Introdução

A palavra “pai” era aplicada ao mestre, e os mestres eram considerados como pais de seus alunos. O ofício de ensinar cabia ao bispo e se estendeu aos escritores eclesiásticos, desde que fossem reconhecidos como representantes da tradição da Igreja.

Hoje, são considerados Pais da Igreja aqueles que reúnem as seguintes condições: ortodoxia na doutrina, santidade de vida, aprovação eclesiástica e antiguidade. Quando esses Pais falam sobre doutrinas, referem-se a elas como doutrinas universalmente aceitas. Nós aceitamos o que eles ensinam porque testemunham que, em seu tempo, todos os cristãos, em todos os lugares, professavam essas doutrinas. Eles nunca falam de opiniões pessoais.

Esses Pais são escritores cristãos do século I ou início do II, cujos ensinamentos podem ser vistos como um eco bastante direto da pregação dos Apóstolos, a quem conheceram pessoalmente. Dá-se a eles grande importância por considerarem a Tradição como fonte da fé.

PAIS APOSTÓLICOS

Terminologia introduzida por estudiosos do século XVII. São considerados Pais Apostólicos: Barnabé, Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna e Hermas, lista que foi posteriormente ampliada com Papias de Hierápolis. Hermas e Barnabé são classificados entre os escritos apócrifos.

Os Pais Apostólicos pertencem à geração imediatamente posterior à dos apóstolos. Seus escritos respondem a exigências concretas das comunidades cristãs em determinado momento, predominando temas morais, disciplinares ou litúrgicos. O conteúdo doutrinal não é muito rico ou profundo, mas insinuam-se as linhas fundamentais que marcariam o pensamento cristão, buscando guiar e edificar os fiéis.

Seus escritos têm caráter pastoral. Por conteúdo e estilo, relacionam-se com os textos do Novo Testamento, especialmente as Epístolas. Podem ser vistos como elos entre a era da revelação e a da tradição, sendo testemunhas importantes para a fé cristã.

Apesar de originários de regiões distintas do Império Romano, apresentam um conjunto uniforme de ideias, oferecendo uma imagem clara da doutrina cristã no final do século I.

É típico desses escritos seu caráter escatológico. A parusia (segunda vinda de Cristo) é considerada iminente. A memória de Cristo é viva, marcada por uma profunda nostalgia por Ele. Apresentam uma doutrina cristológica uniforme: Jesus Cristo, Filho de Deus, preexistente, que participou da criação.

Clemente de Roma (+101)

Terceiro sucessor de São Pedro em Roma, de 88 a 97. Parece ter sido consagrado pelo próprio Pedro. Em prol da paz, renunciou ao pontificado em favor de Lino, reassumindo-o após a morte de Anacleto.

Nada se sabe sobre sua vida anterior. Alguns o identificam com o Clemente colaborador de São Paulo, mencionado em Filipenses, mas não há provas disso, nem de que tenha morrido como mártir.

Muitos dos escritos atribuídos a ele não podem ser considerados autênticos.

Inácio de Antioquia (+110)

Grande personalidade. Segundo bispo de Antioquia, seu episcopado começou após o ano 100.

Foi condenado a ser levado da Síria a Roma para enfrentar as feras durante o reinado de Trajano (98-117). Durante essa transferência, escreveu sete epístolas. Na dirigida aos cristãos de Roma, pede que não interfiram em seu maior desejo: morrer por Cristo.

Tudo o que se sabe dele vem de suas próprias cartas.

Policarpo de Esmirna (+156)

Era altamente estimado por ter sido discípulo dos Apóstolos. Sentava-se aos pés de São João. Bispo de Esmirna, nomeado pelos Apóstolos, teve como discípulos Papias e Ireneu. Em 155, discutiu com o Papa Aniceto sobre a data da Páscoa, refletindo a grande estima que lhe tinham.

Em Roma, encontrou Marcião, que lhe perguntou se o reconhecia. Policarpo respondeu: “Como não reconhecer o primogênito de Satanás?” Afastou muitos da influência de Valentim e Marcião.

Por suas cartas, sabe-se que, no final do século I, os bispos (líderes da comunidade) já se distinguiam dos presbíteros (seus auxiliares, os sacerdotes).

