«Fujamos da soberba do Fariseu e aprendamos a humildade do Publicano, manifestada pela sua compunção, clamando ao Salvador: 'Perdoa-nos Tu, ó único Filantropo!'» (do Kondakion)»
Dom Irineo de Tropaion​

SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS​

«Domingo do Publicano e do Fariseu».

Leitura bíblicas: Romanos 8: 28-39 e Lucas 18: 10–14

(I Domingo do Triódion — Pré-festa do Encontro do Senhor e memória do Santo Mártir Trifon)

«O Publicano e o Fariseu»

Três semanas antes do início da Grande Quaresma, a Igreja introduz os fiéis no tempo do Triódion, escola de arrependimento e de discernimento espiritual que prepara a alma para a peregrinação pascal. A pedagogia litúrgica deste período é de notável precisão pastoral: antes de insistir no jejum, nas obras ou nas práticas ascéticas, a Igreja corrige o fundamento interior sem o qual tudo o mais se torna estéril — a disposição do coração diante de Deus. Por isso, a porta do Triódion se abre com a parábola do Publicano e do Fariseu, colocada como exame inicial de consciência.

As leituras bíblicas deste domingo confirmam essa intenção espiritual. A Epístola (Rm 8,28–39) proclama a soberania do amor de Deus e a certeza de que nada pode separar o homem do amor de Cristo. O apóstolo Paulo não fala a partir da autossuficiência moral, mas da confiança absoluta na ação salvífica de Deus: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). Trata-se de uma esperança que exclui toda presunção, pois se funda não nos méritos humanos, mas naquele que “não poupou o seu próprio Filho” (Rm 8,32). Assim, a Epístola sustenta o coração do penitente e impede que a humildade se transforme em desespero.

O Evangelho (Lc 18,10–14) apresenta dois homens que sobem ao Templo para orar. Ambos são religiosos, ambos conhecem a Lei, ambos se dirigem a Deus. Contudo, apenas um retorna justificado. O fariseu, de pé, enumera suas observâncias e agradece por não ser como os outros. Sua oração, embora correta na forma, está corrompida no interior: ele fala de Deus, mas não fala com Deus. Como observa São João Crisóstomo, “o fariseu não pedia nada, porque julgava já possuir tudo; e, por isso mesmo, saiu vazio” (Homilia sobre a oração, PG 64).

O publicano, ao contrário, permanece à distância. Seus gestos corporais expressam a verdade interior: olhos baixos, o peito ferido, poucas palavras. Sua súplica — “Ó Deus, tem piedade de mim, pecador” — tornou-se, na tradição da Igreja, o arquétipo da oração verdadeira. São João Crisóstomo observa que “Deus não exige palavras belas, mas um coração que não se exalta” (PG 59). O publicano não apresenta argumentos nem méritos; apresenta a si mesmo como ferido e necessitado de cura. E é precisamente essa verdade humilde que abre espaço para a graça.

A sentença final do Senhor orienta todo o Triódion: “Este voltou para casa justificado, e não o outro” (Lc 18,14). A tradição patrística insiste que aqui não se condenam o jejum, o dízimo ou a observância da Lei — todos são bons quando ordenados à conversão. O que é rejeitado é o coração que transforma a virtude em instrumento de julgamento. São Basílio o Grande ensina que “a obra boa, quando unida ao orgulho, deixa de ser virtude e torna-se acusação” (Homilia sobre a humildade, PG 31). Por isso, a Igreja começa a Quaresma não pedindo mais esforços, mas pedindo mais verdade.

Não é por acaso que, após este domingo, o jejum é suspenso durante a semana. A Igreja não enfraquece a ascese; ela a purifica. Antes de disciplinar o corpo, é necessário curar o coração. Sem humildade, o jejum degenera em vaidade; sem contrição, a oração transforma-se em discurso; sem misericórdia, a justiça converte-se em condenação.

Neste mesmo dia, o calendário litúrgico assinala a Pré-festa do Encontro do Senhor e a memória do Santo Mártir Trifon. Ambas as comemorações se harmonizam profundamente com a mensagem do domingo. Simeão reconhece o Messias não por superioridade moral, mas porque espera com humildade a consolação de Israel. E o mártir testemunha que a vitória cristã não nasce da autoconfiança, mas da fidelidade sustentada pela graça — da qual nada pode nos separar, como proclama o apóstolo.

Pastoralmente, este domingo estabelece o tom de todo o caminho quaresmal. A oração que justifica não é a mais longa nem a mais elaborada, mas a mais verdadeira. O publicano oferece ao Senhor aquilo que Deus nunca despreza: um coração contrito. Assim começa corretamente a Quaresma: não comparando-se aos outros, mas colocando-se diante de Deus com verdade.

Que o Senhor nos conceda, neste início do Triódion, a graça da humildade que salva, para que, sustentados pelo amor invencível anunciado por Paulo, caminhemos com esperança rumo à alegria pascal.

Fontes e referências bibliográficas:​
  • São João Crisóstomo, Homilias sobre a oração e a humildade, PG 59; PG 64
  • São Basílio o Grande, Homilias ascéticas (sobre a humildade e a contrição), PG 31
  • Triódion, Domingo do Publicano e do Fariseu (estrutura pedagógica e hinos próprios)
  • Triódion. Texto grego e traduções litúrgicas ortodoxas.
  • GOMES, Folch. Antologia dos Santos Padres. São Paulo: Paulinas, 1979.
  • QUASTEN, Johannes. Patrology, vol. III. Utrecht / Westminster.
  • BOUYER, Louis. La spiritualité du Nouveau Testament et des Pères. Paris: Cerf.

Suplemento Litúrgico

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Του λίθου σφραγισθέντος υπό των Ιουδαίων, και στρατιωτών φυλασσόντων το άχραντον σου σώμα, ανέστης τριήμερος Σωτήρ, δωρούμενος τω κοσμώ την ζωήν. Δια τούτο αι δυνάμεις των ουρανών εβόων σοι ζωοδότα. Δόξα τη αναστάσει σου Χριστέ, δόξα τη βασιλεία σου, δόξα τη οικονομία σου, μόνε φιλάνθρωπε.

Embora a pedra fosse selada pelos judeus, e os soldados guardassem teu imaculado Corpo, ressuscitaste ao terceiro dia, ó Salvador, concedendo vida ao mundo. Por isso, os poderes celestes clamavam a Ti, ó Autor da Vida: Glória à tua ressurreição, ó Cristo, glória ao teu Reino, glória à tua economia, ó único Filantropo!