Vida:
São Gregório Nazianzeno (329-390 d.C.) foi um dos mais ilustres Padres da Igreja e um dos três grandes Capadócios, juntamente com São Basílio Magno e São Gregório de Nissa. Nascido em Arianzos, na Capadócia (atual Turquia), destacou-se como teólogo, poeta e orador, sendo conhecido como “o Teólogo” pela profundidade de seu pensamento sobre a Trindade.
Filho de São Gregório, bispo de Nazianzo, recebeu uma sólida educação em Cesareia, Alexandria e Atenas, onde estudou ao lado de São Basílio Magno e do futuro imperador Juliano, o Apóstata. Apesar de desejar uma vida de contemplação e ascese, foi ordenado sacerdote e depois bispo, dedicando-se à defesa da ortodoxia contra o arianismo. Entre seus grandes feitos, destaca-se sua atuação em Constantinopla, onde, por meio de suas célebres homilias, contribuiu para a restauração da fé nicena. Presidiu o Concílio de Constantinopla (381), mas renunciou pouco depois, retirando-se para a vida monástica. Seus escritos, incluindo discursos, cartas e poemas, influenciaram profundamente a teologia cristã.
São Gregório é celebrado em 25 de janeiro no Oriente e em 2 de janeiro no Ocidente.
Obras:
«Poema sobre a natureza humana»
Ontem, abatido pela tristeza, sozinho e longe de todos, sentei-me à sombra de um bosque, meditando em meu coração. Gosto desse remédio para os sofrimentos: entreter-me silenciosamente comigo mesmo. O murmúrio da brisa, junto ao chilrear dos pássaros e ao sussurro das ramagens, trazia prazer ao coração aflito. As cigarras, no alto das árvores, cantando sonoramente ao sol, acrescentavam um ruído que completava a melodia do bosque. Próximo dali, um córrego de água pura banhava-me os pés e deslizava da mata como um orvalho refrescante. Eu, porém, absorto na dor, não me importava com nada disso, pois o espírito, em tais condições, recusa-se a qualquer prazer. Interiormente agitado, entregava-me a uma luta onde eram minhas próprias palavras que se debatiam.
Quem fui? Quem sou? Quem serei? Não sei responder claramente, assim como não sabem os mais sábios que eu. Envolto por uma nuvem, vagueio errante, sem nada possuir — nem mesmo em sonhos — daquilo que desejo. Sim, somos peregrinos na terra, e sobre todos nós paira a nuvem azul da carne. Mais sábio do que eu é aquele que melhor sabe expulsar de seu coração a mentira loquaz.
Eu sou. Explique-se-me o que é isso. Uma parte de mim já se foi, sou outro neste instante, e outro ainda serei, se continuo a existir. Nada é estável. Assemelho-me ao curso de um rio turbulento, que avança incessantemente, sem nada ter de fixo. Dir-me-ás o que sou em meio a tudo isso? Ensina-me ao menos o que sou para ti. Permaneço aqui por um instante, mas cuida para que eu não fuja de ti… Não atravessarás de novo o rio do mesmo modo como o atravessaste, não reverás o mortal que já viste uma vez.
Existi inicialmente na carne de meu pai, depois fui acolhido no ventre de minha mãe e provenho de ambos. Fui, então, uma carne informe, uma massa sem forma, antes de ser homem, sem palavras nem espírito, tendo na mãe meu túmulo… Sim, estamos duas vezes no túmulo, pois nossa vida também se encerra na corrupção. Essa vida que percorro se dissipa em anos que me conduzem ao funesto envelhecimento. E se, ao partir da terra, sou acolhido em uma vida sem fim, como se diz, vê se a vida não contém a morte, e se a morte não é para ti a verdadeira vida, contrariamente ao que pensas.
Nada fui. Por que, então, sou incessantemente avassalado pelos males, como se jamais mudasse? Pois apenas os males, entre os mortais, são imutáveis, inatos, inseparáveis e não envelhecem. Mal saí do seio materno e já verti minha primeira lágrima; e haveria de encontrar tantas e tão grandes calamidades! Chorei antes mesmo de tocar a vida! Ouvimos falar de uma região, como outrora Creta, onde não havia animais ferozes, e de outra isenta da neve. Mas nunca se ouviu falar de um mortal que tenha deixado esta vida sem que tristes penas o atingissem. Doença, pobreza, parto, morte, ódio, iniquidade, feras do mar e da terra, dores: eis a vida! Conheci muitos males sem alegria, mas jamais conheci uma alegria completamente isenta de sofrimento, desde o fatídico fruto que degustei e do inimigo invejoso que me marcou com o signo da amargura.
