«Que queres de mim, Jesus, filho do Deus Altíssimo?»
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

Evangelho: Lc 8:26-39;
Apóstolos: 2 Tm 2:1-10
(Modo 3º | Eoth. 9)

VI Domingo do Evangelho de Lucas: «O Endemoninhado de Gerasa – A compaixão que liberta e restitui».

O Evangelho de hoje é proclamado também por Mateus (8,28-34) e Marcos (5,1-20). Os três Evangelistas convergem em dois momentos decisivos:

  1. o encontro de Jesus com um homem devastado pela violência interior e pelo poder da morte;
  2.  o gesto libertador do Senhor que o restitui à sua humanidade.

O poder libertador da Palavra

Lucas situa este episódio após a tempestade acalmada — e não por acaso.

A mesma voz que serenou as águas agora enfrenta o abismo espiritual.

O homem de Gerasa vive entre os túmulos, isolado, sem roupas, possuído por uma força que o desumaniza.

É o retrato do mundo pagão, e também de cada coração ferido pelo pecado: uma vida habitada pela violência, pela solidão e pela ausência de sentido.

Quando o demônio grita: “O que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?”, a cena recorda o drama cósmico do mal que teme a presença do Bem.

O Evangelho fala de uma “legião” — palavra que designava uma tropa romana de seis mil soldados. É a imagem de um mal organizado, sistemático, que pretende dominar o homem por inteiro.
Mas o contraste é absoluto: diante da simplicidade da palavra de Cristo, a multidão dos espíritos se dissolve.

A força destruidora é vencida pela autoridade serena da Palavra.

Santo Cirilo de Alexandria observa que o demônio tenta resistir revelando o nome de Jesus — o que, no simbolismo do exorcismo antigo, era uma tentativa de exercer poder sobre o adversário.

Mas o Verbo eterno não precisa de fórmulas: a sua palavra é criadora e libertadora, e onde ela ressoa, o homem é restituído a si mesmo.

A libertação que restitui

A cena dos porcos, que à primeira vista escandaliza, não é acessório, mas símbolo.
Naquela região gentílica, os porcos eram animais usados em sacrifícios pagãos e também símbolo da força imperial romana — a Legio X Fretensis, cuja insígnia trazia um javali.
Assim, quando os demônios entram nos porcos e precipitam-se no abismo, o Evangelho anuncia o colapso das idolatrias: o poder da morte, do império e do medo é lançado de volta às trevas.

A Palavra de Cristo não apenas liberta o homem, mas purifica o ambiente em que ele vive, restabelecendo a ordem da criação.

O resultado é pascal:

“Sentaram-se aos pés de Jesus, vestidos e em perfeito juízo.”

O homem nu e selvagem torna-se discípulo, reintegrado na comunhão humana e divina.
É o mesmo movimento de Naím, sob outra forma: a compaixão que vê e se aproxima torna-se graça que recria e sustém.

A reação e o mistério da liberdade

Mas o Evangelho não termina com aplausos.

A população, temendo o que não entende e lamentando a perda dos porcos, pede que Jesus se retire.

O contraste é doloroso: a cidade expulsa o Salvador para proteger seus interesses.

Aqui Dom Tarasios via o ponto central:

“O homem reintegrado vale menos que o lucro dos porcos.”

A raiz mais profunda do poder demoníaco está, portanto, na liberdade humana disposta a negociar a dignidade do outro por causa do poder ou do interesse.

Quando o lucro pesa mais que a vida, o mal encontra terreno fértil.

Mas Jesus não reage com condenação: deixa na região um testemunho vivo, o homem curado — o primeiro missionário entre os gentios.
O que antes vivia entre os mortos torna-se apóstolo da vida, pregando em toda a Decápole o que Deus fizera por ele.

A mensagem para nós

O Evangelho de Gerasa é uma parábola da humanidade moderna:

vivemos entre túmulos simbólicos — do individualismo, da violência, da idolatria do poder — e, muitas vezes, expulsamos Cristo das nossas “regiões” para não perturbar o conforto dos porcos.

