tema, com uma versão de cada fragmento repetido e com os trechos complementares preservados. As referências de obra e os links das publicações de origem acompanham cada seleção; os títulos dos fragmentos servem como guias de leitura.
Sumário
- Pureza do coração e discernimento
- Humildade e caridade
- Os dons de Deus e a humildade dos seus servos
- «Aquilo que os discípulos devem reter do Mestre»
- «Quem for o menor entre vós esse é que será o maior»
- «A natureza do dom de cura»
- «O caminho dos filhos»
- «Esforcemo-nos por progredir até à caridade de Deus»
- «O temor do amor»
- «Amai os vossos inimigos […], para serdes filhos»
- «Na ira, lembra-te da misericórdia»
- «Quereis vós obrigar a jejuar os companheiros do noivo enquanto o noivo está com eles?»
- Oração e vida em Deus
- «Jesus retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar»
- «Quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo»
- «Persistamos na oração!»
- «Uma oração para todos os estados»
- «Ó Deus, vem em meu auxílio, Senhor, vem depressa socorrer-me!» (Sl 70,2)
- «Sou um pobre mendigo, mas Deus é o meu sustento!»
- «Pai nosso, que estás nos Céus, santificado seja o teu nome»
- «Venha a nós o vosso reino»
- «Ó clemência inefável de Deus!»
- «Para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu esteja neles»
- A escuta das Escrituras
- Graça e combate espiritual
- Fontes e critérios da seleção
Pureza do coração e discernimento
«Oferecer a Deus o nosso verdadeiro tesouro»
João Cassiano (c. 360-435), fundador de mosteiro em Marselha Conferências, I, 6-7, (a partir da trad. de SC 42, pp. 83-85)
Muitos dos que, para seguirem a Cristo, tinham desprezado fortunas consideráveis, enormes quantias de ouro e de prata e propriedades magníficas, mais tarde deixaram-se apegar a um raspador, a um estilete, a uma agulha, a um junco de escrita. […] Depois de terem distribuído todas as suas riquezas por amor a Cristo, retiveram a sua anterior paixão e colocaram-na em futilidades, sendo capazes de se deixar levar pela cólera para as reter. Não tendo a caridade de que fala São Paulo, a sua vida foi tocada pela esterilidade. O bem-aventurado apóstolo previu essa infelicidade: «Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita», dizia (1Cor 13, 3). Prova evidente de que não atingimos de imediato a perfeição pela simples renúncia a todas as riquezas e pelo desprezo de todas as honras, se a isso não juntarmos essa caridade cujas características o apóstolo descreve.
Ora esta caridade apenas se encontra na pureza do coração. Porque rejeitar a inveja, a arrogância, a ira e a frivolidade, não procurar o próprio interesse, não se alegrar com a injustiça, não guardar ressentimento e tudo o resto (1Cor 13, 4-5), que é tudo isso se não oferecer continuamente a Deus um coração perfeito e muito puro e mantê-lo isento de toda a moção das paixões? Assim, a pureza do coração será o fim último das nossas ações e dos nossos desejos.
Publicações de origem: «Oferecer a Deus o nosso verdadeiro tesouro» · Oferecer a Deus o nosso verdadeiro tesouro.
Renunciar a todos os bens
João Cassiano (c. 360-435), fundador de convento em Marselha Conferências 3, 6-7
Segundo a tradição dos Padres e a autoridade das Sagradas Escrituras, as renúncias são em número de três. […] A primeira diz respeito às coisas materiais; devemos desprezar as riquezas e todos os bens deste mundo. Pela segunda, repudiamos a nossa antiga maneira de viver, os vícios e as paixões da alma e da carne. Pela terceira, distanciamos o nosso espírito de todas as realidades presentes e visíveis, para contemplarmos apenas as realidades futuras e desejarmos apenas as realidades invisíveis. Estas renúncias devem ser observadas em conjunto, como o Senhor ordenou a Abraão quando lhe disse: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai” (Gn 12, 1).
“Deixa a tua terra” – isto é, as riquezas da terra –, disse em primeiro lugar. Em segundo lugar disse: “Deixa a tua família”, isto é, os hábitos e os vícios passados que, agregando-se a nós desde o dia em que nascemos, estão estreitamente unidos a nós por uma espécie de parentesco. E, em terceiro lugar, “Deixa a casa de teu pai”, quer dizer, todas as ligações a este mundo que se apresentam aos nossos olhos. […]
Contemplemos, como diz o Apóstolo Paulo, “não as coisas visíveis, mas as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas” (2 Cor 4, 18) […]; “nós, porém, somos cidadãos do céu” (Fil 3, 20). […] Sairemos, pois, da casa do nosso antigo pai, daquele que era nosso pai segundo o homem velho, desde o dia em que nascemos, desde que “éramos por natureza filhos da ira, como os demais” (Ef 2, 3), e transferiremos toda a nossa atenção, todo o nosso espírito, para as coisas celestes. […] Então, a nossa alma elevar-se-á até ao mundo invisível, pela meditação constante das coisas de Deus e pela contemplação espiritual.
Publicações de origem: Renunciar a todos os bens.
O Reino de Deus no meio de nós e dentro de nós
São João Cassiano (c. 360-435) Conferências, n.º 1
A meu ver, seria indigno afastarmo-nos da contemplação de Cristo, nem que fosse um momento. Quando a nossa vida começar a desviar-se deste objetivo divino, voltemos para ele os olhos do nosso coração e remetamos novamente para ele o olhar do nosso espírito. Tudo repousa no santuário profundo da alma; quando o demônio é dele expulso e o mal deixa de reinar, o reino de Deus estabelece-se em nós. Mas «o reino de Deus», escreve o evangelista, «não vem de maneira visível; […] porque o reino de Deus está no meio de vós».
Ora, em nós não pode haver senão ignorância ou conhecimento da verdade, amor do vício ou da virtude, pelos quais entregamos o reinado do nosso coração ao demônio ou a Cristo.
O apóstolo Paulo, por sua vez, descreve assim a natureza deste reino: «o Reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rom 14,17). Assim, pois, se o reino de Deus está dentro de nós e consiste em justiça, paz e alegria, quem permanece nestas virtudes está sem dúvida no reino de Deus. […] Elevemos o olhar da nossa alma para este reino, que é alegria sem fim.
Publicações de origem: O Reino de Deus no meio de nós e dentro de nós.
«O discernimento é a lâmpada da alma»
São João Cassiano — Conferências II, Sobre o discernimento, excertos. Identificação corrigida por cotejo com a Conferência do abade Moisés.
O discernimento é, efetivamente, o olho e a lâmpada da alma, segundo esta palavra do evangelho: «A lâmpada do teu corpo são os olhos. Se o teu olhar for límpido, todo o teu corpo ficará iluminado. Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo andará nas trevas. E se a luz que há em ti são trevas, como serão grandes essas trevas!» O discernimento examina todas as ideias e as ações do homem, e rejeita e dispersa tudo o que é mau e desagradável a Deus, protegendo-o das quedas. […]
É também ao discernimento que o apóstolo se refere ao dizer: «Que o sol não se ponha sobre a vossa ira» (Ef 4,26). Ele é igualmente o leme da nossa vida, conforme está escrito: «Aqueles que não têm rumo caem como folhas» (Prov 11,14, LXX). No discernimento está a sabedoria, nele a inteligência e o juízo, sem os quais não podemos construir a nossa morada interior nem acumular riquezas espirituais, segundo aquela palavra: «É pela sabedoria que se eleva uma casa e pela inteligência que ela se firma, pelo juízo que os cofres se enchem de riquezas» (Prov 24,3-4, LXX). Ele é o alimento sólido dos homens adultos, cujo senso é exercido pelo hábito de discernir o bem do mal (cf Heb 5,14). Todos estes textos mostram claramente que, sem o carisma do discernimento, a virtude não se pode estabelecer e permanecer firme até ao fim, porque é o discernimento que gera e conserva todas as virtudes. […]
Esforcemo-nos, pois, com todas as nossas forças e todo o ardor, por adquirir o carisma do discernimento, que poderá proteger-nos de dois excessos opostos. Com efeito, como dizem os Padres, os excessos num ou noutro sentido são igualmente prejudiciais. […] Por estes ensinamentos e muitos outros, o santo abade Moisés encheu-nos de alegria, para que pudéssemos glorificar o Senhor, que dá tamanha sabedoria àqueles que O temem. A Ele a honra e o poder pelos séculos. Amém.