Teve uma vida longa e uma morte exemplar. Durante uma perseguição em Esmirna, morreu como mártir. Uma carta da Igreja de Esmirna à comunidade de Filomélio, de 156, detalha seu martírio, ocorrido pouco após seu retorno de Roma, naquele mesmo ano. Esse relato é o documento mais antigo sobre o martírio de um indivíduo isolado. Assinada por um certo Marcião, foi escrita logo após sua morte. Por ela, compreende-se o significado exato de “martírio”: imitação de Cristo, assemelhar-se a Ele no sofrimento e na morte.

Deles, resta apenas uma carta aos cristãos de Filipos.

Papias de Hierápolis (+ cerca de 125)

Bispo de Hierápolis, Frígia, Ásia Menor. Ouviu São João pregar e foi amigo de Policarpo de Esmirna. Defendeu o milenarismo. Tinha pouco senso crítico na seleção e interpretação de suas fontes e era de inteligência mediana. Introduziu muitos autores cristãos às crenças quiliastas.

Por volta de 130, escreveu um tratado em cinco livros, “Explicação das Sentenças do Senhor”, a primeira obra de exegese dos evangelhos, destacando a importância da tradição oral dos discípulos dos Apóstolos. Suas sentenças vêm da tradição oral, não dos evangelhos. Por ele, conhecem-se dados sobre os autores de dois evangelhos: Marcos e Mateus.

PAIS APOLOGETAS GREGOS

Com esses autores, a literatura da Igreja volta-se ao mundo exterior, não cristão. Foi o primeiro esforço para traduzir o cristianismo às categorias e formas de pensamento do mundo helênico.

Não se podia deixar sem resposta os insultos, calúnias, mentiras, superstições e fanatismo dos inimigos do cristianismo, como Luciano de Samósata, Frontão de Cirta e Celso.

Os Pais apologetas gregos refutaram as calúnias e a acusação de que a Igreja representava um perigo ao Estado. Descreveram o modo de vida sério, austero, casto e honrado dos cristãos, afirmando que a fé era uma força essencial para a manutenção e o bem-estar do mundo, indispensável à civilização. Expuseram o absurdo e a imoralidade do paganismo, argumentando que só o cristão tem uma ideia correta de Deus e do universo. Defenderam os dogmas da unidade de Deus (monoteísmo), a divindade de Cristo e a ressurreição do corpo.

Demonstraram que a filosofia, baseada apenas na razão humana, não alcançara a verdade, enquanto o cristianismo possui a verdade absoluta, uma filosofia divina, superior à filosofia grega.

Esses Pais lançaram as bases da ciência de Deus, sendo os primeiros teólogos da Igreja. Por suas obras, o helenismo foi mais cristianizado do que o cristianismo helenizado.

Quadrato (século II)

O apologista cristão mais antigo. Conhecido por Eusébio. Escreveu uma apologia dirigida ao imperador Élio Adriano, em 123-124 ou 129, da qual resta apenas um fragmento.

Aristides de Atenas (meados do século II)

Filósofo de Atenas. Dirigiu uma apologia da fé a Adriano (117-138) ou Antonino Pio (138-161), de perspectiva limitada, com estilo simples, nobreza e tom elevado.

Ariston de Pella (século II)

Primeiro apologista cristão a defender por escrito o cristianismo contra o judaísmo. Sua apologia data de 140. Celso a atacou, e Orígenes a defendeu.

Justino (100-165)

Nascido em Siquém, Samaria, de pais pagãos. Antes de converter-se, foi discípulo de pitagóricos, estoicos e platônicos, interpretando suas doutrinas sob a ótica cristã.

É o apologista grego mais importante do século II. Nenhuma escola filosófica o convenceu. A busca pela verdade o levou ao cristianismo, aos profetas – únicos a anunciar a verdade – e a Cristo. Após a conversão, provavelmente em Éfeso, dedicou a vida à defesa da fé cristã, viajando como pregador itinerante. Chegou a Roma em 143, onde fundou uma escola, tendo Taciano como discípulo. Escreveu sua primeira apologia pouco após 150.

Há um relato autêntico de seu martírio por decapitação.