Mas também hoje, Cristo atravessa o lago da nossa indiferença e vem ao nosso encontro.

Ele continua a libertar, a restituir, a chamar cada ser humano a sentar-se “em perfeito juízo”, isto é, na comunhão do Reino.

São Gregório Palamás diria:

“O mesmo Cristo que acalma as águas exteriores é Aquele que pacifica o coração dividido.”

Assim, o exorcismo de Gerasa é mais que um prodígio: é um ícone da Páscoa — o Senhor que vence as forças do caos e nos devolve à liberdade dos filhos de Deus.

O discípulo curado é sinal de missão: quem foi libertado torna-se testemunha.
A compaixão que nos recria é também a graça que nos envia.

Que a Theotokos, Porta intransitável do Senhor, nos ajude a reconhecer o Cristo que vem, não para condenar, mas para libertar; não para negociar com o mal, mas para destruí-lo com o poder de Sua palavra.
E que, à semelhança do geraseno curado, nós também voltemos à nossa casa — à Igreja, à comunidade, à oração — proclamando o que o Senhor fez por nós.

Referências Bibliográficas e Patrísticas

  • Evangelho segundo São Lucas 8, 26-39
  • Evangelho segundo São Marcos 5, 1-20
  • Evangelho segundo São Mateus 8, 28-34
  • Isaías 35, 5-6 – Os sinais messiânicos da vida que retorna.
  • 2 Coríntios 12, 7-9 – “A minha graça te basta; o poder se aperfeiçoa na fraqueza.”
  • São Cirilo de Alexandria, Commentarius in Lucam – Sobre o poder criador e libertador da Palavra.
  • São João Crisóstomo, Homiliae in Matthaeum – Sobre a autoridade de Cristo sobre os espíritos impuros.
  • Santo Ambrósio de Milão, Expositio Evangelii secundum Lucam – Sobre a santidade que não se contamina, mas purifica.
  • São Gregório Palamás, Homilia 33 – Cristo que pacifica as águas exteriores e o coração dividido.
  • Santo Atanásio, De Incarnatione Verbi – O Filho que assume a morte para aniquilá-la.
  • Santo Ireneu de Lião, Adversus Haereses III, 19 – O Verbo que recapitula todas as coisas e restitui os filhos à Mãe.
  • São Isaac, o Sírio, Homilia 36 – “O humilde é o cofre no qual Deus Se compraz.”
  • TARASIOS, Arcebispo Metropolitano de Buenos Aires e Exarca da América do Sul.
    Homilia na Divina Liturgia, Igreja de São João, o Teólogo – São José (SC), 24 de outubro de 2010.
  • CARVAJAL, Francisco F. Falar com Deus. São Paulo: Quadrante, 1991.
  • GOA Archdiocesan Service of Divine Worship. Orthros Texts: Octoechos and Menaion. (Atenas, edição digital litúrgica).
  • Sinaxarion da Igreja de Constantinopla. Edição grega oficial, Patriarcado Ecumênico.

Suplemento Litúrgico

Εὐφραινέσθω τὰ οὐράνια, ἀγαλλιάσθω τὰ ἐπίγεια, ὅτι ἐποίησε κράτος ἐν βραχίονι αὐτοῦ, ὁ Κύριος· ἐπάτησε τῷ θανάτῳ τὸν θάνατον· πρωτότοκος τῶν νεκρῶν ἐγένετο· ἐκ κοιλίας ᾅδου ἐῤῥύσατο ἡμᾶς, καὶ παρέσχε τῷ κόσμῳ τὸ μέγα ἔλεος.

Alegrem-se os céus, exulte a terra, pois com Seu braço o Senhor manifestou poder. Pela morte esmagou o poder da morte. Tornou-se o Primogênito dentre os mortos. Do ventre do Hades a nós libertou, e ao mundo concedeu a grande misericórdia.