1. Vida

Santo Ireneu foi discípulo de São Policarpo, que por sua vez foi discípulo do Apóstolo São João.

As obras literárias de Santo Ireneu lhe valeram a dignidade de figurar proeminentemente entre os Padres da Igreja, pois seus escritos não apenas serviram para estabelecer os fundamentos da teologia cristã, mas também para expor e refutar os erros dos gnósticos, salvando assim a fé católica do grave perigo de se contaminar e corromper pelas insidiosas doutrinas daqueles hereges.

1.1 - Infância e estudos

Nada se sabe sobre sua família. Provavelmente nasceu por volta do ano 125, em uma das províncias marítimas da Ásia Menor, onde ainda se conservava com carinho a memória dos Apóstolos entre os numerosos cristãos. Sem dúvida, recebeu uma educação muito esmerada e liberal, pois somava aos seus profundos conhecimentos das Sagradas Escrituras uma completa familiaridade com a literatura e a filosofia dos gregos. Teve, além disso, o inestimável privilégio de sentar-se entre alguns dos homens que conheceram os Apóstolos e seus primeiros discípulos, para ouvir suas conversas. Entre esses, figurava São Policarpo, que exerceu grande influência na vida de Ireneu. Certamente, foi tão profunda a impressão que o santo bispo de Esmirna causou nele que, muitos anos depois, como confessava a um amigo, podia descrever com riqueza de detalhes a aparência de São Policarpo, as inflexões de sua voz e cada uma das palavras que pronunciava ao relatar seus encontros com São João, o Evangelista, e outros que conheceram o Senhor, ou ao expor a doutrina que haviam aprendido deles. São Gregório de Tours afirma que foi São Policarpo quem enviou Ireneu como missionário para as Gálias, mas não há provas para sustentar essa afirmação.

1.2 - Sacerdócio

Desde tempos muito remotos, existiam relações comerciais entre os portos da Ásia Menor e o de Marselha, e, no século II da nossa era, os comerciantes levantinos transportavam regularmente mercadorias pelo rio Ródano até a cidade de Lyon, que, consequentemente, se tornou o principal mercado da Europa ocidental e a cidade mais populosa das Gálias. Junto com os mercadores asiáticos, muitos dos quais se estabeleceram em Lyon, vieram seus sacerdotes e missionários, que levaram a palavra do Evangelho aos gauleses pagãos e fundaram uma vigorosa igreja local. Foi para essa igreja que Santo Ireneu chegou para servir como sacerdote, sob a jurisdição de seu primeiro bispo, São Potino, que também era oriental, e lá permaneceu até sua morte. A boa opinião que seus irmãos de religião tinham dele ficou evidente no ano de 177, quando foi enviado a Roma com uma missão delicadíssima. Isso ocorreu após o início da terrível perseguição de Marco Aurélio, quando São Potino foi preso em 2 de junho, e muitos dos líderes do cristianismo em Lyon já estavam encarcerados. Seu cativeiro, porém, não os impediu de manter o interesse pelos fiéis cristãos da Ásia Menor. Conscientes da simpatia e admiração que sua situação de confessores em iminente perigo de morte despertava entre a cristandade, enviaram ao Papa São Eleutério, por meio de Ireneu, “a mais piedosa e ortodoxa das cartas”, com um apelo ao Pontífice, em nome da unidade e da paz da Igreja, para que tratasse com suavidade os irmãos montanistas da Frígia. Além disso, recomendavam o portador da missiva como um sacerdote “animado por um zelo veemente para dar testemunho de Cristo” e um amante da paz, como indicava seu nome.

1.3 - Episcopado

O cumprimento daquela missão que o ausentou de Lyon explica por que Ireneu não foi chamado a compartilhar o martírio de São Potino e seus companheiros. Não sabemos quanto tempo permaneceu em Roma, mas, assim que retornou a Lyon, ocupou a sede episcopal que São Potino havia deixado vaga. Naquela época, a perseguição já havia terminado, e os vinte ou mais anos de seu episcopado foram de relativa paz. As informações sobre suas atividades são escassas, mas é evidente que, além de seus deveres puramente pastorais, ele trabalhou intensamente na evangelização de sua região e das adjacentes. Aparentemente, foi ele quem enviou os Santos Félix, Fortunato e Aquileo como missionários para Valence, e os Santos Ferrucio e Ferreolo para Besançon. Para indicar até que ponto ele se identificou com seu rebanho, basta dizer que falava fluentemente o celta em vez do grego, que era sua língua materna.

