V Domingo da Quaresma:
(Domingo de Santa Maria do Egito)
Leituras bíblicas:
— Apóstolos: Hb 9,11–14
— Evangelho: Mc 10,32–45
Às portas do santo Páscoa, a Igreja nos apresenta dois movimentos inseparáveis: Cristo que sobe a Jerusalém — com firmeza e serenidade — e o coração humano que precisa descer da ambição para o serviço. Por isso, no mesmo domingo em que ouvimos o anúncio do Senhor sobre o seu Padecimento, somos iluminados pelo ícone quaresmal de Santa Maria do Egito, testemunho de que a graça de Deus pode reerguer uma vida inteira, quando a alma abre a porta pela metanoia.
Este V Domingo sela a pedagogia quaresmal: não basta “saber” o caminho; é preciso entrar nele — com a cruz assumida como amor, e com o serviço como forma concreta de comunhão com Cristo.
A Epístola ao Hebreus revela o coração da economia salvífica: Cristo entra no “santuário” com o seu próprio sangue, e assim purifica a consciência para que sirvamos ao Deus vivo. A Quaresma, então, aparece como aquilo que ela é: terapêutica do coração. Não se trata de disciplina por disciplina, mas de deixar que o Senhor cure em nós as “obras mortas” — hábitos, vaidades, a dureza, o egoísmo — para que o culto se torne verdadeiro: vida reconciliada, consciência limpa, caridade renovada.
O Evangelho deste dia começa com o terceiro anúncio da Paixão. Cristo caminha adiante, e os discípulos o seguem entre temor e admiração. É nesse momento que Tiago e João pedem lugares de honra à direita e à esquerda do Senhor. A Igreja não nos esconde a fraqueza apostólica, para que reconheçamos a nossa: quando o Cristo fala de cruz, nós facilmente voltamos ao cálculo de prestígio.
Aqui convém recordar a advertência, atribuída a São João Damasceno:
«um coração ocupado com cuidados mundanos denuncia, pela boca, que não conhece verdadeiramente a Deus. O pedido dos Zebedeus, feito “logo após” o anúncio da Paixão, deixa ver uma cegueira ainda não curada: querem o Reino, mas sem o cálice; querem a glória, mas sem a entrega».
Cristo, porém, não os rejeita: educa. Ele lhes fala do cálice e do batismo; e, enfim, dá o critério definitivo para toda a vida eclesial:
No Reino, poder é diaconia. Onde aparece a busca por precedência, Cristo recoloca a verdade: na comunidade cristã, a ambição precisa ser substituída pelo espírito de serviço e humildade. A medida não é a posição; é a oblação.
Santa Maria do Egito: esperança que nasce da metanoia
A Santa Igreja também celebra hoje a memória de Santa Maria do Egito para que ninguém se desespere de si mesmo. Sua vida (como nos é transmitida pela Tradição) mostra uma mudança decisiva: uma existência presa ao pecado, sem futuro real, encontra esperança quando a alma se volta para Deus.
Ao tentar entrar no templo em Jerusalém, ela é impedida por uma força invisível; ali compreende a própria condição, clama por misericórdia e confia-se à intercessão da Theotokos. Então entra, venera, e decide viver em arrependimento. Anos depois, o monge Zózimas a encontra no deserto, e por ele conhecemos sua história. O centro espiritual do relato é claro: a porta se abre quando cessa a justificativa e começa a verdade do coração.
Por isso, este domingo não é apenas memória de uma santa; é convite à Igreja inteira: não banalizar a queda, mas também não absolutizá-la. Em Cristo, as quedas podem tornar-se “trampolim” para os braços misericordiosos do Pai, quando acolhidas com sinceridade e perseverança.
Senhor Jesus Cristo, que sobes a Jerusalém por amor de nós, cura em nós a ambição e ensina-nos a alegria do serviço. Pela intercessão da Theotokos e de Santa Maria do Egito, concede-nos metanoia verdadeira, para que cheguemos ao santo Páscoa com a consciência purificada e o coração renovado. Amém.
Suplemento Litúrgico
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Apolitikion De Santa Maria do Egito (Modo Pl. 4º)
Ἐν σοὶ Μῆτερ ἀκριβῶς διεσώθη τὸ κατʼ εἰκόνα· λαβοῦσα γὰρ τὸν σταυρόν, ἠκολούθησας τῷ Χριστῷ, καὶ πράττουσα ἐδίδασκες ὑπερορᾶν μὲν σαρκὸς παρέρχεται γάρ, ἐπιμελεῖσθαι δὲ ψυχῆς, πράγματος ἀθανάτου· διὸ καὶ μετὰ Ἀγγέλων συναγάλλεται Ὁσία Μαρία τὸ πνεῦμά σου.
Em ti, ó Mãe, foi fielmente preservada a imagem [de Deus]; pois, tomando a cruz, seguiste a Cristo e com tuas ações ensinaste a desprezar a carne — pois ela passa — e a cuidar da alma, realidade imortal. Por isso também, ó Santa Maria, teu espírito exulta com os Anjos.
São Sofrônio, patriarca de Jerusalém:
A Vida de Santa MARIA DO EGITO
São Sofrônio, patriarca de Jerusalém:
A Vida de Santa MARIA DO EGITO