Foi o primeiro escritor eclesiástico a tentar unir cristianismo e filosofia pagana. Introduziu uma concepção que influenciaria o subordinacionismo e o arianismo. Sincero e reto, foi um escritor fecundo e atraente, mas apenas três de suas apologias contra os pagãos chegaram até nós.

Taciano (século II)

Nascido na Síria, de família pagana. Discípulo de Justino. Após longa busca, concluiu que a doutrina cristã era a única filosofia verdadeira. Converteu-se em Roma, frequentando a escola de Justino, com quem apresenta contrastes evidentes em seus escritos. Atacou o politeísmo e a filosofia pagana.

De caráter violento e hábil sofista, voltou ao Oriente por volta de 172. Fundou a seita gnóstica dos encratitas (abstinentes). Não há dados sobre sua morte.

Milcíades (século II)

Nascido na Ásia Menor. Contemporâneo de Taciano e, possivelmente, discípulo de Justino. Todas as suas obras se perderam. Por Eusébio, sabe-se que escreveu contra pagãos, hereges e gnósticos.

Apolinar de Hierápolis (século II)

Bispo de Hierápolis, cidade de Papias, entre 160-180. Combateu montanistas e encratitas. Conhecido por Eusébio, pois nenhuma de suas obras se conservou.

Atenágoras de Atenas (século II)

Contemporâneo de Taciano. O mais eloquente dos apologetas cristãos primitivos. Cita poetas e filósofos. Refutou acusações de que os cristãos fossem ateus, canibais ou praticassem uniões incestuosas.

Quase nada se sabe de sua vida, sendo mencionado apenas uma vez na literatura cristã antiga. Entre 176 e 180, escreveu uma apologia dirigida aos imperadores Marco Aurélio e Cômodo.

Teófilo de Antioquia (+ cerca de 186)

Por suas obras, deduz-se que nasceu perto do Eufrates, de família pagana. Recebeu educação helenista e converteu-se ao cristianismo em idade madura, após estudar as Escrituras.

Sexto bispo de Antioquia da Síria. Três de seus livros foram preservados.

Melitão de Sardes (+ antes de 190)

Pouco se sabe de sua vida. Eunuco. Bispo de Sardes, na Lídia. Escreveu sobre temas variados. Na segunda metade do século II, escreveu uma apologia dirigida a Marco Aurélio (161-180), quase totalmente preservada. Foi o primeiro a defender a solidariedade do cristianismo com o Império.

Epístola a Diogneto (final do século II, início do III)

Apologia do cristianismo em forma de carta a Diogneto, uma personalidade pagana que pede a um amigo cristão informações sobre sua religião, exortando-o a aceitá-la. Não se sabe mais sobre autor ou destinatário, que poderia ser o tutor de Marco Aurélio.

O autor, mestre em retórica, usou obras de Ireneu. Suspeita-se que possa ser Hipólito de Roma, o que dataria a obra no início do século III.

Não resta nenhum manuscrito original. É considerada a obra mais bela e bem composta da literatura apologética.

Hermas (século II)

Hermas parece ser um pseudônimo. O Fragmento Muratoriano diz que escreveu “O Pastor” quando seu irmão era bispo de Roma.

Vendido como escravo muito jovem e levado a Roma, foi comprado por uma mulher chamada Rode. De origem judaica ou formado nessa tradição, fala de sua vida rural, de sua família, de filhos que apostataram durante a perseguição, traindo os pais, e de sua esposa falante. Deduz-se que era sério, piedoso e de consciência reta, firme na perseguição. A maioria dos estudiosos considera esses detalhes fictícios.

“O Pastor” não pertence aos Pais, mas é um pseudoapocalipse escrito por volta de 140 ou 150. Em 200, sua inclusão no cânon foi rejeitada.

Refutação Teológica das Heresias

Essa refutação tinha dois objetivos: expor os erros heréticos e apresentar corretamente os ensinamentos dos Apóstolos e seus sucessores. Muitos tratados foram escritos, mas a maioria se perdeu.

