«O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra» (Lc 1,35).
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

Anunciação à Santíssima e Bem-Aventurada Virgem Maria

O mais sublime dos anjos foi enviado dos céus para saudar e anunciar à Virgem Maria a encarnação do Verbo. A virtude do Altíssimo, tendo coberto Maria com sua sombra, tornou Mãe aquela que era Virgem, sem núpcias. Eis o mistério celebrado na Festa da Anunciação.

O Concílio de 860 afirma: «O que o Evangelho nos diz por palavras, o ícone nos anuncia pelas cores». Sendo assim, somos chamados a mergulhar na profundidade deste mistério, contemplando com o coração aquilo que nossos olhos vislumbram no ícone da Anunciação.

Nossos olhos são atraídos pelo esplendor dos detalhes das figuras principais desse acontecimento, iconografado de maneira tão minuciosa e precisa, que faz brotar no coração daquele que o contempla o estupor e o êxtase divino.

Um desses personagens é o Arcanjo Gabriel, vestido de branco — a cor que precede a luz da manhã, que anuncia o nascimento. Suas mangas são azuladas, cor da imaterialidade e da pureza. Na mão esquerda, empunha um bastão: símbolo da autoridade e dignidade do mensageiro e do peregrino. Sua mão direita e seus olhos dirigem-se à Virgem, destinatária exclusiva daquela mensagem vinda dos céus.

Seus dedos estão posicionados segundo o gesto típico da bênção bizantina: os três dedos abertos (polegar, indicador e mínimo) evocam a Santíssima Trindade, enquanto os outros dois (médio e anular) unidos simbolizam as duas naturezas de Cristo, divina e humana. O Anjo está envolto em luminosidade, destacando que é enviado por Deus como mensageiro celestial.

A outra personagem é Maria, apresentada sentada, coberta por um manto bordado a ouro e por uma túnica de cor azul-escura. A cor escura representa a humildade, o desprendimento dos valores terrenos e a ascensão da alma em direção ao divino.

No manto da Virgem, três estrelas: uma sobre a cabeça e uma sobre cada ombro — sinais da santificação que a Trindade realiza em Maria, após o seu “Sim”, tornando-a Mãe de Deus.

Ela está sentada sobre um trono dourado, elevado em relação ao restante da cena. Usa sapatos de cor púrpura, evidenciando a realeza divina que a envolve. Na antiguidade, o dourado e a púrpura eram cores reservadas aos reis. Em sua mão esquerda, Maria segura uma roca com a qual fia a púrpura — pois ela mesma tece, em seu seio maternal, o corpo do Salvador e Rei do Universo.

O véu púrpura que aparece por cima da Virgem alude ao véu do Templo e simboliza a presença de Deus, que pairava naquele lugar — agora fazendo morada em Maria.

Sua mão direita faz o gesto típico de atenção e de perturbação diante da mensagem recebida. A cabeça levemente inclinada expressa escuta, reverência e abertura.

Do alto de um semicírculo, desce um raio sombreado que paira sobre Maria. Atravessa o véu púrpura e repousa sobre sua cabeça, formando uma auréola. O raio representa o Espírito Santo que desce sobre ela — não um raio de luz, pois, conforme nos narra o Evangelho:

«O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra» (Lc 1,35).

O plano de salvação e redenção da humanidade requer o consentimento humano. Deus não invade nossa liberdade — Ele age respeitando nossa vontade. Em Maria está representada toda a humanidade. Após seu “Sim”, Deus inicia visivelmente Seu plano salvífico. É da parte de Deus que o Anjo fala, assim como é da parte de toda a humanidade que Maria responde.

No diálogo travado entre o Arcanjo Gabriel e Maria, é Deus quem toma a iniciativa, dando o primeiro passo. Mas era necessário esperar uma resposta humana para que a Criação fosse regenerada.

Em Maria, o Anjo saúda toda a humanidade. Ela estremece diante de tão grande anúncio. É virgem, não conhece homem, e por isso se perturba. A humanidade, da mesma forma, não conhecia plenamente a Deus — estava intocada por Sua presença. Mas após o “Sim” de Maria, as mães começaram a gerar os filhos de Deus.

Mesmo estremecida, Maria responde “Sim”:

«Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).

«E o Verbo se fez carne e habitou entre nós» (Jo 1,14).

Todas as vezes que o ser humano responde positivamente às solicitações divinas, Deus se faz presente.

Santo André de Creta, referindo-se à alegria de celebrar a Festa da Anunciação, assim escreveu:

«Hoje, a alegria contagia a todos,
porque a antiga condenação fica sem efeito.
Hoje, chega Aquele que está em todos os lugares,
a fim de encher de alegria todas as coisas».

Referências Bibliográficas:
  • BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém (Nona Edição Revista e Ampliada). São Paulo: Paulus, 2013.

  • PASSARELLI, GaetanoO Ícone da Anunciação. São Paulo, Ed. Ave Maria, 1996.

  • FUENTESAs Doze Festas – Anuário 1994. Paróquia San Martín de Tours – Argentina.

Suplemento Litúrgico

Σήμερον τῆς σωτηρίας ἡμῶν τὸ κεφάλαιον, καὶ τοῦ ἀπʼ αἰῶνος μυστηρίου ἡ φανέρωσις· ὁ Υἱὸς τοῦ Θεοῦ, Υἱὸς τῆς Παρθένου γίνεται, καὶ Γαβριὴλ τὴν χάριν εὐαγγελίζεται. Διὸ καὶ ἡμεῖς σὺν αὐτῷ τῇ Θεοτόκῳ βοήσωμεν· Χαῖρε Κεχαριτωμένη, ὁ Κύριος μετὰ σοῦ.

Hoje se inaugura o princípio da nossa salvação, e se manifesta o mistério desde todos os séculos oculto: o Filho de Deus torna-Se Filho da Virgem, e Gabriel anuncia a graça. Por isso, também nós, com ele, clamemos à Mãe de Deus: Alegra-te, ó Cheia de Graça, o Senhor é contigo!