«Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado» (Mt 8,8).
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

«A Cura do Servo do Centurião»

O Evangelho deste domingo nos apresenta o comovente encontro entre Jesus e o centurião romano, figura que nos surpreende por sua fé profunda e sensibilidade humana.

O termo centurião designa um oficial do exército romano, comandante de cerca de cem soldados, encarregado de manter a ordem em regiões do Império. No entanto, ao contrário da imagem fria e autoritária que se poderia esperar de alguém nessa função, todos os centuriões mencionados nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos são descritos como homens de boa índole e abertura ao sagrado. O centurião que presenciou a morte de Jesus, por exemplo, reconheceu e proclamou: «Verdadeiramente, este era o Filho de Deus» (Mt 27,54; cf. Lc 23,47).

No relato de hoje, Mateus nos mostra um centurião que se aproxima de Jesus com humildade incomum, pedindo pela cura de seu servo — alguém que lhe era muito querido. O Evangelho de Lucas (7,1–10), ao narrar o mesmo episódio, apresenta variações nos detalhes: ali, o centurião envia representantes a Jesus, argumentando que não se sentia digno sequer de ir até Ele, e muito menos de recebê-Lo sob seu teto. A tradição patrística vê nessas versões complementares a liberdade dos evangelistas para ressaltar diferentes aspectos do mesmo mistério.

O centro do episódio, no entanto, permanece o mesmo: a fé profunda e a humildade do centurião. Ele diz:

«Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado» (Mt 8,8).

Essa atitude revela uma fé autêntica, que se apoia não em sinais visíveis, mas na confiança no poder da Palavra. Como observa São João Crisóstomo:

“Ele não disse: ‘Vem, toca-o, põe as mãos sobre ele’. Mas creu que Jesus, mesmo de longe, poderia curá-lo com apenas uma palavra” (Homilia 26 sobre Mateus).

E mais: o centurião não intercede por si, mas por outro. Eis uma fé que se expande em caridade. Como escreve São Teófilo de Antioquia (séc. II):

“A alma que ama, ao reconhecer a dor do outro, clama a Deus por ele, e nisto se revela a verdadeira imagem divina no homem” (Ad Autolycum, II, 12).

Jesus, por sua vez, admira-se da fé daquele homem:

«Em verdade vos digo, não encontrei ninguém em Israel com tamanha fé» (Mt 8,10).

Esta afirmação contém, ao mesmo tempo, um elogio e um alerta. O elogio é dirigido à fé daquele pagão, que antecipa a abertura do Reino aos gentios. O alerta, porém, é para todos aqueles que, apesar de conhecerem a revelação, não confiam de coração.

A humildade do centurião é modelo para nós. São Teodoro, o Estudita, exorta com palavras incisivas:

“Revesti-vos da humildade, meus irmãos. Leiamos com humildade, cantemos com humildade, comamos com humildade… e veremos como é doce o seu fruto. A humildade é o solo onde germinam todas as demais virtudes” (Catequeses, PG 99, 1800–1801).

De fato, a humildade é inseparável da fé. Aquele que crê sinceramente reconhece sua pequenez diante de Deus. Como o publicano da parábola, exclama: «Tem piedade de mim, pecador!» (Lc 18,13). É essa disposição que abre as portas da graça, pois o Senhor “resiste aos soberbos, mas concede graça aos humildes” (1Pd 5,5).

Na segunda leitura (Rm 6,18–23), São Paulo recorda que fomos libertos do pecado para nos tornarmos servos da justiça. A humildade e a fé do centurião revelam essa nova condição: não buscamos mais apenas nossos interesses, mas passamos a viver em serviço – de Deus e dos irmãos. E como lembra o Apóstolo, “o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus” (Rm 6,23). Vida eterna essa que começa já aqui, quando vivemos segundo a fé e o amor.

Por fim, a tradição litúrgica nos ajuda a guardar na alma as palavras do centurião. Na Divina Liturgia de São João Crisóstomo, a súplica do povo repete incessantemente: «Kýrie eléison!» – «Senhor, tem piedade!». É o clamor do humilde, que não exige, mas confia; que não se apoia em méritos, mas se lança com fé na misericórdia divina.

O centurião é exemplo de fé viva, humildade verdadeira e caridade ativa. Aprendamos com ele a pedir não apenas por nós, mas também por nossos irmãos. 

 


Referências:

  • Bíblia de Jerusalém (Nona Edição Revista e Ampliada). São Paulo: Paulus, 2013

  • São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de Mateus (PG 57)

  • São Teófilo de Antioquia, Ad Autolycum

  • São Teodoro Estudita, Catequeses Ascéticas (PG 99)

  • Catecismo da Igreja Ortodoxa (em fontes patrísticas)

Suplemento Litúrgico

Εὐφραινέσθω τὰ οὐράνια, ἀγαλλιάσθω τὰ ἐπίγεια, ὅτι ἐποίησε κράτος ἐν βραχίονι αὐτοῦ, ὁ Κύριος· ἐπάτησε τῷ θανάτῳ τὸν θάνατον· πρωτότοκος τῶν νεκρῶν ἐγένετο· ἐκ κοιλίας ᾅδου ἐῤῥύσατο ἡμᾶς, καὶ παρέσχε τῷ κόσμῳ τὸ μέγα ἔλεος.

Alegrem-se os céus, exulte a terra, pois com Seu braço o Senhor manifestou poder. Pela morte esmagou o poder da morte. Tornou-se o Primogênito dentre os mortos. Do ventre do Hades a nós libertou, e ao mundo concedeu a grande misericórdia.