
SUBSÍDIOS HOMILÉTICOS
III Domingo de Mateus :
«Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça» (Mt 6,33)
Leituras Bíblicas
Evangelho: Mt 6,22-33;
Apóstolos: Rm 5,1-10.
O Evangelho deste terceiro Domingo de Mateus (Mt 6,22-33) apresenta uma das passagens mais conhecidas e, ao mesmo tempo, mais desafiadoras da pregação de Nosso Senhor. Em poucas palavras, Cristo aborda três questões fundamentais da existência humana: a pureza do olhar espiritual, a impossibilidade de servir simultaneamente a Deus e às riquezas, e a confiança na Providência divina.
A mensagem central do Evangelho pode ser resumida na exortação final do Senhor:
«Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas» (Mt 6,33).
Esta palavra permanece extraordinariamente atual numa época marcada pela ansiedade, pelo consumismo e pela busca incessante de segurança material.
O olhar que ilumina toda a vida
O Senhor inicia Seu ensinamento afirmando:
«A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se teu olho estiver são, todo teu corpo ficará iluminado» (Mt 6,22).
Os Santos Padres interpretam esse “olho” como a disposição interior da alma, a capacidade espiritual de perceber a realidade segundo Deus. Não se trata apenas da visão física, mas do modo como enxergamos a vida, os acontecimentos e as pessoas.
Quando o coração está voltado para Deus, toda a existência é iluminada. Mesmo as dificuldades são compreendidas à luz da esperança. Quando, porém, o olhar interior está obscurecido pelas paixões, pelo egoísmo ou pela obsessão pelos bens materiais, toda a vida se torna confusa e sombria.
São João Crisóstomo observa que Cristo chama atenção para a raiz do problema: antes das ações exteriores, existe uma disposição interior que orienta toda a existência. Se a fonte está contaminada, também o serão seus frutos.
Por isso, a vida espiritual consiste em purificar progressivamente o olhar da alma para que possamos contemplar a realidade à luz do Reino.
A ilusão dos falsos senhores
Em seguida, o Senhor declara de forma categórica:
«Ninguém pode servir a dois senhores» (Mt 6,24).
O termo utilizado no texto bíblico para designar as riquezas — Mammon — não se refere apenas ao dinheiro, mas a tudo aquilo que ocupa o lugar que pertence exclusivamente a Deus.
O problema não está na posse dos bens materiais. A Escritura jamais condena a legítima administração dos recursos ou o trabalho honesto. O perigo surge quando os bens deixam de ser instrumentos e passam a tornar-se senhores.
Como recorda a tradição cristã, não é o homem que possui as riquezas, mas frequentemente são elas que passam a possuí-lo.
Nesse sentido, o Evangelho questiona profundamente a mentalidade contemporânea. Vivemos numa cultura que frequentemente mede o valor da pessoa pelo que ela possui, consome ou acumula. Cristo, porém, revela uma lógica diferente: o valor do homem não está em seus bens, mas em sua relação com Deus.
Como ensinava São Basílio Magno:
“Não é rico quem possui muito, mas quem necessita de pouco.”
A verdadeira liberdade nasce quando aprendemos a utilizar os bens sem nos tornarmos escravos deles.
A ansiedade: doença espiritual do nosso tempo
Talvez a parte mais pastoralmente atual deste Evangelho seja a insistência de Cristo:
«Não vos preocupeis com a vossa vida» (Mt 6,25).
É importante compreender que o Senhor não condena a responsabilidade, o trabalho ou a prudência. O que Ele combate é a ansiedade que nasce da falta de confiança em Deus.
Nunca houve tantas facilidades materiais como em nossos dias. Entretanto, paradoxalmente, nunca se falou tanto de angústia, insegurança e inquietação interior.
O Arquipresbítero Rodion Putyatin observava que pessoas de todas as condições sociais — pobres e ricas — frequentemente vivem insatisfeitas, porque colocam sua esperança em coisas incapazes de preencher a alma humana. A verdadeira causa da inquietação não está nas circunstâncias externas, mas no esquecimento daquilo que é essencial: Deus e Seu Reino.
A alma foi criada para Deus. Quando procura satisfação apenas nas realidades passageiras, permanece inevitavelmente vazia.
Santo Agostinho expressou esta verdade de forma memorável:
«Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.»
