Forma breve (séc. II)

Este texto trata-se de uma versão latina muito antiga, que não se apóia no texto cristão da Didaqué, mas no texto grego de uma doutrina judaica tardia das duas vias; concepções paralelas se refletem, outrossim, na literatura sapiencial, bem como nos escritos rabínicos e nos manuais da seita de Qumran.

A tradução latina inicia-se com o título cristão “De doctrina apostolorum” e termina com uma doxologia trinitária. O próprio texto, contudo, não foi elaborado de novo por mãos cristãs. Já antes dessa versão latina, vários estudiosos haviam admitido a existência de um original judaico, como fonte da Didaqué 1-6; a “Doctrina” só vem a confirmar tal opinião.

O escrito pode ser datado entre o séc. I e II.

Fonte: B.Altaner/A.Stuiber, Patrologia. ed. Paulinas, pp. 89/91.

I.

1 Existem dois caminhos no mundo: o da vida e o da morte; o da luz e o das trevas. Neles foram estabelecidos dois anjos: o da justiça e o da iniqüidade. Porém, grande é a diferença entre esses dois caminhos. 2 Este é o caminho da vida: em primeiro lugar, deves amar ao Deus eterno que te criou; em segundo lugar, [deves amar] o teu próximo como a ti mesmo; assim, tudo o que não quiserdes que seja feito contigo, não o farás a outro. 3 A explicação destas palavras é a que segue.

II.

12 Não cometerás adultério; não matarás; não prestarás falso testemunho; não violarás a criança; não fornicarás; não praticarás a magia; não fabricarás poções; não matarás a criança mediante aborto, nem matarás o recém-nascido; não cobiçarás nada do teu próximo. 3 Não proferirás perjúrios; não falarás mal, nem recordarás das más-ações. 4 Não darás mal conselho, nem teu linguajar terá duplo sentido, pois a língua é uma armadilha para a morte. 5Tua palavra não será vã, nem enganosa. 6 Não serás ambicioso, nem avarento, nem voraz, nem adulador, nem parcial, nem de maus costumes; não admitirás que se crie uma armadilha para o teu próximo. 7 Não odiarás a qualquer homem, mas o amareis mais que a tua própria vida.

III.

1. Filho: afasta-te do homem mal e do homem falso.

2. Não sejas irado porque a ira conduz ao homicídio, nem desejes a maldade e a paixão pois disto tudo nasce a ira.

3. (…)

4. Não sejas astrólogo, nem purificador, pois estas coisas conduzem à vã superstição; nem sequer desejes ver ou ouvir estas coisas.

5. Não sejas mentiroso porque a mentira conduz ao roubo; nem amante do dinheiro, nem da vadiagem, pois de tudo isto nascem os roubos.

6. Não sejas murmurador porque isto conduz à difamação; não sejas temerário, nem penses mal, pois de tudo isto nascem as difamações.

7. Ao contrário, sê manso, porque os mansos possuirão a terra santa.

8. Sê também paciente em teu trabalho; sê bom e temeroso de todas as palavras que escutas.

9. Não te enaltecerás nem te gloriarás perante os homens, nem infundirás a soberba na tua alma; não te unirás em espírito com os orgulhosos, mas te juntarás aos justos e humildes.

10. Receberás como bem as coisas adversas que te ocorrerem, sabendo que nada ocorre sem Deus.

 

IV.

1 Daquele que te ensina a palavra do Senhor Deus, te recordarás dia e noite. O respeitarás como ao Senhor, pois onde se apresentam as coisas relativas ao Senhor, ali está o Senhor.

2 Assim pois, busca o rosto dos santos, para que te entretenhas nas suas palavras.

3 Não causes divisões, mas põe paz entre os que se desentendem; julga retamente sabendo que também tu serás julgado; não derrubarás ninguém em desgraça.

4 Não terás dúvidas se será ou não verdadeiro.

5 Não sejas como aqueles que estendem a mão para receber e encolhem para dar.

6 Sim, graças às tuas mãos, tens a redenção dos pecados; não terás dúvidas ao dar, sabendo quem será o remunerador dessa recompensa.

7 Não te desviarás do necessitado, mas compartilharás todas as coisas com teus irmãos e não dirás que sãos tuas. Se somos coparticipes no imortal, quanto mais devemos iniciá-lo já, a partir daqui? Eis que o Senhor quer dar a todos os Seus dons.

8 (…)

9 Não afastarás as tuas mãos dos teus filhos, mas desde a juventude lhes ensinarás o temor a Deus.

10 A teu servo ou a tua serva, que esperam no mesmo Senhor, não os obrigarás, com ira, que venham a temer ao Senhor e a ti, pois Ele não veio para discriminar pessoas, mas para aqueles em quem encontrou um espírito humilde.

11 Vós, servos, permanecei submissos aos vossos senhores como a Deus, com pudor e temor.

12 Odiarás toda hipocrisia e não farás o que não agrada a Deus.

13  Assim, pois, guarda, filho, o que tens ouvido e não lhe acrescentes coisas contrárias, nem as reduza. 14 Não te cerques da oração cm maus propósitos. Este é o caminho da vida.

 

V.