Publicações de origem: «O discernimento é a lâmpada da alma».
«A perfeição de um coração puro»
São João Cassiano — Conferências XI, 8, Sobre a perfeição; SC 54. O post original indicava capítulo VII; o trecho encontra-se no capítulo VIII.
Na verdade, é totalmente diferente ter ódio à sujidade dos vícios e da carne por saborear o bem já presente, de refrear as cobiças ilícitas tendo em vista uma recompensa futura; ter medo duma pena no presente, ou recear os tormentos que virão. Em suma, é perfeição muito maior não querer afastar-se do bem por amor ao próprio bem, do que não dar o consentimento ao mal por medo de sofrer outro mal.
No primeiro caso, o bem é voluntário; no segundo, parece uma recusa forçada e arrancada com muita luta, por temor ao suplício ou por apetite pela recompensa. Por isso mesmo, aquele que só renuncia às seduções do vício por medo voltará para o objeto dos seus amores assim que o medo, que lhe era obstáculo, se desvanecer. Para ele, não há estabilidade no bem. E também não há repouso da parte da tentação, porque ele não tem a paz sólida e constante que a castidade proporciona. Onde reina o tumulto da guerra é impossível evitar o risco de ficar ferido. […]
Pelo contrário, aquele que ultrapassou os assaltos do vício e goza de segurança da paz, estando inteiramente transformado por amor à virtude em si mesma, permanecerá constante no bem, ao qual pertence sem divisões, porque a seus olhos já não há pena mais dolorosa que um ataque à castidade íntima da sua alma. A pureza que tem presente é o seu mais caro e precioso tesouro, tal como o mais grave dos castigos seria ver as suas virtudes perniciosamente violadas, ou experimentar a sujidade envenenada do vício.
Publicações de origem: «A perfeição de um coração puro».
«Não me canso de esperar o Senhor» (Sl 39,2)
São João Cassiano (c. 360-435), «Sobre a castidade», cap. VI; SC 54
O remédio mais eficaz para o coração humano é a paciência, conforme as palavras de Salomão: «O homem manso é o médico do coração» (Prov 14,30). Ela extirpa a ira, a tristeza, a preguiça, a vanglória e a soberba, bem como a volúpia e todos os vícios: «A longanimidade faz a prosperidade dos reis», diz também Salomão (Prov 25,15). Quem é sempre manso e tranquilo não se deixa inflamar pela ira nem consumir pela angústia do tédio e da tristeza, não se dispersa nas fúteis buscas da vanglória nem consente em se elevar pela soberba: «Há superabundância de paz para aqueles que amam o nome do Senhor e nada é para eles ocasião de queda» (Sl 118,165). Na verdade, o sábio tem razão em dizer: «O homem paciente vale mais que o soldado corajoso; quem domina a sua cólera tem mais valor que o homem que toma uma cidade» (Prov 16,32).
Porém, enquanto não alcançamos esta paz sólida e duradoira, devemos contar com múltiplos assaltos. Muitas vezes, teremos de dizer entre lágrimas e gemidos: «Sou miserável, estou afligido sem medida, todo o dia esmagado pela tristeza, os meus rins encheram-se de ilusões» (Sl 37,7-8). […] Enquanto a alma não chegar ao estado de pureza perfeita, passará frequentemente por estas alternativas, que são necessárias à sua formação; até que, por fim, a graça de Deus lhe preencha todo o desejo, tornando-a firme para sempre. Então, poderá dizer com plena verdade: «Não me cansei de esperar o Senhor e Ele olhou para mim. Ele ouviu a minha oração, retirou-me do fosso da minha miséria, dos abismos da lama; Ele me fez apoiar os pés sobre a rocha e firmou os meus passos» (Sl 39,2-3).
Publicações de origem: «Não me canso de esperar o Senhor» (Sl 39,2).
«Que prodígio, ver publicanos transformados em apóstolos!»
São João Cassiano (c. 360-435) Sobre a castidade, cap XII-XIII; SC 54
Grande, maravilhosa e profundamente desconhecida dos homens – a não ser daqueles que a experimentam – é a generosidade de Deus, a sua inefável liberalidade com os seus fiéis, mesmo enquanto habitam este vaso de corrupção. […] Quem poderá deixar de se maravilhar com as obras de Deus e de exclamar do fundo do coração: «Eu sei que o Senhor é grande» (Sl 134,5), quando passa, ou vê outros passarem, da avareza extrema à liberalidade, da prodigalidade à vida de abstinência, da soberba à humildade […]? São estas, de fato, as maravilhas divinas que a alma do profeta e daqueles que se lhe assemelham descobre com espanto numa contemplação cheia de milagres.
Com efeito, poderá haver maior prodígio do que ver, num breve momento, publicanos gananciosos tornarem-se apóstolos, perseguidores ferozes transformarem-se em pregadores do Evangelho, prontos a tudo suportar e propagando a fé que perseguiam à custa do seu sangue? São estas as obras divinas que o Filho testemunha que realiza todos os dias, em união com seu Pai: «Meu Pai até agora trabalha, e Eu também trabalho» (Jo 5,17). Tais são as obras de Deus, que o bem-aventurado David canta no Espírito: «Bendito seja o Senhor, que é Deus, o Deus de Israel, Ele é o único a realizar maravilhas» (Sl 71,18). É delas que fala o profeta Amós: «Ele fez todas as coisas e as muda; transforma a sombra da morte em manhã» (Am 5,8 LXX). «Estas são as mudanças que produziu a mão direita do Altíssimo» (Sl 76,11 Vg), em relação às quais o profeta reza ao Senhor: «Confirma, ó Deus, o que fizeste em nós» (Sl 67,29 Vg) […].
Sim, é este o grande milagre de Deus, que um homem de carne tenha rejeitado todas as inclinações carnais, que no meio de tantas circunstâncias diferentes, de tantos ataques contra ele, tenha mantido a sua alma no mesmo estado de espírito e permanecido inamovível no meio do fluxo incessante dos acontecimentos.
Publicações de origem: «Que prodígio, ver publicanos transformados em apóstolos!».
Humildade e caridade
Os dons de Deus e a humildade dos seus servos
João Cassiano (c. 360-435), fundador do mosteiro de Marselha Conferências, n°15, 6-7 (a partir da trad. de SC 54, p. 216 e de Bourguet, L’Evangile médité, p. 53 rev.)
Os grandes da fé não tiravam nenhum partido do poder que detinham de operar maravilhas. Confessavam que não tinham mérito nenhum nisso e que quem fazia tudo era a misericórdia do Senhor. Se alguém admirava os seus milagres rejeitavam a glória humana com palavras recolhidas dos apóstolos: «Homens de Israel, porque vos admirais com isto? Porque nos olhais, como se tivéssemos feito andar este homem por nosso próprio poder ou piedade?» (Act 3, 12) No seu entender, ninguém devia ser louvado pelos dons e maravilhas de Deus. […]
Nota editorial: Trecho inicial complementar; a sequência sobre os carismas reaparece nos dois fragmentos seguintes e foi reunida ali.
Publicações de origem: Os dons de Deus e a humildade dos seus servos.
«Aquilo que os discípulos devem reter do Mestre»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre os carismas divinos», cap. VI, SC 54
Um dia, os apóstolos queixaram-se a Jesus: «Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demônios em teu nome e procuramos impedir-lho, porque ele não anda conosco». Jesus atalhou imediatamente: «Não o proibais […]. Quem não é contra nós é por nós». Mas quando, no final dos tempos, estas pessoas disserem: «Senhor, senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? Não foi em teu nome que fizemos numerosas ações poderosas?» Ele afirma que lhes responderá: «Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade!» (Mt 7,22-23), advertindo aqueles que Ele mesmo agraciou com a glória de sinais e prodígios de que não se exaltem nesta matéria: «Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão inscritos nos Céus» (Lc 10, 20)
Agora, o próprio autor de todos os sinais e prodígios chama os seus discípulos para aprenderem a sua doutrina; Ele vai esclarecer o que os seus verdadeiros seguidores, os escolhidos, devem aprender com Ele em particular: «Vinde», diz, «e aprendei de Mim» – não a expulsar os demônios pelo poder do céu, evidentemente, nem a curar os leprosos, a iluminar os cegos, a ressuscitar os mortos. É verdade que faço todos estes prodígios por intermédio de alguns dos meus servos; no entanto, a condição humana não pode entrar em sociedade com Deus para os louvores que Lhe são devidos; o ministro e o escravo não podem tomar parte naquela glória que pertence apenas à divindade; mas «aprendei de Mim», diz Ele, isto: «que sou manso e humilde de coração» (Mt 11,28-29). Isto é o que todos podem aprender e praticar. Mas fazer sinais e prodígios nem sempre é necessário, nem benéfico para todos, nem é universalmente concedido.
