SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS
«O Domingo da Mulher Samaritana»
Ir a uma fonte pública buscar água era, no Oriente antigo, uma das tarefas diárias das mulheres e das jovens, como parte dos afazeres domésticos. Normalmente, esse trabalho era feito nas primeiras horas da manhã ou ao entardecer, evitando-se o calor do meio-dia.
Entretanto, no episódio narrado pelo Santo Evangelho de João (cf. Jo 4,1-42), encontramos uma mulher que se dirige ao poço justamente ao meio-dia, horário incomum, talvez para evitar a exposição pública ou por carregar vergonha pessoal. No entanto, foi ali, nessa hora inesperada, que ela encontrou o Senhor da Glória, o próprio Cristo, que a esperava junto à fonte.
O diálogo entre o Senhor e a Samaritana revela-se não apenas um encontro casual, mas uma teofania pedagógica: Cristo inicia falando de sede física, mas logo conduz a conversa a um nível espiritual. Diante da revelação dos aspectos ocultos de sua vida, a mulher, surpreendida, exclama: «Senhor, vejo que és profeta!» (Jo 4,19).
Como ensina São João Crisóstomo:
“Ele não a acusa diretamente, mas, com tato e compaixão, revela-lhe o seu pecado, para conduzi-la à conversão. Assim é o modo de agir de Cristo: não fere, mas cura.” (Homilia XXXIV sobre João, PG 59,197)
A liturgia da Igreja, ao unir esta leitura com a dos Atos dos Apóstolos (cf. At 11,26), em que se diz que em Antioquia os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos, nos oferece uma chave interpretativa: a identidade cristã nasce do encontro pessoal com Cristo e é selada no mistério do Batismo, que é participação na água viva que Ele nos oferece.
As Sagradas Escrituras desde o princípio atribuem à água papel central no desígnio da salvação:
No Gênesis, “o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,2);
No Dilúvio, Deus purifica a terra e inicia uma nova humanidade com Noé (Gn 6,5ss);
Moisés é salvo das águas (Ex 2,10);
No Mar Vermelho, o povo é libertado do Egito (Ex 14);
Naamã é curado da lepra nas águas do Jordão (2Rs 5);
E no Novo Testamento, o próprio Senhor é batizado no Jordão, revelando a Trindade e santificando as águas (Mt 3,13-17).
A água do Batismo torna-se então para nós o meio visível pelo qual o Espírito Santo nos concede uma nova vida. Como afirma São Cirilo de Jerusalém:
“A água serve de instrumento ao Espírito Santo. Assim como o corpo é lavado com água visível, assim também a alma é purificada pela graça invisível.” (Catequese Mistagógica III, 4)
O Senhor diz à mulher: «Quem beber da água que eu lhe der, jamais terá sede» (Jo 4,14). Ele Se apresenta como a fonte inesgotável, não apenas de consolo, mas de transformação. A Samaritana, ao beber dessa água, deixa seu cântaro — símbolo das buscas infrutíferas — e corre para anunciar o Messias a seus conterrâneos. Ela torna-se apóstola dos samaritanos, testemunha da Luz, como afirma a tradição da Igreja que lhe dá o nome de Santa Fotíni (a Iluminada).
São Gregório Palamás comenta:
“Ela vem buscar água, e encontra a Fonte. Vem como pecadora, e retorna como apóstola. Tal é o poder do Verbo.” (Homilia para o Domingo da Samaritana, PG 151)
Este episódio revela, portanto, que o Batismo cristão é encontro, é iluminação, é missão. Não se trata de um rito isolado, mas da inserção na vida de Cristo e na comunhão da Igreja. E assim como a Samaritana, nós, os batizados, não podemos estagnar na experiência inicial: é preciso correr ao encontro dos outros e anunciar-lhes Aquele que nos revelou tudo e nos deu a água viva do Espírito.
Se em Antioquia fomos pela primeira vez chamados “cristãos” (At 11,26), hoje somos chamados a ser verdadeiros cristãos em todo lugar: não apenas pelo nome, mas pelo testemunho. Como ensinava Santo Inácio de Antioquia:
“É melhor ser cristão em segredo do que parecer cristão em público e não o ser. Pois aquilo que somos manifesta-se nas obras.” (Carta aos Magnésios, IV)
O Domingo da Samaritana é um convite à redescoberta do nosso Batismo como fonte perene de vida, identidade e missão. Que possamos, como Santa Fotíni, deixar nossos “cântaros” — as seguranças estéreis — e correr com alegria, testemunhando ao mundo que encontramos o Messias, o Cristo, o Salvador das nossas almas.
Suplemento Litúrgico
Apolitíkion da Ressurreição (Modo 4º)
Το φαιδρόν της αναστάσεως κήρυγμα, εκ του αγγέλου μαθούσαι αι του Κυρίου μαθήτριαι, και την προγονικήν απόφασιν απορρίψασαι, τοις αποστόλοις καυχώμεναι έλεγον, εσκύλευται ο θάνατος, ηγέρθη Χριστός ο Θεός, δωρούμενος τω κόσμω το μέγα έλεος.
Ouvindo do Anjo o alegre anúncio da ressurreição, que da antiga condenação nos libertou, as discípulas do Senhor disseram envaidecidas aos apóstolos: «A morte foi vencida, o Cristo Deus ressuscitou, revelando ao mundo a grande misericórdia!»