1.4 - Luta contra o gnosticismo

A propagação do gnosticismo nas Gálias e o dano que causava nas fileiras do cristianismo inspiraram no bispo Ireneu o desejo de expor os erros dessa doutrina para combatê-la. Ele começou estudando seus dogmas, o que já era uma tarefa muito difícil, pois cada um dos gnósticos parecia inclinado a introduzir novas versões próprias na doutrina. Felizmente, Santo Ireneu era um investigador minucioso e infatigável em todos os campos do saber, como nos diz Tertuliano, e, portanto, superou esse obstáculo sem maiores dificuldades e até com certo prazer. Uma vez imerso nas ideias do “inimigo”, ele começou a escrever um tratado em cinco livros, na primeira parte do qual expôs completamente as doutrinas internas das diversas seitas para depois contradizê-las com os ensinamentos dos Apóstolos e os textos das Sagradas Escrituras.

Há um bom exemplo do método de combate que ele seguiu na parte em que trata do ponto doutrinal dos gnósticos de que o mundo visível foi criado, conservado e governado por seres angelicais e não por Deus, que, sem participação, permaneceria eternamente desligado do mundo, superior e indiferente. Ireneu expõe a teoria, desenvolve-a até chegar à sua conclusão lógica e, por meio de uma eficaz *reductio ad absurdum*, demonstra sua falsidade. Ireneu expressa a verdadeira doutrina cristã sobre a estreita relação entre Deus e o mundo que Ele criou nos seguintes termos: “O Pai está acima de tudo e Ele é a cabeça de Cristo; mas através do Verbo todas as coisas foram feitas, e Ele mesmo é o chefe da Igreja, enquanto Seu Espírito está em todos nós; Ele é aquela água viva que o Senhor dá àqueles que creem nEle e O amam, porque sabem que há um Pai acima de todas as coisas, através de todas as coisas e em todas as coisas.”

Ireneu se preocupa mais em converter do que em confundir e, portanto, escreve com estudada moderação e cortesia, mas, de vez em quando, deixa escapar comentários humorísticos. Ao se referir, por exemplo, à atitude dos recém-“iniciados”, ele diz: “Assim que um homem se deixa atrair por seus ‘caminhos de salvação’, ele se dá tanta importância e se enche de vaidade a tal ponto que já não se imagina estar no céu ou na terra, mas ter passado para as regiões do Pleroma e, com o porte majestoso de um galo, se pavoneia diante de nós, como se tivesse acabado de abraçar seu anjo.” Ireneu estava firmemente convencido de que grande parte do apelo do gnosticismo estava no véu de mistério com que gostava de se envolver e, de fato, havia tomado a decisão de “desmascarar a raposa”, como ele mesmo diz. E, certamente, ele conseguiu: suas obras, escritas em grego, mas traduzidas para o latim quase imediatamente, circularam amplamente e não demoraram a dar o golpe de morte nos gnósticos do século II. Pelo menos, a partir de então, eles deixaram de constituir uma séria ameaça para a Igreja e a fé católica.

1.5 - Reconciliador perante o Papa

O fato de ele lutar contra as heresias não significa que fosse intransigente. Pelo contrário. Treze ou catorze anos depois de ter viajado a Roma com a carta para o Papa Eleutério, foi novamente Ireneu o mediador entre um grupo de cristãos da Ásia Menor e o Pontífice. Diante da recusa dos quartodecimanos em celebrar a Páscoa de acordo com o costume ocidental, o Papa Vítor I os havia excomungado e, consequentemente, havia o perigo de um cisma. Ireneu interveio em seu favor. Em uma carta belamente escrita que dirigiu ao Papa, ele suplicou que o castigo fosse levantado e apontou que seus defendidos não eram realmente culpados, mas se apegavam a um costume tradicional e que uma diferença de opinião sobre o mesmo ponto não havia impedido que o Papa Aniceto e São Policarpo permanecessem em amigável comunhão. O resultado de sua embaixada foi o restabelecimento das boas relações entre as duas partes e de uma paz que não foi quebrada. Após o Concílio de Niceia, em 325, os quartodecimanos acataram voluntariamente o uso romano, sem qualquer pressão por parte da Santa Sé.

1.6 - Sua morte e veneração

A data da morte de Santo Ireneu é desconhecida, embora, em geral, seja estimada no ano 202. De acordo com uma tradição posterior, afirma-se que ele foi martirizado, mas isso não é provável e não há evidências sobre o assunto.