Publicações de origem: «Aquilo que os discípulos devem reter do Mestre».
«Quem for o menor entre vós esse é que será o maior»
São João Cassiano (c. 360-435) Conferência n.° 15, 6-7
Pois a humildade é a mestra de todas as virtudes, o fundamento inabalável do edifício celestial, o dom próprio e magnífico do Salvador. Aquele que o possui poderá fazer, sem perigo de causar estranheza, todos os milagres que Cristo operou, porque procura imitar o Senhor manso, não na sublimidade dos seus prodígios, mas na virtude da paciência e da humildade. Em contrapartida, quem se sente impaciente por se impor aos espíritos impuros, por dar saúde aos doentes, por mostrar às multidões sinais maravilhosos, bem pode invocar o nome de Cristo no meio de toda a sua ostentação, que será sempre estranho a Cristo, porque a sua alma orgulhosa não segue o mestre da humildade.
Eis o legado que o Senhor deixou aos seus discípulos aquando do seu regresso para junto do Pai: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei»; e acrescenta de imediato: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,34-35). É bem certo que, quanto menos mansos e humildes formos, menos cumpriremos este amor.
Nota editorial: Conserva-se aqui uma única versão do fragmento de Conferências XV, 6–7, também presente no documento Sophia.docx. Os trechos sobre humildade e caridade complementam as seleções imediatamente anteriores sobre os carismas.
Publicações de origem: «Quem for o menor entre vós esse é que será o maior» · «Quem for o menor entre vós, esse é que é grande».
«A natureza do dom de cura»
São João Cassiano (c. 360-435) Sobre os carismas divinos, cap. I; SC 54
A tradição dos antigos ensina-nos que a natureza dos carismas espirituais se reveste de uma tríplice forma.
A primeira causa do dom de cura é o mérito da santidade: a graça dos milagres acompanha todos os eleitos e os justos. É bem claro, por exemplo, que os apóstolos e muitos santos realizaram sinais e prodígios, segundo o mandamento do Senhor: «Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios; recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10,8).
A segunda é a edificação da Igreja, ou para recompensa da fé, quer daqueles que apresentam os seus doentes, quer dos próprios doentes; a virtude de curar pode proceder até de homens pecadores e indignos. […] Pelo contrário, a falta de fé dos doentes ou daqueles que os apresentam não permite que aqueles que receberam o dom da cura exerçam esse poder. Sobre isso, diz o evangelista São Marcos (6,5-6): «Jesus não pôde ali fazer muitos milagres e estava admirado com a falta de fé daquela gente».
O terceiro tipo de cura é um jogo e uma habilidade dos demônios. […] Diz o evangelho: «Haverá falsos messias e falsos profetas, que farão grandes sinais e prodígios, a ponto de induzirem em erro, se fosse possível, os próprios eleitos» (Mt 24,24). Por isso, não devemos admirar os milagres daqueles que dão nas vistas, mas considerar se procuram corrigir os seus vícios e emendar a própria vida. Este benefício não se alcança pela fé de terceiros nem por causas estranhas, mas é dado a cada um pela graça divina, na proporção do seu zelo.
Publicações de origem: «A natureza do dom de cura».
«O caminho dos filhos»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a perfeição, cap. VII; SC 54»
Se alguém quer tender à perfeição, partirá do primeiro degrau, que é o do temor, estado propriamente servil, […] e elevar-se-á, em progresso continuado, até às vias superiores da esperança. Esta […] espera a recompensa, […] mas ainda não alcançou aquele sentimento do filho, que, confiando-se à indulgência e à liberalidade paternas, não duvida de que tudo o que é de seu pai também é seu.
O filho pródigo do evangelho não ousa aspirar, depois de tudo o que perdeu, ao nome de filho. Reparai que ele invejava as alfarrobas que os porcos comiam, ou seja, o alimento sórdido do vício, e ninguém lhas dava a comer. Então, voltou-se para si mesmo e, tocado por um temor salutar, encheu-se de horror pela imundície dos porcos e rejeitou o cruel tormento da fome, sentimentos que, de certa maneira, fazem dele um escravo. Porém, sonhando com o salário que se paga aos mercenários, cobiçou a situação destes, dizendo: «Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores». Entretanto, o pai foi ao seu encontro e acolheu estas palavras de arrependimento humilde, ditadas pela ternura, ainda com maior ternura: ele não quer conceder ao filho bens de menor valor, mas restitui-o à dignidade de filho, fazendo-o subir imediatamente os dois degraus inferiores.
Apressemo-nos, também nós, a subir, pela graça de uma indissolúvel caridade, a este terceiro grau, o dos filhos, que consideram seu tudo o que pertence ao pai; mereçamos receber em nós a imagem e semelhança do nosso Pai dos Céus. E então, tal como o Filho verdadeiro, poderemos proclamar: «Tudo o que é do Pai Me pertence também» (Jo 16,15).
Publicações de origem: «O caminho dos filhos».
«Esforcemo-nos por progredir até à caridade de Deus»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a perfeição», cap. VII; SC 54
É o preceito do próprio Salvador que nos convida a esta semelhança com o Pai: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». Nos graus inferiores, o amor do bem interrompe-se quando a tibieza, o contentamento ou o prazer vêm deter o vigor da alma e a fazem perder de vista o temor do inferno ou o desejo de felicidade futura. Eles constituem, apesar de tudo, como que degraus de progresso, de aprendizagem.
Tendo, a princípio, evitado o vício por medo do castigo ou pela esperança da recompensa, torna-se-nos possível passar para o nível da caridade: «No amor não há temor; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o temor. De fato, o temor pressupõe castigo e quem teme não é perfeito no amor. Nós amamos porque Deus nos amou primeiro» (1Jo 4,18-19). Não há outro caminho para nos elevarmos à perfeição verdadeira: assim como Deus nos amou primeiro, considerando apenas a nossa salvação, assim devemos nós amá-lo unicamente por seu amor.
Esforcemo-nos, pois, com todo o ardor, por subir do temor à esperança, da esperança à caridade de Deus e ao amor das virtudes. Emigremos em direção à afeição do bem pelo bem, e a ele permaneçamos imutavelmente apegados, tanto quanto é possível à natureza humana.
Publicações de origem: «Esforcemo-nos por progredir até à caridade de Deus».
«O temor do amor»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a perfeição», cap. XIII; SC 54
Fundados na perfeição da caridade, elevar-nos-emos a um grau ainda mais excelente e sublime, que é o temor de amor. Este não nasce do medo do castigo ou do desejo de recompensa, mas da própria grandeza do amor. É a mistura de respeito e afeição atenciosa que um filho tem por um pai indulgente, um irmão por seu irmão, um amigo por seu amigo, uma esposa por seu marido. Não teme golpes nem censuras; o que teme é ferir o amor com a mais pequena injúria […].
Assim, há uma distância considerável entre o temor ao qual nada falta, tesouro da sabedoria e da ciência, e o temor imperfeito. Este último é apenas «o princípio da sabedoria» (Sl 110,10) e, pois implica um castigo, é expulso do coração dos perfeitos quando chega a plenitude da caridade; porque «no amor não há temor, pois o amor perfeito expulsa o temor» (1Jo 4,18). De facto, se o princípio da sabedoria é o temor, onde estará a sua perfeição, senão na caridade de Cristo, que inclui em si o temor de amor perfeito, e por isso merece ser chamada, já não o princípio, mas o tesouro da sabedoria e da ciência? […]
Este é o temor do perfeito de que se diz estar cheio o Homem-Deus, que não veio só para nos redimir, mas para nos dar, na sua Pessoa, o tipo da perfeição e o exemplo das virtudes.
Publicações de origem: «O temor do amor».
«Amai os vossos inimigos […], para serdes filhos»
São João Cassiano (c. 360-435) Sobre a perfeição, cap. IX; SC 54
Todo aquele que consegue, pela caridade, chegar à imagem e semelhança de Deus, daí em diante deleita-se no bem, por causa do gosto que nele encontra. Abraça com o mesmo amor a paciência e a mansidão. As falhas dos pecadores já não o irritam nem o levam à ira; antes implora o seu perdão, devido à grande piedade e compaixão que sente por ver as suas penas.
