«Importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna» (Jo 3,14-15)

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

Leituras bíblicas

  • Matinas (Orthros): João 12,28–36
  • Apóstolos (Epístola): I Coríntios 1,18–24
  • Evangelho: João 19,6–11.13–20.25–28.30

Exaltação Universal da Preciosa e Vivificante Cruz

14 de setembro

A Festa da Exaltação Universal da Preciosa e Vivificante Cruz coloca diante da Igreja um dos mais profundos paradoxos da fé cristã: aquilo que no mundo antigo era instrumento de suplício, vergonha e morte é elevado no meio da assembleia como árvore da vida, trono do Rei e sinal da vitória pascal. A Igreja não ignora o horror do Gólgota nem transforma o sofrimento em objeto de culto. Ela contempla na Cruz Aquele que nela Se entrega e reconhece que, precisamente onde o mundo enxergava a derrota de Cristo, manifesta-se a força de um amor que vai «até o fim» (Jo 13,1).

O próprio Senhor oferece a chave para compreender esse mistério:

«Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna» (Jo 3,14-15).

E, mais adiante:

«Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim» (Jo 12,32).

A elevação de Cristo é a Cruz; sua glória manifesta-se na entrega; sua força de atração não procede do poder que subjuga, mas do amor que Se oferece. Aqui começa a inversão dos critérios humanos introduzida pelo Evangelho: aquele que quer elevar-se desce, aquele que quer conservar a vida perde-a, enquanto Cristo, humilhando-Se «até à morte, e morte de Cruz», é precisamente por isso exaltado pelo Pai (Fl 2,8-9).

A origem histórica da festa está ligada à veneração do santo Lenho em Jerusalém e à dedicação, no século IV, do complexo constantiniano construído junto ao Gólgota e ao Santo Sepulcro. A tradição associa à descoberta da Cruz Santa Helena e o Patriarca Macário de Jerusalém. A liturgia, porém, não nos mantém no passado. O acontecimento histórico torna-se porta de entrada para a contemplação do mistério permanente da Cruz na economia da salvação. Quando o santo Lenho é elevado no meio da Igreja, não celebramos simplesmente uma relíquia reencontrada, mas confessamos que a Cruz de Cristo continua sendo o sinal sob o qual compreendemos sua morte, sua Ressurreição e também nossa própria vocação cristã.

São Paulo chega a fazer dela sua única glória:

«Longe de mim gloriar-me, senão na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo» (Gl 6,14).

A afirmação seria incompreensível se a Cruz fosse considerada isoladamente como sofrimento. O Apóstolo não se gloria na dor, mas no amor de Cristo que entrou na morte e a venceu. Por isso, a tradição ortodoxa nunca separa verdadeiramente Cruz e Ressurreição. A Sexta-feira Santa já se abre para a Páscoa, e a Páscoa conserva para sempre as marcas do Crucificado. É essa unidade que a Igreja proclama cada vez que canta:

«A tua Cruz adoramos, ó Soberano, e a tua santa Ressurreição glorificamos.»

Os Padres perceberam nessa unidade o cumprimento de toda uma tipologia bíblica. Um madeiro aparece no princípio da história da queda; outro madeiro ergue-se no coração da história da salvação. São Romano, o Melodista, contempla o bom ladrão reconhecendo no Gólgota a Árvore da Vida que Adão perdera no paraíso. A imagem é profundamente teológica: onde o homem estendeu a mão para tomar, Cristo estende as mãos para Se entregar; onde Adão buscou a vida separando-se de Deus, o novo Adão entra livremente na morte em perfeita obediência ao Pai. A lógica da apropriação é vencida pela lógica do dom.

Também a serpente levantada por Moisés no deserto (Nm 21,4-9) encontra sua plenitude no Crucificado. Aqueles que haviam sido feridos olhavam para o sinal levantado e viviam; agora, a humanidade ferida pelo pecado é chamada a olhar para Cristo. Mas esse olhar não é simplesmente contemplação exterior. São Lucas de Simferopol insiste justamente que a Cruz deve ser impressa no coração: não basta trazê-la sobre o peito ou venerá-la no templo; é necessário permitir que ela transforme nossos pensamentos, escolhas e relações.