Hegésipo (século II)

Nascido no Oriente, provavelmente um judeu helenista. Viajou a Corinto e Roma durante o pontificado de Aniceto (154-165), permanecendo até o de Eleutério (174-189), para verificar a tradição da verdadeira doutrina diante da expansão alarmante da heresia gnóstica. Ao voltar ao Oriente, publicou uma polêmica contra ela, hoje perdida.

 Ireneu de Lyon (140 ou 160 - ?)

Nascido na Ásia Menor, provavelmente em Esmirna, ouviu Policarpo, que conheceu João Evangelista, conectando-o à era apostólica. Foi às Gálias em 177 como presbítero em Lyon. Viajou a Roma para pedir ao Papa Eleutério que mediasse uma questão sobre o montanismo. Ao retornar, o bispo Fotino morrera mártir, e Ireneu o sucedeu. Uma carta ao Papa Vítor (189-199) é seu último registro histórico. Depois, desaparece.

Administrou sua diocese e combateu as heresias gnósticas com excelentes refutações. Seus escritos em grego, sua língua materna, logo se perderam, restando apenas “Adversus Haereses” (AH), “Demonstração da Ensino Apostólico” e algumas epístolas.

A teologia de Ireneu centra-se na unidade de Deus. Em AH II, I, 1: “… Ele é o único Deus, o único Senhor, o único criador, o único Pai, o único soberano de tudo, que dá existência a todas as coisas… Deus é a totalidade de todas as coisas, contendo tudo em sua infinitude, enquanto nada pode contê-lo.”

As heresias gnósticas negam a criação, segundo AH I, 22, 1: “… há um só Deus todo-poderoso que criou todas as coisas pela sua palavra, do nada… quase todas as heresias desprezam a criação.”

Em AH III, 2, 1, argumenta: “Quando os hereges são confrontados com as Escrituras, atacam-nas, dizendo que estão corrompidas, não autênticas ou incoerentes, alegando que a verdade não pode ser extraída delas sem conhecer a tradição oral… essa tradição vem dos apóstolos e é preservada nas Igrejas pela sucessão dos presbíteros… os hereges opõem-se a ela, dizendo saber mais que os presbíteros e até que os apóstolos, pois encontraram a verdade pura e o mistério oculto.”

Ireneu destaca a dispersão doutrinal das heresias contra a unidade da Igreja, em AH IV, 20, 1ss: “… os hereges desviam-se do caminho e buscam novos rumos… sua doutrina é desordenada e incoerente. Já o caminho da Igreja percorre o mundo, com a tradição segura dos apóstolos: todos têm a mesma fé, creem no mesmo Deus Pai, na encarnação do Filho, no Espírito Santo, seguem os mesmos mandamentos, mantêm as ordenanças e esperam a mesma vinda do Senhor e salvação do homem, corpo e alma… Os hereges seguem caminhos distintos, mudando de opinião sobre as mesmas coisas, buscando sem nunca encontrar a verdade.”

ESCOLA DE ALEXANDRIA

Por volta do ano 200, a literatura eclesiástica tomou nova direção: a sistematização da doutrina cristã. Nenhum escritor cristão havia tentado apresentar a doutrina como um todo de forma sistemática. Assim surgiram as escolas teológicas, primeiro em Alexandria, centro intelectual onde o helenismo nasceu da fusão das culturas oriental, egípcia e grega. Lá, o pensamento grego influenciou a mentalidade hebraica, gerando a tradução dos Setenta e a síntese de Fílon. No final do século I, o cristianismo se estabeleceu na cidade, interagindo com essas culturas.

A Escola de Alexandria é o centro mais antigo das ciências sagradas cristãs. Influenciada por Platão, inclinava-se ao misticismo, aplicando análise metafísica à fé e interpretação alegórica aos textos sagrados. Esse método, usado por gregos e adotado por judeus como Fílon, foi incorporado pelos teólogos cristãos, que viam a interpretação literal como indigna de Deus.

No final do século II, pensadores cristãos de Alexandria desafiaram o domínio cultural dos gnósticos.

Panteno (+200)

Siciliano, primeiro estoico, depois convertido ao cristianismo. Chefe da Escola de Catecúmenos e primeiro diretor da Escola de Alexandria. Viajou por volta de 180 até a Índia. Não se sabe se deixou obras; Marrou sugere que seja o autor da “Epístola a Diogneto”. Foi mestre de Clemente.