Não se recorda de ter também experimentado o aguilhão de paixões semelhantes até ao dia em que, na sua misericórdia, o Senhor condescendeu em preservá-lo delas? Não foram os seus próprios esforços que o salvaram da insolência da carne, mas a proteção de Deus. Desde então, compreende que não é cólera que deve manifestar com aqueles que se perdem, mas comiseração; e, na absoluta tranquilidade do coração, canta a Deus este versículo: «Quebraste as minhas cadeias. Hei de oferecer-te sacrifícios de louvor» (Sl 115,16-17); e ainda: «Se o Senhor não fosse em meu auxílio, em breve eu estaria a morar com os mortos» (Sl 93,17).
Além disso, esta humildade de espírito torna-o capaz de cumprir o preceito evangélico da perfeição: «Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem» (Mt 5,44). Assim, mereceremos alcançar a recompensa prometida, de que Ele falou logo a seguir: não apenas ser imagem e semelhança divina, mas receber o nome de filho: «Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus, e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5,45).
Publicações de origem: «Amai os vossos inimigos […], para serdes filhos».
«Na ira, lembra-te da misericórdia»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a amizade», cap. XXVI; SC 54
(Hab 3,2 LXX)
Sejam quais forem as injúrias que descarreguem sobre o monge, ele mantém a paz; e não apenas nos lábios, mas no fundo do coração. Se se sentir minimamente perturbado, contém-se em absoluto silêncio e segue exatamente o que diz o salmista: «Fiquei perturbado sem nada dizer» (Sl 76,5 LXX). «Disse a mim próprio: vigiarei a minha conduta, para não pecar com a língua; refrearei a minha boca enquanto o ímpio estiver diante de mim. Fiquei calado e em silêncio» (Sl 38,2-3).
Ele não deve deter-se a considerar o presente; não deve deixar que os seus lábios profiram o que a ira lhe sugere naquele momento, o que lhe dita o coração exasperado. Deve antes ponderar no seu espírito a graça da caridade passada; ou voltar o olhar para o futuro, para ver, em espírito, a paz já restabelecida; dedicar-se a contemplá-la quando se encoleriza, ciente de que ela voltará.
Enquanto se reserva para a suavidade da concórdia próxima, não sentirá a amargura da querela presente, e dará uma resposta tal que nem tenha de se acusar a si mesmo nem de ser censurado pelo irmão quando a amizade for restabelecida. Desta forma, cumprirá a palavra do profeta: «Na ira, lembra-te da misericórdia» (Hab 3,2 LXX).
Publicações de origem: «Na ira, lembra-te da misericórdia».
«Quereis vós obrigar a jejuar os companheiros do noivo enquanto o noivo está com eles?»
São João Cassiano — Instituições cenobíticas V, 24. O post original indicava genericamente «Sermões».
Tínhamos deixado a Síria e aproximávamo-nos da província do Egito, desejosos de aprender os princípios dos monges antigos, espantados com a grande cordialidade com que éramos recebidos. Contrariamente ao que nos tinham ensinado nos mosteiros da Palestina, ali não se observava a regra de se esperar o momento fixado para as refeições, mas, exceto à quarta e à sexta-feira, onde quer que fôssemos, quebravam o jejum. Um dos anciãos a quem perguntámos porque era que, entre eles, se omitiam frequentemente os jejuns quotidianos, respondeu-nos: «O jejum está sempre comigo, mas a vós, de quem vou despedir-me em breve, não poderei guardar-vos sempre comigo. E o jejum, embora útil e necessário, é um presente voluntário, ao passo que as obras de caridade são uma exigência absoluta do preceito. É por isso que, acolhendo em vós a Cristo, eu restabeleço os alimentos; depois de me ter despedido de vós, poderei compensar em mim, através de um jejum mais estrito, a cortesia que tive convosco em atenção a Cristo. Na verdade, os companheiros do noivo não podem jejuar enquanto o noivo está com eles; fá-lo-ão quando ele partir».
Publicações de origem: «Quereis vós obrigar a jejuar os companheiros do noivo enquanto o noivo está com eles?».
Oração e vida em Deus
«Jesus retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar»
São João Cassiano (c. 360-435), «Sobre a oração», VIII. XVIII; SC 54,
Parece-me impossível distinguir todos os tipos de oração, a não ser que se tenha uma pureza de coração verdadeiramente singular e luzes extraordinárias do Espírito Santo, pois o seu número é tão grande que pode haver na mesma alma, e em todas as almas, estados e disposições muito diferentes. […]
A oração modifica-se a cada instante, segundo o grau de pureza a que a alma chegou, mas também conforme a sua disposição atual, que pode ser espontânea ou devida a influências exteriores; e é certo que não permanece sempre idêntica a si mesma em cada pessoa. Rezamos de forma diferente conforme temos o coração leve ou pesado de tristeza e desesperança; na embriaguez da vida sobrenatural ou na depressão de tentações violentas; quando imploramos o perdão dos nossos pecados ou quando pedimos uma graça, uma virtude, a cura de um vício; na compunção que o pensamento do inferno e o temor do juízo nos inspiram ou quando ardemos no desejo e na esperança dos bens futuros; no meio de perigos e adversidades ou em paz e segurança; quando nos sentimos inundados de luz pela revelação dos mistérios do Céu ou quando estamos paralisados pela esterilidade da virtude e a secura do pensamento. […]
Estes vários modos de oração serão seguidos por um estado ainda mais sublime e de elevação ainda mais transcendente: é um olhar só para Deus, um grande fogo de amor, onde a alma se funda e se afunda na santa dileção, entretendo-se com Deus como com um Pai, com enorme familiaridade, numa ternura de piedade toda especial.
Publicações de origem: «Jesus retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar».
«Quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a oração, XXXV; SC 54»
Devemos ter um cuidado muito especial em seguir o preceito evangélico que nos manda entrar no nosso quarto e fechar a porta para orar ao nosso Pai. Eis como podemos cumpri-lo:
Rezamos no nosso quarto quando retiramos totalmente o nosso coração do tumulto e do ruído dos pensamentos e das preocupações e, numa espécie de face-a-face secreto e cheio de doce intimidade, desvelamos ao Senhor os nossos desejos. Oramos à porta fechada quando suplicamos sem abrir os lábios e num perfeito silêncio Àquele que não tem em conta as palavras, mas olha ao coração.
Rezamos em segredo quando falamos com Deus somente a partir do coração e aplicando a alma, e só a Ele manifestamos os nossos pedidos, tão bem que nem as potestades adversas conseguem adivinhar a sua natureza. Tal é a razão do profundo silêncio que convém guardar na oração. Não devemos ter em vista apenas não distrair os irmãos que nos rodeiam com os nossos sussurros ou gritos, nem ser um obstáculo para as suas almas em oração; mas também esconder o objeto dos nossos pedidos aos nossos inimigos, que, se assim não fosse, multiplicariam os seus ataques. Deste modo, cumprimos o preceito que diz: «Não abras a tua boca nem àquela que dorme em teus braços» (Miq 7,5)
Publicações de origem: «Quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo».
«Persistamos na oração!»
São João Cassiano (c. 360-435), «Sobre a oração», XXXI-XXXII, XXXIV; SC 54,
Direi aquilo que a experiência me revelou acerca dos sinais pelos quais se reconhece que a oração foi ouvida pelo Senhor. Se a nossa oração não foi percorrida por qualquer hesitação e nenhum pensamento de dúvida abalou o impulso confiante; se, pelo contrário, temos o sentimento íntimo de ter obtido aquilo que pedíamos na própria efusão da nossa oração, esta foi indubitavelmente eficaz junto de Deus. Porque aquilo que nos permite ser ouvidos e obter satisfação é a fé no olhar de Deus sobre nós, e a confiança de que Ele tem o poder de nos conceder o que Lhe pedimos. Nosso Senhor não pode renegar a sua palavra: «Tudo o que pedirdes na oração, crede que o obtereis, e ser-vos-á concedido» (Mc 11,24). […]
Para trás, pois, todas as hesitações, que trairiam faltas de fé, e persistamos na oração! A nossa perseverança merecer-nos-á a obtenção de tudo o que pedirmos, que – não duvidemos minimamente – será segundo Deus. É o próprio Senhor que, no seu desejo de nos conceder os bens celestes e eternos, nos exorta a exercer sobre Ele uma espécie de violência, importunando-O. E, longe de rejeitar com desprezo os importunos, encoraja-os, louva-os e faz-lhes a suave promessa de lhes conceder tudo o que tiverem esperado com constância: «Pedi e recebereis; procurai e achareis; batei à porta e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra; e ao que bate à porta, abrir-se-lhe-á» (Lc 11,9-10); e ainda: «Tudo o que pedirdes com fé na oração, crede que o obtereis, e nada será impossível para vós» (cf Mt 21,22; 17,20).