Os restos mortais de Santo Ireneu, como indica Gregório de Tours, foram sepultados em uma cripta, sob o altar da então chamada igreja de São João, mas mais tarde ela recebeu o nome de Santo Ireneu. Esse túmulo ou santuário foi destruído pelos calvinistas em 1562 e, aparentemente, desapareceram até os últimos vestígios de suas relíquias. É digno de nota que, embora a festa de Santo Ireneu seja celebrada desde tempos muito antigos no Oriente (em 23 de agosto), só a partir de 1922 ela passou a ser observada na Igreja do Ocidente.

2. Obras

Nada chegou até nós que possa ser chamado de uma biografia da época sobre Santo Ireneu, mas há, em contrapartida, abundante literatura sobre o importante papel que ele desempenhou como testemunha das antigas tradições e como mestre das crenças ortodoxas.

Seu tratado contra os gnósticos chegou até nós completo em sua versão latina.

Em 1904, foi descoberta a existência de outro escrito seu: a exposição da pregação apostólica, traduzida para o armênio. A obra era até então conhecida como “Prova da Pregação Apostólica”. Trata-se, sobretudo, de uma comparação das profecias do Antigo Testamento e, desse escrito, não se obtêm informações novas em relação ao espírito e aos pensamentos do autor.

Apesar de o resto de suas obras ter desaparecido, os dois trabalhos mencionados são suficientes para fornecer todos os elementos de um sistema completo de teologia cristã.

Santo Ireneu, fundamentando-se em São Paulo e em seu conhecimento dos ensinamentos apostólicos, ensinava o paralelismo Adão-Jesus Cristo; Eva-Maria.

Do Tratado de Santo Ireneu, Bispo, contra as heresias (Livro 5, 19, 1; 20, 2; 21, 1: SCh 153, 248-250. 260-264).

2.1 - Eva e Maria

O Senhor veio e se manifestou em uma verdadeira condição humana que O sustentava, sendo, por sua vez, essa humanidade sustentada por Ele, e, mediante a obediência na árvore da cruz, realizou a expiação da desobediência cometida em outra árvore, ao mesmo tempo em que liquidava as consequências daquela sedução com a qual a virgem Eva, já destinada a um homem, havia sido vilmente enganada, graças à verdade que o Anjo anunciou à Virgem Maria, também prometida a um homem.

Pois, assim como Eva, seduzida pelas palavras do diabo, se afastou de Deus, desobedecendo ao Seu mandamento, Maria foi evangelizada pelas palavras do Anjo, para levar Deus em seu ventre, graças à obediência à Sua palavra. E se aquela se deixou seduzir para desobedecer a Deus, esta se deixou persuadir a obedecer-Lhe, de modo que a Virgem Maria se tornou advogada da virgem Eva.

Assim, ao recapitular todas as coisas, Cristo foi constituído cabeça, pois declarou guerra ao nosso inimigo, derrotou aquele que, no princípio, por meio de Adão, nos havia feito prisioneiros, e quebrou sua cabeça, como encontramos dito por Deus à serpente no Gênesis: “Estabelecerei hostilidades entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela; ela te ferirá na cabeça, quando tu a ferires no calcanhar.”

Com essas palavras, proclama-se de antemão que Aquele que havia de nascer de uma virgem e ser semelhante a Adão quebraria a cabeça da serpente. E essa descendência é a mesma de que fala o Apóstolo em sua carta aos Gálatas: “A lei foi acrescentada até que viesse o descendente beneficiário da promessa.”

E ele expressa isso ainda mais claramente em outro lugar da mesma carta, quando diz: “Mas, quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de uma mulher.” Pois o inimigo não teria sido derrotado com justiça se seu vencedor não fosse um homem nascido de mulher. Já que, por uma mulher, o inimigo havia dominado o homem desde o princípio, colocando-se contra ele.

Por essa razão, o próprio Senhor se confessa Filho do homem e recapitula em Si mesmo aquele homem primordial do qual foi feita aquela forma de mulher: para que, assim como nossa raça desceu à morte por causa de um homem vencido, ascendamos da mesma forma à vida graças a um homem vencedor.

Do Tratado de Santo Ireneu, Bispo, contra as heresias
(Livro 3, 20, 2-3: SCh 34, 342-344)

2.2 - A economia da encarnação redentora

A glória do homem é Deus; o homem, por sua vez, é o receptáculo da ação de Deus, de toda a Sua sabedoria e poder.

Assim como os enfermos demonstram quem é o médico, os homens manifestam quem é Deus. Por isso, Paulo também diz: “Pois Deus encerrou a todos na desobediência para usar de misericórdia para com todos.” Isso ele diz do homem, que desobedeceu a Deus e foi privado da imortalidade, mas depois alcançou misericórdia e, graças ao Filho de Deus, recebeu a filiação que é própria dEle.