Clemente de Alexandria (150-215)

Tito Flávio Clemente nasceu em Atenas, em 150, de pais paganos. Após converter-se, viajou extensamente, chegando a Alexandria, onde foi aluno de Panteno, adotando-a como segunda pátria. Foi discípulo, colaborador e sucessor de Panteno na Escola de Catecúmenos por volta de 200. Não se sabe se foi presbítero. A perseguição de Septímio Severo o forçou a deixar o Egito, refugiando-se na Capadócia, onde morreu sem retornar. A escola se dissolveu após sua fuga.

Uma trilogia sua sobreviveu, revelando sua postura e sistema teológico.

Orígenes (185-253)

Apelidado Adamâncio, sucedeu Clemente na Escola de Alexandria. Filho mais velho de uma família cristã de Alexandria, foi educado por seu pai, Leónides, em Escrituras e ciências profanas. Leónides morreu mártir sob Severo em 202; sua mãe o escondeu para protegê-lo. Com os bens confiscados, Orígenes sustentou a família ensinando.

O bispo Demétrio o nomeou diretor da Escola de Catecúmenos aos 18 anos, atraindo muitos discípulos por sua qualidade e vida ascética. Castrou-se por uma interpretação literal de Mateus 19:12, o que o impedia de ser sacerdote, mas acabou ordenado.

Cometeu erros teológicos, influenciado por Platão (como a preexistência da alma), mas sempre quis ser ortodoxo. Introduziu subjetivismo perigoso na exegese. Em 543, o Concílio de Constantinopla emitiu 15 anátemas contra suas doutrinas.

Sofreu tormentos na perseguição de Décio, morrendo em Tiro aos 69 anos. Viveu em constantes controvérsias, especialmente com Demétrio, o que explica a perda de muitos escritos. Calcula-se que produziu 6.000 obras, das quais 800 títulos sobrevivem, focadas na Bíblia, fundando a ciência escriturística. Tem também obras apologéticas, dogmáticas e correspondência. Sob sua direção, a Escola de Alexandria atingiu o auge.

Orígenes é o mais profundo, original e audaz dos Pais antes de Santo Agostinho.

Dionísio de Alexandria, o Grande (+265)

Discípulo célebre de Orígenes. Bispo de Alexandria de 247 a 265. Escapou da perseguição de Décio, foi exilado sob Valeriano e voltou em 260. Polemizou contra doutrinas heterodoxas. Poucos fragmentos de suas obras sobrevivem.

Teognosto (século III)

Sucedeu Dionísio na Escola de Alexandria (265-282). Sua obra, uma dogmática, seguia Orígenes, especialmente no subordinacionismo.

Pierio (século III)

Sucedeu Teognosto. De vastos conhecimentos filosóficos, foi chamado “Orígenes, o Jovem”. Viveu em extrema pobreza. Presbítero em Alexandria, sofreu na perseguição de Diocleciano e depois foi para Roma.

Pedro de Alexandria (+311)

Diretor da Escola Catequética e bispo de Alexandria por volta de 300. Abandonou sua diocese na perseguição de Diocleciano. Antiorigenista. Restam fragmentos de suas cartas. Morreu mártir.

O bispo Melécio invadiu sua igreja, e Pedro o depôs em um sínodo em 305, desencadeando o cisma meleciano, que durou séculos e foi berço de Ário e seus seguidores.

Alexandre de Jerusalém (+250)

Bispo da Capadócia e depois de Jerusalém. Amigo e protetor de Orígenes, convidou-o a pregar em sua igreja como leigo, o que irritou Demétrio. Parece ter ordenado Orígenes, levando à sua expulsão de Alexandria.

Relacionou-se com Panteno e Clemente. Fundou uma biblioteca. Restam apenas fragmentos de seus escritos.

Atanásio (295-373)

Nascido em Alexandria. Diácono em Niceia. Exilado cinco vezes, sempre voltou. Consolidou linhas principais da teologia. Várias obras suas sobreviveram.

ESCOLA DE CESAREA

Fundada por Orígenes, que a dirigiu por mais de 20 anos, serviu-lhe de refúgio após seu exílio do Egito em 232. Continuou sua obra após sua morte, educando figuras como Gregório, o Taumaturgo, Eusébio de Cesareia e os Capadócios.