Publicações de origem: «Persistamos na oração!».
«Uma oração para todos os estados»
São João Cassiano (c. 360-435) Sobre a oração, cap. X; SC 54
Para estardes sempre na presença de Deus, podeis propor-vos continuamente a seguinte fórmula de piedade: «Deus, vem em nosso auxílio. Senhor, socorre-nos e salva-nos!». Este curto versículo foi especialmente escolhido de entre todo o corpo das Escrituras porque exprime os sentimentos a que a natureza humana é suscetível, adaptando-se muito bem a todos os estados e convindo a todo o gênero de tentações.
Encontramos nele um pedido de socorro a Deus contra todos os perigos, uma confissão humilde e piedosa, a vigilância da alma sempre desperta e penetrada de temor contínuo, a consideração da nossa fragilidade; ele refere igualmente a confiança em ser escutado e a segurança do socorro sempre e em tudo presente, pois aquele que não cessa de invocar o seu Protetor tem a certeza de O ter perto de si. Esta é a voz do amor e da caridade ardente; é o grito da alma que tem os olhos abertos às armadilhas que lhe foram colocadas, que treme perante os inimigos e que, vendo-se assolada por eles dia e noite, confessa que não poderia escapar-lhes se o Defensor não viesse em seu auxílio. Para todos aqueles que são atacados pelo demônio, este versículo é uma fortaleza inexpugnável, uma couraça impenetrável e o mais sólido dos escudos.
Em suma, é útil e necessário em todas as circunstâncias. Porque desejar ser ajudado sempre e em todas as coisas é afirmar claramente que se tem necessidade do auxílio divino, tanto quando as coisas são favoráveis e sorriem como nas provas e nas tristezas: só Deus nos afasta da adversidade, só Ele faz durar a nossa alegria; num e noutro caso, a fragilidade humana não se sustém sem o auxílio divino.
Publicações de origem: «Uma oração para todos os estados».
«Ó Deus, vem em meu auxílio, Senhor, vem depressa socorrer-me!» (Sl 70,2)
São João Cassiano — Conferências X, 10, Sobre a oração; SC 54. Referência presente no cabeçalho do post original.
«Ó Deus, vem em meu auxílio, Senhor, vem depressa socorrer-me!». Este versículo deve ser a nossa oração constante: na adversidade, para sermos libertados; na prosperidade, para sermos nela mantidos e preservados do orgulho. Sim, que ele seja a ocupação contínua do vosso coração!
No trabalho, nos vossos diversos ofícios, em viagem, não vos canseis de o repetir. Enquanto comeis, enquanto dormis, em todas as situações, meditai nisto. Este pensamento tornar-se-á para vós uma fórmula de salvação, que não só vos protegerá contra os ataques dos demónios, mas também vos purificará de todos os vícios e impurezas terrenas, elevando-vos assim à contemplação das coisas celestiais e invisíveis, a esse ardor inefável de oração que tão poucos conhecem por experiência própria.
Que o sono vos feche os olhos sobre estas palavras, de modo que, à força de as dizer, adquirais o hábito de as repetir mesmo enquanto dormis. Que elas sejam, ao acordardes, a primeira coisa que vos vem à mente, antes de qualquer outro pensamento. Dizei-as de joelhos, ao sair da cama, e que elas vos acompanhem em todas as vossas ações, sem nunca vos abandonar. Meditai-as, segundo o preceito de Moisés, «quer estando sentado em casa quer andando pelos caminhos» (Dt 6,7), ao dormir e ao acordar. Escrevei-as nos vossos lábios, gravai-as nas paredes de vossa casa e no santuário do vosso coração, para que elas vos acompanhem como vosso único refrão, quando vos prostrardes para a oração e, depois, quando vos levantardes para seguir o curso normal da vida, como vossa oração constante.
Sim, que a alma retenha incessantemente esta palavra, até que, por repeti-la e meditá-la sem cessar, ela adquira a firmeza de recusar e rejeitar para longe de vós as riquezas e os amplos bens de todo o tipo de pensamentos, e que, assim restringida à pobreza deste humilde versículo, ela alcance, por uma inclinação fácil, a bem-aventurança evangélica.
Publicações de origem: «Ó Deus, vem em meu auxílio, Senhor, vem depressa socorrer-me!» (Sl 70,2).
«Sou um pobre mendigo, mas Deus é o meu sustento!»
São João Cassiano (c. 360-435) Sobre a oração, cap. X; SC 54
«Que o pobre e o indigente possam louvar o teu nome» (Sl 73:21).
Com efeito, que pobreza maior e mais santa pode haver que a de um homem que se sabe totalmente desprovido de meios de sustento, e que todos os dias pede o auxílio de que necessita à generosidade dos outros; que percebe que a sua vida e todo o seu ser são a cada momento sustentados pela assistência divina e se proclama com razão mendigo do Senhor, clamando todos os dias com voz suplicante: «Sou um pobre homem, um mendigo, mas Deus é o meu sustento»? O próprio Deus o iluminará, para o ajudar a ascender ao conhecimento multiforme do seu Ser; e ele ficará saciado com a visão dos mistérios mais sublimes e ocultos, como diz o profeta: «Os penhascos são o refúgio dos ouriços» (Sl 103,18,Vg). […]
Quem persevera na inocência e na simplicidade não faz mal e não é um peso para ninguém. Contente com a sua simplicidade e só com ela, apenas deseja um abrigo que o proteja de se tornar presa dos seus inimigos. Tornou-se como que um ouriço espiritual, que encontra abrigo e proteção debaixo da pedra de que fala o Evangelho: protegido pela memória da Paixão do Senhor e a meditação incessante […], escapa a todas as ciladas e ataques do inimigo. São estes os ouriços espirituais de que fala o Livro dos Provérbios: «os ouriços, seres sem poder, que fazem dos rochedos a sua habitação» (Pr 30:26, LXX). Pois quem é mais fraco que um cristão, mais enfermiço que um monge?
Publicações de origem: «Sou um pobre mendigo, mas Deus é o meu sustento!».
«Pai nosso, que estás nos Céus, santificado seja o teu nome»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a oração», XVIII; SC 54
«Pai nosso»: com estas palavras, confessamos que o Deus e Senhor do Universo é nosso Pai, reconhecendo que fomos chamados da condição de servos à condição de filhos adotivos.
«Que estais nos Céus»: porque o tempo da nossa vida é um exílio, e esta Terra é uma terra estrangeira, que nos separa do nosso Pai. Caminhemos pois apressadamente, com todo o ardor dos nossos desejos, para a região onde proclamamos que reside o nosso Pai! Uma vez alcançada esta dignidade de filhos de Deus, arderemos com a ternura que se encerra no coração de todos os filhos; e, sem pensar nos nossos interesses, teremos como única paixão a glória do nosso Pai.
Dir-Lhe-emos: «Santificado seja o teu nome», afirmando assim que o nosso maior desejo e alegria é a sua glória, a imitação daquele que disse: «Quem fala por sua conta procura a sua glória pessoal; mas quem procura a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro e nele não há impostura» (Jo 7,18). […]
As palavras «santificado seja o teu nome» também podem ser entendidas no sentido em que Deus é santificado pela nossa perfeição. Assim, dizer-Lhe: «Santificado seja o teu nome» é o mesmo que dizer-Lhe: «Pai, torna-nos de tal maneira que mereçamos conhecer e compreender a grandeza da tua santidade, ou pelo menos que esta santidade se manifeste na nossa vida espiritual!». É isto que se realiza em nós quando os homens, vendo as nossas boas obras, glorificam o nosso Pai que está nos Céus (cf Mt 5,16).
Publicações de origem: «Pai nosso, que estás nos Céus, santificado seja o teu nome».
«Venha a nós o vosso reino»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a oração» , XIX; SC 54
No segundo pedido [da oração do pai-nosso], a alma puríssima exprime o desejo de ver chegar muito em breve o reino de seu Pai.