(Confissões, I,1)
A Providência Divina
Para combater essa ansiedade, Cristo convida os discípulos a contemplarem as aves do céu e os lírios do campo.
Não se trata de um convite à passividade, mas à confiança.
O Senhor recorda que Deus conhece as necessidades de Seus filhos antes mesmo que elas sejam expressas. A Providência divina não significa ausência de dificuldades; significa certeza de que nenhuma circunstância escapa ao cuidado amoroso de Deus.
São Paulo oferece um testemunho extraordinário desta confiança na Epístola do dia (Rm 5,1-10). Mesmo enfrentando perseguições, sofrimentos e tribulações, o Apóstolo proclama:
«A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm 5,5).
O cristão não vive apoiado na estabilidade das circunstâncias, mas na fidelidade de Deus.
O Reino em primeiro lugar
Toda a passagem converge para uma única prioridade:
«Buscai primeiro o Reino de Deus.»
Cristo não diz para buscar o Reino em segundo lugar, nem quando houver tempo disponível, nem apenas após resolvermos todos os problemas terrenos.
O Reino deve ocupar o primeiro lugar porque dele depende a correta ordenação de todas as demais coisas.
Quando Deus ocupa o centro da existência, os bens materiais encontram sua justa medida, os sofrimentos recebem sentido, e as preocupações deixam de dominar o coração.
O problema de muitos cristãos não é rejeitar Deus, mas relegá-Lo à periferia da vida. Busca-se primeiro o sucesso, a estabilidade financeira, a segurança, os projetos pessoais; e somente depois, se houver espaço, procura-se o Reino.
O Evangelho inverte essa lógica.
Como ensinava São Serafim de Sarov:
“Adquire o Espírito de paz e milhares ao teu redor serão salvos.”
Quando o coração encontra seu centro em Deus, toda a vida é transformada.
O Evangelho deste domingo dirige uma pergunta concreta a cada cristão:
Onde está o centro da minha vida?
O que ocupa meus pensamentos durante a maior parte do dia? O que determina minhas decisões? Em que deposito minha segurança?
Cristo não promete uma vida sem dificuldades. Ele promete algo maior: Sua presença, Sua Providência e Seu Reino.
Num mundo dominado pela ansiedade, pela competição e pelo medo do futuro, a Igreja continua proclamando a mesma verdade:
A verdadeira riqueza não consiste no que possuímos, mas na comunhão com Deus.
Quem busca primeiro o Reino descobre que nada lhe falta verdadeiramente. E mesmo em meio às tribulações, aprende a viver na paz daqueles que sabem que sua vida está nas mãos do Pai.
Referências Bibliográficas:
- BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2013.
- SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilias sobre o Evangelho de Mateus.
- SANTO AGOSTINHO. Confissões, Livro I.
- SÃO BASÍLIO MAGNO. Homilias sobre a riqueza e a avareza.
- SÃO SERAFIM DE SAROV. Conversação com Motovilov.
- PUTYATIN, Rodion. Homily on the Third Sunday of Matthew. Resumo e análise pastoral.
- ELPIDOPHOROS. Homily for the Third Sunday of Matthew (2020).
- LEMASTERS, Philip. Offering Our Blessings and Sufferings in Hope: Homily for the Third Sunday of Matthew.
- VASILIOS GREEK ORTHODOX CHURCH. 3rd Sunday of Matthew (Matthew 6:22-33).
- BYBLOS. 3º Domingo do Evangelho de São Mateus.
Suplemento Litúrgico
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Apolitikion da Ressurreição (Modo 2º)
Ότε κατήλθες προς τον θάνατον, η ζωή η αθάνατος, τότε τον άδην ενέκρωσας, τη αστραπή της θεότητος, ότε δε και τους τεθνεώτας, εκ των καταχθόνιων ανέστησας, πάσαι αι δυνάμεις των επουρανίων εκραύγαζον Ζωοδότα Χριστέ, ο Θεός ημών, δόξα σοι.
Quando desceste ao túmulo, ó Vida imortal, aniquilaste o Hades com o esplendor de tua divindade. E quando dos abismos levantaste os mortos, todas as potências celestes clamaram em uníssono: «Ó Cristo, Autor da vida, nosso Deus, glória a Ti!»