Sua decadência começou em 556 com a matança de cristãos por samaritanos. Em 638, os árabes a ocuparam e destruíram sua biblioteca.

ESCOLA DE ANTIOQUIA

Fundada por Luciano de Antioquia em 312, opôs-se à interpretação alegórica de Orígenes, priorizando o texto literal e o estudo histórico-gramatical das Escrituras. Influenciada pelo realismo e empirismo de Aristóteles, foi berço de uma grande tradição exegética. Atingiu seu auge no século IV. Seu discípulo mais notável foi João Crisóstomo; o mais extremista, Teodoro de Mopsuéstia. Seu racionalismo favoreceu herejías, sendo Luciano mestre de Ário.

Gregório, o Taumaturgo (213-275)

Nascido em Neocesareia, de família nobre. Chamado Teodoro, recebeu o nome Gregório no batismo aos 14 anos. Estudou direito e cursos com Orígenes, decisivos em sua vida. Primeiro bispo de sua cidade natal, foi chamado Taumaturgo por lendas milagrosas. Os Capadócios do século IV o veneraram como fundador da Igreja da Capadócia.

Homem de ação, suas obras relacionam-se a seu trabalho pastoral.

Firmiliano de Cesareia (+268)

Contemporâneo de Gregório, conhecido no círculo de Orígenes. Bispo de Cesareia da Capadócia, admirava Orígenes e o convidou a pregar. Enfrentou duas perseguições, evitando confessar sua fé. Teve tensas relações com Roma sobre o batismo de hereges.

Participou dos dois primeiros sínodos de Antioquia, condenando Paulo de Samósata. Resta apenas uma carta sua.

Metódio de Olímpia (+311)

Quase nada se sabe de sua vida. Originário da Lícia, foi um destacado adversário de Orígenes, refutando-o com conhecimento de clássicos gregos e Platão. Provavelmente bispo de Filipos, Macedônia. Morreu mártir.

Poucos escritos seus sobreviveram, mas tiveram notável difusão em sua época.

Júlio Sexto Africano (+ após 240)

Apesar do nome, nasceu em Jerusalém. Oficial do exército de Septímio Severo, tornou-se amigo de Orígenes em Alexandria. Nunca ocupou cargo eclesiástico. Viajante incansável, de formação cultural ampla mas pouco crítica, oferece informações pouco confiáveis.

Seus poucos escritos remanescentes mostram uma tendência milenarista.

Luciano de Antioquia (+312)

Nascido em Samósata, fundou a Escola de Antioquia. Sacerdote, foi preso e morto por sua fé.

Não foi um escritor profundo. Oposto ao alegorismo, é acusado de suceder Paulo de Samósata e precursor do arianismo, sendo mestre de Ário, um adopcionista.

Panfílio de Cesareia (309 ou 310)

Nascido na Fenícia, estudou teologia em Alexandria com Pierio. Ordenado sacerdote, criou uma escola teológica para continuar a tradição de Orígenes, enriquecendo sua biblioteca. Preso, torturado e executado.

Mestre de Eusébio de Cesareia, escreveu uma apologia de Orígenes.

OS ROMANOS

A Igreja Romana não teve papel preponderante no desenvolvimento do pensamento cristão nesse período, sem uma escola comparável às do Oriente. O latim tornou-se sua língua oficial.

Minúcio Félix (século III)

Única apologia do cristianismo escrita em latim e em Roma durante as perseguições.

Hipólito de Roma (+235)

Não era romano nem latino de origem, provavelmente vindo do Oriente. De formação helenista, sobretudo em filosofia grega, relacionado a Alexandria. Dizia-se discípulo de Ireneu. Defendeu a doutrina católica contra herejías, inclinando-se ao subordinacionismo.

Sacerdote e depois bispo romano, foi ouvido por Orígenes em um sermão em 212. Tornou-se o primeiro antipapa, criticando papas, mas voltou à Igreja. Venerado como santo, morreu mártir deportado à Sardenha.

