A teologia da «Mistagogia»
A teologia da mistagogia é sempre negativa ou apofática. A Mistagogia de São Fócio está repleta de expressões teológicas negativas. Quem estiver familiarizado com as liturgias de São João Crisóstomo e São Basílio, o Grande, se lembrará que estes ofícios expressam a linguagem da “santa e augusta hierurgia dos cristãos”.[1] Dessa forma, Fócio é coerente com os outros Padres ao referir-se a Deus como o “transcendente em essência”, “incorpóreo”, “superdivino”, “Deus indiferenciado e indivisível” (Mistagogia 6). Ele é a “Trindade superboa (hyperágathos)” (Mistagogia 43), a qual não deve ser confundida com o summum bonum dos escolásticos. Deus não é o “bem supremo”; Ele está para além de todo bem, para além de todos os nomes, descrições, atributos e denominações. Ele está para além de todo conhecimento e todo ser, não sendo nem totum esse nem verum esse.[2]
São Dionísio, o Areopagita, declara apofaticamente no capítulo V de sua Teologia Mística:
«Ascendendo cada vez mais alto, sustentamos que Ele [Deus] não é nem alma, nem intelecto; nem possui Ele imaginação, opinião, razão ou entendimento; nem pode Ele ser expresso ou concebido, pois Ele não é nem número, nem ordem; nem grandeza, nem pequeneza, nem igualdade, nem desigualdade; nem similaridade, nem dissimilaridade; nem possui Ele poder, nem é Ele poder, nem luz; nem vive Ele, nem é Ele vida; nem é Ele essência, nem eternidade, nem tempo; nem está Ele sujeito a contato inteligível; nem é Ele ciência, ou verdade, ou realeza, ou sabedoria; nem um, nem unicidade; nem divindade, nem bondade; nem é Ele espírito, segundo nosso entendimento, nem filiação, nem paternidade; nem nada conhecido a nós ou a qualquer outro ser, nem das coisas que existem ou das coisas que não existem; nem nada que existe O conhece como Ele é; nem conhece Ele as coisas que existem segundo o conhecimento existente; nem a razão O alcança, nem O nomeia, nem O conhece; nem é Ele trevas, nem luz, nem falso, nem verdadeiro; nenhuma afirmação ou negação pode a Ele ser aplicada, pois embora afirmemos ou neguemos as coisas que Lhe estão abaixo, não podemos afirmá-Lo ou negá-Lo, na medida em que a Causa única e oniperfeita de todas as coisas transcende toda afirmação, e a simples preeminência de Sua natureza absoluta está fora de qualquer negação — livre de toda e qualquer limitação e para além de todas elas.»
Não fosse “o conhecimento de Deus implantado em nós por natureza”, conforme declarou São João Damasceno[3], e não tivesse Ele revelado-Se em Seus “efeitos”, isto é, em Suas energias e operações, e por fim em Sua encarnação, não teríamos absolutamente nenhum conhecimento acerca de Deus.
Ora, se o que os homens conhecem de Deus é resultado de Sua condescendência e se tal conhecimento flui por inspiração, e não por especulação, isso significa que a verdade ou falsidade do filioque deve ser determinada à parte de quaisquer formulações do intelecto humano. O teólogo deve possuir a “mente” (phronema) da Igreja. Portanto, São Fócio revela que todos os hierarcas presentes no sínodo de 879-880 — inclusive os emissários do papa — aprovaram “a verdadeira doutrina do Espírito Santo, adotando uma profissão de fé em completo acordo com os Padres, Concílios e, sem sombra de dúvida, com as palavras do próprio Senhor”. “Eles aprovaram a doutrina com idêntica intensão (homophrones), com palavra e discurso, e com a assinatura de suas próprias mãos”. (Mistagogia 25). De modo oposto, o santo não deixou de notar que aqueles que declaram falsas doutrinas — neste caso, o filioque — fracassam na tentativa de “teologizar mistagogicamente” (Mistagogia 20).
Segundo o Patriarca de Constantinopla, o filioque está fora da mistagogia. Ora, em que consiste sua falsidade? Em primeiro lugar, o filioque impôs a analogia do ser à Trindade, ao mistério do Divino. O filioque é uma noção catafática, sendo que os Padres ensinam que todas as afirmações “positivas” acerca de Deus se referem à Seus “efeitos”, à “economia” de Suas ações. Regozijamos na misericórdia que vem de Deus, mas não podemos dizer que a misericórdia seja um atributo de Deus. Podemos crer nas palavras do Gênesis de que o homem é feito “à imagem e semelhança de Deus”, mas não podemos depreender daí que o Criador possui “memória”, “intelecto” ou “vontade”. Esse tipo de linguagem é própria dos homens e só pode ser aplicada a Deus equivocamente.
