«Senhor, trabalhamos a noite toda e nada pescamos. Mas por tua palavra, lançarei as redes». (Lc 5:5)
D. Irineo​
Bispo de Tropaion

«Agora é o tempo favorável; sobre a tua palavra lançarei as redes»

2Cor 6,1-10 • Lc 5,1-11

Paulo proclama: “Eis agora o tempo favorável; eis agora o dia da salvação” (2Cor 6,2; cf. Is 49,8). O Evangelho responde com o gesto de Pedro: “Sobre a tua palavra, lançarei as redes” (Lc 5,5). A Liturgia entrelaça estes dois movimentos — graça oferecida e obediência confiada — para formar a única música da vida cristã: não receber a graça em vão (2Cor 6,1) e, na mesma fé, fazer-se ao largo (Lc 5,4).

Na Epístola, Paulo chama a Igreja de “cooperadora” (συνεργοῦντες) de Deus (2Cor 6,1). A graça não dispensa a liberdade; convoca-a. Por isso adverte: “não recebais em vão a graça de Deus”. Em seguida, descreve a credibilidade apostólica por marcas pascais: paciência em tudo, tribulações, necessidades, angústias, açoites, prisões, tumultos, trabalhos, vigílias, jejuns; e, positivamente: pureza, ciência, longanimidade, bondade, Espírito Santo, caridade sem fingimento, palavra da verdade, poder de Deus, armas da justiça (2Cor 6,4-7). A vida apostólica aparece em paradoxos: “como sedutores, mas verazes; como desconhecidos, e bem conhecidos; como moribundos, e eis que vivemos; como entristecidos, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e possuindo tudo” (2Cor 6,8-10).

São João Crisóstomo comenta que Deus “não suprime a tribulação, mas dá força para atravessá-la, para que a graça não pareça coisa humana” (Hom. in 2Cor). Não é estética do fracasso; é Páscoa em ato: “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10).

O Evangelho mostra como essa graça toca o concreto: Jesus entra no barco e fala (Lc 5,3). Depois da Palavra, o mandato: “Faze-te ao largo e lançai as redes para a pesca” (Lc 5,4). A ordem contraria a experiência: “Mestre, trabalhámos a noite inteira e nada apanhámos” (Lc 5,5a). Contudo, Pedro atravessa a ponte da obediência: “mas, sobre a tua palavra, lançarei as redes” (Lc 5,5b).

Teofilacto lê aqui o nervo do milagre: Pedro “não confia no ofício, mas na palavra do Senhor; por isso a pesca é transbordante” (In Lc 5).

 Ambrósio vê na barca figura da Igreja: quando o Verbo nela se assenta, a palavra lançada ao mar recolhe os que creem (Expos. in Lc V). Cirilo de Alexandria sublinha a transformação: a presença de Cristo “faz do inútil, útil; do vazio, plenitude” (Comm. in Lc). O itinerário de Pedro torna-se nosso: escuta → obediência → espanto → confissão → envio: “Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8). E o Senhor confirma: “Não temas; de agora em diante serás pescador de homens” (Lc 5,10). Eles deixam tudo e seguem-No (Lc 5,11).

Postas em conjunto, as leituras desenham a sinergia: Deus oferece — “agora é o tempo favorável” — e a Igreja acolhe obedecendo — “sobre a tua palavra”. São Máximo, o Confessor traduz a resposta em ética ascética:  “Quem cumpre os mandamentos crucifica com eles as paixões” (Cent. car. I,27); isto é, a graça não elimina o combate, transfigura-o. E Santo Irineo lembra a direção do todo: o Verbo “recapitula” em Si (Ef 1,10) a nossa liberdade — Ele dá, nós consentimos; Ele manda, nós obedecemos; e a fecundidade é d’Ele. Assim se resolve a tensão entre confiança e esforço: “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5) e, justamente por isso, “tudo posso n’Aquele que me fortalece” (Fl 4,13).

Ó Santíssima Theotokos, que guardaste a Palavra (cf. Lc 2,19.51) e permaneceste aos pés da Cruz (Jo 19,25), ensina-nos a permanecer no “agora” da graça e a dizer com Pedro e com a Igreja: “sobre a tua palavra”. Para que não nós, mas Cristo viva e pesque em nós. Amém.

Κατέλυσας τω Σταυρώ σου τον θάνατον ηνέωξας τω ληστή τον παράδεισον, των μυροφόρων τον θρήνον μετέβαλες, και τοις σοις αποστόλοις κηρύττειν επέταξας, ότι ανέστης Χριστέ ο Θεός, παρέχων τω κόσμω το μέγα έλεος.

Pela tua cruz, destruíste a morte, abriste as portas do paraíso ao ladrão, converteste em alegria o pranto das Miróforas, e lhes disseste que anunciassem aos apóstolos, que ressuscitaste dos mortos, ó Cristo Deus, revelando ao mundo a grande misericórdia.