«Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa» [...]  (Lc 19: 5
Dom Irineo de Tropaion​

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

XV Domingo do Evangelho de Lucas: «Zaqueu»

Leitura bíblicas: Apóstolos: Hb 7: 26–28; 8: 1–2 | Lc 19: 1–10 (Modo Plagal 4º)

Memória de São Gregório, o Teólogo

«Zaqueu, desce da árvore!»

Ao atravessar Jericó, o Senhor não apenas “passa”: Ele procura. O Evangelho nos mostra um Cristo em movimento, que vai ao encontro do homem real — com sua história, sua culpa, sua sede e sua vergonha. É por isso que a cena de Zaqueu tem uma força pastoral tão grande: ela revela, com simplicidade, como a graça alcança quem está “do lado de fora” e como a conversão, quando é verdadeira, se torna concreta.

Zaqueu não é um personagem neutro. Chefe dos publicanos e rico, ele carrega o estigma do colaboracionismo e da injustiça: cobra impostos em nome do ocupante e, não raro, enriquece pelo abuso. A multidão o rejeita — e ele, por sua vez, não consegue “ver Jesus” a partir do chão comum, misturado ao povo.

A pequena estatura física, aqui, torna-se imagem de uma condição espiritual: quando o homem perde o tamanho interior, busca atalhos, subterfúgios, lugares altos que lhe devolvam controle e segurança.

Mas Deus inicia a cura de Zaqueu justamente por onde ele menos esperava:

“Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa” (Lc 19,5).

Cristo o chama pelo nome (não pelo pecado), e o chama para baixo. Há, nesse “desce”, um princípio evangélico decisivo: ninguém encontra o Senhor permanecendo no pedestal do próprio orgulho, nem no esconderijo da própria máscara. Descer é aceitar a verdade sobre si, renunciar às defesas, abandonar a superioridade que separa. São Gregório, o Teólogo, exprime esse mistério de modo inesquecível quando recorda que a salvação acontece pela condescendência de Deus: o Altíssimo se inclina para levantar-nos; e, se Ele se inclina, é para que deixemos de “subir” pela vaidade e aprendamos a subir pela humildade.

A casa de Zaqueu é mais que um endereço: é o lugar da vida concreta. Cristo não diz: “Hoje irei ao Templo contigo”, mas: “Hoje devo ficar em tua casa”. A graça não visita apenas o que é “religioso”; ela quer tocar o cotidiano, a mesa, a economia doméstica, o modo de tratar pessoas, o uso do dinheiro, as relações feridas. Por isso a murmuração da multidão (“foi hospedar-se na casa de um pecador”) é, ao mesmo tempo, previsível e reveladora: o escândalo do Evangelho é que Deus não espera que o pecador se torne digno para entrar; Ele entra para tornar o homem novo. E aqui ecoa uma das intuições centrais de São Gregório: “o que não foi assumido, não foi curado” (Ep. 101). Cristo assume a nossa condição até os espaços mais comprometidos — não para pactuar com o pecado, mas para curar o pecador.

O fruto aparece com clareza: Zaqueu se levanta e fala como quem já foi visitado por dentro:

“Eis, Senhor: darei a metade dos meus bens aos pobres; e, se defraudei alguém, restituo quatro vezes mais” (Lc 19,8).

A conversão não é um sentimento vago; é uma reorganização da vida. A caridade é inseparável da justiça, e a justiça, quando é sincera, inclui reparação. Aqui é muito importante notar a ordem dos acontecimentos: Zaqueu não “compra” a visita de Cristo com promessas; a visita de Cristo gera, como consequência, a mudança. Como lembram os Padres ao comentar a vida nova, a graça não suprime a liberdade: ela a desperta e a torna capaz de obras que antes pareciam impossíveis.

É precisamente nesse ponto que a memória de São Gregório, o Teólogo, ilumina o Evangelho. Entre suas homilias, uma das mais pastorais é a que trata do amor pelos pobres (Or. 14): ele insiste que não existe verdadeira piedade que não se traduza em misericórdia concreta, e que honramos a Cristo quando cuidamos dos que sofrem.

Zaqueu, tocado pela presença do Senhor, deixa de usar o próximo como meio e passa a vê-lo como irmão; deixa de ser predador e torna-se reparador. Isso não é “apenas ética”: é sinal de que a salvação entrou na casa.

A Epístola (Hb 7,26–28; 8,1–2) aprofunda o fundamento de tudo isso: Cristo é o Sumo Sacerdote “santo, inocente, imaculado”, que não oferece sacrifícios por si, mas entrega-se “uma vez por todas” e, agora, exerce seu sacerdócio no “santuário verdadeiro”. Ou seja: o Senhor que entra na casa de Zaqueu não é um mestre entre outros; é Aquele cuja oblação única purifica a consciência e inaugura a nova aliança. Por isso a conversão cristã nunca é só “melhorar de vida”: é ser introduzido numa comunhão, numa vida reconciliada com Deus, que depois se manifesta em obras de justiça, partilha e misericórdia.

Ao final, Jesus pronuncia a palavra que define o episódio:

“Hoje houve salvação nesta casa… pois o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,9–10).

Essa é a boa-nova do domingo: ninguém está fora do alcance do Senhor, e ninguém é tão pequeno que não possa ser chamado pelo nome. O caminho, porém, permanece o mesmo: descer do próprio “sicômoro”, abrir a porta da casa interior, receber Cristo com alegria — e deixar que essa visita se torne restituição, reconciliação, esmola, mudança de rota. Quando isso acontece, a casa deixa de ser apenas “minha”: torna-se lugar de salvação.

Fontes e referências bibliográficas:
  • Lv 13,45–46; Lc 19,1–10; Hb 7,26–28; 8,1–2; Ex 22 (sobre restituições).
  • São Gregório de Nazianzo, o Teólogo: Oração 14 (sobre o amor aos pobres); Epístola 101 (a Cledônio: “o que não foi assumido, não foi curado”).
  • São João Crisóstomo, Homilias sobre Hebreus (sobre o sacerdócio único de Cristo e sua oblação).
  • São Cirilo de Alexandria, Comentário ao Evangelho de Lucas (para a leitura espiritual do encontro e da conversão).
  • Teofilacto da Bulgária, Exposição do Evangelho segundo Lucas.
  • Fr Kristian Akselberg, “Sermon – 15th Sunday of Luke (Zacchaeus)”, 31 jan. 2021 (texto em inglês).

Suplemento Litúrgico

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Apolitíkion da Ressurreição (Modo Plagal 4º)

Εξ ύψους κατήλθες ο εύσπλαγχνος, ταφήν κατεδέξω τριήμερον, ίνα ημάς ελευθέρωσης των παθών. Η ζωή και η ανάστασις ημών, Κύριε δόξα σοι.

Desceste das Alturas, ó Misericordioso, e suportaste a sepultura por três dias, para nos libertar dos sofrimentos. Senhor, nossa Vida e nossa Ressurreição, Glória a Ti!