"Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores."
Dom Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

11º Domingo de São Mateus

Leituras bíblicas

  • Matinas (Orthros): João 21:15-25
  • Apóstolos (Epístola): 1Coríntios 9, 2-12
  • Evangelho: Mateus 18, 23-35

A economia da misericórdia:

o perdão como participação na vida de Deus

A parábola do servo impiedoso ocupa um lugar singular no Evangelho segundo São Mateus. Ela conclui o grande discurso eclesiológico do Senhor (Mt 18), dedicado à vida da comunidade dos discípulos. Não se trata, portanto, de um ensinamento dirigido apenas à consciência individual, mas de uma revelação acerca da própria natureza da Igreja. A comunidade reunida em torno de Cristo não se define primeiramente por estruturas, funções ou normas disciplinares, mas pela experiência da misericórdia recebida e continuamente compartilhada.

A pergunta inicial de Pedro — «Senhor, quantas vezes devo perdoar?» (Mt 18,21) — revela uma preocupação legítima com os limites da caridade. A resposta de Cristo, porém, desloca completamente o horizonte da questão. O perdão cristão não pode ser medido numericamente, porque sua origem não está na capacidade psicológica do homem, mas na misericórdia inesgotável de Deus.

É precisamente essa verdade que a parábola desenvolve.

O primeiro servo comparece diante do rei trazendo uma dívida absolutamente impagável: dez mil talentos. A cifra possui evidente valor simbólico. Trata-se de uma quantia impossível de ser restituída por qualquer pessoa ao longo de toda uma vida. Cristo não deseja oferecer uma lição de economia, mas revelar a condição espiritual da humanidade diante de Deus.

Todo pecado constitui uma ruptura da comunhão com Aquele que é fonte da vida. Nenhum esforço humano poderia reparar plenamente essa ruptura. O homem vive da misericórdia muito antes de viver de seus próprios méritos.

Como observa Santo Isaac, o Sírio:

“A compaixão é a veste de Deus; quem se reveste dela torna-se semelhante ao seu Criador.”

A misericórdia divina, portanto, não surge como recompensa ao arrependimento humano. Ela antecede toda possibilidade de reparação. O rei da parábola não concede apenas um prazo maior para o pagamento: cancela inteiramente a dívida. Assim também Deus não apenas adia a condenação do pecador; em Cristo, oferece gratuitamente a reconciliação.

É aqui que aparece o verdadeiro drama da narrativa.

O servo perdoado permanece interiormente inalterado.

Exteriormente recebeu o perdão; interiormente continua escravo da lógica da cobrança.

Ao encontrar um companheiro que lhe devia uma quantia irrisória — cem denários — age exatamente segundo os critérios dos quais acabara de ser libertado. Exige, ameaça, humilha e prende aquele que lhe suplica misericórdia.

O escândalo da parábola não consiste na severidade do rei, mas na incoerência do servo.

Quem experimentou a misericórdia divina deveria tornar-se, necessariamente, transmissor dessa mesma misericórdia.

O perdão recebido transforma-se em vocação.

São Máximo, o Confessor, escreve:

“Não é por temor do castigo que devemos perdoar, mas por amor à misericórdia com que fomos salvos.”

Esta observação conduz ao núcleo da antropologia cristã.

Na tradição ortodoxa, a salvação nunca é compreendida apenas como absolvição jurídica. Ela consiste na restauração da imagem de Deus no homem. A graça não modifica apenas a situação do pecador diante de Deus; transforma o próprio coração humano.

Perdoar torna-se, então, manifestação concreta dessa transformação.

Enquanto o ressentimento mantém o homem fechado em si mesmo, o perdão restaura sua capacidade de amar segundo o modo divino.

O Evangelho deste domingo encontra extraordinária correspondência na Epístola.

São Paulo afirma possuir todos os direitos inerentes ao ministério apostólico. Poderia legitimamente receber sustento das comunidades que evangeliza. Contudo, renuncia voluntariamente a esse direito para que nada constitua obstáculo ao anúncio de Cristo (1Cor 9,12).

A atitude do Apóstolo representa o exato oposto do servo impiedoso.

Enquanto este exige rigidamente aquilo que considera seu direito, Paulo abre mão até mesmo daquilo que realmente lhe pertence.

Não por fraqueza.

Mas por liberdade.

A misericórdia possui precisamente esta característica: ela liberta o homem da necessidade constante de reivindicar seus próprios direitos.

São João Crisóstomo observa:

“O verdadeiro pastor não procura vantagens para si; oferece-se inteiramente para que Cristo seja conhecido.”

Nesta perspectiva, a renúncia paulina deixa de ser mero exemplo ascético para tornar-se manifestação concreta da própria economia da salvação.

Cristo, sendo rico, fez-se pobre.

O Apóstolo, configurado a Cristo, torna-se igualmente servidor.

A Igreja inteira é chamada a viver segundo essa mesma lógica.

Por isso a parábola possui profundo significado litúrgico.

Não é por acaso que, imediatamente antes da Comunhão, toda a assembleia canta a oração ensinada pelo próprio Senhor:

“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.”