Último autor a usar o grego. Sua produção é comparável à de Orígenes em volume, mas não em profundidade. Um tratado seu é a fonte mais rica para o estudo da liturgia primitiva.

Novaciano (século III)

Possivelmente de origem frígia. Batizado em grave doença, nunca confirmado. Formado em estoicismo, mestre de retórica. Ordenado sacerdote apesar de oposição, alcançou influência no clero romano por volta de 250. Ordenado bispo por imposição inválida, provocou um cisma pessoal, o novacianismo, uma seita puritana que durou séculos. Excomungado por um sínodo romano, desapareceu da história.

Personalidade marcante, talentoso e erudito. Primeiro teólogo romano a escrever em latim culto. Morreu mártir sob Galo ou Valeriano.

OUTROS ESCRITORES DE OCIDENTE, CONTEMPORÂNEOS

Victorino de Petau (+304)

Bispo de Petabio. Morreu mártir na perseguição de Diocleciano. Primeiro exegeta em latim. De formação limitada, conhecia melhor o grego e tinha dificuldade com o latim. Propôs ideias milenaristas.

Retício de Autun (século IV)

Bispo de Autun. Enviado a Roma por Constantino para os concílios de 313 e 314 sobre a controvérsia donatista.

OS AFRICANOS

A Igreja africana surgiu tardiamente (180), mas sua contribuição à literatura e teologia cristãs antigas supera a de Roma, que a evangelizou. Inicialmente, o evangelho foi pregado em grego.

Tertuliano (155 - após 222)

Quinto Septímio Florêncio Tertuliano nasceu em Cartago, de pais paganos. Advogado famoso em Roma, casou-se. Convertido em 193 pelo exemplo dos mártires, voltou a Cartago, servindo à fé cristã. Ordenado sacerdote, aderiu ao montanismo em 207, liderando os tertulianistas até a era de Santo Agostinho. Morreu em idade avançada.

Excetuando Agostinho, foi o mais importante e original autor latino. Conhecia profundamente filosofia, leis, letras latinas e gregas. Polemista incansável contra pagãos, hereges, judeus e católicos, todos seus escritos são combativos.

Cipriano de Cartago (200-258)

Cecílio Cipriano Tascio, nascido em Cartago, de família rica e culta. Retórico habilidoso, converteu-se em 246, impressionado pela imoralidade pagã e pureza cristã, doando sua riqueza aos pobres.

Ordenado sacerdote e, em 248, bispo de Cartago. Na perseguição de Décio (250), escondeu-se, mantendo contato com sua comunidade. Sua fuga gerou controvérsia, mas alegou não abandonar seus deveres. Lidou com os lapsi até reconciliá-los em sua morte.

Em 252, durante uma peste, dedicou-se a aliviar o sofrimento de seu povo. Enfrentou a controvérsia sobre o batismo de hereges, que não devia ser repetido. Desterrado em 257, foi decapitado em 258, primeiro bispo africano mártir.

Como teólogo, depende de Tertuliano.

Arnóbio de Sicca (final do século III)

Pagão, foi ferrenho opositor do cristianismo até converter-se, temendo a morte eterna e desejando a imortalidade. Professor de retórica em Sicca, África, mestre de Lactâncio. Conhecia filósofos gregos e escritores latinos, mas nunca cita autores cristãos, embora use suas obras.

Lactâncio (250-325)

Lúcio Cecílio Firmiano Lactâncio, aluno de Arnóbio, deixou a África quando Diocleciano o chamou em 303 para ensinar retórica latina. Convertido, renunciou à cátedra na perseguição de 303. Em 317, Constantino o nomeou tutor de seu filho, quando estava na miséria.

Escritor elegante, tinha conhecimento limitado de gregos e teologia insuficiente. Muitos manuscritos seus sobrevivem.

Referências Bibliográficas:

  • Johannes QUASTEN: Patrología. Madrid, BAC, 1991
  • José VIVES: Los Padres de la Iglesia. Barcelona, Herder, 1988
  • Enrique CONTRERAS – Roberto PEÑA: Introducción al estudio de los Padres. Período pre-niceno. Argentina, Monasterio trapense de Azul, 1991
  • Josef LENZENWEGER e outros: Historia de la Iglesia Católica. Barcelona, Herder, 1989