Ao dizer isto, pode visar, em primeiro lugar, o reino inaugurado em cada dia por Cristo na alma dos santos. É isso que acontece uma vez o diabo expulso do nosso coração mais os seus vícios, com os quais o infetava, e desfeito o seu império: Deus entra soberano em nós, espalhando o bom odor das virtudes: vencida a fornicação, é a castidade que reina na nossa alma; ultrapassada a raiva, a tranquilidade; calcada aos pés a soberba, a humildade.
Pode também ter em vista aquilo que foi prometido para um tempo antecipadamente estabelecido a todos os perfeitos de uma maneira geral, a todos os filhos de Deus. Então, Cristo dir-lhes-á: «Vinde, benditos do meu Pai; herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo» (Mt 25,34). A alma mantém o seu olhar ardentemente fixo nesta feliz palavra, cheia de desejo e de esperança, e exclama: «Venha a nós o vosso reino». Sabe bem, porque disso lhe dá testemunho a sua consciência, que, mal ele surja, entrará na partilha deste Reino.
Publicações de origem: «Venha a nós o vosso reino».
«Ó clemência inefável de Deus!»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a oração, XXII; SC 54»
«Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». Ó clemência inefável de Deus! Para além de nos dar um modelo de oração, para além de instituir a regra de vida pela qual podemos tornar-nos agradáveis a seus olhos, através da fórmula que nos ensina e nos recomenda que utilizemos constantemente na oração, arranca como que por necessidade as raízes da ira e da tristeza. Mas não é tudo. Também nos permite, na própria oração, pedir-Lhe que faça um juízo indulgente e misericordioso sobre nós, dando-nos a possibilidade de suavizar a nossa sentença, levando-O ao perdão pelo exemplo da nossa própria indulgência, quando Lhe dizemos: «Perdoai-nos como nós perdoamos».
Apoiada nesta oração, a pessoa pede perdão das suas faltas com confiança. […] Se queremos ser julgados com clemência, sejamos clementes para com aqueles que nos trataram mal, pois seremos perdoados na medida em que — por grande que tenha sido a sua maldade — perdoarmos àqueles que nos tiverem feito mal. Muitos há que tremem ao pensar nisto e que, quando a Igreja, o povo, recita o Pai-Nosso a uma só voz, omitem estas palavras, com receio de se condenarem pela sua própria boca, em vez de se desculparem. Vãs sutilezas, com as quais tentam, em vão, proteger-se aos olhos do Juiz Soberano, que quis mostrar antecipadamente aos que Lho pedem a maneira como os julgará. É por não querer mostrar-Se severo e inexorável conosco que Ele nos assinala a regra dos seus juízos, a fim de que julguemos os nossos irmãos — se nos tiverem feito algum mal — como desejamos ser julgados por Ele.
Publicações de origem: «Ó clemência inefável de Deus!».
«Para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu esteja neles»
São João Cassiano (c. 360-435) Conferências, n.° 10, 6-7; PL 49, 827
O Salvador dirigiu a seu Pai esta prece pelos seus discípulos: «para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu esteja neles»; e ainda: «que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós». Esta prece há de realizar-se plenamente em nós quando o perfeitíssimo amor com que Ele nos amou (1Jo 4,10) for o próprio movimento do nosso coração, em cumprimento desta prece do Senhor […].
Isto acontecerá quando todo o nosso amor, todo o nosso desejo, esforço, procura e pensamento, tudo aquilo que vivemos e de que falamos, tudo o que respiramos, outra coisa não for senão Deus; quando assimilarmos, na alma e no coração, a unidade presente do Pai com o Filho e do Filho com o Pai – isto é, quando, imitando finalmente a caridade verdadeira, pura e indestrutível com que Ele nos ama, a Ele nos unirmos também por uma caridade contínua e inalterável, e a Ele estivermos tão ligados que a nossa respiração, o nosso pensamento e a nossa linguagem mais não sejam que Ele e só Ele. Alcançaremos assim, por fim, […] o que o Senhor na sua prece desejava ver cumprir-se em nós: «que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós» e «Pai, quero que onde Eu estou, também estejam comigo os que Me deste».
A isto está destinado aquele que na solidão ora, a isto deve levar todo o seu esforço: à graça de possuir, já desde esta vida, a imagem da futura bem-aventurança, como uma antecipação, no seu corpo mortal, da vida e da glória do Céu.
Publicações de origem: «Para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu esteja neles».
A escuta das Escrituras
«O luxuriante paraíso das Escrituras espirituais»
São João Cassiano (c. 360-435) Sobre os principados, III; SC 54
Entre as verdades que a autoridade das divinas Escrituras destinou à nossa instrução, há algumas que estão expressas com tão óbvia clareza, mesmo para as mentes menos dotadas de penetração, que não só não são veladas pela obscuridade de um significado mais secreto, como nem sequer é necessária a ajuda da exegese: a letra das palavras já transmite o seu pleno significado. Outras, ao contrário, estão envoltas em misteriosa obscuridade e abrem um campo imenso aos esforços e à solicitude de quem deseja esclarecê-las e compreendê-las. […]
A Escritura pode ser comparada com uma terra rica e fértil, na qual nascem e se desenvolvem muitos produtos que beneficiam a vida humana sem serem previamente cozinhados. Outros, se não perdessem a sua dureza natural ao fogo e não se tornassem macios e tenros, revelar-se-iam impróprios para o nosso uso ou mesmo nocivos. E há alguns que são naturalmente adequados para ambas as formas: se não passarem pelo fogo, a sua crueza não é desagradável, nem causa qualquer dano; a cozedura, no entanto, aumenta os seus efeitos positivos. […]
Economia semelhante parece ser bem evidente no luxuriante paraíso das Escrituras espirituais: há passagens que, logo no seu sentido literal, brilham com uma claridade tão luminosa que, só por si, as palavras oferecem aos ouvintes alimento substancial e abundante; […] outras, pelo contrário, se não forem refinadas pela interpretação alegórica e suavizadas pela prova do fogo espiritual, longe de fornecerem ao homem interior um alimento sadio e purificado de germes malignos, serão mais prejuízo do que vantagem para ele; […] e há passagens que são vantajosas e necessárias tanto no seu sentido literal como no alegórico, pois em ambos os casos a alma retira delas sucos nutritivos.
Publicações de origem: «O luxuriante paraíso das Escrituras espirituais».
«As palavras salutares que alegram o coração do homem»
São João Cassiano (c. 360-435) Sobre a ciência espiritual, cap. IX; SC 54
A mente humana não consegue permanecer vazia. Se não estiver ocupada com as coisas de Deus, dedica-se fatalmente ao que aprendeu anteriormente; se não tiver para onde voltar a qualquer momento e exercitar a sua infatigável atividade, é atraída por uma inclinação irresistível para os temas de que foi impregnada na primeira infância. […]
Recolhidas com avidez, cuidadosamente depositadas e etiquetadas nos recônditos da alma com o selo do silêncio, as palavras salutares serão como vinhos de doce perfume, que alegram o coração do homem. Amadurecidas por longas reflexões e na lentidão da paciência, derramá-las-ás do recetáculo do teu peito com torrentes de aromas perfumados; como fonte que jorra incessantemente, elas transbordarão das condutas da experiência e dos canais inundantes das virtudes; elas fluirão do teu coração, como de um abismo, em rios inesgotáveis.
Porque farás o que diz o Livro dos Provérbios ao homem para quem todas estas coisas se tornaram realidade: «Bebe a água das tuas cisternas e da fonte dos teus poços» (Pr 5, 15 LXX).
Nas palavras do profeta Isaías, «serás como um jardim bem regado, como uma nascente de água cujas águas não desiludem; e serão reconstruídas em ti as ruínas de outrora, erguerás os fundamentos de gerações e gerações» (Is 58,11-12). A bem-aventurança prometida pelo mesmo profeta será partilhada convosco: «Aquele que te dá a instrução não voltará a esconder-se, e serão os teus olhos a ver o teu mestre e os teus ouvidos ouvirão atrás de ti esta palavra: “Este é o caminho, segui por ele”, quer te desvies para a direita, quer para a esquerda» (Is 30, 20-21).
E assim, a direção do vosso coração e o seu estudo, mas também o próprio vaguear dos vossos pensamentos e a sua deambulação incerta, serão uma santa e incessante meditação da lei divina.