Se o homem acolhe sem vaidade nem jactância a verdadeira glória que procede de tudo o que foi criado e dAquele que o criou, que não é outro senão o Deus poderosíssimo que faz tudo existir, e se permanece no amor, na submissão e na ação de graças a Deus, receberá dEle ainda mais glória, assim como um aumento de seu próprio ser, até se tornar semelhante àquele que morreu por ele.

Porque o Filho de Deus se encarnou em uma carne pecadora como a nossa, a fim de condenar o pecado e, uma vez condenado, expulsá-lo da carne. Ele assumiu a carne para incitar o homem a se tornar semelhante a Ele e para propor-lhe Deus como modelo a ser imitado. Ele impôs a obediência ao Pai para que o homem chegasse a ver a Deus, dando-lhe assim o poder de alcançar o Pai.

A Palavra de Deus, que habitou no homem, também se fez Filho do homem, para habituar o homem a perceber a Deus, e a Deus a habitar no homem, segundo o beneplácito do Pai.

Por essa razão, o próprio Senhor nos deu como sinal de nossa salvação Aquele que é Deus-conosco, nascido da Virgem, pois era o próprio Senhor quem salvava aqueles que não tinham possibilidade de se salvar por si mesmos; por isso, Paulo, ao se referir à fraqueza humana, exclama: “Sei que não é bom isso que habita em minha carne”, dando a entender que o bem de nossa salvação não provém de nós, mas de Deus; e acrescenta: “Desgraçado de mim! Quem me livrará deste corpo sujeito à morte?” Depois disso, ele se refere ao libertador: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo.”

Também Isaías diz o mesmo: “Fortalecei as mãos fracas, robustecei os joelhos vacilantes; dizei aos corações tímidos: ‘Sede fortes, não temais.’ Olhai para o vosso Deus, que traz a vingança, Ele mesmo vem e vos salvará; porque devemos ser salvos, não por nós mesmos, mas com a ajuda de Deus.”

2.3 - O paralelo entre Eva-Maria e Adão-Cristo

No Novo Testamento (Rm 5:12-21; 1 Cor 15:21-22), São Paulo apresenta um contraste entre Adão e Jesus Cristo: Todos morremos pelo pecado de Adão, mas todos recuperamos a vida em Jesus Cristo.

2.3.1 Paralelo Adão-Cristo:

ADÃO | CRISTO / NOVO ADÃO

É o primeiro homem criado | É o Primogênito; o primeiro em dignidade.
Desobediência na árvore do paraíso | Obediência na árvore da cruz.

Os Padres da Igreja aprofundaram esse paralelo, em que Jesus Cristo é o Novo Adão, e o aplicaram à Virgem Santíssima, a Nova Eva que, com sua imaculada cooperação, participa da redenção como corredentora.

Santo Ireneu, Padre da Igreja do século II, ensinava esse paralelo. É importante saber que Ireneu foi discípulo de São Policarpo, que por sua vez foi discípulo do Apóstolo São João, de modo que ele estava imerso na doutrina dos Apóstolos. Os escritos mais antigos que existem sobre a colaboração entre Maria e Jesus são de São Justino, que também preparou o caminho para Santo Ireneu.

2.3.2 Paralelo Eva e a Virgem Maria:

EVA | MARIA / NOVA EVA
Era ainda virgem, embora tivesse esposo. | Era virgem, mas casada com José.
Foi seduzida para fazer o mal (mentira). | Recebeu a boa notícia da verdade.
Um anjo a seduziu (anjo caído, demônio). | Um anjo Lhe trouxe a Palavra.
EVA: DESOBEDECEU | MARIA: OBEDECEU
Causa de morte para ela e a raça humana. | Causa de salvação para ela e a raça humana.
Prendeu a liberdade do homem. | Libertou o homem da escravidão.
Sua desobediência veio da falta de fé. | Sua obediência veio de sua fé.
Ao desobedecer, fugiu da presença de Deus. | Ao obedecer, atraiu Deus para seu ventre.
Por uma virgem, a raça humana foi condenada à morte (causa mortis). | Por uma Virgem, a raça humana foi salva (causa salutis).

A tipologia do paralelismo Eva-Maria deu origem à primeira reflexão teológica mariana. Eva e Maria são virgens e mães. Maria, como Nova Eva, toma o paralelismo entre Gn 3:1-6 (tentação) e Lc 1:26-38 (Anunciação).

Fonte: “Vidas dos Santos” de Butler, ed. espanhola | www.corazones.org