«Ai de ti… porque se em Tiro ou em Sidônia tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizam, muitos teriam se arrependido…» (Mt 11,21)
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

O Reino de Deus se manifesta em palavras e gestos de misericórdia

O Evangelho deste domingo continua a nos apresentar Cristo como o Profeta que percorre cidades e povoados proclamando a Boa Nova e curando os enfermos, revelando a misericórdia do Pai.

A cura de dois cegos e de um mudo mostra que Ele é o Divino Médico, que vem restaurar não só o corpo, mas também abrir os olhos e soltar a língua para o louvor de Deus. Esses milagres não são apenas atos isolados de compaixão, mas sinais da chegada do Reino: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos céus” (Mt 4,17).

Como nos lembra São Cirilo de Alexandria:

«Os cegos e mudos deste mundo são aqueles que não podem ver a luz da verdade e não conseguem proclamar a glória de Deus. Mas Cristo, luz verdadeira, abre-lhes os olhos e lhes dá voz para confessar o Seu Nome.» (Comentário a Mateus, 9,27-31)

Os milagres, portanto, são convites visíveis ao arrependimento e à conversão. Porém, Jesus lamenta que muitos dos que testemunham essas obras maravilhosas permaneçam indiferentes, endurecidos em seus corações, ao ponto de advertir:

«Ai de ti…» (Mt 11,21), pois Tiro e Sidônia teriam se arrependido, enquanto vós não.

Os que permanecem cegos para a ação do Espírito resistem à graça e se fecham à vida nova.

A tentação de atribuir o bem ao mal

O Evangelho também lembra a polêmica com os escribas e fariseus, que acusavam Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu. Essa acusação é desmascarada por Cristo: “Se Satanás expulsa a Satanás, seu reino está dividido e não subsistirá” (cf. Mt 12,26).

Aqui vemos um alerta contra a blasfêmia contra o Espírito Santo — a recusa obstinada em reconhecer a obra divina por má vontade e orgulho espiritual. Como escreve Santo Agostinho:

«Enquanto o homem permanecer impenitente, recusando-se a reconhecer o bem que é do próprio Espírito de Deus, ele exclui a si mesmo da misericórdia.» (Sermão 71,11)

O poder de Jesus vem d’Aquele que é mais forte que o adversário, pois como diz São João:

«Maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo» (1Jo 4,4).

O Evangelho revela claramente que os milagres são sinais do Reino e que Jesus é o Forte, o Messias que vence Satanás e liberta os oprimidos.

Os humildes reconhecem os sinais do Reino

Os milagres de Cristo só são percebidos por quem tem um olhar humilde e um coração puro. Como diz São Gregório Magno:

«O orgulho fecha os olhos do coração, impedindo de ver os milagres do Senhor. Mas a humildade abre os olhos da alma para contemplar a obra de Deus no mundo.» (Homilias sobre os Evangelhos, 29,2)

Os sinais do Reino continuam a acontecer em nosso meio, nos pequenos milagres cotidianos, nas vidas transformadas pela graça, nas comunidades unidas pelo amor. Mas só os de coração simples reconhecem a presença de Deus que caminha conosco, o Emanuel.

O Espírito Santo nos torna livres e nos conforma a Cristo: «O Espírito comunica a vida, e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2Cor 3,17). Ele nos liberta do mal e nos configura à imagem do Filho.

A vida cristã como testemunho do Reino

Na Epístola, São Paulo exorta Timóteo a ser forte na graça, a suportar sofrimentos como bom soldado de Cristo, perseverando na missão. Também nós, diz o Apóstolo, devemos carregar os fardos uns dos outros e procurar unanimidade e paz nas comunidades.

Como nos adverte São João Crisóstomo:

«Cristo deixou-nos na terra para que sejamos faróis que iluminam, doutores que ensinam, fermento que transforma a massa. Se a nossa vida fosse tão luminosa, nem seria necessário pregar com palavras, pois as obras falariam por nós.» (Homilia sobre a 1Tm 10)

O testemunho da vida cristã — feita de humildade, concórdia, paciência e obras de misericórdia — torna visível ao mundo o Reino que anunciamos com os lábios.

Este domingo nos chama a abrir os olhos para reconhecer a obra de Deus entre nós e a abrir os lábios para proclamar sua glória. Também nos alerta contra o fechamento do coração e a resistência ao Espírito Santo.

Que a Virgem Theotokos, cuja humildade e fé abriram caminho para a encarnação do Verbo, nos ajude a acolher os sinais do Reino com gratidão e a testemunhar com a vida aquilo que proclamamos com a boca.

«Que a vossa luz brilhe diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus» (Mt 5,16).

Referências:
  • KONINGS, Johan. Descobrir a Bíblia a partir da Liturgia. São Paulo: Loyola.
  • Patrologia: Agostinho, Crisóstomo, Gregório Magno, Cirilo de Alexandria (traduções diversas).
  • Bíblia Sagrada, edições ortodoxas.

Suplemento Litúrgico

Ἀγγελικαὶ Δυνάμεις ἐπὶ τὸ μνῆμά σου, καὶ οἱ φυλάσσοντες ἀπενεκρώθησαν, καὶ ἵστατο Μαρία ἐν τῷ τάφῳ, ζητοῦσα τὸ ἄχραντόν σου σῶμα. Ἐσκύλευσας τὸν ᾍδην, μὴ πειρασθεὶς ὑπ’ αὐτοῦ, ὑπήντησας τῇ Παρθένῳ, δωρούμενος τὴν ζωήν, ὁ ἀναστὰς ἐκ τῶν νεκρῶν, Κύριε, δόξα σοί.

As potestades angélicas estavam junto ao teu sepulcro, e os guardas ficaram como mortos; e Maria permanecia junto ao túmulo, buscando o teu corpo imaculado. Tu despojaste o Hades sem seres por ele vencido, encontraste a Virgem, concedendo a vida. Ó Senhor, que ressurgiste dos mortos, glória a Ti!