Publicações de origem: «As palavras salutares que alegram o coração do homem».
«O vaso purificado do nosso coração»
São João Cassiano (c. 360-435) Sobre a ciência espiritual, cap. X.XIII, SC 54
Se quereis chegar à verdadeira ciência das Escrituras, apressai-vos a adquirir uma inabalável humildade de coração, pois será ela a conduzir-vos, não à ciência que incha, mas àquela que ilumina, pela consumação da caridade. A alma impura não pode obter o dom da ciência espiritual. […]
Aquele cuja alma é impura não é capaz de adquirir a ciência espiritual, por muito assíduo que seja à leitura. Não se mete um perfume de qualidade, um mel excelente, um licor precioso num recipiente fétido e corrompido. É mais fácil um recipiente cheio de odores repugnantes contaminar o mais odoroso perfume que receber dele alguma suavidade; mais depressa se corrompe o que é puro do que se purifica o que está corrompido. Assim acontece com o vaso do nosso coração: se não estiver purificado do contágio fétido dos vícios, não merecerá receber o perfume da bênção de que fala o profeta: «É como óleo perfumado sobre a cabeça, que desce pela barba, a barba de Aarão, que desce pela gola das suas vestes.» (Sl 132,2); nem guardará sem mancha a ciência espiritual e as palavras da Escritura, «que são mais doces que o mel, o puro mel dos favos» (Sl 18,11).
«Pois que relação tem a justiça com a iniquidade? Ou que comunhão pode existir entre a luz e as trevas? Que sintonia pode haver entre Cristo e Belial?» (2Cor 6,14-15).
Publicações de origem: «O vaso purificado do nosso coração».
«Prontos para ouvir e lentos para falar» (Tg 1, 19)
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a ciência espiritual»
Sede em tudo «prontos para ouvir e lentos para falar» (Tg 1, 19), não aconteça que se vos aplique a observação de Salomão: «Viste um homem precipitado no falar? Há mais a esperar dum insensato do que dele» (Prov 29,20).
Não tenhais a pretensão de ensinar a outra pessoa seja o que for que vós não tenhais primeiro praticado. É essa a ordem que Nosso Senhor nos ensina a seguir com o seu exemplo: «Começou a fazer e a ensinar» (At 1,1). Tendo cautela, se vos precipitardes a ensinar sem terdes praticado, não aconteça que sejais contados no número daqueles sobre quem o Senhor declara aos seus discípulos no evangelho: «Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar» (Mt 23,4); e «se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Céu» (Mt 5,19) – quanto mais aquele que ousar ensinar preceitos numerosos e mais graves, que ele próprio não respeita! Esse não será o menor no Reino do Céu, mas conquistará o primeiro lugar no suplício da geena.
Guardai-vos de dar lições aos outros como fazem alguns, que têm capacidade de discorrer e uma palavra fácil que parece correr da fonte; e, porque sabem dissertar com elegância e abundância sobre qualquer assunto, passam por possuidores da ciência espiritual aos olhos daqueles que não aprenderam a discernir a verdadeira natureza dessa ciência. Ora, uma coisa é ter alguma facilidade de palavra e brilho no discurso, outra coisa é penetrar até ao coração e à medula nas palavras celestiais, contemplando com um olhar puríssimo do coração os mistérios profundos e ocultos. Isto é coisa que nem a ciência humana nem a cultura do século conseguirão alcançar, mas apenas a pureza da alma, pela iluminação do Espírito Santo.
Publicações de origem: «Prontos para ouvir e lentos para falar» (Tg 1, 19).
Graça e combate espiritual
«Deus […] deseja que todos os homens se salvem» (1Tm 2,4)
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a proteção de Deus», cap. VII; SC 54
Deus não criou o homem para que ele perecesse, mas para que vivesse eternamente, e este desígnio permanece inalterado. Assim que vê brotar em nós a mais pequena centelha de boa vontade, ou que Ele próprio a faz brotar da pedra dura do nosso coração, a sua bondade cuida dela com atenção: estimula-a, fortalece-a com a sua inspiração, pois Ele «deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Tm 2,4).
«Não é da vontade do vosso Pai que está nos céus que se perca nem um destes pequeninos», diz o Senhor (Mt 18,14). […] Deus é verdadeiro, e não mente quando jura: «Pela minha vida, oráculo de Deus, o Senhor, Eu não desejo a morte do malfeitor, mas, pelo contrário, que o malfeitor se converta do seu caminho e viva» (Ez 33,11). Se não é da sua vontade que um só destes pequeninos se perca, poderemos pensar, sem cometer um enorme sacrilégio, que Ele não quer a salvação de todos em geral, mas apenas de alguns? Quem se perde, perde-se contra a sua vontade, pois Ele grita-lhes todos os dias: «Convertei-vos dos vossos maus caminhos! Porque haveríeis vós de morrer, ó casa de Israel?» (Ez 33,11); e ainda: «Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como uma galinha reúne os seus pintainhos debaixo das asas, e vós não quisestes!» (Mt 23,37); ou também: «Por que se revolta, então, este povo e Jerusalém persiste na revolta? Obstinam-se na falsidade e recusam voltar atrás» (Jer 8,5).
Também está escrito: «Deus não quer que uma só alma pereça; Ele difere a execução dos seus decretos, a fim de que aquele que foi rejeitado não se perca sem remédio» (2Sam 14,14; cf 2Ped 3,9).
A graça de Cristo está sempre à nossa disposição. Uma vez que Ele «deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade», também os chama a todos, sem exceção: «Vinde a Mim, todos os que andais fatigados e oprimidos, e Eu vos darei descanso» (Mt 11,28).
Nota editorial: A citação de 2Sam 14,14 foi conservada como trecho complementar da versão anteriormente publicada sob o título «Da Galileia…».
Publicações de origem: «Deus […] deseja que todos os homens se salvem» (1Tm 2,4) · «Da Galileia, também da Judeia e de Jerusalém, da Idumeia e da Transjordânia e dos arredores de Tiro e de Sidônia, veio ter com Jesus uma grande multidão» · Da Galileia, da Judeia, da Idumeia, de Tiro e de Sídon…, vinde a mim, todos.
«Queres ser curado?»
São João Cassiano (c. 360-435), «Sobre a proteção de Deus», cap. VI.VIII; SC 54.
O homem tem uma necessidade permanente do socorro divino; é fácil demonstrar esta afirmação. A fragilidade humana nada pode fazer, por si só e sem a ajuda de Deus, pela sua salvação. […]
Muitas vezes, desejamos executar um qualquer plano útil; nada falta ao ardor dos nossos desejos e temos uma boa vontade perfeita. Pois não é verdade que, apesar disto, há uma fraqueza que se atravessa no nosso caminho, tornando inúteis os votos que formámos e impedindo o bom efeito dos nossos propósitos se o Senhor, na sua misericórdia, não nos der forças para os cumprir? É imensa a multidão de quantos desejam lealmente consagrar-se à busca da virtude; mas, se contarmos aqueles que conseguem alcançar esse sonho e perseverar no seu esforço, poucos encontramos! […]
A proteção divina segue-nos, pois, inseparavelmente. Tão grande é a ternura do Criador pela sua criatura que não basta à sua providência acompanhar-nos, mas tem sempre de nos preceder. O profeta, que tinha feito esta experiência, dá abertamente testemunho disto:
«A misericórdia do meu Deus adiantar-se-á» (Sl 58,11 Vulg).
Assim que Ele percebe em nós um começo de boa vontade, logo derrama a sua luz e a sua força, excitando-nos à salvação, fazendo crescer a semente que Ele próprio semeou ou que vê surgir da terra com o nosso esforço.
«Antes que venham ter comigo, Eu os ouvirei; ainda estarão a falar e atendê-los-ei» (Is 65,24).
E diz também:
«Ao som do teu clamor, assim que te ouvir, Ele te responderá» (Is 30,19).
E não Se limita a inspirar-nos desejos santos, mas prepara-nos oportunidades para voltarmos à vida, circunstâncias favoráveis para darmos bons frutos. Ele mostra aos transviados o caminho reto da salvação.
Publicações de origem: «Queres ser curado?».
«O amor maternal de Deus»
São João Cassiano (c. 360-435) «Sobre a proteção divina», cap. XIII-XIV; SC 54
Procuremos nas coisas humanas uma comparação para a incomparável clemência do nosso Criador; não com a mira de nelas encontrar igualdade de ternura, mas ao menos uma certa semelhança na bondade indulgente.