A Cruz revela simultaneamente a gravidade do pecado e a imensidão do amor divino. No Gólgota vemos até onde pode chegar a violência humana, mas vemos também até onde vai o amor de Deus. O homem crucifica; Deus continua amando. O homem responde ao bem com violência; Cristo não permite que a violência determine a forma de sua resposta. Por isso a Cruz é também juízo sobre nossas próprias concepções de poder, sucesso e vitória.

A tradição ascética reconhece nela o caminho inverso ao das paixões. O orgulho procura elevar o próprio eu, afirmar-se, dominar e possuir; Cristo «esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo» (Fl 2,7). A kénosis do Filho não significa diminuição de sua dignidade, mas manifestação da forma divina de amar. É precisamente nesse sentido que a Cruz se torna caminho de liberdade para o cristão: o ego deixa de ocupar o centro e abre espaço para Deus e para o próximo.

Por isso a linguagem litúrgica chama a Cruz de «arma invencível». Essa expressão só pode ser compreendida a partir do próprio Crucificado. A Cruz jamais pode ser arma contra pessoas; sempre que foi utilizada para justificar coerção, violência ou domínio, seu significado foi contradito. Sua força consiste exatamente no contrário: humildade diante do orgulho, misericórdia diante da vingança, verdade diante da mentira, serviço diante da dominação. A Cruz vence o mal sem reproduzir sua lógica.

Daí a exigência das palavras do Senhor:

«Se alguém quiser vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me» (Mt 16,24).

Também aqui é necessário evitar uma compreensão espiritual inadequada. Tomar a cruz não significa procurar sofrimento nem considerar toda dor como vontade positiva de Deus. Há doenças que devem ser tratadas, injustiças que devem ser combatidas e situações destrutivas das quais é necessário proteger a pessoa humana. A cruz aparece quando, nas circunstâncias concretas da existência, a fidelidade a Cristo exige de nós uma entrega: dizer a verdade quando seria mais conveniente mentir; perdoar quando a vingança parece mais fácil; servir quando desejaríamos apenas ser servidos; permanecer na caridade quando o ressentimento procura dominar o coração.

Nesse sentido, carregar a cruz é permitir que nossa vida assuma progressivamente a forma do amor de Cristo.

Essa perspectiva ilumina também as palavras: «Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim» (Jo 12,32). O Arcebispo Elpidophoros chama a atenção para a força dessa atração: o Crucificado atrai porque revela um amor que não recua diante da entrega de Si. E essa mesma lógica determina a missão da Igreja. Ela não conduz verdadeiramente as pessoas a Cristo pela imposição, pelo prestígio ou pela força de suas estruturas, mas na medida em que sua própria existência se torna testemunho desse amor cruciforme. O mandamento «amai-vos uns aos outros» recebe sua medida definitiva no complemento dado pelo Senhor: «como Eu vos amei» (Jo 13,34).

A Cruz torna-se, assim, critério de discernimento para toda forma cristã de autoridade. O poder, à luz do Gólgota, somente encontra sua verdade quando se converte em serviço. Isso vale para a Igreja, para a família, para a sociedade e para cada relação humana. O Crucificado revela uma força que não precisa esmagar o outro para afirmar-se. Suas mãos estão pregadas e, no entanto, Ele realiza aquilo que nenhum império poderia realizar: vence a morte pela entrega da própria vida.

É por isso que a Igreja chama a Cruz de Vivificante. Não porque a morte seja boa ou porque o sofrimento possua valor em si mesmo, mas porque Aquele que é a Vida entrou na morte e a destruiu por dentro. São João Damasceno contempla nessa obra uma transformação que alcança toda a condição humana: pela Cruz, a morte é vencida, o Hades despojado, o paraíso reaberto e nossa natureza elevada à comunhão com Deus.

Há, finalmente, uma extraordinária catequese no próprio gesto litúrgico da festa. A Cruz é elevada enquanto o povo se inclina. Aquilo que fazemos corporalmente expressa o caminho espiritual do Evangelho. A Cruz sobe; nós descemos. Não descemos para sermos diminuídos, mas para abandonar a ilusão da autossuficiência. Curvamo-nos diante d’Aquele que desceu até a morte e que, da profundidade dessa descida, levantou consigo a humanidade.

Talvez seja essa a pergunta mais fecunda que a festa nos deixa: a Cruz que veneramos está dando forma à nossa maneira de viver?