A Igreja coloca essas palavras nos lábios dos fiéis precisamente quando se aproximam do Corpo e Sangue de Cristo.

A Eucaristia não constitui apenas alimento espiritual.

Ela é sacramento da reconciliação.

Participar da mesa do Reino conservando deliberadamente o rancor significa contradizer aquilo que se celebra.

São Cirilo de Jerusalém ensina:

“A Eucaristia exige corações reconciliados. Quem participa do único Corpo deve viver também a unidade do amor.”

Não se trata simplesmente de evitar conflitos exteriores.

Cristo conclui a parábola afirmando que o perdão deve brotar “do coração” (Mt 18,35).

Na linguagem bíblica, o coração não designa apenas os sentimentos, mas o centro mais profundo da pessoa, onde inteligência, vontade e liberdade encontram sua unidade.

Perdoar de coração significa permitir que toda a existência seja lentamente configurada pela misericórdia divina.

Essa transformação raramente acontece de maneira instantânea.

A tradição ascética da Igreja insiste que o perdão constitui verdadeiro caminho terapêutico.

Os Padres aconselham perseverar na oração pelos que nos ofendem, lutar contra a memória rancorosa e suplicar continuamente a graça do Espírito Santo, pois somente Ele pode libertar o coração da escravidão das paixões.

Como recorda Santo Isaac:

“Aquele que conserva ressentimento enquanto ora é semelhante ao homem que semeia sobre as águas.”

A comunidade cristã torna-se, assim, escola permanente de reconciliação.

Não porque seus membros sejam perfeitos, mas porque todos vivem da mesma misericórdia.

A Igreja não existe para reunir homens impecáveis, mas pecadores continuamente restaurados pela graça.

Quanto mais profunda é essa consciência, menor será a tentação de julgar os irmãos.

São Gregório Palamas resume admiravelmente essa espiritualidade:

“Quem guarda a compaixão em seu coração já participa, desde agora, da misericórdia do Reino.”

Ao concluir esta parábola, Cristo não pretende despertar medo, mas revelar a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.

A prisão do servo impiedoso começa muito antes da sentença do rei.

Ela nasce no instante em que seu coração se fecha ao irmão.

Toda falta de perdão constitui, antes de tudo, um cárcere interior.

Ao contrário, cada ato de misericórdia faz resplandecer no homem a imagem daquele Deus que “faz nascer o seu sol sobre maus e bons” (Mt 5,45).

Por isso, a Igreja reconhece no perdão não uma virtude entre tantas outras, mas a própria manifestação da vida nova inaugurada pela Páscoa de Cristo.

Quem foi reconciliado com Deus torna-se, inevitavelmente, ministro da reconciliação.

E é precisamente assim que o mundo reconhece a presença do Reino:

“Vede como eles se amam.”

Referências Bibliográficas

  • BÍBLIA DE JERUSALÉM. Bíblia de Jerusalém. Nova ed. rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2013.
  • CIRILO DE JERUSALÉM, São. Catequeses Mistagógicas. Traduções e edições patrísticas diversas.
  • CRISÓSTOMO, São João. Homilias sobre o Evangelho de São Mateus. In: Patrologia Graeca, v. 58.
  • CRISÓSTOMO, São João. Homilias sobre a Primeira Epístola aos Coríntios. In: Patrologia Graeca, v. 61.
  • GREGÓRIO PALAMAS, São. Homilias. Trad. diversas. Tessalônica: Holy Monastery of the Annunciation, edições em inglês.
  • HIEROTHEOS (VLACHOS), Metropolita de Nafpaktos. Homily for the Eleventh Sunday of Matthew. Tradução inglesa publicada pelo Mystagogy Resource Center.
  • ISAAC, O SÍRIO, Santo. Homilias Ascéticas. Traduções diversas.
    LEMASTERS, Philip. Forgiving Others as Christ Has Forgiven Us: Homily for the Eleventh Sunday of Matthew. Eastern Christian Insights. 
  • MICHAELIDES, Arquimandrita Chrysostomos. Sermon: 11th Sunday of Matthew. Saint Andrew’s Greek Orthodox Cathedral, Londres.
  • MÁXIMO, O CONFESSOR, São. Centúrias sobre a Caridade. In: Philokalia.
    PUTYATIN, Rodion, Arcipreste. Homily on the Eleventh Sunday of Matthew. Tradução inglesa publicada por Mystagogy Resource Center.

Suplemento Litúrgico

Loading PDF…

Ότε κατήλθες προς τον θάνατον, η ζωή η αθάνατος, τότε τον άδην ενέκρωσας, τη αστραπή της θεότητος, ότε δε και τους τεθνεώτας, εκ των καταχθόνιων ανέστησας, πάσαι αι δυνάμεις των επουρανίων εκραύγαζον Ζωοδότα Χριστέ, ο Θεός ημών, δόξα σοι.

Quando desceste ao túmulo, ó Vida imortal, aniquilaste o Hades com o esplendor de tua divindade. E quando dos abismos levantaste os mortos, todas as potências celestes clamaram em uníssono: «Ó Cristo, Autor da vida, nosso Deus, glória a Ti!»