Pensemos numa mãe cheia de amor e de cuidados, que durante muito tempo anda com o filho ao colo, até que, finalmente, o ensina a caminhar. A princípio, deixa-o gatinhar. Depois, levanta-o, pegando-lhe na mão, a fim de que ele aprenda a pôr os pés um à frente do outro. A seguir, solta-o uns momentos; porém, vendo que o filho vacila, rapidamente lhe estende a mão, apoiando-lhe os passos hesitantes, levantando-o do chão quando ele cai ou evitando a queda, ou então deixando-o cair suavemente e voltando a levantá-lo. Com o passar do tempo, o filho torna-se um rapazinho, e ei-lo em toda a força da adolescência e da juventude. Nessa altura, a mãe pode encomendar-lhe recados, pedir-lhe pequenos trabalhos em que ele possa exercitar-se sem ficar sobrecarregado, autorizá-lo a lutar com os amigos.
Pois o nosso Pai que está nos Céus bem sabe quem deve aproximar do seio da sua graça e quem deve exercitar na virtude, na sua presença, deixando-o árbitro da sua vontade! Contudo, continua a ajudar-nos nas nossas lutas, ouve os nossos pedidos, não se esquiva às nossas solicitações, indo por vezes a ponto de nos afastar dos perigos contra a nossa vontade. Tudo isto mostra claramente que os juízos de Deus são insondáveis, que são incompreensíveis os caminhos pelos quais Ele atrai a humanidade à salvação.
Publicações de origem: «O amor maternal de Deus».
«Os seus anjos veem constantemente o rosto de meu Pai que está nos Céus»
São João Cassiano — Conferências VIII, 15 e 17, Sobre os principados; fonte de tradução indicada no post original: Evangelho Cotidiano.
Ninguém duvida de que há boas razões para se aplicar aos anjos os vocábulos que assinalam a sua categoria, e para eles terem nomes que exprimem o seu cargo, os seus méritos e a sua dignidade.
É manifesto, em primeiro lugar, que o nome de anjos ou mensageiros provém do ofício de anunciar a vontade divina, e o nome de arcanjos, do facto de estes terem poder sobre os anjos, como indica a palavra. Há outros que são chamados dominações, porque têm domínio sobre vários; e principados, porque têm quem lhes obedeça como os súbditos aos príncipes; e outros ainda, tronos, em razão da íntima união e do comércio de familiaridade que têm com Deus, o que faz que a Divina Majestade pareça repousar especialmente neles como num trono, neles Se apoiando, por assim dizer, com mais firmeza. […]
Sobre os anjos, diz-nos o Salvador: «Não desprezeis um só destes pequeninos. Eu vos digo que os seus anjos veem constantemente o rosto de meu Pai que está nos Céus». E também é sobre eles que está escrito: «O anjo do Senhor protege os que O temem, e livra-os de todos os perigos» (Sl 33,8); e ainda, nos Atos dos Apóstolos, a propósito de Pedro: «É o seu anjo» (At 12, 15).
Publicações de origem: «Os seus anjos veem constantemente o rosto de meu Pai que está nos Céus».
«Todas as coisas serão submetidas a Cristo»
São João Cassiano (c. 360-435) “Sobre os principados”, XIV; SC 54
Há uma razão para o nome de principados e potestades [espíritos maus], que é o fato de exercerem dominação e império sobre povos diversos, ou de terem sob eles espíritos e demônios de categoria inferior, que o evangelho e eles próprios nos dizem chamarem-se legião.
Com efeito, não podem ser chamados dominações, a não ser que tenham sobre quem exercer poder, nem potestades ou principados, se não houver ninguém sobre quem possam reivindicar preeminência. A blasfêmia dos fariseus que o evangelho refere salienta bem esta verdade: «É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que Ele expulsa os demônios», afirmam (Mt 12,24). Noutra passagem, encontramos a designação de «poder das trevas» (Ef 6,12), e há outro demónio que é chamado «príncipe deste mundo» (Jo 14,30).
Entretanto, como afirma o bem-aventurado apóstolo, estas dignidades hão de desaparecer, quando todas as coisas forem submetidas a Cristo, «que devolverá o Reino a Deus, seu Pai, depois de ter aniquilado todos os principados, potestades e dominações» (1Cor 15,24). O que só poderá acontecer se os demônios virem subtraído ao seu império aqueles sobre quem exercem, neste século, o seu poder, dominação ou principado.
Publicações de origem: «Todas as coisas serão submetidas a Cristo».
Que o temor e a caridade de Deus nos protejam do demónio
São João Cassiano — Conferências VIII, 25, Sobre os principados; SC 54. Texto fornecido no documento Sophia.docx.
Ninguém pode ser chamado pai dos espíritos a não ser Deus, que os criou quando Lhe aprouve; os homens só têm direito ao título de pais da nossa carne. Assim sendo, o diabo, criatura espiritual, angélica e originalmente boa, não teve outro pai senão Deus, que lhe deu a existência. Mas encheu-se de orgulho e disse no seu coração: «Subirei acima das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo» (Is 14,14), tornando-se assim mentiroso e não permanecendo na verdade (cf Jo 8,44). Extraindo a falsidade do seu próprio fundo, ele não é apenas mentiroso, é o pai da mentira, como percebemos quando promete a divindade ao homem: «Sereis como deuses» (Gn 3,5), diz, pois não permaneceu na verdade. Além disso, torna-se assassino desde o princípio, pois introduz Adão na mortalidade e, como instigador do crime, faz que Abel pereça às mãos de seu irmão. […]
Oremos, pois, ao Senhor para que o seu temor e a sua caridade que não morre perseverem inabalavelmente em nós; eles nos tornarão sábios em todas as coisas e nos manterão a salvo dos golpes do demónio. Com tais guardiões, é impossível cair nas armadilhas da morte. É esta precisamente a diferença que separa os perfeitos dos imperfeitos: nos primeiros, a caridade está profundamente enraizada e atingiu, por assim dizer, um desenvolvimento mais maduro; por isso, possui uma constância mais inabalável e mantém-nos com maior firmeza e facilidade na santidade; pelo contrário, estando menos firmemente estabelecida e tendo mais facilidade em arrefecer nos segundos, permite que sejam apanhados com mais frequência nas redes do pecado.
Nota editorial: A localização em Conferências VIII, 25 foi cotejada com a edição NPNF. A tradução portuguesa é a fornecida no documento.
Fontes e critérios da seleção
As traduções já publicadas são reproduzidas a partir de Sophia, onde a maioria dos posts indica Evangelho Cotidiano como fonte. Não se atribui a esta antologia uma nova tradução. SC designa a coleção Sources Chrétiennes; PL designa Patrologia Latina. As abreviaturas e a numeração bíblica das fontes foram conservadas.
Os excertos são seleções de obras mais extensas. Os sinais […] e […] indicam omissões presentes nas fontes. Os fragmentos repetidos foram reunidos sem apagar as publicações de origem. Pequenos erros de digitação e referências manifestamente incorretas foram corrigidos; as intervenções que afetam o sentido ou a localização do texto são registradas abaixo.
- Sobre o discernimento: o texto corresponde a Conferências II, Sobre o discernimento, e não às Instituições.
- A perfeição de um coração puro: o excerto corresponde a Conferências XI, 8, embora o post de origem indique VII.
- Hospitalidade e jejum: a passagem foi identificada em Instituições cenobíticas V, 24.
- Esforcemo-nos por progredir até à caridade de Deus: a expressão «impossível passar» foi corrigida para «possível passar», conforme Conferências XI, 7.
- Todas as coisas serão submetidas a Cristo: a conclusão foi corrigida para «só poderá acontecer», conforme Conferências VIII, 14.
- As remissões Sab 29,20, Mc 24,24 e Prov 118,165 foram corrigidas respectivamente para Prov 29,20, Mt 24,24 e Sl 118,165.
O fragmento «Para que se cumprisse a Escritura» foi excluído desta seleção porque o próprio post o atribui a Epifânio de Benevento, embora estivesse classificado na categoria João Cassiano.
Cotejo de localização e sentido: Conferências II; VIII; X; XI; Instituições V, na edição inglesa de Nicene and Post-Nicene Fathers disponibilizada por New Advent. Esses textos foram usados para conferência, não como fonte de uma tradução portuguesa nova.
Organização editorial preparada em 14 de outubro de 2026.