Carne, eis o que devo dizer-te — a ti, tão difícil de curar, inimiga suave, a quem a luta jamais abate, fera atroz que cruelmente acaricias, fogo que refresca — ó coisa espantosa! Mais espantoso, porém, seria se acabasses por te tornar minha amiga!
E tu, ó minha alma, ouvirás, por tua vez, a linguagem que te convém. Quem és? De onde vens? Qual é a tua essência? Quem te estabeleceu como sustentáculo de um morto? Quem te ligou aos tristes grilhões da vida, sempre inclinada às coisas da terra? Como foste misturada ao grosseiro, tu que és sopro? À carne, tu que és espírito? Ao pesado, tu que és leve? São qualidades opostas que se combatem… Se vieste à vida, engendrada ao mesmo tempo que a carne, quão perniciosa tem sido essa união para mim! Sou imagem de Deus e me tornei filho da torpeza. Temo que o desejo tenha sido a causa do nascer de algo tão digno de honra. Um ser fugidio me gerou e sofreu a corrupção. Eis-me, então, homem, mas deixarei de sê-lo e me tornarei cinzas. São estas minhas últimas esperanças?
Ao contrário, se és celeste, quem és tu e de onde vens? Anseio saber, instrui-me! Se tens o sopro de Deus por origem e Deus mesmo por destino — como julgas — rejeita o vício, e então acreditarei em ti! Pois não convém que o puro seja maculado, nem mesmo levemente; as trevas não pertencem ao sol, o filho da luz não provém do espírito mau. Como és atormentada a tal ponto por Belial, tu que intimamente estás unida ao Espírito divino? Se, com tal ajuda, ainda te inclinas para a terra, então é grande a violência de tua maldade!
E se não vens de Deus, qual é a tua natureza? Ah! Temo ser presa de vão orgulho. Deus me plasmou, depois houve o Paraíso, o Éden, a glória, a esperança, o preceito, o dilúvio destruidor do mundo, a chuva de fogo e, em seguida, a Lei — esse remédio escrito — e, por fim, o Cristo, que uniu sua natureza à nossa para trazer socorro aos meus sofrimentos por meio de seus divinos padecimentos, para divinizar-me através de sua condição humana. E, apesar de tudo isso, mantenho um espírito indômito, sou como o javali furioso que se mata, precipitando-se sobre o ferro!
Que bem se encontra na vida? A luz de Deus? Mas as trevas invejosas e odiosas dela me afastam! Não me beneficio dela. Os maus não me dominam sob todos os aspectos? Por que, apesar de todos os meus sofrimentos, não lhes sou ao menos igual? Estou abatido até a terra, esgotado em minhas forças; o temor divino me faz vergar; dia e noite sou consumido por preocupações; o orgulho traiçoeiramente me seduziu e me derrubou. Cita-me tudo o que há de terrível: o negro Tártaro, o Flegetonte 2, os tormentos, os demônios que são os carrascos de nossa alma. Tudo isso os maus consideram fábulas, pois só enxergam o que está diante de si e lhes parece bom. O temor do castigo não corrige sua maldade. Mas eu preferiria ver os maus não punidos, mesmo no futuro, a ter de me afligir agora pelos castigos que sua maldade merece! 3
Mas, ó Trindade, reino venerável, sê-me propícia! Nem vós escapastes às línguas dos efêmeros insensatos! O Pai, primeiro; depois o Filho, em sua majestade; e, por fim, o Espírito do grande Deus foram alvo de injúrias.
Aonde, porém, infeliz aflição, tu me arrastas? Cala-te! Acaso tudo não é pequeno diante de Deus? Cala-te diante do Verbo!
Não, não foi em vão que Deus me criou!
GOMES, C. Folch; Antologia dos Santos Padres. Ed. Paulinas, II edição revista, SP, 1985, pp. 248-250.

