«Importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna» (Jo 3,14-15)
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

A Festa da Exaltação da Santa Cruz

A solenidade da Exaltação da Preciosíssima e Vivificante Cruz do Senhor ocupa um lugar singular no ciclo litúrgico da Igreja. Celebrada no dia 14 de setembro, ela nos convida não apenas a contemplar a Cruz como instrumento de suplício, mas a reconhecê-la como árvore da vida, trono da glória, sinal de triunfo, fonte de cura, bênção para o universo.

A Cruz é, ao mesmo tempo, o lugar da kénôsis (esvaziamento) do Filho de Deus e o altar onde se realiza o Sacrifício que redime o mundo. A Igreja a venera com temor e alegria, cantando com o salmista:

“Exaltai o Senhor nosso Deus, e adorai o escabelo de seus pés, porque ele é santo” (Sl 98,5).

1. A Cruz no plano da Economia da Salvação

O apóstolo Paulo nos ensina:

“Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6,14).

Nela se concentram todos os mistérios: a justiça divina e a misericórdia, o juízo e a graça, o sofrimento e a vitória, a morte e a vida.

São Gregório de Nazianzo nos recorda:

“Sem a Cruz, Cristo não teria sido crucificado. Sem a Cruz, a vida não teria sido pregada. Sem a Cruz, não haveria remissão dos pecados, nem destruição da morte” (Or. 45, In Sancta Lumina).

A Cruz é, pois, o ponto de encontro entre o amor eterno de Deus e a resposta livre da humanidade redimida. Cristo a abraça como um noivo abraça a esposa: com amor indizível e entrega total.

2. A Liturgia e a Teologia da Cruz

A celebração da Exaltação da Cruz tem origem na dedicação da Basílica da Ressurreição em Jerusalém (335), no lugar onde foi descoberto o madeiro por Santa Helena. Desde então, a Liturgia bizantina a enriqueceu com profundos hinos teológicos:

“Hoje a Cruz é exaltada, e o mundo se liberta da ignorância; hoje ressuscita com Cristo Adão caído com tristeza.”

A cruz é mostrada ao povo, não como objeto de pena, mas como estandarte da vitória pascal, trono do Rei, sinal do Reino que vem. A veneração da Cruz não se confunde com idolatria: trata-se de uma confissão viva do amor que venceu o inferno, do lenho que inverte a queda de Adão.

Santo André de Creta escreve:

“A Cruz é a glória de Cristo, a exaltação dos apóstolos, a constatação de que não fomos chamados para as coisas da terra, mas para as alturas” (Homilia na Exaltação, PG 97,1018).

3. A Cruz na vida espiritual do cristão

Cristo mesmo disse:

“Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

A Cruz não é só para ser venerada nos templos, mas carregada no coração e assumida na vida.

São João Clímaco ensina:

“A cruz é o poder invisível que sustenta a alma no combate contra as paixões. Quem a abraça, desarma o demônio.”

Na ascese, na paciência, na humildade, no perdão dos inimigos e na caridade que se entrega, a Cruz de Cristo se torna presente em nossa carne. O jejum, a oração e a misericórdia são as três vírgulas gravadas nela.

A Cruz é também sinal escatológico. Diz o Evangelho:

“Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem” (Mt 24,30).

Os Padres entendem que este sinal é precisamente a Cruz gloriosa, revelando no fim dos tempos Aquele que por ela venceu.

A Cruz é o Livro por excelência da Revelação: “A Cruz é o Livro do Amor”, escreve São Máximo o Confessor. Contemplando-a, celebrando-a e abraçando-a, reconhecemos o caminho pelo qual nos vem a ressurreição.

A veneração da Santa Cruz é sinal da verdadeira fé. Como canta a Liturgia:

“A tua Cruz adoramos, ó Soberano, e a tua santa Ressurreição glorificamos.”

Suplemento Litúrgico

Σῶσον, Κύριε, τὸν λαὸν σου καὶ εὐλόγησον τὴν κληρονοµίαν σου, νίκας τοῖς βασιλεῦσι κατὰ βαρβάρων δωρούµενος, καὶ τὸ σὸν φυλάττων διὰ τοῦ Σταυροῦ σου πολίτευµα.

Salva, Senhor, o teu povo e abençoa a tua herança. Concede à tua Igreja a vitória sobre o mal (os seus adversários) e guarda o teu povo pela tua Cruz.

Ὁ ὑψωθεὶς ἐν τῷ Σταυρῷ ἑκουσίως, τῇ ἐπωνύμῳ σου καινὴ πολιτεία, τοὺς οἰκτιρμούς σου δώρησαι, Χριστὲ ὁ Θεός, Εὔφρανον ἐν τῇ δυνάμει σου, τοὺς πιστοὺς Βασιλεῖς ἡμῶν, νίκας χορηγῶν αὐτοῖς, κατὰ τῶν πολεμίων, τὴν συμμαχίαν ἔχοιεν τὴν σήν, ὅπλον εἰρήνης, ἀήττητον τρόπαιον.

Ó Cristo Deus, que voluntariamente foste suspenso à Cruz, tem compaixão do povo que traz o teu nome. Alegra, pelo teu poder, a tua santa Igreja, dando-lhe a vitória sobre o mal. Que tua aliança seja para nós uma arma de paz e um troféu de vitória.