«Este Jesus, que dentre vós foi elevado ao céu, virá do mesmo modo como O vistes partir» (At 1,11).
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

«A Ascensão do Senhor»

No quadragésimo dia após a gloriosa Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Igreja, com piedade e júbilo, celebra a sua santa Ascensão aos Céus. É um dos grandes marcos do Mistério da Economia Divina, na qual se revela o pleno cumprimento da missão salvífica do Verbo Encarnado.

A Ascensão não é apenas um episódio final na vida terrena do Salvador, mas um evento teológico de primeira importância: Ele, que por nós se fez carne, agora, glorificado em Sua humanidade, é elevado à destra do Pai, inaugurando um novo modo de presença entre nós e antecipando nossa própria glorificação.

 

Fundamento Bíblico e Litúrgico

O evento da Ascensão é descrito com sobriedade, porém com profunda riqueza teológica, nos Atos dos Apóstolos (1,1-11). Nosso Senhor, após ter instruído os discípulos durante quarenta dias, elevou-Se ao Céu à vista deles, no Monte das Oliveiras, deixando-lhes a promessa do Espírito Santo e a missão de testemunhá-Lo até os confins da terra.

Já no Santo Evangelho segundo São Mateus, o Senhor ressuscitado exorta:

«Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos ordenei. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos» (Mt 28,19-20).

Este “estar convosco” não contradiz Sua partida visível; antes, inaugura um modo novo e sacramental de presença: na Palavra, nos Santos Mistérios, no Corpo da Igreja e no coração de cada fiel que vive a fé com autenticidade.

Da pedagogia divina ao compromisso missionário

A permanência de quarenta dias entre a Ressurreição e a Ascensão possui significado pedagógico. Nosso Senhor, conhecedor das limitações humanas, utiliza este tempo para fortalecer os discípulos, dissipar dúvidas, restaurar a esperança e prepará-los para o Pentecostes. A cena dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) ilustra bem esse itinerário: do desânimo à fé viva, da cegueira espiritual ao reconhecimento eucarístico.

O Cristo glorificado não os abandona. Pelo contrário, os eleva. Sua Ascensão não é uma despedida, mas a abertura de um horizonte escatológico: Ele sobe aos Céus para preparar-nos lugar (Jo 14,2-3), e envia-nos o Espírito Santo como penhor de Sua presença.

Dimensão escatológica: A promessa de Sua vinda

Os dois varões vestidos de branco que aparecem após a Ascensão dizem claramente:

«Este Jesus, que dentre vós foi elevado ao céu, virá do mesmo modo como O vistes partir» (At 1,11).

A Ascensão projeta nosso olhar para o segundo Advento de Cristo — Sua Parusia gloriosa, quando julgará vivos e mortos.

Neste tempo entre a primeira e a segunda vinda, cabe a nós a vigilância, a missão e a fidelidade. A vida cristã não é fuga do mundo, mas compromisso transformador: “mente no céu e pés no chão”. Como ensinaram os Santos Padres, o cristão é aquele que, já vivendo na terra, tem sua cidadania no céu (cf. Fil 3,20).

A Ascensão e a vida espiritual

A Ascensão nos interpela: por qual caminho estamos trilhando? Jesus advertiu: «Entrai pela porta estreita… apertado é o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram» (Mt 7,13-14). A realidade do Reino não é alcançada pela facilidade ou pelo comodismo, mas pelo esforço sincero, pela obediência à Palavra e pela vivência dos Mandamentos.

Quantos se afastam da fé por não conhecerem a Sagrada Escritura! Quantos rejeitam o Cristo porque jamais se puseram a contemplá-Lo com olhos espirituais! Como outrora os mestres da Lei, também hoje há quem zomba da fé por ignorância voluntária. Mas ainda é tempo de conversão.

Conforme exortava São João Crisóstomo: «Nada é tão frio quanto um cristão que não se preocupa com a salvação dos outros». A Ascensão nos impulsiona à missão: se cremos que Cristo subiu aos Céus, então devemos anunciar a todos a possibilidade da salvação, levando-os ao encontro com o Ressuscitado.

Celebrar, pois, a Ascensão do Senhor é contemplar, com os olhos da fé, o Cristo glorioso que sobe ao Pai levando consigo a nossa humanidade redimida. É proclamar que o Céu está aberto àqueles que vivem como Ele viveu. É, sobretudo, renovar nosso compromisso batismal, viver com fidelidade a vocação recebida e caminhar como povo santo rumo à Glória prometida.

Suplemento Litúrgico

Ἀνελήφθης ἐν δόξῃ, Χριστὲ ὁ Θεὸς ἡμῶν, χαροποιήσας τοὺς Μαθητάς, τῇ ἐπαγγελίᾳ τοῦ ἁγίου Πνεύματος, βεβαιωθέντων αὐτῶν διὰ τῆς εὐλογίας, ὅτι σὺ εἶ ὁ Υἱὸς τοῦ Θεοῦ, ὁ Λυτρωτὴς τοῦ κόσμου.

Foste elevado em glória, ó Cristo nosso Deus, alegrando os discípulos com a promessa do Espírito Santo, tendo sido eles confirmados por tua bênção de que Tu és o Filho de Deus, o Redentor do mundo.