«Eu creio! ajuda a minha incredulidade!». (Mc 9:24)
Dom Irineo de Tropaion​

IV Domingo da Grande Quaresma

São João Clímaco — a escada da fé: oração, jejum e combate interior

No quarto domingo da Grande Quaresma, a Santa Igreja nos coloca diante de uma dupla pedagogia: de um lado, o Evangelho do pai que clama entre fé e fragilidade (Mc 9,17–31); de outro, a figura luminosa de São João Clímaco, autor da Klimax tou Paradeisou (A Escada do Paraíso), como um ícone colocado no meio do jejum para que todos o contemplem. E por quê? Porque, ao chegar ao centro da caminhada, muitos se cansam; e então a Igreja mostra um caminho concreto: fé humilde, oração perseverante, jejum verdadeiro e virtudes que se encadeiam como degraus.

1) Por que São João Clímaco está no meio da Quaresma

A Quaresma é um combate e, ao mesmo tempo, um tratamento: combate contra o que nos desintegra por dentro; tratamento que cura o coração e o reconduz à comunhão com Deus. Por isso, no meio do percurso, a Igreja apresenta São João Clímaco como testemunha do que a graça pode fazer com um homem: alguém que “subiu” da escravidão interior para a liberdade do Espírito — e descreveu essa subida em trinta degraus.

A Escada foi escrita em linguagem monástica, mas a Igreja a lê para todos porque o seu conteúdo é profundamente eclesial: o combate contra os pensamentos, a purificação do coração, a oração como respiração da alma, a humildade como fundamento e a caridade como fruto. O monge realiza de modo concentrado aquilo que todo batizado é chamado a viver: sair do “inferno” do egoísmo para o “paraíso” da comunhão.

2) A Escada: um mapa de cura, não um livro para “perfeitos”

Segundo o testemunho tradicional, São João Clímaco († séc. VII) organizou sua obra em “30 degraus”, apresentando vícios que ameaçam e virtudes que santificam, como uma ascensão gradual. Ele mesmo evoca imagens bíblicas como a escada de Jacó e a vida oculta de Cristo, para dizer: a santidade se aprende passo a passo.

E aqui está um ponto decisivo: não se começa perfeito. O coração é trabalhado lentamente. A vida espiritual amadurece “de degrau em degrau”: vigilância sobre os pensamentos, disciplina das paixões, cura da vontade própria, crescimento na fé, humildade, mansidão, paciência e amor. É por isso que São João se torna, para a Quaresma, um mestre de realismo: ele não romantiza o combate; ele o descreve.

3) O Evangelho de hoje: a fé ferida que se torna oração

O Evangelho (Mc 9,17–31) nos coloca diante de uma cena dura: um filho atormentado, um pai desesperado, discípulos impotentes, uma multidão que pressiona. E no centro, Cristo, que não humilha o homem; cura-o.

O coração do texto é o diálogo entre Cristo e o pai:

  • o pai pede ajuda: “se Tu podes”;
  • Cristo devolve: “Se podes crer, tudo é possível ao que crê”;
  • e então explode a oração mais verdadeira de quem não finge:
    “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade!” (Mc 9,24).

Aqui a Igreja nos ensina a forma mais segura de fé: fé que não se exibe, mas suplica. A oração do pai é humilde, direta, sem máscara. Ele não diz “minha fé é grande”; ele confessa sua fraqueza e a entrega a Cristo. É isso que a Quaresma busca: não um discurso triunfalista, mas um coração quebrantado que se apoia em Deus.

E, ao final, Cristo revela um princípio quaresmal: “Este gênero não pode sair por nada, a não ser por oração e jejum.” (Mc 9,29)

A Igreja, então, une Evangelho e São João Clímaco com uma linha única:

A FÉ QUE PEDE AJUDA SE TORNA ORAÇÃO;
A ORAÇÃO, QUANDO É VERDADEIRA, PEDE DISCIPLINA;
E A DISCIPLINA, QUANDO É EVANGÉLICA, VIRA CARIDADE E HUMILDADE
.

4) O combate invisível: pensamentos, paixões e a “engenharia” da oração

São Justino Popović, numa homilia para este dia a ele atribuída, nos diz que, por trás do pecado há uma inteligência inimiga que explora nossas fraquezas, e muitas batalhas começam no nível dos logismói — pensamentos que se insinuam e procuram ocupar a mente. O ensinamento não é para gerar medo, mas vigilância: não subestimar o mal; não brincar com pensamentos impuros; não negociar com a tentação.

É aqui que São João Clímaco se torna atual: o ideal hesicasta não é fuga do mundo, mas recolhimento do coração. O “campo de batalha” principal é o interior do homem: o desejo, a imaginação, a memória, a vaidade, a irritação, a acídia. E o remédio principal é igualmente interior: oração com sobriedade, sustentada por um jejum que não é só alimentar, mas também jejum de curiosidade, de tagarelice, de agressividade, de rancor.

Em síntese: oração e jejum são inseparáveis. O jejum sem oração vira dieta; a oração sem ascese vira palavras sem peso. A Escada ensina que as virtudes se sustentam mutuamente: fé alimenta oração; oração sustenta jejum; jejum abre espaço para misericórdia; misericórdia torna a oração verdadeira. E quando isso acontece, a vida espiritual deixa de ser “tentativa isolada” e se torna um organismo vivo.

