Actas dos Mártires Carpo, Papilo e Agatônica
(séc. III) Ichtus, vol. 2
Martírio de Carpo
No tempo do imperador Décio, Óptimo era procônsul em Pérgamo. O bem-aventurado Carpo, bispo de Gados, e o diácono Papilo, de Tiatira, ambos confessores de Cristo, foram apresentados diante dele. O procônsul dirigiu-se a Carpo:
— Qual é o teu nome?
— O meu primeiro e mais belo nome é Cristão. No mundo, sou chamado Carpo.
— Conheces os éditos de César que vos obrigam a sacrificar aos deuses, senhores do mundo, não é verdade? Ordeno-te que te aproximes e ofereças um sacrifício.
— Eu sou cristão. Adoro Cristo, Filho de Deus, que veio à terra nestes últimos tempos para nos salvar e nos livrar das armadilhas do demónio. Não sacrificarei a esses ídolos.
— Sacrifica aos deuses, como ordena o imperador.
— Morram os deuses que não criaram o céu nem a terra.
— Sacrifica, como quer o imperador!
— Os vivos não sacrificam aos mortos.
— Então tu crês que os deuses estão mortos?
— Certamente. E digo-te como: eles assemelham-se a homens, mas são inertes. Deixa de os cobrir de honras; como não se movem, os cães e os corvos virão cobri-los de esterco.
— Basta! Sacrifica! Tem piedade de ti mesmo!
— É precisamente por isso que escolho a melhor parte.
Diante dessas palavras, o procônsul ordenou que o pendurassem e rasgassem seu corpo com unhas de ferro…
Martírio de Papilo
Então o procônsul voltou-se para Papilo e interrogou-o:
— Pertences à classe dos notáveis?
— Não.
— Então, quem és?
— Sou um cidadão.
— Tens filhos?
— Muitos, graças a Deus.
Uma voz na multidão gritou:
— É aos cristãos que ele chama filhos!
— Por que me mentes, dizendo que tens filhos?
— Não minto, mas falo a verdade: em todas as cidades da província, tenho filhos que me foram dados por Deus.
— Oferece um sacrifício ou explica-te!
— Desde a minha juventude, sirvo a Deus e nunca sacrifiquei aos ídolos; ofereço-me a mim mesmo em sacrifício ao Deus vivo e verdadeiro, que tem poder sobre toda a criação. Nada mais tenho a acrescentar.
Amarraram-no também ao cavalete, onde foi dilacerado com unhas de ferro. Três equipas de carrascos se revezaram, sem que escapasse uma única queixa dos lábios de Papilo. Como um valoroso atleta, encarava em profundo silêncio a fúria de seus algozes…
O procônsul condenou os dois a serem queimados vivos. No anfiteatro, os espectadores mais próximos viram que Carpo sorria. Surpresos, perguntaram-lhe:
— Por que sorris?
O bem-aventurado Carpo respondeu:
— Vi a glória do Senhor e rejubilo. Eis-me agora liberto; não conhecerei mais as vossas misérias.
Martírio de Agatônica
Entre os que assistiam ao martírio, estava uma mulher chamada Agatónica. Ao ouvir Carpo falar da glória do Senhor, ela também a contemplou e compreendeu que era um sinal do céu. Imediatamente exclamou:
— Esse festim está preparado para mim também! Sou cristã. Nunca sacrifiquei aos demónios, mas somente a Deus. De boa vontade, se for digna disso, seguirei as pisadas dos meus mestres, os santos. Esse é o meu maior desejo…
O procônsul advertiu-a:
— Sacrifica e não me forces a condenar-te ao mesmo suplício.
— Faz o que te parecer melhor. Quanto a mim, vim para sofrer em nome de Cristo. Estou pronta.
Chegando ao local do suplício, Agatónica retirou suas vestes e, com alegria, subiu ao patíbulo. Os espectadores, tocados por sua beleza, lamentavam-se:
— Que julgamento iníquo! Que decretos injustos!
Quando as chamas começaram a tocar seu corpo, ela clamou três vezes:
— Senhor, Senhor, Senhor, vem em meu auxílio! A ti eu recorro!
Foram essas as suas últimas palavras.