1 Por outro lado, o caminho da morte é contrário àquele. Para começar, é mau e cheio de maldições: adultérios, homicídios, falsos testemunhos, fornicações, maus desejos, atos mágicos, poções malditas, roubos, vãs superstições, furtos, hipocrisias, repugnâncias, malícia, petulância, cobiça, linguajar imoral, inveja, ousadia, soberba, orgulho, vaidade.

2 Os que não temem a Deus, os que perseguem os justos, os que odeiam a verdade, os que amam a mentira, os que não conhecem a recompensa da verdade, os que não se aplicam ao bem, os que não têm um reto juízo, os que não cuidam pelo bem mas pelo mal…

3 … dos quais se esgota a paciência e cerca a soberba – os que perseguem aos remuneradores, os que não se compadecem do pobre, os que não se afligem com o aflito, os que não conhecem a seu Criador, os que assassinam os seus filhos, os que cometem o aborto, os que se afastam das boas obras, os que oprimem o trabalhador, os que se esquivam do conselho dos justos: Filho, afasta-te de todos estes!

VI.

1 E vigia para que ninguém te afaste desta doutrina; do contrário, serás considerado sem disciplina.

2 (…)

3 (…)

4 Se a cada, com cuidado, fizeres estas coisas, estarás próximo do Deus vivo; se não o fizeres, estarás longe da verdade.

5 Põe todas estas coisas em teu espírito e não perderás a tua esperança; ao invés, por estes santos combates, chegarás à coroa.

6 Por Jesus Cristo, o Senhor que reina e é Senhor com Deus Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.

Fonte: Agnus Dei
Trad.: Carlos Martins Nabeto

A DIDAKÉ

(entre 60-120 d.C.)

«Que a Vossa Igreja se congregue de todas as extremidades da terra no Vosso Reino.» 

Catequese Judeu-Cristã (§9-10)

Acerca da Eucaristia, dai graças com estas palavras:

Primeiramente, sobre o cálice:

«Nós Vos damos graças, ó Pai, pela santa vinha de Davi, Vosso servo, que nos revelastes por Jesus, Vosso Filho. A Vós, glória pelos séculos sem fim. Amém!»

Depois, sobre o pão partido:

«Nós Vos damos graças, ó Pai, pela vida e pelo conhecimento que nos concedestes por Jesus, Vosso Filho. A Vós, glória pelos séculos! Assim como este pão, outrora espalhado pelos campos, foi recolhido para tornar-se um só, assim também a Vossa Igreja se congregue de todas as extremidades da terra no Vosso Reino. A Vós, glória e poder pelos séculos. Amém!»

Que ninguém coma ou beba da Vossa Eucaristia sem antes ter sido batizado em nome do Senhor.

Depois de saciados, dai graças assim:

«Nós Vos damos graças, Pai Santo, pelo Vosso nome que fizestes habitar em nossos corações, e pelo conhecimento, pela fé e pela imortalidade que nos concedestes por Jesus, Vosso Filho. A Vós, glória pelos séculos sem fim. Amém!»

«Fostes Vós, Senhor Todo-Poderoso, que criastes o universo para a glória do Vosso nome. Vós destes aos homens os prazeres do alimento e da bebida, para que Vos rendam graças. Mas a nós, concedestes um alimento e uma bebida espirituais para a vida eterna, por Jesus, Vosso Filho.»

«Reunidos dos quatro ventos para o banquete de Deus»

(§9,10,14)

A propósito da Eucaristia, rendei graças assim:

Primeiramente, pelo cálice:

«Nós Te damos graças, ó nosso Pai, pela santa vinha de Davi, Teu servo, que nos revelaste por Jesus, Teu Filho. Glória a Ti pelos séculos!»

Depois, pelo pão partido:

«Nós Te damos graças, ó Pai, pela vida e pelo conhecimento que nos revelaste por Jesus, Teu Filho. Glória a Ti pelos séculos! Tal como este pão, outrora trigo disperso sobre os montes, foi recolhido para tornar-se um só, assim também a Tua Igreja seja reunida das extremidades da terra no Teu Reino! Pois a Ti pertencem a glória e o poder pelos séculos!»

Depois de saciados, rendei graças assim:

«Nós Te damos graças, ó Pai Santo, pelo Teu santo nome, que fizeste habitar em nossos corações, e pelo conhecimento, pela fé e pela imortalidade que nos revelaste por Jesus, Teu Filho. Glória a Ti pelos séculos! Foste Tu, Senhor Todo-Poderoso, que criaste o universo, para a glória do Teu nome. Tu deste em abundância alimento e bebida aos filhos dos homens, mas a nós concedeste a graça de um alimento espiritual e de uma bebida para a vida eterna por Jesus, Teu Filho. Acima de tudo, damos-Te graças porque és poderoso. Glória a Ti pelos séculos!»

Oração pela Igreja:

«Lembra-Te, Senhor, da Tua Igreja, livra-a do mal, torna-a perfeita no Teu amor. Reúne-a dos quatro ventos, essa Igreja santificada, no Teu Reino, que lhe preparaste. Pois a Ti pertencem o poder e a glória pelos séculos!»

A espera do Senhor:

«Que venha o Senhor” (Ap 22,20), e que este mundo passe! Hosana à casa de Davi! Aquele que é santo, que se aproxime. Aquele que não o é, que faça penitência. «Marana Tha!» (1Cor 16,22). Amém.»