Ela começa a ser gravada no coração quando o orgulho cede espaço à humildade; quando o ressentimento se abre ao perdão; quando a autoridade se torna serviço; quando a dor não nos fecha necessariamente sobre nós mesmos; quando aprendemos que amar pode significar entregar algo de nós sem perder aquilo que somos em Deus.

Então compreendemos por que a Igreja não contempla a Cruz como monumento de uma derrota passada. Ela a eleva no centro da assembleia porque reconhece nela a forma do amor que salva. Da árvore do paraíso ao madeiro do Gólgota, da serpente elevada por Moisés ao Filho do Homem levantado para atrair todos a Si, percorre-se uma única história: aquilo que o pecado transformou em morte, Deus, em Cristo, transforma em caminho para a vida.

E por isso podemos nos inclinar diante da Cruz sem permanecer prostrados diante da morte. Levantamo-nos para a Ressurreição, confessando:

«A tua Cruz adoramos, ó Soberano,
e a tua santa Ressurreição glorificamos.»

Notas e Referências

  • BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Êx 17,8-13; Nm 21,4-9; Sl 98(99),5; Mt 16,24-25; Jo 3,13-17; 12,23-33; 13,1.34; Fl 2,5-11; Gl 6,14.
  • MENAION. Ofício da Exaltação Universal da Preciosa e Vivificante Cruz — 14 de setembro. Vésperas, Matinas e Divina Liturgia. Hinografia própria da festa.
  • JOÃO DAMASCENO, São. Exposição Exata da Fé Ortodoxa, IV, 11. In: CHASE, Frederic H. Jr. (trad.). Saint John of Damascus: Writings. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1958. (The Fathers of the Church, v. 37).
  • ROMANO, O MELODISTA, São. On the Adoration of the Cross. In: CARPENTER, Marjorie (trad.). Kontakia of Romanos, Byzantine Melodist. v. 1: On the Person of Christ. Columbia: University of Missouri Press, 1970.
  • JUSTINO MÁRTIR, São. Diálogo com Trifão, cap. 90. Interpretação tipológica dos braços estendidos de Moisés na batalha contra Amalec como figura da Cruz.
  • GERMANO I DE CONSTANTINOPLA, São. Apology on the Cross and on the Holy Icons. Texto atribuído ao Patriarca Germano, sobre a relação entre a Cruz, sua imagem e a veneração cristã.
  • LUCAS DE SIMFEROPOL, São. Homily One on the Exaltation of the Cross of the Lord. Reflexão sobre a necessidade de a Cruz de Cristo não permanecer apenas como sinal exterior, mas ser «impressa no coração» pela vida segundo os mandamentos.
  • AKSELBERG, Kristian. Sermon: Exaltation of the Precious Cross. 14 set. 2021. Reflexão sobre a Cruz como vitória sobre as paixões mediante a humildade, a obediência e a entrega de si.
  • ELPIDOPHOROS OF AMERICA, Archbishop. Homily at the Great Vespers of the Exaltation of the Holy Cross. Holy Cross Chapel, Brookline, Massachusetts, 13 set. 2024. Reflexão sobre Jo 12,32 e a força de atração do amor sacrificial de Cristo.
  • IRINEO DE TROPAION, Dom. A Festa da Exaltação da Santa Cruz. Subsídios Homiléticos. Reflexão sobre a Cruz na economia da salvação, na liturgia e na vida espiritual cristã.
  • Fontes patrísticas complementares
  • ANDRÉ DE CRETA, Santo. Homilia sobre a Exaltação da Preciosa e Vivificante Cruz. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologia Graeca, v. 97.
  • GREGÓRIO DE NAZIANZO, São. Oratio 45 — In Sanctum Pascha. In: MIGNE, J.-P. (ed.). Patrologia Graeca, v. 36.

Suplemento Litúrgico

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Apolitíkion da Santa Venerável e Vivificante Cruz (Modo 1º)

Σῶσον, Κύριε, τὸν λαὸν σου καὶ εὐλόγησον τὴν κληρονοµίαν σου, νίκας τοῖς βασιλεῦσι κατὰ βαρβάρων δωρούµενος, καὶ τὸ σὸν φυλάττων διὰ τοῦ Σταυροῦ σου πολίτευµα.

Salva, Senhor, o teu povo e abençoa a tua herança. Concede à tua Igreja a vitória sobre o mal (os seus adversários) e guarda o teu povo pela tua Cruz.