5) Humildade e obediência: o fundamento da escada

O Quarto Domingo também pede um retorno ao fundamento. Se a escada existe, ela precisa de base; e esta base é a humildade. A humildade, no espírito dos Padres, não é desprezo de si, mas verdade diante de Deus: reconhecer que sem Ele nada podemos, e que com Ele podemos recomeçar.

O Degrau 3 da Escada aparece como chave: obediência como morte da vontade própria e ressurreição da humildade. Pastoralmente, isso se traduz em algo muito concreto: parar de discutir com Deus e começar a obedecer ao Evangelho; parar de justificar o pecado e começar a confessá-lo; parar de alimentar rancores e começar a perdoar; parar de viver “segundo o impulso” e começar a viver “segundo Cristo”.

E é justamente a humildade que faz brotar a oração do Evangelho: “Ajuda a minha incredulidade”. A incredulidade ali não é propaganda de ateísmo; é a confissão de uma fé fraca, ferida, oscilante. Deus acolhe essa verdade e a transforma em cura.

6) O “Evangelho do jejum”: virtudes que viram vida e cuidado do próximo

A Quaresma não quer produzir “especialistas em regra”. Ela quer produzir homens e mulheres de coração misericordioso. Jejum verdadeiro exige mansidão, compaixão e caridade. Se o jejum nos torna irritadiços, orgulhosos, duros, algo está errado. A oração autêntica, ao contrário, une-nos ao Senhor todo-compassivo e faz nascer em nós uma atenção amorosa pelo irmão — sobretudo o fraco, o ferido, o que cai.

A Escada não é uma competição individualista, mas uma ascensão que nos torna capazes de ajudar. A fé do pai do Evangelho é intercessão; e a vida de oração, quando amadurece, transborda em serviço, perdão, paciência.

Amados irmãos, neste IV Domingo da Grande Quaresma, a Igreja nos entrega uma palavra e um mestre. A palavra: “tudo é possível ao que crê”, mas a fé verdadeira sabe dizer: “ajuda a minha incredulidade.” O mestre: São João Clímaco, que nos mostra que a subida ao Paraíso não é fantasia, mas caminho: virtudes, oração, jejum, humildade e amor.

Que o Senhor fortaleça nossa fé e nos conduza, passo a passo, na subida desta santa escada, até a alegria da Ressurreição.

Referências e fontes consultadas
  1. IRINEO, D. (Bispo de Tropaion). IV Domingo da Quaresma: São João Clímaco — Subsídios homiléticos (texto fornecido pelo usuário; Byblos/Ecclesia). Acesso em: 17 de mar. 2026.
  2. POPÓVITCH, Justino (†). ΟΜΙΛΙΑ ΕΙΣ ΤΗΝ Δ΄ ΚΥΡΙΑΚΗΝ ΤΩΝ ΝΗΣΤΕΙΩΝ (publicação do site da Ιερά Μονή Αγίου Ιωάννου Προδρόμου Καρέα). Postado em 07 fev. 2013; modificado em 19 fev. 2013. Acesso em: 17 mar. 2026. Disponível em: https://www.imaik.gr
  3. POPÓVITCH, Justino (†). Ὁμιλία στήν Δ΄ Κυριακή τῶν Νηστειῶν (republicação). Acesso em: 17 de mar. 2026.
    Disponível em: https://immorfou.org.cy/ἁγίου-ἰουστίνου-πόποβιτς-ὁμιλία-στ-3/
  4. ΚΚΑΡΑ, Αυγουστίνος (Arquim.). Κυριακή Δ’ των Νηστειών (Αγίου Ιωάννου της Κλίμακος), Ευαγγ. Ανάγνωσμα: Μκ. θ’ 17-31 (com comentários e seção catequética sobre o maligno). Acesso em: 17 de mar. 2026.
    Disponível em: https://imconstantias.org.cy/2024227-2/
  5. Χριστιανική Σπίθα. Κυριακή Δ΄ Νηστειών (Ιωάννου της Κλίμακος) (14/4/2024) καὶ Πατερικὰ Κείμενα (compilação: leituras e materiais patrísticos; inclui Hb 6,13–20). Postado em 12 abr. 2024. Acesso em: 17 de mar. 2026.
    Disponível em: https://www.xristianikispitha.gr/kyriaki-d΄-nistei

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Ταῖς τῶν δακρύων σου ῥοαῖς, τῆς ἐρήμου τὸ ἄγονον ἐγεώργησας, καὶ τοῖς ἐκ βάθους στεναγμοῖς, εἰς ἑκατὸν τοὺς πόνους ἐκαρποφόρησας, καὶ γέγονας φωστὴρ τῇ οἰκουμένῃ, λάμπων τοῖς θαύμασιν, Ἰωάννη Πατὴρ ἡμῶν ὅσιε, πρέσβευε Χριστῷ τῷ Θεῷ, σωθῆναι τὰς ψυχὰς ἠμῶν.

Pela abundância de tuas lágrimas, o deserto estéril tornou-se fértil; e pela tua profunda compunção, tuas obras produziram o cêntuplo. tornaste-te assim, para o universo, um astro brilhante, pelos milagres, ó nosso justo pai João. Intercede, pois, ao Cristo Deus, pela salvação de nossas almas.