Notas:
[1] Ad. Amph., q. 111 (PG 101, 656c)
[2] Sobre a teologia latina medieval tardia, cf. E. Gilson, The Spirit of Medieval Philosophy, traduzida por A. H. C. Downes (Nova York: Charles Scribner´s Sons, 1940), pág. 64ff, 96ff. O escolasticismo reduziu a “teologia negativa” a mero catafaticismo corretivo. Para os Padres, porém, a abordagem apofática era algo normal, e até mesmo os nomes das Pessoas eram compreendidas negativamente. “Declaramos que Deus Pai, aquele que não tem princípio, não é o Filho, nem o Espírito; e o Filho gerado não é nem o Pai, nem o Espírito; e o Espírito Santo ‘que procede do Pai” não é nem o Pai, nem o Filho” (São Gregório, o Teólogo, Ora XXXI, 9, PG 36, 141d-144a).
[3] De Fid. Orth. I, 3.
Fonte:
Introdução de On the Mystagogy of the Holy Spirit, de São Fócio, o Grande, tradução do Mosteiro da Santa Transfiguração, Studion Publishers, 1983, pág. 20-22, 26
Mistagogia do Espírito Santo
Introdução
A “Mistagogia do Espírito Santo” é uma obra clássica de São Fócio, o Grande, que refuta a doutrina do Filioque e defende a processão do Espírito Santo exclusivamente do Pai. Este texto é considerado um marco na teologia cristã ortodoxa, abordando a distinção e a unidade das hipóstases divinas na Santíssima Trindade. Ao longo de sua exposição, São Fócio responde de forma rigorosa às controvérsias doutrinárias de sua época, demonstrando profundo conhecimento das Escrituras e da Tradição.
Este livro busca apresentar o texto original em uma linguagem acessível e organizada, dividido em seções que refletem a estrutura dos argumentos do autor:
- Declarações sobre a Processão do Espírito Santo
- Refutação das Heresias relacionadas ao Filioque
- A Doutrina Ortodoxa da Processão
- Testemunhos Patrísticos e Sinodais
- Conclusões e Reflexões Finais
1: Declarações sobre a Processão do Espírito Santo
“Assim como o Filho é gerado apenas do Pai, da mesma forma, a teologia apropriada sobre o Espírito Santo é que Ele procede de uma e da mesma causa.”
São Fócio inicia sua obra enfatizando as bases escriturísticas e dogmáticas da processão do Espírito Santo. Ele destaca que a teologia cristã ortodoxa, conforme ensinada pelo próprio Cristo e confirmada pelos Concílios Ecumênicos, afirma que o Espírito procede do Pai. Essa doutrina é fundamental para preservar a simplicidade e a unidade da Trindade, sem confundir ou dividir as hipóstases.
2: Refutação das Heresias relacionadas ao Filioque
“Rejeitando o que é claro nas Escrituras, inventam uma fábula de que o Espírito procede do Filho.”
Neste capítulo, São Fócio refuta vigorosamente a inserção do Filioque no Credo, analisando suas implicações teológicas e as contradições que ele introduz na doutrina trinitária. Ele aponta os perigos de atribuir ao Filho a causalidade do Espírito, argumentando que isso leva a uma confusão entre as propriedades únicas de cada hipóstase.
3: A Doutrina Ortodoxa da Processão
“Cada hipóstase da Trindade tem propriedades específicas e únicas.”
Aqui, o autor explica detalhadamente a distinção entre geração e processão, afirmando que o Filho é gerado pelo Pai, enquanto o Espírito Santo procede do Pai. Ele demonstra que essa distinção é essencial para preservar a integridade da fé cristã e evitar inovações doutrinárias que comprometam a simplicidade divina.
4: Testemunhos Patrísticos e Sinodais
“Quem de nossos sagrados e renomados Pais disse que o Espírito procede do Filho?”
São Fócio recorre aos Pais da Igreja e aos Concílios Ecumênicos para confirmar a ortodoxia da doutrina da processão. Ele cita extensivamente as declarações patrísticas que rejeitam o Filioque e reafirmam a fé na processão única do Pai, defendida por séculos pela Igreja.
5: Conclusões e Reflexões Finais
“A Igreja Católica e Apostólica acredita com toda a mente na doutrina imutável da Santíssima Trindade.”
O autor conclui sua obra com uma defesa apaixonada da fé ortodoxa, exortando os leitores a rejeitarem as inovações heréticas e a permanecer firmes na doutrina ensinada pelos apóstolos e pelos santos. Ele reafirma que a comunhão na Trindade é inefável e que as propriedades específicas de cada hipóstase devem ser respeitadas para manter a integridade da fé cristã.
Nota do editor: Este texto foi adaptado para fins de publicação em formato de livro, buscando facilitar a leitura e o estudo da obra. Mantivemos a fidelidade ao conteúdo original, preservando seu valor teológico e histórico.


