«Agios o Theós, Agios Ischiros, Agios Athanatos...»
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

«O Domingo de Todos os Santos»

A Solenidade de Todos os Santos é uma ocasião propícia para aprofundarmos o sentido da santidade cristã. Desde os primórdios da Revelação, Deus é apresentado como o “Santo”, ou seja, o Totalmente Outro, o Sagrado, o Inacessível. No livro do Gênesis, por exemplo, a presença divina é cercada de temor e reverência (cf. Gn 15,12).

Para o povo de Israel, esse Deus transcendente, que se revelava como o “Separado” por excelência, justificava sua identidade como “raça eleita”, “nação santa” e “povo escolhido”. Essa singularidade não se expressava apenas nas práticas religiosas, mas também nas normas sociais e na vida cotidiana. O pertencimento a este povo era motivo de orgulho religioso e cultural, mas, com o tempo, esta consciência correu o risco de se tornar exclusivista, degenerando em atitudes farisaicas que esvaziavam o verdadeiro sentido da santidade.

Jesus Cristo, porém, rompe com essa visão distorcida. Ele chama à conversão do coração e denuncia as hipocrisias. São Pedro, em suas epístolas, reforça que a verdadeira santidade provém da pureza interior, que nos torna participantes da vida divina (cf. 1Pd 1,14-16). As leis, nesse contexto, são boas na medida em que conduzem à maturidade e liberdade dos filhos de Deus.

A santidade cristã, portanto, não é conquista humana ou fruto de heroísmo, mas Dom gratuito de Deus, que nos é comunicado por meio de Jesus Cristo. Pela ação do Espírito Santo e por meio dos sacramentos — especialmente a Eucaristia — somos santificados. Assim como o Senhor é Santo, somos chamados também a sê-lo (cf. Mt 13,24-30).

Esta certeza era tão vívida nos primeiros tempos da Igreja que os fiéis chamavam a si mesmos de “santos” (cf. 2Cor 11,12) e à Igreja de “Comunhão dos Santos”. Esta expressão, professada no Credo, ganha plena densidade na Divina Liturgia da Igreja Ortodoxa, onde, no momento da Eucaristia, proclama-se: “As coisas santas aos santos!”, ao que a assembleia responde: “Um só é Santo, Um só é Senhor, Jesus Cristo, na glória de Deus Pai. Amém.”

A participação na vida divina se concretiza sacramentalmente. A santidade é fruto da filiação e da graça: um dom recebido, não uma conquista pessoal. O modo como a Festa de Todos os Santos é celebrada no calendário litúrgico bizantino — no domingo seguinte a Pentecostes — reforça essa realidade: é o Espírito Santo quem opera toda santificação. Com isso, encerra-se o Tempo Pascal na tradição oriental, sublinhando que a santidade é a obra por excelência do Espírito Santíssimo de Deus.

Neste espírito, vale recordar o profundo ensinamento do arcebispo e teólogo bizantino São Gregório Palamás (1296–1359), em seu Sermão para o Domingo de Todos os Santos. Ele nos exorta a não apenas contemplar os santos, mas a imitá-los no exercício concreto da fé:

“Do alto do céu, Deus oferece a todos os homens as riquezas da sua graça. Ele próprio é a fonte da salvação e da luz de onde emana eternamente a misericórdia e a bondade. […] Mas só tiram proveito dessa força aqueles que se afastaram do mal, que aderem firmemente aos mandamentos de Deus e que fixam o seu olhar espiritual em Cristo, Sol de justiça (cf. Ml 3,20).”

“Cada um dos santos se declara por Cristo nesta vida passageira… Enquanto isso, o próprio Cristo se declara por nós no mundo da eternidade, diante do Pai celeste, cercado pelos anjos e por todos os eleitos, revelando e coroando aqueles que lhe foram fiéis até o fim.”

A Festa de Todos os Santos, portanto, nos convoca a reconhecer que a santidade é acessível e vocacional: é dom e missão. Os santos não são apenas exemplos do passado, mas realidades vivas da comunhão eclesial, intercessores e companheiros de caminho. Sua celebração nos inspira a viver nossa vocação batismal com generosidade, no coração da Igreja e no mundo.

Referências Bibliográficas:
  • Sagrada Escritura: Gênesis 15,12; 1Pedro 1,14-16; 2Coríntios 11,12; Mateus 13,24-30; Malaquias 3,20.
  • Liturgia Ortodoxa de São João Crisóstomo.
  • São Gregório Palamás, Sermão para o Domingo de Todos os Santos (1296–1359).

Suplemento Litúrgico

Τῶν ἐν ὅλῳ τῷ κόσμῳ Μαρτύρων σου, ὡς πορφύραν καὶ βύσσον τὰ αἵματα, ἡ Ἐκκλησία σου στολισαμένη, δι’ αὐτῶν βοᾷ σοι, Χριστὲ ὁ Θεός, τῷ λαῷ σου τοὺς οἰκτιρμούς σου κατάπεμψον, εἰρήνην τῇ πολιτείᾳ σου δώρησαι, καὶ ταῖς ψυχαῖς ἡμῶν τὸ μέγα ἔλεος.

Revestida, como de púrpura e de linho fino, do sangue de todos aqueles que, no mundo inteiro, foram tuas testemunhas, tua Igreja por eles te clama, ó Cristo Deus: «mostra ao teu povo a tua compaixão; concede a paz à nossa pátria e a grande misericórdia às nossas almas».