«Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado» (Mt 8,8).
Dom Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

IV Domingo de Mateus :

«Dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado.»

Leituras Bíblicas

Epístola: Romanos 6,18-23
Evangelho: Mateus 8,5-13

O Evangelho deste IV Domingo de Mateus apresenta um dos encontros mais belos entre Cristo e uma pessoa que, aos olhos de muitos em Israel, dificilmente seria considerada um exemplo de fé. O protagonista não pertence ao povo eleito. É um centurião romano, oficial do exército que ocupava a Palestina. Humanamente falando, representava o poder estrangeiro, a autoridade militar e a dominação política. Contudo, é justamente esse homem quem recebe de Cristo um dos maiores elogios registrados em todo o Evangelho: «Em verdade vos digo: nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé».

São Mateus conduz o leitor a uma inversão surpreendente. Enquanto muitos dos que conheciam a Lei permanecem fechados ao Messias, um pagão reconhece n’Ele uma autoridade que ultrapassa toda autoridade humana. O centurião não vê apenas um mestre, um profeta ou um taumaturgo. Reconhece alguém cuja palavra possui poder absoluto. A sua própria experiência militar ajuda-o a compreender esse mistério. Habituado à disciplina e à autoridade, sabe que uma ordem verdadeira produz aquilo que determina. Da mesma forma, compreende que Cristo não necessita estar fisicamente presente para realizar a cura. Basta que fale: «Dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado».

É precisamente aqui que a tradição ortodoxa reconhece uma das mais profundas profissões de fé do Novo Testamento. O centurião compreende aquilo que muitos ainda ignoravam: a Palavra de Cristo não é simples expressão verbal. Ela é a Palavra do próprio Logos encarnado e, por isso, manifesta a energia incriada de Deus, realizando aquilo que anuncia. O Logos, por quem todas as coisas foram criadas, continua agindo na criação. Sua Palavra ilumina, fortalece, restaura, santifica e comunica a vida. Como recorda o Metropolita Hierotheos, enquanto toda energia criada possui começo e fim, a energia divina é incriada, eterna e vivificante. Quando Cristo fala, sua Palavra torna presente a ação salvadora do próprio Deus. Por isso o centurião pede apenas uma palavra. Ele sabe que nela está presente toda a força da graça divina.

A humildade do centurião encontrou profundo eco na espiritualidade ortodoxa. As Orações de preparação para a Santa Comunhão exprimem esse mesmo espírito de reverência e consciência da própria indignidade:

«Senhor, meu Deus, sei que não sou digno nem suficientemente preparado para que entres sob o teto da casa de minha alma…»

Não se trata de uma repetição literal das palavras do Evangelho, mas da mesma disposição interior: reconhecer nossa pobreza espiritual e confiar inteiramente na misericórdia de Cristo.

Outro aspecto digno de nota é que o centurião não procura Jesus para si. Intercede por seu servo, alguém que, segundo os critérios sociais da época, ocupava posição muito inferior à sua. Antes mesmo de pedir, ele já amava. A verdadeira fé manifesta-se imediatamente em amor ao próximo e, por isso, torna-se intercessão. O sofrimento alheio converte-se em sua própria preocupação. A oração do centurião revela que ninguém se salva isoladamente. A vida cristã é inseparável da intercessão. Rezamos pelos enfermos, pelos aflitos, pelos viajantes, pelos governantes, pelos adormecidos e por toda a Igreja porque aprendemos, com esse oficial romano, que a fé jamais permanece fechada em si mesma.

Jesus admira-Se daquela fé e anuncia que muitos virão do Oriente e do Ocidente para tomar lugar à mesa do Reino juntamente com Abraão, Isaac e Jacó. Essas palavras ultrapassam o episódio da cura e revelam a dimensão universal da salvação. O Reino de Deus não conhece fronteiras de povo, cultura ou nação. Nele entram todos aqueles que acolhem Cristo com fé humilde. A descendência de Abraão já não é definida apenas pelos vínculos da carne, mas pela adesão ao Senhor. O centurião antecipa a vocação universal da Igreja, que reunirá homens e mulheres de todas as línguas e povos na única comunhão do Corpo de Cristo.

A Epístola aos Romanos ilumina plenamente o significado dessa fé. São Paulo recorda que fomos libertados da escravidão do pecado para nos tornarmos servos da justiça. A fé jamais permanece uma simples adesão intelectual. Pela graça, ela configura progressivamente toda a existência humana, libertando-nos do domínio do pecado para uma vida de santificação. O mesmo Cristo cuja Palavra cura o servo transforma também o coração do centurião. O verdadeiro milagre não consiste apenas na cura física realizada à distância. O maior milagre acontece no interior daquele homem que reconhece em Jesus o Senhor e se abandona inteiramente à sua vontade. Como observa o Arcebispo Elpidophoros, antes mesmo de o servo recuperar a saúde, já havia ocorrido um milagre ainda maior: a transformação espiritual de um oficial romano que aprende a confiar plenamente em Cristo.

Também nós somos continuamente convidados a essa transformação. Em cada Divina Liturgia ouvimos a Palavra de Deus, que permanece viva e eficaz. Não escutamos apenas um relato do passado, mas o próprio Cristo que continua falando à sua Igreja. Cada leitura das Escrituras, cada oração do coração, cada invocação do santo nome de Jesus e, sobretudo, nossa participação nos santos mistérios tornam presente essa energia vivificante que restaura o homem inteiro.

Mais do que revelar a grandeza da fé do centurião, o Evangelho revela a grandeza d’Aquele em quem ele acreditou. A fé cristã não repousa sobre uma ideia nem sobre um sentimento religioso, mas sobre a pessoa do Verbo encarnado, cuja Palavra permanece viva, eficaz e salvadora em todos os tempos.

O centurião ensina-nos, enfim, o caminho do verdadeiro discípulo: reconhecer humildemente nossa pobreza espiritual, confiar sem reservas na Palavra de Cristo, interceder pelos irmãos e permitir que a graça transforme toda a nossa vida. Quem vive dessa maneira já começa, nesta vida, a experimentar os frutos do Reino. Libertado da escravidão do pecado, caminha na santificação e acolhe, desde agora, o dom da vida eterna prometido por Deus: «o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 6,23).

Referências Bibliográficas:
  • Bíblia Sagrada (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10; Rm 6,18-23).
  • São João Crisóstomo. Homilias sobre o Evangelho de Mateus, Homilia XXVI.
  • São Teodoro Estudita. Catequeses.
  • Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos. Homilia para o IV Domingo de Mateus.
  • Arcebispo Elpidophoros da América. Homily at the Divine Liturgy on the Fourth Sunday of Matthew. Kimisis tis Theotokou Greek Orthodox Church, Poughkeepsie (NY), 5 jul. 2020.
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Suplemento Litúrgico

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Εὐφραινέσθω τὰ οὐράνια, ἀγαλλιάσθω τὰ ἐπίγεια, ὅτι ἐποίησε κράτος ἐν βραχίονι αὐτοῦ, ὁ Κύριος· ἐπάτησε τῷ θανάτῳ τὸν θάνατον· πρωτότοκος τῶν νεκρῶν ἐγένετο· ἐκ κοιλίας ᾅδου ἐῤῥύσατο ἡμᾶς, καὶ παρέσχε τῷ κόσμῳ τὸ μέγα ἔλεος.

Alegrem-se os céus, exulte a terra, pois com Seu braço o Senhor manifestou poder. Pela morte esmagou o poder da morte. Tornou-se o Primogênito dentre os mortos. Do ventre do Hades a nós libertou, e ao mundo concedeu a grande misericórdia.